08
Jake estava atrasado. Deixou a biblioteca carregando três livros grossos um em cima do outro, se focando em não derrubar a mochila que se pendurava em um único ombro enquanto ele tentava equilibrar o peso para chamar o elevador com a mão que acabara de libertar. Ele secou o suor da testa e se apoiou na parede para descansar um pouco os braços cansados enquanto aguardava.
Muito embora o aparelho não estivesse muito além de seu andar, o fato de estar atrasado fez com que cada segundo parecessem minutos longos e arrastados até que o elevador finalmente parou. O garoto adentrou o ambiente e selecionou o andar que desejava, mas quando a porta começou a se fechar uma mão tatuada a parou no meio do caminho.
Jake a reconheceria de qualquer lugar, mesmo que jamais admitisse.
Sunghoon adentrou o espaço acionando o andar desejado e Jake observou cada movimento, mesmo que seu íntimo o obrigasse a desviar os olhos. Ele abraçou os livros grossos e encarou a porta que fechou lentamente antes de focar os olhos nos botões como se sua vida dependesse disso.
— Ah... — Sunghoon suspirou. — Eu sempre tenho essa impressão quando você está por perto.
Jake ficou confuso e inconscientemente levantou o olhar, buscando respostas e encontrando apenas o sorriso ladino que não lhe poupava de nenhum pensamento imoral. Ele apertou mais os livros até sentir o crucifixo contra a pele sensível do peito e armou sua melhor pose indiferente.
— Qual impressão?
— De que já te vi antes. — A voz de Sunghoon é baixa, muito embora o tom ainda seja grave, então ele retira um cigarro da caixa para pendurá-lo atrás da orelha sob o olhar atento do mais velho. — E de que você sempre está tentando fugir de mim.
O calouro arregala minimamente os olhos, mas sua cabeça o força a dar seu melhor sorriso.
— Por que eu fugiria de voc-
A frase óbvia teria sido completa se o elevador tivesse seguido seu curso natural, entretanto ele parou de andar em um tranco, todas as luzes se apagaram e o ar condicionado foi desligado, apenas para que Jake vivesse segundos de pânico antes que a luz vermelha de emergência se acendesse e o pequeno ventilador passasse à circular o ar dentro do pequeno cubículo de ferro.
— Mas que porra... — Sunghoon se preparou para xingar, mas se lembrou. — Merda! — Estalou a língua — Acho que era esse elevador que estava quebrado dias atrás...
— Como assim? — Jake finalmente foi capaz de voltar à se mover depois do susto, se aproximando dos botões dos andares e ativando o de emergência. — Não tinha aviso nenhum...
— Talvez alguém tenha retirado por pura sacanagem. — Sunghoon pegou o telefone do bolso, checando o que queria e bufando logo em seguida. — Estou sem sinal. O seu telefone tem?
Jake deixou os livros pesados no chão e retirou o telefone do bolso, constatando que também não possuía sinal. Aos poucos o susto deu lugar ao leve desespero com a constatação de que estava trancado dentro de um elevador...
Com Sunghoon.
— O que a gente faz agora? — Alcançar o crucifixo que parecia queimar contra o peito foi, mais uma vez, um movimento automático. Parecia que seu corpo era treinado para pedir perdão todas as vezes que seu verdadeiro eu forçasse a saída.
O tatuado suspirou e deixou que o corpo magro alcançasse o chão, cruzando as pernas como as de um índio.
— Agora a gente espera.
— Será que demora muito? — Jake também se acomodou no chão, do lado oposto ao de Sunghoon enquanto abraçava as pernas como se elas pudessem criar uma parede entre ele e o outro. — A aula de hoje era importante...
— Esquece. Eles vão nos deixar aqui por pelo menos meia hora, até que alguém sinta falta.
Jake assentiu e se encolheu um pouco mais. Ele se sentia nervoso e mesmo que não devessem existir motivos para tudo aquilo, Sunghoon ainda o intimidava. A presença alheia trazia memórias demais, sensações demais e ele era ágil em tentar fugir de cada tentativa de interação.
O problema era que naquele momento ele não tinha para onde fugir.
— Tenso.
A palavra veio tão repentinamente que o mais velho se assustou um pouco. Ele buscou o rosto de Sunghoon com os olhos e arqueou uma sobrancelha como se o questionasse sobre a fala.
— Você está tenso, Hyung. — Ele sorriu de uma forma que poderia ser considerada doce se não viesse de quem vinha. — E eu tenho a impressão de que é um estado permanente desde aquele dia.
O garoto engoliu à seco.
— Eu não sei do que você está falando.
