Capítulo VII
ERA UM DIA ESPECIAL na casa dos Wright. O jogo de porcelanas da família fora retirado do alto das prateleiras do armário de louças para ocupar posição de destaque sobre a imensa mesa de mogno da sala de jantar. Em sua superfície, a prataria brilhava recém polida, cada peça tão impecável quanto a anterior. April estava sentada ali há tanto tempo, alheia às tentativas falhas da mãe e do irmão de iniciarem uma conversa, que poderia jurar que examinara todos os talheres do conjunto em busca de manchas e não encontrara nenhuma — sua bunda, achatada pelo formato da cadeira, comprovaria a história ou pelo menos parte dela.
O jantar fora planejado com dias de antecedência por Paige Wright, a mãe de April. Era para ser uma surpresa: após passar mais de uma semana fora em uma viagem a trabalho, o pai de April estava de volta bem a tempo para uma refeição em família. Seria uma questão de minutos até que a menina se tornasse o assunto principal na mesa e a constatação sozinha foi suficiente para deixá-la de estômago embrulhado.
Quando April ficou sabendo que a escola havia notificado seus pais, seu primeiro reflexo fora rir. Sem dúvida nenhuma, aqueles eram novos tempos em St Clair. A menina não deveria ter pensado que sairia impune dessa, especialmente não depois de ter cometido uma infração bem debaixo do nariz do professor novo. Por mais amargo que fosse, precisava admitir que seu fim era justo. Uma série de decisões estúpidas a levaram até aquele momento e agora só lhe restava arcar com as consequências de queixo erguido. Ela sabia que, se dependesse dos pais, seriam muitas.
Enquanto April, a mãe e o irmão aguardavam por Arthur, o único som na sala era o tímido crepitar da lareira. O homem só daria as caras no mais tardar, quando as ligações à negócio cessassem e ele finalmente pudesse deixar o escritório. Ainda não existia palavra que descrevesse bem o suficiente o quanto o pai de April se dedicava ao trabalho. Bem conectado e figura conhecida na sociedade local, Arthur ocupava um cargo de destaque em uma empresa no ramo de bebidas. Ele conquistou aquele lugar com o mesmo ímpeto feroz que lhe foi responsável por abrir tantas portas em sua vida. Em uma cidade onde sucesso era algo que vinha do berço, os Wright eram a exceção, não a regra. Não se passava um dia sem que se esquecessem disso.

O relógio de parede marcava vinte e duas horas quando April ouviu o som de passos no corredor. Mesmo à distância ela reconheceu duas vozes: a de seu pai e a da governanta, que o seguia de perto com lamúrias intermináveis sobre os reparos que a casa precisava. A empregada, uma senhora que atendia pelo nome de Greta, nunca fora vista por April sem os cabelos presos em um coque e o tradicional avental branco amarrado à cintura. Ela tinha um metro e cinquenta de altura e era conhecida por sua persistência.
— Está tudo bem, Greta. Não se preocupe com isso — a voz do homem soava abafada por trás da porta, tensa com algo que nada tinha a ver com calhas e telhas.
— Mas precisamos de um conserto até quinta! A mansão deve ter as calhas desobstruídas de folhas ao menos uma vez por mês — a mulher de cabelos brancos insistiu, seus passinhos apressados cada vez mais altos a medida que eles se aproximavam da sala de jantar.
— Tem razão, Greta. Falaremos sobre isso amanhã sem falta. Agora preciso resolver outros assuntos.
— Como quiser, senhor — ela desapareceu no corredor depois de uma rápida mesura e o pai de April não esperou outro segundo para irromper porta a dentro. A entrada repentina fez April se endireitar na cadeira como em um susto, enquanto seu irmão se limitou a levantar uma sobrancelha pouco impressionada.
