Daemonium

Olá bolinhos! Como vocês estão?

Então, essa obra é narrada em terceira pessoa com o foco na visão do Jungkook, mas na versão antiga tá meio embaralhado na visão dos dois, por isso pode acabar de eu acabar deixando escapar uma dessas partes ok? Então não estranhem se do nada narrar um pouco da visão do Tae.

~♥️~

Jeon Jungkook

Fodido, essa palavra descreve bem a situação de Jungkook neste momento. 

Ele está com uma pilha de contas para pagar, dívidas e como se não pudesse ficar pior, o agiota que lhe emprestou dinheiro em uma situação de desespero estava ameaçando-o constantemente. Jungkook precisava pagar 803.603,46 wons até o final de semana ou iria ver o sol nascer quadrado, mas ao menos o dinheiro que pegou emprestado o ajudou com os vários meses de aluguel atrasado, então ao menos um teto sobre sua cabeça ele teria, isso se ele ainda tivesse sua cabeça presa no pescoço até o final de semana.

Por que a vida de pobre é tão sofrida?

Neste momento, Jungkook estava indo até seu bar preferido, com sua mochila cheia de papéis de balas e contas para pagar, em breve a energia de sua casa seria cortada e sua dispensa estava quase esgotada. O dinheiro que possuía no momento não pagava nem mesmo 3% do que devia ao agiota, a situação era preocupante, pois perdera o emprego recentemente, então qualquer chance que tivesse de quitar suas dívidas foi para o ralo. Havia trancado a faculdade e seus pais não o ajudavam em nada — não que esperasse algo deles — mas pelo menos uma ligação para saber se ele estava vivo e bem.

Suspirando frustrado ele adentrou o lugar que fedia a nicotina e álcool, a barulheira podia irritar outras pessoas, mas era reconfortante aos seus ouvidos, porque todo o barulho cobria o ensurdecedor silêncio, com todas as vozes altas se sobressaindo ao seu redor ele não se sentia sozinho naquele mundo injusto. Após se sentar em um dos bancos altos que haviam de frente ao balcão do bar Jungkook suspirou alto, expondo em apenas um ato todas as suas frustrações, estava desesperado, não via uma saída para aquela situação. seria espancado ou pior, talvez o agiota o matasse por atrasar tanto o pagamento.

— Onde eu estava com a cabeça? — Gemeu frustrado e apoiou a cabeça em suas mãos. Quando pediu dinheiro emprestado ao agiota ainda estava trabalhando, concordou em pagar em cinco vezes, mas não contava que seria demitido naquele mesmo mês.

Jungkook não tinha dinheiro nem para comprar uma água, quem dirá pagar uma das bebidas daquele lugar, que era famoso entre os jovens e adultos por ser barato, acessível e em um ponto turístico da cidade. Ele se contentou em apenas observar e sentir o cheiro das bebidas de longe, sentindo sua boca salivar só de observar o barman preparando as bebidas e as servindo, se segurando para não gastar o pouco dinheiro que possuía para encher a cara. Talvez se entrasse em coma alcoólico os problemas dele desapareceriam.

— Por que um homem tão lindo como você está com essa carinha de derrota? — Uma voz extremamente agradável soou ao seu lado, chamando sua atenção.

Jungkook tirou o rosto das mãos e virou em direção a voz, surpreendendo-se ao ver um homem muito bonito, que devia ser poucos anos mais velho que si, lhe lançar um sorriso amigável e extremamente adorável. Ele estava vestido com uma blusa de cetim vermelha e uma calça skinny clara, com rasgos nos joelhos que lhe caia muito bem, tinha os cabelos platinados e parecia ser um pouco menor que Jungkook. Quando ele sorria seus olhos sumiram por entre as pálpebras, graças aos olhos bem puxadinhos, parecia ser simpático e seu sorriso parecia rasgar-lhe a face.

— Porque talvez seja isso mesmo que eu sou — riu sem qualquer humor, deixando nitida a sua frustração. — Um derrotado.

— Nossa, o quê houve? — Seu sorriso morreu, dando lugar a uma expressão preocupada.