— E você está vermelho desse jeito por quê, então? — Jake levou as mãos ao rosto, sentindo-o quente, então negou.
— É o calor.
— Eu imagino que seja. — Sunghoon sorriu daquele jeito de novo e Jake se perguntou quando acostumaria. — Eu não queria te deixar incomodado, foi mal.
— Eu não estou incomodado.
Os dois trocaram longos olhares que entregavam que ambos mentiam... porque tudo que Sunghoon queria era afetá-lo e tudo que Jake fazia era involuntariamente se deixar afetar. E era assim que a mentira agia, o Sim sabia - ela começava como uma goteira pequena que não se notava, até tornar-se um buraco grande demais para ser tampado.
E tudo que ele fazia desde que o vira naquele banheiro era mentir... também para os outros, mas principalmente para si mesmo.
*
Heeseung não conseguia se impedir de observar o refeitório mesmo com a comida esfriando na bandeja. A porção de arroz há muito havia perdido o calor e o kimchi ainda estava pendurado nos palitinhos à caminho da boca. Miyeon havia percebido aquilo e suspirou quando o mais alto finalmente colocou a comida na boca e pegou o telefone para digitar mais uma vez.
— Ele pode estar em aula, Hee.
— Ele não está em aula. Responderia se estivesse. — Heeseung sequer a olhava. — Ele nem as está recebendo.
— A bateria pode ter acabado. — Ela continuou. — Ele pode ter desligado...
— Você já viu o Hoonie ficar sem bateria? A mãe dele pode ligar, ele nunca esquece de carregar e vive com bateria extra. Ele nunca desliga o telefone...
— Ele pode estar com alguém. — A voz de Niki silenciou a mesa e até mesmo Sunoo parou de comer para encarar o estudante de educação física. Jay sentiu a barriga embrulhar e encarou Jungwon como se o garoto pudesse virar um mágico e sumir com todos antes que aquilo virasse um pandemônio.
Ele, mais do que ninguém, sabia como os relacionamentos de Sunghoon, afetavam Heeseung, independentemente do nível. Sempre fora assim, desde que ambos chegaram juntos à Enhypen.
— Nini... — Miyeon suspirou.
Heeseung bloqueou a tela do celular e encarou a comida quase intocada à sua frente. Ele observou o copo de chá gelado pela metade e lambeu os lábios antes de sorrir pequeno.
— Você tem razão. Ele não é mais aquela criança assustada que eu conheci há dois anos. — Ele pegou uma das coxas de frango fritas e levou até a boca. — Eu estou exagerando... às vezes eu ainda acho que ele precisa de ajuda.
A mesa ainda estava em silêncio quando Soojin parou ao lado deles um tanto inquieta. Não era muito, mas ainda assim Miyeon notou que ela estava um pouco mais agitada do que o comum.
— Algum de vocês viu o Jake? — Todos negaram e ela suspirou. — Ele veio comigo pra cá, então eu sei que ele está na faculdade... ele não responde as minhas mensagens e não apareceu na aula...
— Ele pode ter matado o primeiro período... — Jay tentou, mas Soojin riu baixo.
— Ele não mata aulas. Ele é a porra de um cdf perfeito.
— Nós poderíamos abrir um time de investigação, já que um membro do nosso grupo também sumiu. — Jungwon riu baixo e deu de ombros. — Parece que as pessoas tiraram o dia para desaparecer.
— Você falou com ele hoje? Sabe pra onde ele pode ter ido? — Miyeon questionou, deixando seu próprio prato de lado para se virar para Soojin.
— Ele ia buscar alguns livros na biblioteca antes da aula...
— Será que ele não ficou preso no elevador? — Toda a mesa se virou na direção de Sunoo. — Aquele troço não quebra direto? A maioria dos alunos sobe pra biblioteca pelos elevadores. — Soojin franziu o cenho.
— Mas eles não deveriam deixar avisos lá?
— Bem-vinda à universidade. — Niki riu e deu de ombros. — Tem gente que tira os avisos pra fazer a galera ficar presa de propósito. Isso explicaria ele não estar recebendo as suas mensagens.
— Eu vou conferir. — Soojin prende os cabelos num coque alto e coça os olhos. — Eu acabei nem comendo por que fiquei preocupada com ele...
— Eu posso ir com você. — Heeseung se ofereceu, já deixando a mesa, carregando consigo apenas o copo de chá. — Eu sei onde ficam os caras da manutenção, então facilito o trabalho para você.
Jay e Mjyeon trocaram um olhar, mas ninguém disse nada.
— Obrigada...
— Eu posso montar uma marmita para você comer na aula mesmo, Soo. — Jeonghan se ofereceu, sorrindo. — Eu aproveito e almoço também.