Arthur Wright atravessou a sala de jantar com passos calmos, mas decididos. Ele vestia um suéter verde musgo por cima de uma camisa social clara e calça de alfaiataria caramelo. Seus óculos de leitura, tão dourados quanto seus cabelos curtos e penteados, ainda pendiam sobre seu nariz como se tivesse abandonado o trabalho pela metade. Embora o prata começasse a permear entre os fios loiros e bem penteados, Arthur tinha uma boa aparência para um homem na casa dos quarenta. A elegância caía sobre seus ombros como mais um de seus ternos perfeitamente alinhados e o acompanhava em cada um de seus movimentos. April podia jurar que a mãe escolhera o marido direto de um catálogo de candidatos perfeitos para fazer bebês — só assim para explicar a completa bizarrice que era o casamento de seus pais. Eram duas pessoas totalmente diferentes em termos de temperamento, mas que formavam um casal ridículo de tão bonito. As únicas coisas que tinham em comum eram o amor que nutriam um pelo outro e a teimosia que os mantinha juntos. Por mais desafiador que fosse, eles funcionavam bem.
Greta entrou na sala novamente antes que o pai de April sequer tivesse a chance de se endireitar na cadeira. Dessa vez acompanhada de outra empregada, ela distribuiu travessas metálicas pela mesa até que a superfície quase transbordasse em fartura. Aos poucos o cheiro de carne assada se espalhou pelo cômodo, invadindo as narinas de April e fazendo sua boca salivar. Ela não havia se alimentado o dia inteiro. Trancou-se no quarto assim que chegou em casa a fim de fugir de sermões e não saiu de lá desde então. Ela observou o pai, pescando por alguma pista em seu semblante que revelasse seus pensamentos, até que um braço bloqueou sua visão.
— Obrigada — April abriu um sorriso cortês para a mulher que enchia seu copo com suco de laranja e a mesma assentiu silenciosa. Depois de uma última reverência, as mulheres se retiraram da sala, deixando a família sozinha para lidar com seus assuntos.
Cole foi o primeiro a ganhar vida quando a porta se fechou. Ele não hesitou em servir uma colher de purê de batatas para si e espetou um dos pedaços de carne de uma travessa rasa, enchendo o próprio prato aos poucos. Sem dúvidas seria necessário mais do que uma cara amarrada vinda do pai para fazê-lo perder o apetite.
Enquanto a taça de Arthur permanecia intocada, a mãe de April não se restringia a pequenos goles. Paige nunca rejeitava uma chance de degustar um bom vinho. De vez em quando lançava olhares cautelosos aos filhos, como se dissesse: "Melhorem essas caras. Seu pai vive fazendo coisas para agradar vocês". A mulher tentou alcançar os cabelos do menino para arrumá-los e recebeu uma careta descontente em troca. Em um dia normal, April diria para a mãe provar a carne, mas o silêncio pesava demais naquele canto da sala.
April reuniu os talheres de prata em um canto do prato, um sinal claro de que havia desistido da refeição. A expressão ilegível no rosto do pai tornava difícil para ela a simples missão de reunir a comida com o garfo e a faca, imagine deixar algum alimento passar pela garganta.
Depois do que pareceram segundos, Arthur decidiu se servir. Ele escolheu dentre os pedaços de carne uma fatia mal passada e a levou até o prato, serrando-a em partes menores. Foi o único barulho na sala durante um minuto inteiro, tempo que ele levou para recolher uma garfada generosa e trazê-la até a boca.
— Então — o homem limpou a boca com um guardanapo e o jogou para o lado — Parece que meus filhos se mantiveram ocupados enquanto estive fora.
Paige entendeu na mesma hora o rumo que a conversa estava para tomar. Ela censurou o marido com um cerrar de olhos e murmurou numa altura que apenas o homem pudesse ouvir:
— Arthur. Nós falaremos sobre isso depois do jantar.
— Paige — a voz dele soava áspera. Estava na cara que os dois haviam discutido sobre isso antes — Não me contrarie na frente deles. Essas crianças estão assim por sua causa.
Cole tinha o maxilar tensionado sem se dar conta. Ele parecia pronto para entrar na discussão a qualquer momento, fervendo a cabeça loira com comentários afiados dirigidos ao pai.