Jungkook lançou-lhe um olhar curioso erguendo as sobrancelhas, mas sorriu e resolveu se abrir — porque não contar os seus problemas para um estranho que acabou de encontrar em um bar? — já que estava precisando colocar suas frustrações para fora, sentia-se um pouco mal de fazer aquele homem bonito ouvir seus lamentos, mas não tinha dinheiro para um psicólogo, precisava de uma opinião de alguém que não o conhecia e não tinha motivos para passar a mão em sua cabeça. Depois de vários minutos conversando, descobriu que o nome dele era Jimin, no pouco tempo de interação Jungkook o achou muito gentil e comunicativo. Ele era dois anos mais velho e também morava sozinho.

— Muitos problemas para alguém tão jovem — Jimin concordou olhando para sua bebida, ele havia pago uma para Jungkook também.

— Pois é — suspirou, bebendo um generoso gole de sua bebida logo em seguida, sentindo o álcool descer queimando em sua garganta.

— Olha, eu soube de uma mulher ajuda pessoas com dificuldades financeiras e outros tipos de problemas — disse olhando em seus olhos, apoiando os braços no balcão. — Talvez fosse uma boa você conversar com ela.

— Uma mulher que ajuda pessoas com problemas financeiros? O quê, ela vai me dar dinheiro de graça? Não é outra agiota não né? — Arqueou uma das sobrancelhas.

— Não sei se ela cobra algo, também não sei se ela é uma agiota, mas já ouvi boatos de que as pessoas que falaram com ela conseguiram o que queriam — deu de ombros. — Acho que é uma boa para alguém sem alternativas, só converse com ela, talvez ela te ajude.

— E onde eu acho ela? — O fio de esperança ainda estava lá, então porquê não tentar?

— Ela vive mudando de endereço, mas se der sorte ela ainda não se mudou de onde ela estava. Ela atende em uma construção abandonada, acho que você conhece, é o Neulbom Garden.

— Neulbom Garden? O restaurante mal assombrado? — O encarou com descrença e Jimin assentiu.

— Esse mesmo.

— Jamais que eu pisaria naquele lugar! Já ouvi sobre fantasmas e coisas sobrenaturais que as pessoas viram lá.

— Você acredita nessas coisas? — Franziu o cenho, rindo.

— Eu sou agnóstico, não acredito, mas também não duvido de nada. Prefiro não arriscar, pode não ter fantasmas, mas alguém mal intencionado talvez…

— Eu recomendo que você vá, não acho que tenha assombrações ou desocupados querendo assustar pessoas lá dentro. Isso são histórias que as pessoas inventam para assustar as crianças.

— Você está certo. Acho que irei lá ainda hoje, não está muito tarde e também não tenho nada a perder.

(...)

— Não acredito que eu esteja mesmo fazendo isso...

Jungkook estava na frente do Neulbom Garden tomando coragem para entrar, aquele lugar era muito assustador, com ou sem assombrações lá dentro, parecia um cenário de filmes de terror. Ainda não havia escurecido, era final da tarde e o sol ainda não havia se posto, mas mesmo assim não tornava o lugar menos sinistro. Jungkook definitivamente não iria naquele lugar durante à noite nem que o pagassem, então agradeceu que ainda estava claro. Respirando fundo e apertando as alças de sua mochila ele caminhou até a entrada do lugar, sendo agraciado com o alto ranger da porta ao ser aberta.

Ao entrar ele viu uma ampla recepção, toda desgastada e destruída pelo tempo e umidade, haviam  diversas cadeiras e mesas espalhadas, um longo corredor a sua frente com uma escada no final e uma visão sinistra de abandono. Com passos cautelosos ele seguiu até o segundo andar, olhando incessantemente para trás para ver se não havia algo o perseguindo, aquele lugar lhe dava arrepios, parecia ser a casa perfeita para espíritos e assombrações morarem.

Subindo as escadas ele chegou a um lugar cheio de mesas e cadeiras, havia também alguns quadros desbotados e manchados, o chão estava coberto de poeira e havia teias de aranha de no mínimo anos nos cantos das paredes, porém as cadeiras eram estofadas e pareciam menos desgastadas que as outras no andar de baixo. O restaurante era bem grande, mas Jungkook não iria andar por todos aqueles corredores e cômodos como se estivesse em um passeio, poderia muito bem ter algum maluco psicopata esperando o primeiro idiota cruzar a porta para manda-lo para o mundo dos mortos.

