36
Na quarta-feira Jake se permitiu acordar tarde. Era feriado na província de Susaseum, e este dia afetava todas as cidades vizinhas, incluindo Mulbang-ul e Sunsuhan, por isso as aulas haviam sido suspensas durante aquele dia.
Já eram quase onze da manhã quando ele foi acordado pelo telefone celular que tocava uma música alta.
— Alô? — A voz sonolenta sequer poderia ser disfarçada. Ele ouviu a risada do outro lado da linha e sorriu imediatamente.
— À essa hora, meu bem? — Seu sorriso era quase audível. — Me desculpe por te acordar, Bela Adormecida. Só lamento por não ter sido com um beijo.
— Besta. — Esbravejou, mas sorria. — Você não é de ligar. O que aconteceu?
— Já são mais de dez horas e você não estava me respondendo. Ontem eu fiquei um pouco indisponível, mas vi que você tinha algo importante para me contar... — Jake assentiu, ainda que soubesse que o outro não podia vê-lo.
— Ah, sim... — Ele sorriu. — Fui entregar meu currículo lá na cafeteria que você me disse... eu tenho uma entrevista amanhã.
— Mesmo? Isso é ótimo, Hyung! Você está animado?
— Ansioso. — Confessou. — Ontem, quando recebi a notícia, eu estava tão nervoso que a Soojin fez uma ligação de vídeo com o Jeonghan para tentar me acalmar um pouco. Eu acabei fazendo uma promessa caso conseguisse.
— Eles te chamaram direto pra entrevista? Não esperaram nadinha? — Ele conseguia captar o orgulho na voz do outro. — Mesmo? Que promessa você fez?
— Chamaram. Por isso eu fiquei tão nervoso, nunca tinha pensado que algo assim poderia acontecer, especialmente comigo. — Se sentou na cama, coçando os olhos. — Prometi que ficaria ruivo.
— Eles gostaram de você. Você vai conseguir esse emprego e vai ficar lindo ruivo.
— Sua positividade me inspira.
— Não é só positividade, hyung. Eu estou sendo extremamente racional te dizendo isso... eles mal leram seu currículo, tiveram alguns poucos minutos de conversa e te chamaram para uma entrevista amanhã... eu já fiz algumas entrevistas e sei que não é bem assim que funciona, que eles têm outros candidatos e as vezes demoram alguns dias até te chamarem para uma entrevista, isso se te chamarem. Os caras gostaram de você. Relaxa.
— Obrigado por torcer por mim. — Sorriu. — Mas e você? Como vai aproveitar o feriado?
Houve um silêncio do outro lado.
— Eu tinha pensado em visitar a minha mãe... eu acabei deixando ela sozinha da última vez, fiquei com medo de atender as ligações dela. — Ele lambeu a boca. — Eu sei que ela está sozinha, que é seguro ir vê-la, mas...
Outra pausa longa.
— Mas...?
— Eu não quero vê-la daquele jeito, sabe? — A voz era mais baixa, parecia até um tanto perdida. — Ela estava tão machucada, hyung. O olho roxo... a marca na garganta... eu fico pensando no por que ela continua lá e sei que é por mim, então eu me sinto tão culpado que fico com medo de vê-la e...
— Ficar daquele jeito de novo?
— Me lembrar de coisas demais. — Justificou e a linha ficou muda durante alguns segundos. — É sempre doloroso voltar para aquela casa... eu sempre vou por causa dela, por que a amo e sinto saudades, mas tenho que deixar a moto longe e ir em um horário específico, quando sei que os vizinhos estão ocupados e aquele cara está no trabalho... sempre evito mostrar as tatuagens, sempre entro pela porta de trás, como um criminoso... por que essa cidade é maldita, Jake. As pessoas vêem e falam demais.
— Tudo bem você não querer voltar pra cá agora. Siga seu próprio tempo, você passou por muita coisa e era tão novinho, não era? Quantos anos você tinha quando saiu de Sunsuhan? — Perguntou. Ele se levantou, pegou um fone de ouvidos e checou a porta antes de andar pelo quarto enquanto conversava.