—... Eu só quero saber o porquê — o homem sorriu sarcástico para esposa — April — ao ouvir o próprio nome a menina prendeu a respiração — Por que você abandonou a aula de biologia e sumiu por três horas seguidas?
Três horas seguidas.
Isso era ruim.
Arthur poderia não estar entre os indicados para o prêmio de pai mais afetuoso do ano, mas ainda era um bom pai para os dois. Seja para controlá-los ou para educá-los — a menina nunca conseguiu descobrir —, o homem fazia de tudo para ficar por dentro de cada aspecto da vida dos filhos.
Na outra extremidade da mesa, o irmão de April deixou escapar uma risada curta.
— Sua vez vai chegar, Cole — o homem assegurou, franzindo a testa para o filho como um aviso — Espere só.
— Eu estava me sentindo mal — ela o interrompeu — Fisicamente.
As palavras saíram apressadas da boca de April, como uma confissão ensaiada.
— O quão difícil pode ser achar a enfermaria? — a julgar pelo sorriso sem humor que surgiu em seu rosto, ele não considerou a possibilidade da filha ter dito a verdade nem por um segundo — Você experimentou ligar para sua mãe? Quem sabe ela pudesse salvar seu tempo e dizer o caminho.
Por um curto instante April só conseguiu ouvir o som da própria respiração. Ela abaixou a cabeça quando o punho de Arthur se chocou firme contra a mesa, estremecendo a estrutura de madeira. Todas as louças acompanharam o baque, produzindo um tilintar desagradável. Paige deixou escapar uma exclamação, impressionada demais para reagir propriamente.
— Tem ideia do quanto ficamos preocupados com você?
— Arthur! — a esposa o repreendeu.
April não ousou encará-lo. Seguraria a postura indiferente com todas as forças, sem responder ou se desculpar. De nada ajudaria interromper o homem, ele só queria arranjar um motivo para esbravejar.
— É claro que não. Você não teria feito isso se soubesse — dessa vez a voz dele era calma, mas cortante — Eu estava no meio de uma reunião quando transferiram a ligação. Imagine o quanto o colégio deve ter se empenhado para nos achar — ele passou uma mão pelo cabelo, penteando os fios dourados para trás — É para isso que eu e sua mãe pagamos aquela mensalidade? Nós sacrificamos tudo pela sua educação e é isso que nós recebemos em troca?
Arthur esperou um momento para se voltar ao filho. Aquela altura o loiro havia perdido todo o apetite e examinava o perfil da irmã com cuidado. Nunca ninguém fazia ela abaixar a cabeça daquela maneira. Enquanto o rosto de April tinha perdido toda cor, o do garoto estava lívido de raiva. Sua compostura estava prestes a ir para o espaço.
— E você? Detenção no primeiro dia. Deve estar orgulhoso.
— É um clássico — Cole sorriu com cinismo.
— Você acha que isso aqui é uma piada?
— Não sei. Você achou engraçado?
Pai e filho se encararam em um desafio mudo. Paige alcançou cada um pelo braço e os segurou de leve na tentativa de trazê-los de volta.
— Já chega — ela tentou apaziguá-los com um aperto e o marido se desprendeu com delicadeza. Mesmo que minimamente, a atitude pareceu funcionar. Arthur respirou fundo e retornou a postura inicial.
— Ainda não acabou, Paige — ele arrastou os talheres para o lado, para que pudesse apoiar um braço na mesa — April, você perdeu uma avaliação. Não tenho ideia de como você vai resolver isso, mas fale com seu professor. Peça desculpas.
A garota quase engasgou de surpresa. Não sabia o que era mais absurdo: ficar sem nota ou precisar pedir desculpas aquele professor mesquinho. Ela e Hunter haviam terminado o relatório. Não era culpa dela se a aula de biologia era uma merda.
— Eu não "perdi" a avaliação.