Então com seus pensamentos pessimistas, paranoias e o lado racional de seu cérebro falando mais alto, ele resolveu ir embora dali antes que alguma merda acontecesse, preferia apanhar do agiota do que ser morto por alguma entidade do mal. Todavia quando se virou para ir embora ouviu um ruído no andar de baixo, provavelmente próximo a entrada, fazendo-o paralisar e colocar a mão sobre a boca para não gritar. Por instinto, Jungkook passou a dar passos silenciosos para trás, rezando todas as orações para todas as divindades e línguas que vinham na sua cabeça para que fosse apenas o vento.

— Eu não vou ser esfaqueado... Eu não vou ser esfaqueado... — Ditou baixinho como se fosse um mantra.

Já estava entrando em desespero com a sensação de estar sendo observado, os sons da porta de entrada rangendo e do vento batendo nas janelas deixava aquilo tudo ainda mais aterrorizante. Estava prestes a correr quando viu um vulto preto passar ao seu lado, Jungkook deu um sobressalto e virou-se de abrupto para trás, encontrando uma senhora o encarando de maneira sinistra a alguns palmos de distância. Jungkook nunca pensou que daria um grito tão agudo e alto como deu naquele momento, a senhora se mantinha inexpressiva ao observá-lo quase ter uma síncope.

— Puta que pariu! Tá louca? Tá querendo me infartar?! Achei que fosse algum assaltante ou sei lá um ceifador querendo levar a minha alma para o além! — Ele dizia tudo rapidamente com a mão no peito, tentando inútilmente controlar seus batimentos para não morrer de parada cardíaca.

Não que ela não parecesse uma criatura das trevas ou um ceifador, pensou Jungkook, aquela senhora parecia a fusão da bruxa do filme Valente junto com Matusalém, tirando o fato que ela estava em um lugar sinistro lhe encarando de uma maneira mais sinistra ainda. Ok, talvez ele estivesse exagerando um pouco, mas ela era sim assustadora e encontrar ela em um prédio abandonado deixava-a ainda mais macabra. Recebendo como comprimento seu total silêncio ele resolveu tentar puxar algum assunto antes que começasse a entrar em desespero.

— Você é a mulher que ajuda pessoas com dificuldades?

— Não diria ajudar, e sim dar uma chance para que eles consigam se estabelecer sozinhos — a voz dela era um pouco falha por conta da idade, mas ainda assim era profunda.

— E o quê eu preciso para ter essa chance? — Juntou suas mãos, apertando seus dedos, fazia isso quando estava ansioso.

— Quantos anos você tem criança?

— Vinte e três.

— E o quê um rapaz tão jovem precisa de uma velha como eu? — Ergueu uma de suas sobrancelhas, cruzando os braços em seguida.

— Preciso de ajuda financeira, tenho poucos dias para pagar minhas contas e um cara perigoso… Eu estou desesperado, faço qualquer coisa se puder me ajudar.

— Não pode pedir ajuda a seus pais?

— Eles não ligam para mim — mesmo não querendo, a angústia ficou evidente em seu tom, junto com o nó se formando em sua garganta ao afirmar aquilo. A ferida ainda estava dolorida. 

Com as intensas íris castanhas da senhora lhe encarando ele se sentiu um tanto envergonhado, mas não sabia exatamente o porquê, se sentia meio indefeso perto dela, como se ela fosse algum tipo de autoridade ou alguém maior, sentia-se acuado. Fazendo um sinal para que a seguisse, a senhora o levou até um lugar mais “reservado” do restaurante, provavelmente era uma área privada, pois era fechado e não havia muitas cadeiras, apenas duas em formato de C e uma mesa redonda no centro das duas, a janela daquela salinha estava aberta, deixando que o sol entrasse e deixasse o lugar menos assustador.

— Você mora aqui? — Ele perguntou ao ver que naquele lugar não parecia ter sinal nenhum de ter alguém residindo nele. 

— Sente-se Jungkook — ela disse sentando-se e deixando-o estático com os olhos arregalados.

— Como sabe meu nome? — Perguntou se sentando.

— Está escrito na sua mochila.