— Dezessete. — Respondeu. — Saí e fui direto pra faculdade. Lar universitário.
Jake queria perguntar porque. Queria saber o que havia acontecido para ele deixar sua casa quando ainda era tão novo, como conseguiu ingressar na faculdade tão cedo e por que era tão difícil falar sobre a cidade, mas ele não fez isso.
Sabia que era um assunto delicado e também compreendia que não era algo à ser dito pelo telefone.
— É difícil conseguir um quarto no L.U.? — Questionou, mudando o ritmo da conversa para fugir da pergunta que queria fazer.
— Não muito. Normalmente demora um pouco, mas não é difícil. Você só precisa se inscrever e apresentar a justificativa do por que precisa de um quarto lá. Tem os pagos e os gratuitos, pros gratuitos existe uma burocracia maior e é mais difícil, mas não impossível. — Ele parou por um momento. — Está pensando em se mudar?
Jake suspirou, lambendo a boca.
— Eu não acho que vou conseguir ficar por aqui durante muito tempo. — Brincou com o fio dos fones. — Se eu não sair por vontade própria, vou acabar sendo expulso, então é melhor que eu já tenha algumas opções.
— É difícil estar preso dentro de casa, não é?
O mais velho sorriu, triste.
— É como uma cela eterna por um crime hediondo, eu sinto como se estivesse aguardando por uma pena de morte que fica mais próxima à cada dia. Eu achei que as coisas ficariam mais fáceis com o tempo, mas parece que elas só pioram e eu não quero mais morrer. — Aceitar seu destino era como aceitar uma morte lenta. Talvez não física, já que suicídio era tão pecado quando a homossexualidade na religião católica, mas ele se sentida fadado a viver uma vida que não era sua, matando à si mesmo todos os dias.
Ceder às imposições externas era como se suicidar aos poucos, cortando um pedacinho de si mesmo por vez até que não sobrasse mais nada. Ele seria obrigado à viver uma vida triste e vazia, cercada por pessoas tão tristes quanto ele e que o auxiliariam nessa longa caminhada até a morte. E quando seu corpo físico chegasse ao caixão, a alma há muito já teria partido.
Não importa o quanto você tente ser o que as pessoas querem, você nunca vai conseguir esconder por muito tempo quem você é sem que morra por dentro.
— Mas as coisas estão melhorando. — Sorriu pequeno. — Eu me sinto mais vivo a cada dia que passa.
Existia esse céu que ele queria desesperadamente encontrar, mas que parecia distante demais para alguém como ele. Mas também existia um paraíso de coisas boas que ele quase podia tocar, e agora ele se sentia mais próximo do céu do que jamais esteve antes.
***
Na quinta Jake já acordou pilhado e ansioso. Ele separou uma roupa diferente para trocar depois das aulas e até levou um perfume, já que estaria partindo para sua primeira entrevista de emprego naquela tarde.
Ele mal conseguiu se concentrar nas primeiras aulas e achou que ia desmaiar várias vezes durante as trocas de sala. Jeonghan tentou acalmá-lo durante boa parte do período, matou uma das matérias com ele e virou um piadista para tentar mudar o fluxo do assunto, mas no intervalo, quando não conseguiu comer pela barriga que se revirava em ansiedade, o outro garoto bufou.
— É sério, não dá mais, vou ter que partir pra agressão. — Soojin franziu o cenho para ele. — Você não vai nem comer? Não tomou café, sua pressão baixou várias vezes e você com certeza não vai conseguir fazer essa entrevista se estiver morto, Jake!
— Só um pouquinho, Jakey. — A garota tentou, olhando para o rosto dele. — O angel tem razão, se você não comer, vai passar mal durante a entrevista.
— Mas eu estou enjoado...
— Por que você está enjoado? — A voz grave soou, se movendo para ocupar o espaço vago ao lado de Jake e Jeonghan levantou os braços para os céus, em agradecimento.
— Chegou o salvador da pátria. — Soojin comentou e Sunghoon riu fraco. — Ele não comeu nada até agora e não quer almoçar, convence ele antes que o Jeonghan enfie comida garganta à dentro.
— Está nervoso? — O Sim suspirou.
