37

Jeongin não costumava passar tanto tempo no jardim do colégio, mas naquele dia em específico, um professor passou mal e de última hora precisou sair. O profissional substituto demoraria pelo menos 20 minutos para chegar, e como aquela sexta era um dia claro e fresco, ele preferiu se sentar em um banco na frente do chafariz enquanto observava os outros alunos seguirem suas vidas normalmente.

Foi enquanto observava os bebedouros, que avistou ao longe Daehwi passar com Somi e Minho. Já fazia algum tempo que o amigo contava que estava desconfiando dos sentimentos daqueles dois, mas nada acontecia e eles pareciam continuar apenas como bons amigos, muito embora já soubesse que Somi nutria sentimentos por ele.

Daehwi vinha tentando voltar a ficar loiro aos poucos. Desde que tudo havia acontecido com niki, o mais novo vinha se ocupado em encontrar a si mesmo, deixando para trás tudo que ele havia tentado ser para conquistar a atenção do outro. Por isso, quando o dono dos cabelos castanhos claros virou em sua direção, jeongin acenou devagar e recebeu uma resposta empolgada em troca.

O garoto falou um pouco com os outros dois amigos e apontou para si. O Sim mais novo acenou quando foi cumprimentado pelo garoto e pela garota, então sorriu quando Daehwi veio em sua direção, sorridente e realmente mais animado do que no dia em que haviam se conhecido.

— Você não devia estar em aula, moço? — Perguntou, sorridente, e recebeu um dar de ombros em troca, antes do garoto se sentar ao seu lado.

— Eu devia? — Perguntou, fazendo-se de desentendido enquanto se acomodava. — Eu terminei uma prova. O professor nos libera para ficar algum tempo de folga depois que acabamos. Ele diz que é algo sobre descansar a mente...

— É mesmo. Eu tinha me esquecido que você tinha prova hoje. Deu tudo certo com as fórmulas?

— Não sei. — Riu e deu de ombros. — Eu sou absolutamente péssimo em física, não acho que gabaritei mas com certeza fui melhor do que pensei que iria. E você? Como anda?

— Preocupado. — Daehwi franziu o cenho e Jeongin sorriu fraco. — Lembra que eu te disse que achava que eu irmão estava apaixonado por alguém? Bem, eu estava certo. Ele anda muito feliz, e eu sou muito feliz em vê-lo assim, mas minha mãe não é uma pessoa fácil e eu tenho medo pelo que ela pode fazer com ele caso descubra.

— Você acha que ela vai mandar ele embora?

Jeongin negou.

— Eu acho que ele sai antes de isso acontecer. — Sorriu de canto. — Acho que se ela o confrontar ou tentar fazer como era antigamente, diminuí-lo, humilhá-lo ou coisas do gênero, ele só... vai embora.

— E deixar você?

— O Jake nunca me deixaria. — Ele olhou para o outro garoto e negou enquanto sorria fraquinho, como se tivesse a absoluta certeza de algo que ninguém sabia ainda.

As vezes Daehwi sentia como se aquele garoto recebesse informações privilegiadas de algum lugar, pois raramente falava sobre o futuro e quando falava era com uma certeza que dava até um pouco de medo. Ele até parecia o personagem favorito de uma autora muito emocionada, cujas informações nunca lhe eram negadas e tudo sempre permanecia bem.

— Ele nunca me deixaria, continuaríamos nos falando, embora com menor frequência, até o momento que eu tenha idade o suficiente para sair de casa também. — Ele abraçou as próprias pernas. — Eu não acho que seria bem-vindo lá.

— Por que? — O garoto perguntou, divertido. — Você gosta de meninos também?

— Eu não sei direito ainda. Eu demoro muito para me sentir atraído pelas pessoas, mas eu não acho que me limitaria à um gênero ou outro na hora de me apaixonar por alguém. — Lambeu a boca. — Eu ainda não sei direito se sou Ace ou se vou entrar dentro do expectro demissexual quando isso acontecer, mas eu tenho certeza de que não me importaria com o gênero da pessoa.

