Capítulo 4: Garota Acorda
"Se não tivéssemos inverno, a primavera não seria tão agradável: se não experimentássemos algumas vezes o sabor da adversidade, a prosperidade não seria tão bem-vinda."
Anne Bradstreet.
A Garota da Neve
Assim que me viro com o susto de perceber que há mais alguém comigo, vejo a enfermeira que gritou, seu rosto está pálido, sinto o medo de mim em seu olhar. Não esperava isso de um profissional da saúde, talvez sentir-se surpresa por me ver acordada, mas não um medo tão evidente.
Me aproximo dela um passo e a enfermeira sai do quarto fechando a porta atrás de si, corro antes que ela a tranque, mas quando chego à porta, ela está fechada por fora. Não consigo entender por que uma enfermeira me trancaria em um leito do hospital, não é como se eu fosse perigosa, assim como alguém vindo da ala psiquiátrica.
Bato na porta e grito para que abram, mas desisto ao ver que não surge efeito, lembro de quando estava batendo na porta para que as amigas da Allie ou ela mesma abrisse.
Vou até a janela, ela cobre toda a parede lateral do leito. Puxo a cortina a tirando de seu suporte, então vejo que a janela não pode ser aberta, há um mosaico de concreto com aberturas pouco maiores que minha cabeça e após há uma parede fixa de vidro. Ela serve apenas para permitir a entrada de luz natural e provavelmente melhorar a estética externa do prédio.
Sento na cama sem saber o que fazer, fico nessa posição por alguns minutos, então me jogo para trás, caindo de costas sobre o colchão, sinto algo duro e oval abaixo de mim que machuca minhas costas, causando uma dor que revela a sensibilidade do local, sinto como se toda as minhas costas estivesse inchada.
Praguejo alto apalpando o cobertor atrás do objeto que estava em baixo de mim, no entanto não encontro nada. Instintivamente levo a mão às costas onde dói e sinto um nódulo do tamanho do meu punho ou maior entre minhas omoplatas, contudo devido à localização não consigo analizar como queria, apenas vejo que dói ao toque.
Percebo a porta se abrir e dois homens entrarem junto da enfermeira, pelas roupas sei que um deles é segurança do hospital e o outro é médico.
- Oi querida, Hannah? Certo.
Apenas assinto e por isso o médico continua.
- Hannah eu sei que deve estar confusa e assustada. - diz ele se aproximando devagar. - Você ficou em coma por dois anos, é natural que esteja com medo e sentindo-se mal, até mesmo que seu corpo não responda à certos estímulos, mas cuidaremos de você e logo isso irá passar.
- Eu estou bem e não tenho medo.
Seus olhos me analisam longamente enquanto ele fala, registrando mentalmente o modo como falo, gesticulo e até mesmo balanço os pés agora livres do chão.
- Que bom, é uma menina corajosa. - ele emprega um tom manso de forma excessiva, o que me irrita e sorri de forma despretensiosa.
- Não fale comigo como se eu fosse uma criança de sete anos.
Sua expressão muda, o sorriso acolhedor desaparece, assumindo uma postura mais séria e imparcial.
- Está certo, me desculpe, sou o Doutor Abelard, estive acompanhando seu caso desde o início, como está sentindo-se?
- Me sinto cansada e dolorida, igual à quando dormimos muito, mas no geral me sinto bem.
- Muito bom, está sem nenhuma medicação, então a dor de ficar deitada é normal e os hematomas também, a final foi um longo período em uma única posição e sem se exercitar.
- Quanto tempo terei que ficar aqui?
- Sendo sincero, eu não sei, dois dias, uma semana, talvez um mês, depende de como está sua saúde e como você irá responder ao tratamento.
- Que tratamento?
- É comum que pessoas pós-comas duradouros como o seu, precisem de fisioterapia e reabilitação para se recuperar totalmente.
- Não preciso disso, estou bem.
- Isso é realmente muito bom... - diz se aproximando mais, agora estou ao alcance de seu toque. - Mas sou eu que tenho de dar meu diagnóstico, vamos fazer apenas alguns testes, para sua própria segurança e melhora.
- Tudo bem, mas terá que falar a verdade para mim.
- A relação médico-paciente sempre é transparente. - diz sorrindo novamente, um sorriso que desta vez não consigo traduzir com precisão, me parece ambicioso ou amigável e me deixa em dúvida se confio nele ou não.
- Então, por que no meu prontuário está escrito que meu estado é grave e por que tem um segurança aqui? - pergunto indicando o homem forte fardado pouco atrás do médico.
- A senhorita corria risco de vida até despertar e o segurança é apenas por que não sabíamos como reagiria, talvez fosse preciso até sedá-la.
Só então vejo a seringa preparada no bolso de seu jaleco.
- Não se preocupe, não será necessário. - termina ele ao ver que estou encarando a seringa de forma demorada e o sorriso volta ao seu rosto como se isso o divertisse.
- Vamos fazer um passeio pelo hospital? Será bom exercitar um pouco as pernas e eu poderei avaliar como está.