— Não é de propósito. Eu queria comer, mas estou muito enjoado...
— Tudo bem, é comum ficar nervoso. Mas olha só, você vai estar ainda mais nervoso na hora, e se estiver de estômago vazio sua pressão pode cair e você vai desmaiar. Desmaiado você com certeza não vai conseguir o emprego, então come, nem que seja só uma sopa. — Ele empurrou a própria bandeja na direção do mais velho. — Eu te prometo que dou uma carona pra te dar uma moral, mas come. Só um pouco, hm?
Jake ficou olhando para o rosto dele durante um tempo. Ele parecia tão diferente de quando o havia conhecido... as expressões agora pareciam muito mais leves e o sorriso não era sempre aquele de canto, que fazia o sangue correr rápido demais; às vezes era só um sorriso simples, sincero, sem intenção nenhuma, e aquilo fazia o coração se aquecer e o próprio sorriso vir também.
Então ele assentiu devagar, olhando para a bandeja que ele havia montado.
— Mas e você? — Perguntou, e voltando para o tatuado.
— Eu monto outra. Come. — Respondeu e se levantou, voltando para a fila como se ela não fosse imensa e não pudesse tomar mais da metade de seu almoço.
Jeonghan resmungou e Soojin riu.
— O que um macho com tatuagem não faz, né' mesmo? Abre até o apetite da poc, e nem é no sentido sexual. Vou recorrer a ele sempre que quiser tirar alguma coisa de você. — Jake riu também e abriu a tampa da sopa quentinha.
— Não vai funcionar.
— Por que? — O amigo perguntou, arqueando a sobrancelha em sua direção.
— Por que eu vou negar só pra encher seu saco, Jeonghan. Você com ciúmes é a coisa mais engraçada do mundo, é sério. — O calouro quase cuspiu a sopa com a cara que o melhor amigo fez e Soojin engasgou com a risada.
Ele estava totalmente indignado.
— Ciúmes? Quem está com ciúmes? — Cruzou os braços. — Você está com ciúmes, eu estou ótimo. Solteiro e ótimo, perdendo amigos e muito ótimo, obrigado. E para de rir, traidor.
***
Cursar Psicologia não era fácil, especialmente quando se é perfeccionista e se está em semana de provas. E depois de Sunghoon se propor a levar Jake para a entrevista, ela ganhou mais tempo para estudar, já que teria uma avaliação dificílima no dia seguinte e precisava desesperadamente ir até a biblioteca revisar algumas coisas.
Por isso, assim que o período acabou e ela se despediu dos amigos, Soojin voltou para dentro do bloco, subindo de elevador até a biblioteca, seguindo diretamente à sessão de psicanálise para escolher alguns livros e rever toda a matéria.
Ela caminhou pelas prateleiras e já havia pego dois livros quando notou, no fim do corredor, uma figura conhecida com alguns livros na mão. Eram livros extensos de psicanálise que ela conhecia muito bem, pois já havia lido, mas que não eram comuns à uma estudante de direito.
Por que Miyeon estava estudando psicologia?
Fazia algum tempo que elas não se falavam. Depois de algumas tentativas de contato iniciados pela mais velha, Soojin havia bloqueado o contato, já que havia se tornado muito difícil ignorar a saudade que parecia corrosiva. E, depois disso, Miyeon pareceu tentar evitar sua presença também, indo almoçar em outro lugar que não no refeitório e tomando caminhos mais longos até o bloco de Direito, que ficava atrás do de Psicologia.
Mas vê-la ali, com livros tão incomuns agarrados firmemente aos braços, fez com que a curiosidade batesse e Seo a chamasse, meio impulsivamente.
— Miyeon? — A reação assustada da mais velha pôde ser vista de longe. Ela travou por três segundos, os olhos arregalados e a mão livre parada na altura de uma das prateleiras, antes de rapidamente esconder os livros atrás do corpo e se virar para a outra garota, um sorriso forçado nos lábios e o rosto pálido.
Os olhos estavam úmidos também, mas Soojin não quis reparar nisso, por que se reparasse cairia no choro com mais facilidade que a outra e nenhuma delas queria passar pela vergonha de chorar na biblioteca.