— Eu já disse que te amo hoje?
— Vai salvar o mini padre, vai. — O garoto riu. — Deve estar ajoelhado no elevador pedindo socorro para Deus à essa altura.
Ele recebeu um sachê de ketchup na cara.
— Péssimo, Jeonghan.
Soojin deixou o refeitório com o veterano de arquitetura e todos voltaram a comer como se o clima nunca tivesse sido diferente, mas Niki ainda encarava a bandeja cheia de Heeseung enquanto perdia o próprio apetite.
*
Sunghoon tirou a jaqueta de couro e ameaçou de puxar a regata leve pela cabeça, apenas para perder Jake arregalando os olhos e os desviando da cena antes de questionar.
— O que você está fazendo? — A regata deixou o corpo do mais novo e ele a abandonou de qualquer jeito no chão antes de buscar um de seus livros para se abanar.
— Está muito quente aqui.
Faziam quase trinta minutos que eles estavam ali e aos poucos a pouca ventilação do lugar fechado começava a fazê-los sentir calor demais, além da leve falta de ar pelo ambiente abafado. O calouro de arquitetura tentou não encarar o peito desnudo do outro rapaz que se focava em se livrar do calor, mas os olhos eram teimosos e captaram as tatuagens negras que lhe desenhavam as costelas e peito.
A quantidade de informações fez com que Jake suasse ainda mais do que antes, então ele passou a tentar se abanar também. Sunghoon observou sua tentativa falha e riu baixo.
— Ajudaria mais se você tirasse essa blusa de lã.
Jake levantou os olhos para ele, buscando não se afetar pelo sorriso moleque e negou.
— É a única coisa que eu estou vestindo.
Foi um apenas um sussurro demasiadamente tímido, mas o tatuado arqueou uma das sobrancelhas e sorriu de canto. A resposta maliciosa lhe ferveu a língua macia e ele não pôde evitar a provocação quando ela veio de forma impulsiva.
— Está com medo de tirar a roupa perto de mim, Hyung? — Ele lambeu os lábios e secou o corpo alheio com os olhos antes de subir até o rosto. A expressão de Jake era diferente de tudo que já havia visto e ele se sentiu ainda mais quente por que notou que o garoto estava irritado. — Eu não vou tentar te agarrar, meu bem.
"Ainda". Mas é claro que essa parte foi uma constatação mental. A inocência forçada de Jake o excitava e ele era levado pela vontade de tê-lo em desalinho, mas, mesmo que sentisse prazer em provocá-lo, sua intenção não era deixá-lo desconfortável. Sunghoon se sentia tentado à bagunçar cada pedaço de Jake, mas não via qualquer vantagem em fazê-lo sem que o outro se sentisse na borda.
Ele queria ser o precipício que fazia o outro ter prazer em cair.
— Eu não sou o "seu bem" — Negou — Não me chama assim. — Jake fez questão de dizer, firme, por que a voz o chamando daquela forma o fazia ter arrepios que ele sabia que precisaria evitar, ainda mais em uma situação como aquela. — Eu sei que você não vai fazer isso.
Eles trocaram um breve olhar e Sunghoon sorriu levemente antes de lhe estender a regata preta que usava anteriormente.
— O que?
O mais novo revirou os olhos.
— Tira esse casaco e coloca a regata, já que não quer ficar sem. — Antes que o outro respondesse, Sunghoon continuou. — Seu corpo deve estar muito quente e você não almoçou, se sua pressão cair e você apagar, eu não vou ter como te ajudar.
Jake encarou a camiseta que lhe era estendida e refletiu um pouco antes de suspirar e derrotado, aceitar a blusa. Ele deixou o livro que utilizava para se abanar de lado e tirou a regata do avesso antes de voltar a encarar o dono dela, pensando em pedir para que ele desviasse o olhar, mas não queria que ele soubesse que temia ser alvo de desejo e por isso desconfiasse de si.
Algo no Sim queria muito que Sunghoon acreditasse verdadeiramente na mentira que ele buscava contar todos os dias, mesmo que seu corpo jamais mentisse e ele continuasse se sentindo extremamente tenso todas as vezes que o mais novo estivesse perto... por que se o outro também o desejasse e insistisse em provocá-lo, Jake não saberia ser forte o suficiente.
Era muito difícil lutar contra os próprios desejos e mesmo que ele buscasse fortalecer o espírito, a carne ainda fazia parte da humanidade que lhe era dada e gritava em desespero que não existia nada de errado com ele, que não era imoral seu corpo sentir desejo em tocar Sunghoon quando ele estava seminu e tão perto, enquanto parecia fazer questão de lhe dirigir aquele sorriso covarde.
