Capítulo XII [PARTE QUATRO]
Paige Wright entrou no escritório do marido sem bater, como era de costume. As estantes repletas de livros, as pesadas cortinas cor de carmim e o carpete creme que ela mesma havia ajudado a escolher — tudo isso lhe era familiar.
Tudo menos a cena que estava presenciando naquele momento.
Apenas segundos atrás, ela havia interrompido os avanços desesperados do jovem casal. April e o rapaz estavam prestes a fazer deus-sabe-o-quê quando ela abriu a porta. Os dois continuavam paralisados no mesmo lugar com expressões de puro choque estampadas em seus rostos. Certamente, eles não esperavam ser pegos no flagra pela dona da casa. Paige reconheceu o garoto como um dos membros da banda de Cole — Hunter Campbell era seu nome. Ele havia tomado a frente e parecia se esforçar para falar algo.
Paige tinha certeza que o garoto falaria, assim que se recuperasse do susto.
A matriarca cruzou os braços, se preparando para ouvir uma sessão de desculpas esfarrapadas. April copiou o movimento constrangida, escondendo o próprio corpo.
Quando nenhum deles tomou iniciativa, Paige limpou a garganta:
— Perdoem-me, crianças. Eu ouvi vozes e achei que Arthur já tivesse chegado.
Paige avaliou Hunter da cabeça aos pés. A firmeza em seu olhar o atravessou como uma faca. Ela ergueu sugestivamente uma sobrancelha para o menino e deu um passo para o lado, deixando o caminho livre até a porta.
Como se as engrenagens de sua cabeça tivessem voltado a trabalhar, Hunter finalmente se afastou de April:
— Eu vou... — a voz dele era rouca e oscilante — Checar a banda.
Hunter hesitou antes de passar pela porta, olhando para trás uma última vez. No mesmo instante, April estreitou os olhos em uma ameaça silenciosa. A menina claramente não o queria ali e aquele pareceu ser o último empurrão que o baixista precisava para ir embora.
— Senhora Wright — ele a cumprimentou ao passar e a matriarca assentiu.
Paige tinha o peito inflado como se segurasse o fôlego e os lábios pintados de batom pressionados em linha reta. April sentia o rosto arder de vergonha. Preferia morrer a passar mais um segundo naquele cômodo. A menina queria apenas seguir Hunter e desaparecer.
— É melhor eu ir — April murmurou com a cabeça baixa, sem conseguir encarar a mãe nos olhos — Vou voltar a estudar.
— April — Paige a chamou. A mais nova congelou assim que ouviu o próprio nome, implorando silenciosamente por misericórdia a qualquer força superior que a escutasse. Seus pedidos, porém, não foram atendidos: — Encoste a porta e venha cá.
A matriarca caminhou até a mesa de madeira do escritório, gesticulando para que April a seguisse. Seus passos eram elegantes e graciosos, quase flutuavam sobre o carpete creme. Paige se sentou na beirada do móvel, observando a filha se aproximar toda desconfiada, e sorriu. Tinham um sorriso parecido, mãe e filha. Não se tratava de estrutura óssea ou do formato de seus lábios. Era mais do que pura genética. Talvez April tivesse lhe roubado o segredo de todas as suas artimanhas ainda no útero.
— Sabe... — ela começou e o coração de April perdeu o compasso. Paige tinha os olhos esverdeados perdidos no chão e a sombra de um sorriso brincava em seus lábios — Às vezes eu acho que você e seu pai brigam tanto justamente por serem tão parecidos.
A mãe fez uma pausa e uma ruguinha surgiu em sua testa. Era como se reorganizasse seus pensamentos antes de continuar.
— Ele leva a vida tão a sério e eu vejo isso em você, filha. Tão orgulhosos e certinhos. Vocês se cobram tanto. É sempre tudo ou nada para vocês dois — fitou a menina com carinho — Viver com tanto medo de errar não é bom. Eu estava preocupada com você, April. Eu tive medo que você deixasse sua juventude passar, ocupada demais pensando nos seus planos para o futuro — a mais velha riu, recordando uma conversa que as duas tiveram semanas antes — Eu não pensava nisso quando tinha a sua idade e, por incrível que pareça, seu pai também não. Você se esforça demais para ser adulta. — Paige sorriu de novo, dessa vez um pouco triste — Por Deus, April. Seja você mesma! Intensamente. Você vai viver essa fase apenas uma vez e precisa se soltar, não importa o que isso signifique para você. O tempo de errar é agora, filha.
A menina respirava fundo, tentando sustentar o olhar da mãe. O cérebro dela parecia lento demais para acompanhar tudo que estava acontecendo.