— Você acha que é pan? — Daehwi perguntou, sentindo o coração bater muito forte por algum motivo que o assustava ao mesmo tempo que o deixava feliz de um jeito doido. — Já pensou sobre isso?

Daehwi assentiu.

— Eu acho possível e faz muito sentido. Eu nunca entendi muito bem por que eu deveria me restringir à um ou outro, sabe? As pessoas são muito singulares e eu gosto de todas. — Ele olhou paras Daehwi. — Pessoas são incríveis, isso não tem a ver com gênero, tem?

— Não tem não. — Ele sorria. — Eu me atraio só por garotos, mas eu sei que seria incrível conseguir me apaixonar por meninas também. Elas são incríveis. Eu ainda não sei muito sobre os outros gêneros, mas concordo com você. Se consegue se sentir confortável com todos, não tem por que se limitar, de qualquer forma.

— E eu não quero ter que fingir, sabe? — Daehwi assentiu para ele. — Eu vi como meu irmão ficou e eu quero ser diferente. Não quero me sentir assim.

— Espero que dê tudo certo, Innie. — Sorriu e apoiou a cabeça em uma das mãos, sem parar de olhar para ele.

Os olhos se encontraram por alguns segundos e Daehwi soube que estaria perdido se continuasse o olhando por tempo demais. Jeongin era muito gentil.

***

Noites de sexta-feira eram sempre solitárias e silenciosas naquela república. A maioria sempre estava em festas ou dentro do carro para voltar para a casa dos pais no fim de semana, por isso a casa ficava escura e quieta demais.

Naquele dia em específico, só existiam três pessoas ali dentro. Uma delas era Sunghoon que havia entrado em uma disputa interminável de RPG online com alguns colegas nerds e estranhos da faculdade. As outras duas eram Sunoo e Niki, que acabaram optando por ficar na república durante aquele fim de semana, já que as provas estavam acabando com todos e eles queriam muito descansar.

Niki estava jogado no sofá grande da sala, enrolado em um lençol fino e assistindo a algum filme ruim de TV aberta, daqueles antigos que tem piadas mal colocadas, cujas pausas para propagandas são maiores que o tempo de filme em si, e em algum momento Sunoo se sentou por perto e começou a prestar atenção ao que ele via.

— Esse filme é péssimo. — Sussurrou, bocejando.

Niki riu e o olhou.

— Eu sei. Mas o RPG do Hooniie deixa a internet lenta e eu 'tô com muita preguiça de abrir a Netflix e esperar meia hora até que ela comece a abrir o catálogo.

— Você podia assistir aqueles programas do History Channel. — Deu de ombros.

— Mas esse filme parecia tão mais empolgante, você não acha? — Ele alongou o "a" do "tão" e olhou para Sunoo, quase começando a rir pela cara de tédio que ele simplesmente não conseguia esconder. — Eu admito que eu só estou morrendo de preguiça e liguei no primeiro canal que eu vi.

Sunoo suspirou.

— Vou pegar uma cerveja. Você quer?

— Não. — Ele sorriu. — Decidi parar de beber.

— Corajoso. — Sunoo sorriu e se levantou, voltando poucos segundos depois com uma lata aberta em mãos. — Você está mesmo querendo insistir nesse filme. Corajoso duas vezes.

Niki riu alto, finalmente se sentando no sofá e olhando diretamente para o outro. Já havia visto Sunoo sem camisa infinitas vezes, mas nas últimas semanas aquela tarefa vinha sendo particularmente provocante, por que parecia que aquele homem só conseguia ficar ainda mais bonito.

— E você e o Jay? — Sunoo parou a bebida no meio do caminho até a boca. — Vocês ainda estão estranhos um com o outro?

— Não sei se estranhos é a palavra certa. — Deu de ombros. — Acho que o "normal" para todo mundo sempre foi a gente transando escondido no banheiro, mas eu resolvi não fazer mais isso.