Ele respirou mais aliviado com o comentário dela, sentindo-se um pouco envergonhado por isso, seu nome estava escrito na parte da frente da mochila, para caso ele perdesse ter algum tipo de identificação para facilitar que ele a encontrasse ou que alguém a devolvesse. A senhora parecia se divertir com a desconfiança dele, ou talvez só era muito engraçado ver como ele ficava aterrorizado com absolutamente qualquer coisa que ela falava, lançando um sorriso meio desdentado em sua direção — mas simpático — parecia estar tentando deixá-lo mais à vontade.

— A senhora vai me ajudar? — Perguntou ansioso, ela era sua última esperança.

— Vou te dar a oportunidade de mudar a sua vida, mas o quê você irá fazer quando tiver esse poder nas mãos será responsabilidade sua.

Ele engoliu seco com sua fala cheia de significado, o quê será que ela faria? Será que ela iria entrar em contato com algum shake rico na Arábia e conseguir dinheiro? Um sugar Daddy? Eram muitas possibilidades e ele não sabia o quê pensar, talvez ela o fizesse assinar um contrato que o transformasse em um prostituto de luxo. Porém todas as suas fantasias foram para o ralo quando ela tirou um giz do bolso de seu vestido preto, observou com atenção ela limpar a mesa e começar a fazer alguns desenhos na madeira, bem concentrada.

Primeiro ela fez um triângulo e em cada ponta ela fez um pentagrama com diversos símbolos, em volta dos desenhos ela passou a escrever algo em uma língua estranha, pareciam algum tipo de caligrafia tribal ou antiga que ele não sabia qual era. No centro do triângulo ela colocou um símbolo do qual Jungkook também desconhecia, mas parecia muito com os aesthetic de magia que ele via no Pinterest. E quando terminou o desenho fez um grande círculo em volta de todos os riscos, fazendo uma circunferência perfeita.

— Estenda a sua mão esquerda — assim que fez o quê ela pediu sentiu uma picada na palma de sua mão e em seguida uma ardência. Ela havia feito um pequeno corte em sua pele com um caco de vidro que estava mais sujo que tudo no mundo.

— Ai! Por que fez isso? — Disse ao ver uma bolhinha de sangue se formar em seu corte.

— Repita comigo as palavras que eu vou ditar, sem questionar — ela disse assim que viu que ele faria perguntas, por isso ele apenas se falou e assentiu. Ela colocou sua mão sobre o desenho no centro do círculo e começou a ditar o que ele diria. — Tenebris dominus.

— Tenebris dominus… — Jungkook repetiu com o cenho franzido, temendo estar pronunciando errado.

— Uti sanguis meus.

— Uti sanguis meus…

— Per me.

— Per me…

— Et beatos vos.

— Et beatos vos.

Após terminar de ditar, ela soltou a mão de Jungkook, que estava sendo pressionada contra o desenho no meio do triângulo, fazendo seu corte arder um pouco mais por conta da sujeira e força. Ele continuava a lhe encarar com dúvida, o quê era isso afinal? O quê eles estavam fazendo? Ficou a encarando, esperando que ela o explicasse, mas não houve resposta, a senhora simplesmente lhe entregou um pequeno pedaço de papel que havia algo escrito nele. Quando tentou ler notou que eram palavras desconhecidas, provavelmente em outra língua.

— Quando chegar em casa diga isto em voz alta.

— O quê é isso? Algum tipo de simpatia?

— Pode se dizer que sim. Você precisa dizer isso hoje às três da manhã quando você estiver sozinho. Mas lembre-se de uma coisa, não se deixe levar pelas tentações, elas tendem a te afundar.

— Ok...? — Ele franziu o cenho de maneira confusa. — O que eu faço para agradecer sua ajuda?

“Mesmo que nada tenha acontecido e você me dê medo” quis completar.

— Apenas sobreviva, isso vai ser pagamento suficiente.

Depois de todo aquele suspense ele finalmente saiu daquele lugar horripilante, deixando para trás a sensação ruim e os arrepios que sentia constantemente, vendo que aquela senhora realmente morava lá, visto que ela não saiu consigo. Tentando não pensar muito naquilo e como tudo era extremamente estranho, ele seguiu para sua casa, eram mais ou menos 30 minutos de caminhada. O sol já havia se posto e o céu estava escuro e por isso se apressou para ir embora, não queria ser assaltado. Pois as coisas já estavam ruins, não queria perder o pouco que tinha.