— Eu te amo, April, mas viver em uma redoma, sempre tomando a escolha mais segura, não é vida. Você pode achar que eu sou uma boba sentimental, mas é verdade. É errando que nós descobrimos do que somos feitos. Eu não tenho dúvidas de que você é forte, mas a vida adulta não é fácil. Experiências são importantes. Se seu jeito de se conhecer é se agarrar com um menino da banda do seu irmão pelos cantos, tudo bem — ela riu, relembrando da cena.
O ar dentro da sala ficou um pouco mais leve, mas April ainda estava em alerta tentando processar o que a mãe dizia.
Era uma carta branca? Ela poderia ir agora?
— Mas não pense que não existem responsabilidades. Sou sua mãe e por isso não deixo de me preocupar. Quero você prevenida, filha. Proteção é importante.
Ah, Deus.
Isso não estava acontecendo.
Elas não teriam a conversa outra vez.
Paige pareceu buscar algo na primeira gaveta e April teve certeza.
Ela estava dividida entre "socorro, eles guardam camisinha no escritório" e "socorro, meus pais transam".
— Mãe! Mãe! 'Tá legal, não precisa me mostrar nada não — ela se apressou em abordar a mais velha, que revirava a segunda gaveta.
— Onde está? Achei.
— MÃE, PELO AMOR DE DEUS!
Paige não conseguia mais segurar as risadas. A filha parecia um pimentão.
— April. Querida — ela segurou o rosto da menina entre as mãos — Só prometa que vai usar proteção. E mesmo que ele diga que...
— Mãe! — April a interrompeu — Eu já entendi!
— Prometa.
— Sexo com camisinha! Eu prometo. Satisfeita?
— Não. Eu sou sua mãe e ainda vou me intrometer muito na sua vida — apertou o nariz da menina entre os dedos. April se limitou a fazer uma careta, exatamente como fazia quando pequena — Nós estamos entendidas?
— Sim.
— Só recapitulando. Você vai se proteger e evitar DST's? — Paige falava sério, o que fez a menina revirar os olhos — Quer trazer um bebê para casa? Eu sou muito jovem para ser avó. Se bem que aqueles olhos azuis seriam tão boni...
Provavelmente April arderia de vergonha até amanhã. Ela e Hunter nunca...! Eca.
— Mãe! Podemos seguir em frente?
— Ótimo. E não se agarre mais no escritório do seu pai ou ele vai comer nossos fígados. Não importa o quão bonitinho seja o garoto.
— Nunca mais na minha vida.
A mãe sorriu, admirando a menina mais uma vez.
Ah, eles cresciam tão rápido.
Uma hora eles estão chupando o dedão do pé, aí você pisca e eles estão... Bem... Fazendo coisas não muito bonitas com os amiguinhos.
Por Deus. Ela era mãe de uma adolescente. Já era tempo da menina fazer alguma travessura.
— Bem bonito o rapaz. Um gatinho — ela sugeriu, deixando no ar apenas para implicar com April.
— Nós não estamos namorando, mãe.
— Oh! — Paige acenou lentamente com a cabeça — Tudo bem, eu sou uma mãe moderna.
— Eu nem gosto dele — a menina resmungou, talvez mais para si do que para mãe. Tinha o rosto baixo e se apoiava a mesa, segurando o tampo com as mãos.
Paige deixou escapar um suspiro. Ela não conseguia lembrar quando fora a última vez em que conversara com a filha daquele jeito. April não tinha amarras para dizer o que pensava e estava sempre disposta a defender sua opinião, mas dificilmente deixava a mãe fazer parte da vida dela.
Mais uma coisa que ela tinha em comum com o pai, Paige pensou. Os dois pareciam tomar como uma ofensa pessoal quando alguém tentavam descobrir o que se passava em suas mentes.
— É complicado, April. Se envolver com alguém nunca é fácil — a mãe murmurou — Principalmente quando tem sexo envolvido. Vocês são jovens e tem sangue quente. É difícil saber o que sentir. Você é durona, mas garotos são bobos, filha: eles se apaixonam.
April pausou por um momento o processo de enterrar aquele momento no fundo do poço do esquecimento para encrespar a testa para as palavras da mãe.
Onde que garotos se apaixonavam?
Onde que Hunter Campbell se apaixonaria por ela?
— Mas... — a mãe pontuou — Você disse que não gosta dele! Uma pena. Vejo que não precisa dos meus conselhos — deu de ombros, divertindo-se com a indignação repentina da filha.
April lutava entre o orgulho e a curiosidade. Claramente, a menina morderia a língua antes de perguntar qualquer coisa.