— Não foi isso que o seu professor comunicou — Arthur continuou antes que a filha pudesse interrompê-lo — Como você sabe, o professor tem a última palavra dentro da sala de aula. Você foi irresponsável. Agora admita isso e trabalhe para se redimir.
O homem a encarou como se esperasse por alguma objeção e April lutou para manter a cabeça erguida diante do pai, seu silêncio resignado o único sinal de que havia desistido da discussão. Ele ergueu uma sobrancelha para o filho.
— Cole, não deixe que se repita o que aconteceu ano passado — o pai apoiou uma mão na mesa para se levantar — Tenho certeza que você consegue manter seu grau de comportamento acima da média. Você é um garoto esperto — ele ajeitou o suéter verde musgo e se afastou da mesa, indo em direção a porta. Quando os filhos não podiam mais vê-lo, Arthur quase sorriu para si mesmo: — Mas eu não estou interessado em saber os detalhes da sua falta de respeito, filho. Se eu for incomodado novamente, eu jogo aquele instrumento de barulho fora.
O homem fechou a porta atrás de si em um baque quase inaudível, sem se despedir da família. Sua ameaça funcionou: Cole tinha os olhos castanhos arregalados graças a menção a bateria. O instrumento fora contrabandeado clandestinamente para o porão da casa entre um ensaio e outro e ao que tudo indicava não estava mais seguro lá.
— Bom... Vocês ouviram o pai de vocês — Paige soltou um suspiro aliviado, como se tudo tivesse ocorrido dentro da normalidade — Os dois não estão mais de férias — a mulher ergueu a taça de vinho aos lábios e ingeriu um longo gole indicando que seus assuntos ali estavam acabados. Ela nunca foi de repreender os filhos e não seria agora que começaria fazê-lo.
April constantemente se encontrava em situações em que a comparavam com a mulher do outro lado da mesa. Ela ouvia bajulações intermináveis dirigidas a Paige e a sua beleza devastadora o tempo inteiro. Nada tirava de sua cabeça a ideia de que não passava de uma cópia barata da mãe, desvirtuada de tudo que a fazia especial. April poderia ter herdado o perfil esbelto e elegante de Paige, mas nunca ostentaria o mesmo carisma e a leveza de espírito da mais velha. Seu nariz fazia a mesma curva arrebitada e o rosto era uma coleção de traços finos, astutos como os de uma raposa. A principal diferença entre as duas, porém, estava nos olhos: enquanto os de Paige brilhavam em um castanho esverdeado difícil de encontrar, os de April eram cor de avelã, como os do pai.
— Mãe — Cole advertiu — A senhora não precisa terminar de acabar com a gente.
Ele tinha certeza de que suas orelhas cairiam se fosse obrigado a ouvir mais uma palavra sobre o colégio.
O comentário do loiro conseguiu arrancar uma risada de April. O som que escapou de seus lábios era tenso, beirava ao nervosismo. Ela afundou o rosto entre as mãos, de repente preenchida pela certeza de que seria capaz esmurrar uma parede. Quando levantou a cabeça novamente a mãe e o irmão a encaravam em um misto de cautela e curiosidade.
— Algum problema? — a garota mediu os dois.
— Nenhum.
Paige olhou para longe, novamente sem saber o que dizer para os filhos.
A sala de jantar mergulhou em uma quietude absoluta enquanto cada um tentava descobrir o que diabos havia acabado de acontecer ali. Eles teriam continuado imersos no silêncio se a mais velha não tivesse acendido um cigarro. April e Cole lançaram olhares acusadores para a mãe e, como duas crianças zangadas, eles se prepararam para deixá-la sozinha.
A garota amava os pais e jamais poderia culpá-los por seus próprios vícios, mas quando se tratava de cigarros, Paige era pior do que o Hunter. Hunter. O que ela sabia do Hunter para usá-lo de mau exemplo?
Enquanto April tentava colocar ordem nos próprios pensamentos, seu irmão estalou a língua em reprovação e foi o primeiro a se levantar da mesa.
— Boa noite, mãe — Cole murmurou.