Quando chegou em casa foi direto para o chuveiro, ficando por apenas 5 minutos, o suficiente para se lavar — já que não podia ficar gastando água — e sentir-se limpo. Depois de devidamente higienizado ele foi preparar algo para comer, vendo também como seu armário estava escasso de qualquer tipo de alimento que não fosse macarrão instantâneo, na sua geladeira só tinha água e alguns sachês de ketchup. Sua situação estava tão ruim que chegava a ser ridícula, se o agiota não o matasse ele morreria de fome, por isso não sabia o que aquela senhora fez, mas esperava que desse certo.

Depois de preparar seu "jantar" ele sentou-se em seu sofá surrado e ligou sua TV, vendo que no noticiário só passava desgraças. Morte em sei lá onde, tal lugar foi incendiado, criança tal está desaparecida, estupros, assaltos, acidentes de trânsitos e coisas piores com esse teor. Ficou mudando de canal a procura de algo feliz, algum desenho ou notícias boas, como: “descobriram a cura para a Aids” ou que “tal espécie de animal não está mais ameaçado de extinção”. O mundo estava caótico e a culpa disso tudo era nossa, não fazia sentido passar coisas felizes realmente, tudo estava uma merda.

Eram oito horas, até chegar às três da manhã levaria um tempo, por isso colocou seu celular — que precisava pagar o restante das parcelas — para despertar às 02h55 e deitou-se em seu sofá, usando de travesseiro seu braço. Estava cansado, portanto não estava ligando se dormiria no sofá ou na cama, como ainda estava com medo, queria dormir ouvindo o som de algo, a televisão faria isso por ele. O estresse estava tirando todas as suas forças, precisava recuperar as energias, por conta disso não demorou a cair no sono, mas com uma sensação ruim. Sentia que algo iria tirar seu sono, mesmo não sabendo exatamente o quê.

(...)

Em uma lerdeza perceptível, Jungkook desligou o irritante alarme do celular resmungando por conta do barulho alto, levantou-se e viu que faltavam cinco minutos para às três da manhã, na televisão passava uma série que não sabia qual era e nem ligava muito. Não sabia se aquele feitiço da senhora daria certo, mas ele não estava em condições de recusar qualquer tipo de ajuda. Até mesmo de uma senhora que tinha uma áurea estranha e uma pequena deficiência dentária. Mas o quê aconteceria quando dissesse aquelas palavras? E que língua era?

Depois de beber um copo de água para passar o tempo e tirar a secura da garganta, ele se sentou-se novamente no sofá, olhando para o papel que a senhora havia lhe entregado, percebendo naquele momento que nem seu nome ele havia se lembrado de perguntar. Faltava apenas um minuto para dar o horário indicado por ela, então ele mentalizou o quê ele queria, não sabia se era como desejos que as pessoas faziam às estrelas cadentes ou em velas de aniversário. Mas não queria arriscar não dar certo, por isso focou em seu desejo antes de ler o que estava escrito no papel.

— É agora — disse ao que o ponteiro do relógio parou no três. — Oro te, ad me veniet daemonium.

E como ele já esperava, nada aconteceu. Talvez ele estivesse com as expectativas muito altas, esperando algum brilho mágico entrar pela janela de sua pequena Kitnet e uma mulher com vestido espalhafatoso entrasse dizendo ser sua fada madrinha, dizendo que realizaria todos os seus sonhos e de bônus não duraria a vida toda, não só até meia noite. Rindo de si mesmo ele amassou o papel e o jogou no lixo, esperava que amanhã ele notasse alguma diferença em sua vida, porque talvez não fosse instantâneo.

Entretanto quando estava caminhando em direção ao seu quarto para se deitar novamente, um vento forte abriu a sua janela com um estrondo alto, assustando Jungkook, que soltou um pequeno grito por conta do susto. Franzindo o cenho ele foi até a pequena janela que agora batia contra a parede e a fechou, assim que desceu as persianas a luz de seu apartamento começou a falhar, até que em um dado momento ela simplesmente apagou, deixando-o no escuro, a única luz que tinha ali era a fraca luz lunar que passava pelas frestas da perciana.