Paige poderia não ser uma mãe de ouro, mas conhecia bem os filhos. Ela queria apenas o melhor para eles e nada a impediria de tentar ajudá-los — do jeito dela. A mulher sabia quanta liberdade poderia dar e o momento de puxar as orelhas. O susto e a conversa sobre proteção já foram mais do que suficiente. Talvez tivesse se excedido um pouco, mas mexer com a filha nunca perderia a graça.
April assentiu lentamente, ainda absorvendo as palavras.
— Posso ir agora?
Paige sorriu para a menina, a nostalgia a atingindo com força. Nunca pensou que estaria desse lado na situação.
Quem iria enganar? Ela e Arthur eram muito piores na idade dos filhos.

Naquela noite, April decidiu jantar no próprio quarto. Qualquer desculpa era válida para fugir dos olhares espertos da mãe. Ela inventou que estava cansada demais para sair em família e passou as últimas horas deitada na cama. Enquanto o sono não chegava, a menina assistia televisão e se distraía com assuntos banais como a festa do Finch e a roupa que usaria para sair.
Parecia besteira, mas, só de pensar no que aconteceria, algo frio se instalava em seu estômago. Estava prestes a descer para a cozinha e atacar uma barrinha de chocolate quando seu celular tocou, vibrando sobre o pequeno móvel de cabeceira.
Virou a barriga para baixo e esticou o corpo para alcançar o aparelho. No visor, um número desconhecido. Ela arrastou o botão verde sem pensar, tomada pela curiosidade.
— April?
Era uma voz masculina e familiar. Saía do fundo do peito, baixa, como se respeitasse o silêncio nos arredores.
— Oi?
— É o Hunter.
April prendeu a respiração, atenta ao outro lado da linha.
Ajeitou-se em cima dos cotovelos e pressionou o celular a orelha, retirando alguns fios de cabelo caídos no rosto. Eles trocaram seus números pela equipe da escola, claro, mas April havia esquecido de salvar o contato dele.
— Eu estou correndo perigo de vida? — ele continuou. Seu tom era bem humorado e April conseguiu ouvir o som de passos do outro lado, como se ele andasse enquanto falava — Porque, eu juro, aquele seu mordomo estava me olhando como se pudesse varrer meu cadáver para debaixo do tapete.
Um riso fraco e então uma pausa. Era como se o baixista esperasse que a garota respondesse algo, talvez até esperasse por uma risada.
Ela limpou a garganta.
— Ah, o senhor Caldwell? Ele tem esse costume.
Um silêncio pequeno silêncio se formou na linha enquanto ambos pensavam.
— Você não tem nada com o quê se preocupar — April o tranqüilizou depois de alguns segundos, sentindo um sorriso involuntário se espalhar pelo rosto.
Ela riu.
— O que foi?
— Nada. Só estou esperando a sua deixa para transformar isso em sexo por telefone.
Uma gargalhada do outro lado.
— Bom saber que deixei uma impressão, mas sinto que terei que decepcioná-la.
— Tome cuidado. Desse jeito vou acabar achando que você ligou porque estava com saudades de ouvir minha voz.
— Alguém está ficando muito convencida.
— Ainda não ouvi você negando, Campbell.
- É porque eu não neguei.
Ela ficou muda, sentindo o sangue se concentrar em suas bochechas.
Hunter estava brincando, essa era a única explicação.
— Eu salvei sua banda hoje.
— Mesmo?
Mudança de assunto efetuada com sucesso.
— Cole. Ele quase virou uma torrada humana. Vocês teriam um integrante metade adolescente, metade carvão se não fosse por mim.
— Seu irmão tem um desejo de morte.
April olhou para o relógio na cabeceira e em seguida para o breu do lado de fora da janela. Não queria se despedir ainda, mas ao que tudo indicava era o fim. Uma parte ínfima da menina desejou silenciosamente que o baixista prolongasse o assunto.
— Boa noite, April.
Ela fechou os olhos e um sorriso vencido se espalhou lentamente por seu rosto delicado.
— Boa noite, Hunter.

N/A: Falem, coisinhas lindas! Gostaram do capítulo?
O susto foi grande, mas deu (praticamente) tudo certo.
Pra mim esse capítulo (divido em 4 partes) foi importante por diversos motivos. Acho que April e Hunter não estavam esperando lidar com todas essas emoções em um espaço tão curto de tempo. Foi um baque para eles. Ansiosas para ver como eles lidam com isso na festa???? *carinhas diabolicas*
Eu odeio falar isso, mas hoje (22-09) é meu aniversário UAHUAHAUH QUASE q eu não apareço aqui, mas quis dar um susto em vcs e cumprir a minha palavra de postar no domingo pra variar (como sempre, tarde da noite kkkkkkkk).
Qualquer erro falem comigo!!!!
Enfim, era isto. Obrigada pelo carinho, vocês são maravilhosos <3
xx babi

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