16
4 dias depois
Se existia uma coisa em si da qual Jake se orgulhava, essa coisa era sua organização e responsabilidade para com os compromissos que assumia. Foi por isso que naquele dia, que seria o primeiro do InterUni, ele levantou mais cedo, imprimiu todos os formulários e horários de jogos, reviu alguns pontos de sua lista de atividades e mais uma vez mandou uma mensagem para o grupo da organização, lembrando a todos sobre a reunião que teriam mais tarde.
Havia sido natural para si auxiliar ao máximo na coordenação. Os outros integrantes da atlética notaram e deixaram que ele fizesse isso, por que ele era muito bom naquilo.
Quando não estava sendo um menino reprimido, Jake tinha um espírito de liderança e organização invejáveis. Isso era algo que havia crescido consigo e teve de ser escondido depois de um tempo, para evitar que "lhe julgassem como arrogante e não lhe considerassem apto para o sacerdócio", parafraseando a senhora Sim.
Uma vez citada a matriarca, é importante falar que faziam alguns dias que ele não falava diretamente com a mãe. Inicialmente por vontade própria, por que falar com ela era doloroso e aversivo, mas depois virou uma punição da própria mulher para com Jake: ele havia respondido, sido "mal educado" e não pedira desculpas.
Ela não iria falar com ele à menos que admitisse que estava errado.
E, ainda que fosse doloroso e a ausência da mãe o fizesse sentir culpado, pela primeira vez ele não sentia que estava do lado errado da corda. Não havia feito nada demais e continuava sentindo como se tivesse direito sobre as próprias escolhas.
E essa sensação era libertadora e reconfortante na mesma medida que era culposa e dolorosa.
Soojin havia conversado sobre o assunto com ele naquela semana, o aconselhou em vários níveis e naquele dia, quando pegou carona com ela, cheia de planilhas nos braços e formulários para serem assinados, mais uma vez a garota o aconselhou e deixou que ele desabafasse durante todo o caminho.
— Você devia mesmo procurar ajuda psicológica, Jakey. — Disse, pela enésima vez. — Vai te fazer bem, é necessário...
— Você sabe por que não dá.
— Sua mãe não precisa saber. — Ela sussurrou e Jake virou em sua direção, chocado. — Eu sei que você vai surtar, mas me escuta. — Ela implorou. Os olhos bonitos observaram Jake através do espelho retrovisor. — Na faculdade tem a clínica escola. É gratuito, funciona fora do período de aulas e é extremamente sigiloso. Se você explicar a situação, as estagiárias conseguem te encaixar depois das aulas, eu te espero sem problemas, é só uma hora de atendimento... sua mãe não vai desconfiar e se você não se sentir confortável, pode cancelar as consultas à qualquer momento em multa nenhuma. — Jake focou o olhar na estrada à frente e Soojin finalmente o olhou, ansiosa. — Por favor, Jakey. Pense só um pouquinho, sim? É pra cuidar da sua própria saúde mental... eu tenho medo que você adoeça de vez.
Jake continuou focado na estrada e o silêncio pesado dominou o carro. Estavam quase chegando na universidade, então Jake suspirou e lambeu os lábios, tomando, pela primeira vez na vida, uma decisão que contrariava a mãe e favorecia a ele, e somente ele.
— Você me passa o telefone de lá depois?
Soojin abriu um sorriso enorme.
— Eu já tenho um cartão aqui.
*
O InterUni era um evento bastante apreciado pelas instituições de ensino de Mulbang-ul, e por esse motivo os professores haviam dispensado Jake das aulas para que ele terminasse de organizar a documentação para os jogos que se iniciariam naquela tarde.
Ele carregou para o escritório da atlética Seuta-bae o bloco imenso de formulários assinados pelos jogadores, assistentes e técnicos, assim como todas as tabelas de jogos e programações para os próximos cinco dias de jogos.
Naquela tarde existiria a cerimônia de abertura que daria início aos primeiros cinco jogos, então tudo estava misturado em uma correria enorme que deixaria Jake estressado se ele não fosse tão organizado com tudo.
Sunghoon viu quando o mais velho levou o bloco de papel para dentro do escritório. Estavam todos ajudando à organizar o auditório da universidade para abertura, então, quando ele viu Jake caminhando à passos rápidos até aquele lugar, não pensou muito ao decidir segui-lo.