Mas era por ser humano que ele se mostrava tendencioso à esperar sempre o pior.
E de onde ele vinha, o pior era o inferno.
— Certo. — Mais uma vez Jake exibiu sua melhor cara de indiferença e puxou o casaco pela cabeça, expondo o peito pálido onde o crucifixo balançava, descoberto.
Sunghoon escaneou o tronco exposto mas travou quando viu a cruz que se movia lentamente, com Jesus Cristo cravado à ela em seu calvário eterno. Ele lambeu os lábios, sério, enquanto sua cabeça o levava para memórias antigas, mas sua observação silenciosa não durou muito pois logo o tecido negro cobriu o peito alheio, escondendo a imagem fria.
Jake dobrou seu casaco com cuidado e tentou fingir que não se sentia extremamente afetado naquele momento. Ele havia fugido da nudez, mas agora o cheiro de Sunghoon o cercava e ele não sabia mais qual das duas alternativas era mais perigosa.
— Você realmente anda com um rosário na faculdade? — O sussurro de Sunghoon fez com que Jake deixasse sua crise interna por um momento e o encarasse, confuso.
— Você não parece o tipo de pessoa que consegue diferenciá-lo de um terço. — Sunghoon o olhou.
— É o esperado de quem nasce em um lugar como Sunsuhan. — Ele deu de ombros e passou a brincar com o isqueiro que tinha em mãos. — É uma cidade que esconde muitas coisas atrás de preces.
— Eu não me lembro mesmo de você. — Comentou. — Que estranho, todo mundo se conhece lá.
"Ninguém se conhece lá", quis responder.
— Eu mudei muito.
— Você ainda tem família lá?
Sunghoon parou de mexer com o objeto que levava entre os dedos e sequer se virou para encarar Jake. Ele ficou em silêncio por um longo tempo e o outro garoto se questionou sobre o que havia falado para que o clima mudasse tão repentinamente.
Acontece que haviam coisas que o Park não gostava de falar. Ainda existiam coisas sobre Sunsuhan que faziam o estômago embrulhar e ele querer fugir como uma criança assustada mesmo depois de todos aqueles anos, existiam memórias que ele não conseguia esquecer e pessoas que ele queria salvar, ainda que não soubesse como salvar a si mesmo das próprias memórias.
O tatuado acendeu o isqueiro.
— Tenho.
Antes que Jake perguntasse qualquer outra coisa, o ar condicionado voltou a funcionar, as luzes se acenderam e o elevador começou a se mover. Os dois garotos se encararam, surpresos, e se colocaram de pé em um pulo. Os números dos andares desceram até o térreo e o mais novo caçou suas coisas no chão antes que a porta se abrisse e uma Soojin fosse rápida em espiar para dentro da caixa de metal.
— Por que você está sem roupa? — A garota cruzou os braços e arqueou a sobrancelha na direção de Jake, que negou nervosamente com a cabeça como se soubesse (e sabia) exatamente o que a garota estava pensando.
— Estava muito calor e eu estava sem blusa em baixo do meu casaco...
— Não importa. — Heeseung interferiu e Park trocou um olhar breve com ele. — O fato é que o elevador quebrou de novo e a gente paga uma mensalidade cara demais para que isso continue acontecendo.
— Nós avisamos a administração que toda a parte elétrica precisava ser trocada. — O técnico falou, defensivo. — Eles estão cortando custos.
— Enquanto isso nossas mensalidades sobem. — Heeseung deu de ombros e suspirou, voltando-se para Sunghoon. — Você vai voltar pra aula assim?
Soojin encarou o peito desnudo e tatuado do veterano e continuou arqueando a sobrancelha na direção do melhor amigo. Ah, ela com certeza cobraria informações mais tarde.
Jake suspirou fraco e encarou o garoto.
— Eu vou ao banheiro trocar e já volto pra te devolv-
— Relaxa. — Sunghoon deu de ombros e acendeu o cigarro. — Eu não tenho o segundo período hoje. Você pode me devolver depois. — Seu olhar passou de Jake para Soojin e Heeseung. — E valeu por terem vindo atrás, estava um forno lá dentro... mas a companhia era boa.
Sunghoon então piscou na direção de Jake e deixou um rastro de fumaça quando foi embora. Heeseung se despediu dos dois amigos com um aceno e seguiu seu caminho enquanto o Sim permanecia um tanto atordoado.
Soojin o encarou de boca aberta.
— Pode começar a falar. Agora.
Jake se apoiou na parede a esfregou o rosto, nervoso.
Porque seu coração estava agitado e ele sentia calor mesmo já estando do lado de fora.
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