— Verdade. — O mais baixo sorriu fraquinho. — Eu acho que havia mesmo me acostumado à não poder tomar banho por que vocês estavam lá.

— Você já havia notado que eu era um babaca?

Niki franziu o cenho, confuso.

— Como assim?

— O Jungwon gosta do Jay, e eu sabia. E ainda assim transava com ele.

— Se você quer pensar assim, então metade dessa república é muito babaca. — Ele chegou mais perto e deu de ombros. — O Jay se relacionava com praticamente todo mundo. O Jungwon transou algumas vezes com o Hoonie, com o Heeseung também e todo mundo sabia. Eu já fiquei com os três. A única pessoa que não transava com ninguém emocionalmente ligado à alguém aqui dentro era a Miyeon, mas até ela já trocou alguns beijos com o Heeseung e o Hoonie, além de vocês terem mantido um relacionamento casual desde que ela entrou aqui. Todo mundo se relaciona, não faz sentido você se chamar de babaca.

— Quando isso se tornou normal? — Ele riu e coçou o rosto. — É como se a gente metesse a faca uns nos outros corriqueiramente.

— Na verdade, eu acho que o ponto aqui é que ninguém mais está no ensino médio, hyung. — Niki cutucou a coxa dele. — Nós somos adultos e compreendemos que ninguém é dono de ninguém, e que se uma pessoa não gosta de você, tu não pode impedir ela de se relacionar com quem ela quiser.

— Com amigos em comum?

Niki suspirou mais uma vez.

— Você não é um babaca. Nessa casa já aconteceram coisas muito piores e nós nos perdoamos sem ressentimentos, o jungwon não guarda nenhuma mágoa de você. Disso você pode ter certeza. Todo mundo se pega, não é como se pudéssemos cobrar coisas uns dos outros quando todos aqui dentro tem as mesmas atitudes. — Fez um carinho na perna dele. — Para nós é normal. Leve em consideração que somos nós, e o que acontece fora daqui e o que pensam sobre isso pouco importa.

— As vezes eu queria ser bem resolvido com isso como você é.

— Mas eu não sou. — Ele sorriu de canto. — Eu me senti bem culpado quando fiquei com o Jay naquela festa, mas depois eu conversei com o Jungwon e ele não tinha ficado chateado comigo, assim como eu não fiquei quando ele beijou o Hee. A única pessoa que se importa mais com isso é o Heeseung, mas ele é emocionado com tudo o que envolve o Hoonie.

Sunoo riu e o olhou.

— Eu lembro desse dia. O Jay tava bêbado e saiu por aí falando que você beijava bem. Foi engraçado. — Niki parou por um momento, o olhando. Então lambeu a boca.

— Ele disse? — sunoo assentiu, sorrindo. — E você não ficou curioso?

O ambiente parecia mais pesado agora, mas não era a primeira vez que aquilo acontecia. Aquele tipo de evento vinha ocorrendo com bastante frequência desde aquele dia no quarto, e considerando todos os indicativos, não era algo que acontecia apenas com Niki... ele sabia. E pelo jeito como o mais velho o olhava agora, ele tinha certeza.

— Por que você está me perguntando isso?

— Posso confessar uma coisa? — sunoo assentiu e Niki sorriu antes de encarar a boca do mais velho. Era automático, e naquele momento ele não conseguia fugir da vontade que não morria nunca. — Eu quase te beijei algumas vezes essa semana.

— E você quer me beijar agora?

Ambos lamberam a boca num gesto automático.

— Quero.

Não houve muito depois disso, todo mundo sabe o que aconteceu. Ainda assim, para Niki, foi extremamente delicioso o jeito que o corpo grande se aproximou, puxando-o pela nuca para colar a boca a sua.

Os lábios de Sunoo eram macios e a língua tinha o gosto da cerveja que ele havia começado tomar alguns minutos antes, mas que agora estava abandonada em cima da mesa de centro, suada e cercada por uma poça d'água. Entretanto, muito embora o móvel pudesse ficar machado, nenhum dos dois se importou ou sequer notou aquele evento.