Paige deixou as costas irem de encontro ao encosto da cadeira teatralmente. Ela tinha uma das mãos a altura do rosto, seu cigarro recém aceso pendia entre os dedos finos.
— Não vão dar um abraço na sua velha mãe? O pai de vocês estava certo. Eu criei dois monstrinhos sem educação.
— Mãe! — os meninos exclamaram, ambos se locomovendo preguiçosamente na direção da mulher. Eles nunca resistiam a boa e velha chantagem emocional. Os filhos caíam pelos caprichos de Paige toda vez, reafirmando a adoração pela figura materna.
— Direto para cama, mocinho — ela beijou a bochecha do loiro — Juízo.
— Poderia dizer o mesmo para você — Cole levantou uma sobrancelha em travessura e antes que a mãe pudesse impedi-lo, o garoto havia tomado o cigarro de sua mão. Ela o repreendeu, mas de nada adiantou: o cigarro foi parar dentro de um copo de água.
— Cole! — ela ralhou furiosa enquanto o menino fugia da sala aos risos. Depois que a porta se fechou atrás dele, Paige mal teve tempo de bufar. Ela foi agarrada de lado pela filha em um abraço desajeitado — Isso é o que dá. Eu dei confiança demais para vocês.
— Boa noite, mãe.
A mulher sorriu para April e beijou-lhe os cabelos.
— Boa noite, querida.

A P R I L
Por volta de uma da manhã, eu escapei pela janela do quarto. Abri parte do vidro e coloquei uma perna para fora, sentindo o telhado inclinado se firmar sob a sola do meu sapato. Não se tratava de uma fuga de verdade se eu ainda estava dentro do terreno de casa e nem mesmo meus pais poderiam argumentar contra essa lógica. Tudo que eu queria era não passar a noite confinada em meu quarto. O silêncio parecia alto demais entre as quatro paredes e, se eu continuasse a andar de um lado para o outro, o chão se abriria debaixo dos meus pés.
Para que diabos ter um celular se nenhum dos meus amigos me atendia?
Eu tentei Indy primeiro e a ligação foi direto para a caixa postal. Zack e até mesmo Finch receberam um "olá" por mensagem, mas aparentemente nenhum dos dois estava no clima de conversar. Jackie foi a única a dar sinal de vida. O nome dela apareceu no visor do meu celular, provavelmente para me avisar de alguma festa de última hora, mas eu ignorei. Algo me dizia que eu seria uma péssima companhia para festas no momento.
Quando o contato de Josh Halden começou se tornar uma opção tentadora, eu decidi que era hora de escapar pela janela. Eu sabia o que ele procurava em mim e não era uma conexão profunda no meio da madrugada. Nós dois éramos úteis um para o outro. Enquanto Josh era perfeito em todos os detalhes como uma escultura renascentista, eu parecia perfeita. De fato, quando eu andava pelos corredores de St Clair com a postura de uma rainha, eu era invencível. Se eu quisesse que Josh acreditasse naquilo, era melhor eu aguentar firme. Foi por isso que eu joguei o aparelho desligado na cama e me aproximei da janela aberta.
A vista do meu telhado não era dos piores. Quase pisei em falso enquanto olhava para cima, procurando por alguma estrela. As nuvens cobriam o céu como um véu, deixando de fora apenas a lua minguante que iluminava parte da imensidão noturna. Quando terminei de passar meu corpo pela janela, eu percebi que não fui a única a precisar de um pouco de ar fresco.
— Eu até perguntaria como você está, mas acho que já sei — meu irmão murmurou.
Cole estava sentado nas telhas debaixo da janela do quarto ao lado. Ele fitava o jardim dos fundos com uma expressão contemplativa no rosto, suas bochechas levemente avermelhadas por conta do frio. Um cheiro doce preencheu minhas narinas e eu me dei conta do baseado aceso na mão dele. Não sei como nossos pais ainda não repararam — ou talvez eles já tivessem reparado a algum tempo, isso explicaria o eterno mau humor de Arthur.