A porta estava aberta e o Sim lia algumas folhas, conferindo uma por uma e anotando em uma planilha. Às vezes a organização dele assustava Sunghoon, mas todo aquele cenário fazia com que se sentisse ainda mais excitado do que lhe era comum.
O perfeccionismo o deixava desejoso para ver Jake em desalinho, tanto fisicamente quanto mentalmente; não para traumatizar sua personalidade devota e religiosa, mas para levá-lo à lugares inexplorados e vê-lo ansioso por continuar fora da pista na qual havia percorrido a vida toda.
Queria tê-lo no limite, por que ele era sempre são contido... por isso as reações dele à sua presença mexiam tanto com o íntimo de Sunghoon. Existia uma vontade indescritível de torná-lo menos certo e mais carnal, mais pedinte e mais vulnerável.
O queria de um jeito totalmente sujo e carnal.
Queria tê-lo até os ossos.
— Perdido?
Jake deu um pulinho assustado pelo ato repentino, colocou as mãos no peito e respirou fundo enquanto Sunghoon ria. Ele encarou o mais novo com raiva e cruzou os braços quando notou que ele não parava de rir.
— Você é muito engraçadão mesmo, viu? — Soltou, com deboche. — Por dentro eu estou rolando de rir, juro.
— Que bom que eu te fiz rir. — Soltou o outro, em um tom sarrista que fez o sangue de Jake ferver. — É sempre um prazer te fazer sentir bem.
— Essa foi uma frase estranha.
Sunghoon sorriu.
— Oh, você acha? — O mais velho revirou os olhos e continuou folheando seus documentos, dando as costas ao outro homem. Sunghoon lambeu os lábios ao observá-lo por inteiro, enquanto se aproximou sorrateiramente até estar próximo demais do corpo alheio. — Você anda muito malicioso, meu bem.
Jake travou no lugar. Antes, quando notou que estava sozinho com Sunghoon, já foi um golpe difícil para que seu coração mantesse a calma. Havia sido contido e polido o suficiente para conseguir controlar minimante os efeitos do próprio corpo, mas naquele momento ele tinha o hálito quente contra seu ouvido e o corpo grande contra suas costas.
Sunghoon segurou a cintura alheia e se moveu para frente, até que o corpo mais magro estivesse colado contra a mesa do escritório, a porta do local estrategicamente fechada e a respiração do Sim totalmente audível.
E Park idolatrava as reações daquele corpo.
— Você não abre muita margem para que eu pense outra coisa. — A voz se esforçava para não sair trêmula, mas Jake sentia o corpo febrio. — É uma pessoa pervertida.
— Ah. — Sunghoon sorriu e apertou mais as mãos em torno da cintura alheia. — Eu sou pervertido? — Ele aproximou a boca até a orelha de Jake, e tomou a liberdade de morder o lóbulo para puxá-lo.
O corpo todo do garoto formigou e ele se sentiu ficar duro. Ele ainda tinha o terço no peito, mas não se lembrou dele. Ele podia ter rezado pedindo forças, mas sequer se lembrou que podia fazer aquilo.
O corpo de Sunghoon era quente como o inferno e ele jurou que o homem era o próprio diabo, agindo daquela forma com o único intuito de seduzi-lo e arrastá-lo com as mãos longas diretamente para a boca do inferno.
E Jake não teve medo daquela perspectiva.
— Você é. — respondeu, baixo.
— Então por que você não saiu correndo aquele dia, no banheiro? — Jake paralisou. Os dedos curtos apertaram as bordas da mesa e ele sentiu que cada mínimo pedaço de seu físico iria derreter sobre os dedos de Sunghoon.
A boca bonita deixou um beijo demorado no pescoço claro; beijo esse que virou uma mordida, que virou um chupão fraco e cuidadoso o suficiente para não deixar marca nenhuma. A pele macia se arrepiava, cada pequeno centímetro do corpo respondendo ao Park como se tivesse sido projetado especificamente para aquilo.
Jake estava tão excitado que doía.
Ele sentia cada parte de seu corpo. Sentia as mãos o apertando, a boca bonita beijando a pele exposta, o tronco grande roçando suas costas e a intimidade, tão dura quanto a sua, alcançando certeiramente o vão entre as nádegas.