Ok, ele já estava começando a ficar com medo.

Caminhou até o sofá tropeçando nas coisas, buscando por seu celular para ligar a lanterna, ele se sentia observado, como se houvesse alguém ali junto com ele, uma presença forte que arrepiou todos os pelos de sua nuca. Quando ligou a lanterna a direcionou por todo o cômodo, fazendo Jungkook se assustar ao ver uma silhueta na penumbra. Havia um homem parado no meio de sua sala, parecia ser alto e lhe encarava com voracidade. O que chamou a atenção de Jungkook no homem a sua frente foram seus olhos, claros e cintilantes, quase brancos, eles refletiam a luz de sua lanterna.

— C-como entrou aqui? — Perguntou dando passos hesitantes para trás, sutilmente digitando o número de emergência em seu celular.

— Você me chamou — a voz grave e profunda invadiu os ouvidos de Jungkook, deixando-o meio atordoado, tamanha era a intensidade de seu tom.

— Eu não tenho nada de valor — manteve um boa distância do homem que lhe encarava incisivamente. — Saia da minha casa ou eu vou chamar a polícia.

— Digno de um mortal — ele suspirou cansado, parecendo entediado.

— Mortal? — O encarou confuso, vendo que ele iria se aproximar Jungkook recuou mais, correndo até a bancada que dívida a sala da cozinha e pegou uma faca. Apontando-a para o homem, que riu de sua atitude. — Olha eu não sei de qual hospício você fugiu, mas você não deveria estar aqui. Não sei como você entrou, mas você vai embora, por bem ou por mal.

— Oh é mesmo? — Ele sorriu com regozijo, por um momento atordoando Jungkook por causa de seu sorriso sádico.

Assustado com a possibilidade daquele homem o machucar, levou seu celular até seu ouvido, ainda apontando a faca em sua direção, sentindo-a tremer em sua mão. Chamaria a polícia e tiraria aquele cara de sua casa, não entendia muito bem, mas algo muito ruim emanava daquele homem. Os cabelos de sua nuca estavam arrepiando-se ao ter os olhos dele sobre si, lhe encarando com um misto de sentimentos, mas acima de tudo ele parecia se divertir com seu medo. Quando o telefone foi atendido ele focou-se em pedir ajuda a pessoa do outro lado da linha.

— Alô? Eu preciso de ajuda! Um cara invadiu a minha casa!

— O "cara" não invadiu sua casa, você permitiu que este entrasse — Arregalando os olhos Jungkook direcionou seu olhar para o homem a sua frente, reconhecendo sua voz profunda. — Você me invocou criança, não irá se livrar de mim até que eu consiga o quê eu quero.

— E o quê você quer? — A respiração de Jungkook já estava completamente alterada, o pânico aflorando seus sentidos de maneira tão abrupta que quase derrubou a faca em suas mãos.

— Você — Seu olhar repleto de intensões sombrias fez o corpo de Jungkook paralisar. — Sua virtude, sua inocência, sua sanidade e sua alma.

Deixando o telefone cair de suas mãos Jungkook entendeu naquele exato momento o quê ele havia feito ao dizer aquelas palavras desconhecidas. Um pacto. Entendia tudo agora, os desenhos, o sangue e até às palavras que havia pronunciado sem saber o significado delas, como não tinha notado? Aquela velha maluca o fez fazer um pacto com alguma entidade, aquela ideia parecia ser totalmente sem fundamento, mas era a única explicação. O quê eram aquelas palavras? O quê significavam? O que ele havia feito?

— O quê você é? — Sua voz falhou, sentia-se em perigo.

— Sou um demônio, você me trouxe até aqui — ele explicou, seu sorriso aumentava cada vez mais, vendo sua feição horrorizada. — Usando seu sangue e seu nome você selou um pacto comigo, tendo o direito de me usar a seu bel prazer.

— Te usar? Porque eu faria isso? — Jungkook estava completamente horrorizado, a sua frente estava um demônio, sequer podia duvidar, sendo que os olhos dele mostravam a verdade. E o pior, havia feito um contrato com ele.