— Papai sempre soube como fazer um espetáculo — eu esfreguei as mãos na tentativa de me aquecer e ocupei um lugar ao lado dele. Por mais que eu ainda tivesse dificuldade em achar graça, nós trocamos um sorriso.
Ele desviou o olhar para o telhado, que continuava por um ou dois metros depois dos nossos pés, e a fumaça deixou seus lábios como névoa.
— Você nunca sabe qual será a aula cabulada que vai causar o colapso da civilização ocidental.
O tom debochado em sua voz não me permitiu rir.
— Desculpa por nos colocar em apuros.
O loiro negou com a cabeça uma vez, como se o assunto não tivesse mais importância.
— Eu fiz isso comigo mesmo.
A detenção. Eu ouvi dizer que meu irmão teve a brilhante ideia de se meter em uma briga de garotos da Champoudry contra a Thomas. A mão dele estava no meio do caminho para quebrar a cara de alguém quando Cole se lembrou que, como um representante, era dever dele evitar essas situações, não piorá-las. Porém, infelizmente, um soco, como qualquer outro gesto movido pela agressividade, não era um ato que pudesse ser desfeito.
— Cole... — eu o chamei novamente. Minhas bochechas estavam quase adormecendo graças ao frio da noite.
— Shh — ele levantou a mão no ar, sinalizando para que eu fizesse silêncio — Ouviu isso?
Eu esperei.
Nossas janelas tinham vista para um lago que ficava dentro dos limites da propriedade. Uma pequena extravagância que estava a nosso alcance. Todo aquele pedaço ficava um breu a noite — um pouco desconcertante olhar para o nada, mesmo sabendo que havia apenas água ali.
— São os grilos — Cole explicou. A luz que vinha de dentro do quarto projetava sombras por seu rosto travesso.
Aquela era sua maneira sutil de dizer que preferia ouvir o barulho do silêncio à conversar comigo. Não chegava a ser rude, mas eu podia sentir que havia um limite sendo traçado bem ali.
Meu irmão conseguia sentir conversas como essa chegando a milhas de distância. Ele não gostava de ouvir desculpas ou de falar sobre sentimentos. Achava tudo uma grande besteira, um desperdício de tempo.
Mesmo contrariada, uma risada curta abandonou meu lábios. A temperatura deveria ter caído mais ainda porque minha respiração se condensou como vapor. Eu me pus de pé no telhado, com os músculos doloridos de tanto ficar naquela posição. Além de arranjar um de um belo resfriado, a fumaça ficaria impregnada na minha roupa se eu continuasse ali por mais tempo.
Meu movimento despertou a atenção do meu irmão. Cole me olhou atento, exatamente como um gato flagrado ao perambular por telhados a noite. Ele não pareceu se impressionar ao perceber que eu ia embora. Eu me segurei no batente da janela e estava prestes a entrar quando lembrei de outro assunto pendente.
— Eu vi você e a Indy conversando hoje mais cedo — o rosto do garoto caiu em desconfiança, como se soubesse aonde eu queria chegar — Ela tem um namorado que poderia arrebentar esse seu rostinho bonito. Você sabe disso, não é?
— Boa noite, April — ele bufou. Aquele só podia ser mais um código para "não enche".
Eu meneei a cabeça antes de entrar no quarto, satisfeita em fazer a minha parte como irmã mais nova irritante. Enquanto eu fechava a janela, um sorriso escorregou por meus lábios. Eles que se acertassem.

N/A: FALA GALERINHA, chegamos ao fim de mais um capítulo de BULLSHIT, uma história original do Wattpad.
Curiosidade: se esse capítulo tivesse um nome, seria "Conheça os Wright".
NO PRÓXIMO CAPÍTULO nós estaremos de volta no colégio mais badalado do Wattpad, todos os nossos personagens favoritos em expectativa para a apresentação da banda dos meninos. E vocês??? Estão animados??
Beijos calientes e até mais,
B.

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