Ele não conseguia pensar direito. Os estímulos de Sunghoon não paravam e o corpo fervia como se estivesse indo em direção ao julgamento final, sobre o qual já conhecia o resultado.
Mas, naquele momento, ele pensou que talvez o inferno não fosse assim tão ruim.
— Porque estava gostoso. — Respondeu, em um sussurro. Sunghoon tremeu e suas mãos se apertaram mais contra o corpo de Jake. — Eu não fugi por que você estava muito gostoso ali, daquele jeito, gemendo pra mim.
Sunghoon ficou fora de órbita.
Inicialmente, era gostoso seduzir Jake. E era gostoso por que ele parecia extremamente tímido, ingênuo, e até um pouco infantil sobre tudo o que envolvia sexualidade.
Depois, era divertido provocá-lo para ver a personalidade real sair. Gostava de vê-lo fora dos eixos, irritado, confuso e falando mais como uma pessoa normal e não como um boneco de cera perfeito.
Entretanto, naquele momento, ele não era mais quem dava as cartas.
Naquele momento, depois daquela frase, era Sunghoon que se encontrava total e completamente nas mãos dele. Estava totalmente excitado e à mercê de um homem que ele não achou que existisse em Jake; um homem que sabia jogar e que era extremamente provocante, ainda que não soubesse totalmente o que estava fazendo ou como aquela frase era ridiculamente excitante.
— Você me deixou tão duro por você agora, Jake. — Respondeu, depois de se recuperar da surpresa. — Eu quero poder gemer pra você de novo.
Então, assim como em todas as vezes que Jake deixava sua personalidade mais primitiva sair, ele caiu em si.
E caindo em si, ele fez com que Sunghoon se afastasse minimamente de seu corpo, se virando para olhá-lo, sorrindo pequeno e envergonhado. Eles se encararam por um minuto, os olhos excitados nos temerosos, e quando o mais novo começou à se aproximar para unir as bocas, Jake se desenroscou do corpo grande e agarrou a papelada para fora da sala.
— Eu preciso trabalhar.
E deixou Sunghoon ali, no escritório.
Sozinho, excitado e com um sorriso enorme na cara, ainda que a frustração o fizesse tremer.
Agora, mais do que nunca, queria aquele garoto.
E o teria.
***
Sunghoon deixou o escritório só depois de ter certeza que seu pau não estava mais tão visível, embora continuasse indiscutivelmente duro. Porque tudo o que ele descobria de novo sobre Jake o fervia por dentro.
Não era novidade para si que ele não fosse cem por cento do que mostrava, afinal ninguém era; porém eram as singularidades da personalidade sempre tão forçosamente polida que o atiçavam.
Porque ele sentia que o Sim era como a caixa de pandora e ele não se importaria em revelar todos os males do mundo se ele pudesse gravá-los no corpo de Jake.
Acendeu um cigarro quando já estava na arquibancada da pista de atletismo da universidade; não por acaso os jogos costumavam ocorrer ali, já que eles possuíam um amplo espaço reservado para os esportes. O campo era grande, as arquibancadas eram altas e a pista de corrida era longa o suficiente para que algumas competições mais sérias também já tivessem ocorrido ali.
A Universidade de Seuta-bae era merecedora de toda fama que possuía.
Tragou profundamente e sorriu de canto quando notou que, mais uma vez, se recordava dos lábios finos que sorriram do jeito tão atípico enquanto falavam palavras tão sujas para alguém nascido em Sunsuhan.
Principalmente para alguém tão reprimido quanto Jake Sim.
E aquela era a melhor parte de conhecer o lado mais sujo e pecador de alguém tão fiel - a atipicidade trazia o gosto de veneno doce aos lábios tão experientes, e Sunghoon queria tragar gota por gota.
Não queria quebrar corações, mas o queria. Não queria relacionamentos ou carícias pós foda, mas queria o corpo pequeno sob o seu da forma mais suja e pecaminosa possível.
Porque sua realidade contrastava à falsa pureza que Jake tentava corajosamente defender.
— O que você fez?