— Você só poderia selar o contrato se houvesse algum tipo de ambição. Eu posso ajudá-lo com isso. O quê deseja de mim criança?

— Meu nome é Jungkook e não sou uma criança. — Disse de maneira receosoa desafiar um demônio significava morrer? — Eu apenas queria ajuda financeira para pagar as minhas dúvidas, não fazer um pacto!

— Não sinto ganância vindo de você… — O ser a sua frente franziu o cenho ao observá-lo de cima a baixo. - Você me intriga. Me faz querer violar sua alma tão boa e imaculada que ela é.

— O quê você ganha com este pacto?

— O poder de manipular as pessoas e fazerem se entregar aos seus pecados, me alimentar com sua profana vontade de sucumbir ao que para Deus é tão imoral. — O demônio se aproximou do corpo de Jungkook, que permanecia parado em completo choque. — E também sua alma. Que você irá me entregar, por livre e espontânea vontade.

— Não farei isso.

— É o quê veremos, terei muito tempo para corromper você — dizia acariciando os fios negros de Jungkook, com um sorriso ladino cheio de intenções ocultas.

— Você pode me machucar…?

— Só se você me pedir isso anjo.

— Como devo chamá-lo? Senhor demônio ou lorde das trevas? — Jungkook disse com certo sarcasmo, se eles tinham um pacto e o tal demônio não poderia lhe ferir. Então não havia o quê temer. — Qual o seu nome?

— Não posso revelar meu verdadeiro nome. Dai-me um, irei atender pelo que desejar me chamar — as íris cintilantes e profundas do demônio encaravam a face pensativa de Jungkook.

— Que tal... Taehyung? Significa "todos os desejos que se realizam".

— Então será Taehyung. O quê quer que eu faça primeiro Jungkook? Lembre-se, posso manipular pessoas, alterar suas memórias, tortura-las e até mata-las se me pedir. Levarei suas almas comigo com muito gosto.

— Não quero isso! Quero apenas que me ajude a conseguir um emprego — Taehyung piscou atordoado.

— Um emprego? É sério isso? — Jungkook assentiu. — Eu poderia fazer algum mortal rico simplesmente lhe entregar uma fortuna, fazer com que as pessoas beijem seus pés e te idolatrem.

— Não quero conseguir as coisas prejudicando outras pessoas. E você também não fará isso — disse convicto.

— Oh, dessa vez aquela bruxa velha conseguiu um mortal interessante.

— Você já tinha feito outros contratos antes de mim?

— Sim, vários. Ao decorrer de centenas de anos fiz contrato com homens, mulheres, adolescentes e até mesmo alguns nomes bem conhecidos por vocês mortais hoje em dia.

— Com quem foi seu último pacto?

Taehyung passou a lhe encarar intensamente, fazendo-lhe perceber que aqueles olhos cintilantes carregavam todo o mal e hostilidade que jamais havia visto nos olhos de alguém, denunciando o ser maligno que ele era. Temia saber o quê aqueles olhos tão obscuros já haviam presenciado, podia sentir a maldade através daquele olhar, mas também diversos sentimentos confusos, alguns que não sabia decifrar. E como se pudesse sentir seu nervosismo Taehyung sorriu, um sorriso sombrio carregado de crueldade, ele se divertia com seu medo.

— Uma criança — respondeu como se não fosse nada demais.

— E o quê aconteceu com ela...? — Jungkook estava com medo da resposta.

— Enlouqueceu, pereceu ao medo e à solidão. Tirando sua própria vida, entregando sua alma a mim depois que tudo acabou.

— Você é um monstro... — Se afastou ao ver o sorriso do outro aumentar gradativamente.

— Eu sou um demônio Jungkook. É o quê eu faço, ela estava triste, pediu para levá-la e foi o que eu fiz, ela não aguentava mais esse lugar. Então levei sua alma comigo — com um brilho até então desconhecido por Jungkook o demônio se aproximou. — E é o quê eu farei com você também, a sua alma já é minha, a pergunta é: de que forma você vai morrer para eu levá-la?

~♥️~

E voltamos! Essa obra é de meados de 2018, eu reescrevi e alterei algumas coisas.

Eu gosto muito desse plot, então não podia deixá-lo na gaveta.

Gostaram? Sentiram-se nostálgicos?

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