— Soo-ah. — A voz era mais baixa que o comum e ela parecia até um pouco cansada. Ele arranhou a garganta e continuou. — Soojin. — Se corrigiu. — Olá.
— Por que você está nesse corredor?
A mais velha continuava travada no mesmo lugar.
— Tédio. — Ela respondeu, rápido demais. — Meu período de provas já passou e eu não tenho muito o que fazer, a república anda vazia e... hm... eu resolvi dar uma volta pela biblioteca. Mas já estou indo, não quero te desviar do seu foco. Bye bye.
Ela acenou de forma rápida e sumiu pelo corredor, ainda escondendo os livros e apertando o passo quando a outra garota a chamou, um pouco alto demais para o ambiente que estavam, resultando em um "shhh" verbalizado em conjunto por alguns estudantes que também estava ali para estudar.
A garota que havia ficado se desculpou, baixinho, se curvando devagar e sem coragem alguma de ir atrás de Miyeon, ainda que a curiosidade fosse forte demais. Ela ficou olhando pro corredor durante algum tempo, observando de uma forma perdida o caminho por onde a morena havia saído, sentindo o coração bater forte demais no peito, deixando seus sentidos perdidos e a boca seca.
Sentia tanta saudade...
E havia sido com muito custo que bloqueara o contato dela no kakao, que havia deletado todas as fotos e as conversas, que vinha evitando estar onde ela estava e tentava seguir a vida sem pensar demais no que havia acontecido, mas era tão difícil fazer a cabeça parar de se lembrar e o peito de acelerar sempre que a via... porque Soojin sabia, desde o começo, que não seria fácil amar Miyeon.
Mas ela tão apaixonante que tornava tudo ainda mais complicado por que, sim, era difícil amar alguém tão machucado, mas era ainda mais difícil ficar sem ela.
E quando finalmente voltou à si, Seo Soojin correu até aquela prateleira, recolhendo todos os livros de estudo que havia utilizado no período em que haviam ficado juntas. Ela se sentou ali mesmo, no chão, abrindo livro por livro apenas para olhar os nomes dos alunos dentro das fichas de locação.
E ali, em baixo de seu nome, sempre tinha o dela. Em letras diferentes, talvez pelas bibliotecárias que se revezavam, mas "Miyeon" vinha sendo a locadora de todos eles. Não apenas dos livros de mesmo título, mas dos livros que Soojin também havia locado.
Ela continuou encarando todos os livros abertos, uma quantidade grande demais para quem não cursava aquela grade, e os olhos se encheram d'água. Ela folheou os livros abertos e notou que existiam anotações em baixo das suas - fracas e de grafite apagável.
Em "O Mal Estar da Civilização", Soojin havia grifado uma frase importante: "As pessoas ficam muito loucas quando apaixonadas. [...]Existem momentos na vida da gente, em que as palavras perdem o sentido ou parecem inúteis, e, por mais que a gente pense numa forma de empregá-las elas parecem não servir. Então a gente não diz, apenas sente". Ao lado daquela frase, escrita com as letras da Seo, estava:
"Talvez eu esteja ficando louca".
E quando ela devolveu o livro, era apenas aquilo. Entretanto, agora, logo abaixo, em uma letra cursiva bonita que ela conhecia muito bem, estava marcado: Eu estou completamente louca.
Em seus estudos, Soojin havia compreendido que ser louco não era ruim, só não era considerado normal pelo ser social. A divisão entre loucura e o conceito de normalidade eram limítrofes e ela teria que aprender à lidar com ela caso quisesse ser uma boa profissional.
Mas existia aquela loucura. Aquela que fazia a barriga se revirar e ela esconder o rosto entre as mãos como agora. Aquela loucura insana que havia feito Miyeon ler todos os livros de Soojin apenas para sentí-la um pouco mais perto.
Aquela paixão desenfreada que fazia as duas garotas viverem seus dias como loucas, quando na verdade elas eram tão normais quanto qualquer outra pessoa apaixonada.
Era fácil de resolver. Mas parecia difícil demais.
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