Isso realmente seria bom, sinto que se ficar aqui por muito tempo poderei me unir à parede até ser parte do quarto.
- Durante o passeio respondo suas perguntas.
Me levanto e sigo o médico, ao sair do quarto vejo que estou na ala de observação, o segurança fica no corredor e continuamos até um balcão, a enfermeira continua e entra em uma porta atrás dele.
- Dr. Abelard, o senhor tem uma cirurgia às 14:00 horas, o Dr. Maximus está o aguardando para anestesiar o paciente. - notifica a recepcionista sentada atrás do balcão de informações.
- Remarque a cirurgia para amanhã, à mesma hora.
- Certo, e Doutor, dois agentes da KGB estiveram aqui para falar com o senhor, disseram algo sobre estar faltando dados no relatório.
Assim que ela termina de falar olho para o doutor, vejo que ele empalideceu rapidamente, então a recepcionista pede desculpas por seu erro e enrusbece com vergonha do que fez que parece sério, mas não entendo seu erro.
- Vamos! - diz o médico já caminhando à minha frente, com seu humor transformado.
Descubro que o Doutor Abelard tem pernas fortes e rápidas, e quanto à mim, que meu corpo está mais em forma do que deveria, pois o acompanho com a pouca dificuldade que teria em qualquer outra condição.
Quando o corredor de quartos termina sem nenhum de nós ter dito nenhuma palavra ele diminui a velocidade e passa a me acompanhar. Passamos por uma porta dupla com dobradiças elásticas e chegamos ao que parece ser o corredor central já que ele conecta todos os outros e tem muitos elevadores na parede à nossa frente, dois dos elevadores tem as portas maiores do que o comum e minhas perguntas são sanadas quando vejo uma equipe de médicos e enfermeiros passar apressados à nossa frente com uma maca móvel, o senhor encima dela parece se esforçar para respirar e os médicos tentam controlar a situação enquanto o levam para o elevador.
- Vão operar ele? - pergunto assim que as portas do elevador se fecham.
- Aqui é a unidade de tratamento intensivo, muitos dos pacientes que estão internados nessa ala precisam ser monitorados com frequência e em alguns casos precisam passar por cirurgia, é algo comum.
- Eu preciso ser monitorada constantemente?
- Sim, mas você é diferente.
- Por que sou diferente?
- Não está correndo risco de vida. - finaliza ele e novamente ficamos calados.
Descemos pelo elevador dois andares e chegamos à ala pediátrica, vejo duas crianças passando correndo por nós e uma mãe irritada os repreendendo, mas se controlando para não gritar, os quartos dispostos em ambos os lados hospedam crianças e alguns jovens adolescentes enquanto se tratam e ouço ao longe o choro sentido de uma criança, provavelmente por ser espetada por uma agulha.
Não ficamos por aqui, apenas atravessamos essa ala para chegar a um hall de espera, vejo alguns bancos pouco ocupados por pais a espera de seus filhos, uma bancada de informações com uma linda e jovem moça atarefada e toda a parede esquerda é uma vidraça, nos aproximamos e eu vejo o pátio externo do hospital, muita grama, alguns bancos, poucas pessoas passando e algumas árvores, uma em especial me chamou a atenção, é muito alta, tronco grosso e muito ramificado, de copa arredondada, folhas pequenas e numerosas que dão volume à copa, possui muitas flores amarelas dispostas de forma dispersa como se alguém tivesse escolhido cada ponto para destacar sua beleza.
- Você não tem vertigem de ficar perto? - pergunta ele se referindo à parede de vidro.
- Não, a altura me encanta e o senhor?
- Eu sinto, até mesmo fico tonto.
- Então por que vem aqui?
- Eu gosto daqui... Isso é engraçado, a maioria das crianças que vem aqui se aproximam sem receio, enquanto seus pais mantém distância... É como se em algum momento da vida eles perdessem a coragem que tiveram na infância, isso sempre me intrigou, mas desde que conheci seu caso, você tem me intrigado mais ainda.
- Doutor, minhas costas estão doendo e inchadas. - reclamo, desde que deixamos o quarto a dor tem aumentado. - Eu sentir um nódulo, o que é isso?
- Algumas coisas em seu corpo não é como o de todas as pessoas, eu pesquisei em todos os acervos médicos sobre o que pode ser isso e a razão de seu coma, mas nada se parece com o seu caso.
- O que isso quer dizer?
- Que eu não sei como posso te ajudar. - confessa ele e o tom que usa me passa um sentimento de impotência. - No entanto, mesmo que seja doloroso, isso não está afetando seu organismo.
¥Nota¥
Olá queridos leitores, me atrasei em dois dias, mas saiu, espero realmente que estejam gostando, esse capítulo foi mais para vocês conhecerem a personagem.
Não tenho muito o que dizer então bora escrever o próximo, peço que votem no capítulo e se possível comentem ok? Nada de só olhar e passar batido, vamos ajudar o amiguinho aqui, é grátis kkkkk. Brincadeira.
Bye...
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