As línguas se acariciavam como se já se conhecessem há muito tempo. Os dentes mordiam os lábios para puxá-los, alguns ofegos foram trocados e os corpos se aproximavam inconscientemente, peito contra peito, num calor que eles não saberiam explicar direito com as próprias palavras.

E Jay com certeza não havia mentido, Sunoo pôde constatar. Niki beijava mesmo bem pra caralho e o gosto dele era tão bom que ele continuaria ali por muito tempo, se pudesse. Algo nele apitava e lhe dizia que talvez não fosse uma boa ideia avançar demais, que talvez fosse mais interessante parar por ali e deixar as coisas como estavam.

Ambos andavam muito machucados, não havia por que piorar a situação.

Mas também não existia nele vontade alguma de parar o que haviam começado, por que não doía estar com niki. Por isso ele só soube ofegar e retomar o ósculo gostoso quando puxou o mais baixo para seu colo, as mãos trabalhando no corpo todo enquanto aquele beijo prosseguia sem nunca acabar. Os corpos se entendiam como ninguém, assim como os olhos mandavam mensagens mudas e a boca servia apenas para soltar gemidos arrastados naquele momento.

Se esqueceram até mesmo que Sunghoon jogava no andar de cima.

E enquanto Sunoo se movia sobre o corpo de Niki, em movimentos ritmados que tiravam a sanidade dos dois homens, ele percebeu por que talvez devesse ter parado cedo. O fato era que Niki era viciante e Sunoo sabia que era frágil a vícios como aquele.

E quando ele veio, forte, gemendo, sem conseguir se segurar em momento nenhum, ele olhou profundamente dentro dos olhos do melhor amigo antes de retomar o beijo, mal notando que durante o sexo mais inesperado de sua vida, ele não havia pensado em Jungwon em momento algum.

***

O telefone de Jake tocou tarde naquele dia. Já eram quase dez da noite quando um número desconhecido apitou o celular, fazendo com que ele deixasse uma sessão pipoca com Jeongin para atendê-lo

— Alô?

— Oi, boa noite! Eu gostaria de falar com o Jake-ssi... — Quem falava do outro lado era uma mulher, ela parecia muito cansada e um pouco agitada, até. Mas a voz continuava muito bonita.

— É ele.

— Oi, Jake-ah! Tudo bem? Perdoa a hora, é a Soyou, do Moncafé. — Os olhos de Jake se arregalaram e ele começou a andar de um lado pro outro.

— Oi Soyou-ssi, eu estou bem, e você? Está tudo bem, eu não estava fazendo nada demais. — A voz parecia calma, mas ele se sentia prestes à desmaiar.

— Ah, que bom! Esse foi o único horário que eu consegui te ligar! O café fica lotado de sexta feira, nós não conseguimos parar por um minuto! Aí agora que estamos fechando, as coisas se acalmaram um pouco. — Ele podia ouvir barulho de água, vidro e vozes ao fundo. — Então, eu queria te perguntar se você pode começar já na segunda. A Eunseo foi dispensada hoje de manhã e nós estamos bem urgentes com ajudantes...

O mundo parou de girar.

— Eu... consegui o emprego?

— Ah! — Ela riu. — Eu queria te chamar já depois da entrevista na quinta, mas meu sócio queria entrevistar mais gente. Eu disse para ele que era desnecessário, mas homem é foda e eu estava cheia de coisa pra fazer. Mas sim, nós te queremos na equipe. Você ainda tem interesse, né?

— Tenho! — Ele respondeu, talvez um pouco alto demais. — Eu tenho, eu tenho sim! Eu começo segunda sem problemas!

— Ótimo! — Ela respondeu, animada. — Te vejo segunda, Jake-ah! Bye bye.

— Bye bye... — Respondeu, então desligou o telefone.

As mãos tremiam. A primeira coisa que ele conseguiu fazer antes de começar a chorar, foi abrir o chat do kakao que tinha com Sunghoon e digitar.

Eu consegui! |

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