Sunghoon soltou a fumaça fina do cigarro mentolado e sorriu largo para a presença grande que se acomodou no espaço ao seu lado. Ele usava shorts de corrida e uma regata larga que expunha os músculos bem construídos e o mais novo o secou dos pés a cabeça.
— Você aumentou o ritmo dos treinos, não aumentou? — Niki sorriu para o garoto e deu de ombros, tomando um gole da água que sempre carregava consigo.
— Eu emagreci um pouco, na verdade.
— Tá gostoso.
— Não foge do assunto. — Ele sorriu adorável demais, atitude que contrastava com o corpo rígido e grande. — Você estava sorridente como só fica quando está tramando alguma coisa.
— Me conhece tão bem...
— A Miyeon comentou que você estava interessado no Jake. — Sunghoon resmungou um "fofoqueira" e Niki riu. — Ele é diferente do tipo de pessoa pela qual você costuma se interessar... inclusive eu achei que você fugia dos religiosos.
— Jay também me disse isso. — Ele tragou de novo. — Mas ele é o tipo de cara que guarda segredos, e eu sou curioso.
— Você também guarda segredos, Hoonie. — Eles trocaram olhares longos e Niki assentiu. — Segredos grandes.
— Por isso eu prefiro me ocupar com os segredos das pessoas. Para me esquecer dos meus.
— Mas o que aconteceu com o Jake?
— Ele tem uma boquinha muito suja. — Ele sorriu de novo. — Me deixa duro sem esforço nenhum e depois finge que quer fugir de qualquer coisa; parece um ratinho assustado.
— E como você pode ter tanta certeza que ele não quer, de fato, fugir de você?
— Ah, mas ele quer. Só não consegue, por que ele também quer ficar e descobrir como isso termina. — Sunghoon encarou Niki. — E eu sei como termina. Os olhos dele não mentem.
— Hoonie... eu, mais do que ninguém, sei que olhos às vezes mentem, sim. — Niki deu de ombros. — Eu também achei que sabia como terminava.
— Suas intenções eram diferentes das minhas. — O mais novo apagou o cigarro no chão e se virou para o outro. — Vocês têm conversado?
Niki assentiu.
— Ele finge que não sabe de nada e que nada aconteceu, e eu também não me esforço para fazer o contrário. Fingir que nunca aconteceu parece mais fácil, soa como se eu não tivesse sido dispensado e ainda tivesse alguma chance. — Deu de ombros. — Eu sou masoquista pra caralho, Hoonie. Às vezes sinto muita inveja de você.
— Eu não teria tanta inveja no seu lugar. Heeseung pode ser apaixonado por mim, mas todo o resto não compensa. Os sentimentos de alguém não mudam uma vírgula na minha vida de merda.
— Você nunca pensou em tentar retribuir os sentimentos dele?
— Não. — A resposta foi imediata. — Eu amo o Niki. Esse sentimento é puro demais para que eu queira mexer. Ele é minha alma gêmea, meu melhor amigo, e eu sinto muito que em algum momento os sentimentos dele tenham ficado confusos. O Nishimura seria uma pessoa muito melhor para alguém como ele. Ele precisa de pessoas como você.
— Você age como se soubesse muito sobre o que as pessoas precisam, e nisso acaba se deixando de lado. — Niki acariciou o joelho de Sunghoon gentilmente. — Você é uma pessoa muito boa, Hoonie. Eu queria que mais gente pudesse te conhecer por trás de todas essas máscaras e tatuagens.
— Eles não gostariam de ver o que há por dentro. — Ele riu sem humor e acendeu um cigarro de maconha. — Mas eu fico feliz em saber que pessoas boas como você me acham bom o suficiente para continuar convivendo. É recompensador.
Niki negou e se levantou.
— A gente não ama você por obrigação, Hoonie. A gente te ama por que você é você.
— Isso é bom. — Ele riu. — Assim eu posso ficar secando essa bunda gostosa pela casa.
— Você não presta, mas obrigado. — Ele bateu na própria bunda e começou a se afastar para voltar aos afazeres do Interuni. — Eu tenho muito orgulho dela.
— Você poderia me deixar ver mais de perto um dia desses. — Sunghoon brincou quando ele já estava um pouco longe.
— Abusado.
O mais novo riu da resposta e tragou o cigarro. A erva começava a fazer sua cabeça, mas Jake ainda fazia presença absoluta.
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