Capítulo 3: Garota dos Sonhos
"Qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos."
CARL GUSTAV JUNG
Borboleta Sem Asas
Assim que vi o estado de meus amigos fiquei em choque, mas agora estava melhorando, mesmo eu ainda não acreditando que todos eles corriam risco de vida.
Eu sabia que eles acordariam hoje e eu contaria tudo que havia acontecido nos últimos dois anos enquanto eles estavam passando pela metaformose, mas ao invés disso estou no posto de cura, olhando minha melhor amiga em um estado que ninguém sabe se irá melhorar ou morrer.
Hoje era para ser um dia especial para meus amigos, o dia que ganhariam asas, que decidiriam seus futuros, mas eles receberam apenas um sono que pode ser eterno.
Os socorristas e curadores correm por todo o posto de socorro, que agora está pequeno para tantos pacientes. A maioria dos soldados que foram feridos receberam cuidados e já foram para casa, dois passarão a noite aqui por serem casos que pode se complicar, estão deitados um ao lado do outro no canto inferior e todas as outras camas estão ocupadas por adolescentes que tiveram sua metamorfose interrompida pelo que parece um veneno, eles estão imóveis e a mesma mancha preta que consumia a grande mãe é visível nos corpos de alguns.
Reissi não se move enquanto a observo, nem mesmo seu tórax impulsionado pelo diafragma, eu sei que em fase de crisálida não respiramos, mas vê isso é agoniante, torna ainda mais sólidos os pensamentos de que ela está morta.
Reparo em suas asas, são mais delicadas que o comum e assim como de todos de sua família é rosa, agora está um tom escuro, quase vermelho, mas após expandidas irá adquirir um tom três vezes mais claro e em sua velhice perder cor até ficar quase branca. Confesso em silêncio que invejo muito suas asas.
Uma das curadoras se aproxima, ela me cumprimenta e examina Reissi, anota algumas informações em uma planilha, então pede que eu a ajude a manter Reissi sentada, faço isso tomando cuidado para não tocar em suas asas que estão em sua fase mais sensível.
A curandeira que descobrir se chamar Baldi passa um gel negro em toda a extensão da asa a mantendo umedecida o suficiente para não se enrijecer antes dela despertar.
Quando ela termina, a ajudo a deitar Reissi e ela vai até um garoto na cama ao lado, um garoto que está no mesmo estado de minha amiga. Deixo de prestar atenção em seu trabalho e volto a olhar para o rosto inerte de Reissi.
Após alguns que não saberia dizer quanto sinto o toque de uma mão macia sobre meu ombro, instintivamente sigo o braço até encontrar os olhos marejados da mãe de Reissi.
- Como ela está? - pergunta ela. - Me contaram que minha filha saiu do cásulo, mas não despertou.
- Ela... - começo a dizer que ela não saiu do cásulo, foi arrancada por soldados à força, mas eu não sei o real motivo de terem feito isso, nem se isso foi benéfico ou prejudicial à ela, então decido não falar nada sobre isso. - Ela está assim desde que cheguei.
- Vejo que não é a única... - completa ela olhando para as outras camas ocupadas.
- Nenhum acordou ainda.
- Eles vão, todos eles...
Me levanto e indico o banco para ela sentar em meu lugar, ela reluta, contudo aceita quando insisto.
Ficamos caladas por alguns minutos, apenas observando a pessoa que nos liga.
- Senhora Urbis, isso já aconteceu alguma vez?
- Não, o mais próximo foi o filho dos Dowels que caiu de seu cásulo mal construído, o coitado ficou inconsciente por três anos e quando acordou só tinha metade das asas formadas.
Me lembro de Joshua Dowels, o homem triste que esconde as costas com um enorme capuz para não mostrar suas asas deformadas que gera tanto constrangimento para sua família, pela primeira vez sinto pena dele, agora que entendo o que ele tanto quer esconder.
- Mas não se preocupe querida, Com eles é diferente já que terminaram a metamorfose, apenas não despertaram ainda.
- Eu sei, só foi curiosidade. - Novamente me sinto culpada de não contar sobre a forma como ela deixou o cásulo. - E quanto à não passar pela metamorfose?
- Ah... Entendi, é sobre você que estamos falando, isso nunca aconteceu.
- Nem mesmo com quem nasceu no inverno?
- Não, todos passam pela metamorfose e ganham asas. - diz ela colocando ênfase em todos. - Quanto à ter nascido no inverno, não sei o quanto isso pode afetar seu desenvolvimento, acredito que em nada, claro que não posso garantir já que raramente isso acontece, nem sei quem foi o último antes de você,
- Ninguém sabe...
- Mas isso também não é motivo para se preocupar, a sua hora chegará. - diz ela e parece muito a minha mãe falando.
- Agora que está aqui, a Reissi está em boas mãos, então vou meus outros amigos.
- Tudo bem, vai lá querida. - diz ela e sorri do de forma simpática, olho uma última vez para Reissi que está tão parada que torna agoniante vê-la assim. Ela está mais bonita do que na última vez que a vi, a metamorfose não apenas desenvolve as asas nos indivíduos que passam por esse processo, mas também desenvolve o corpo próximo de como será na fase adulta, também aprimora a beleza e amadurece os sentimentos, por isso ela está parecendo mais velha do que eu, mais do que realmente é.
A deixo com a filha e ladeio as camas procurando por Ginta, o encontro seis camas após a de Reissi. Me aproximo e toco sua mão, está mais gelado que o normal.
Vou até a parede e abro totalmente a clarabóia sobre ele, permitindo que a luz de nossa estrela banhe seu corpo e o aqueça, então volto a me posicionar ao lado dele. Vejo que sua mão esquerda está levemente posicionada mais à direita e voltada para baixo, diferente de como estava há instantes. Pego sua mão e sinto seus dedos se fecharem sobre os meus sem exercer força.
Olho para o rosto de Ginta e vejo seus olhos se apertarem incomodados com a luminosidade, eu sei que devia sair e avisar alguém sobre isso, mas estou tão feliz que não consigo me mover, não sou uma garota muito emotiva, contudo paralizei quando vi que ele estava acordando.
Ele abre os olhos e me vê antes de tudo, então seu rosto se molda para uma feição de medo que desconheço em suas expressões, Ginta se apoia nos braços e tenta se afastar de mim como se temesse pela própria vida e o mais estranho, eu fosse a ameaça.
Por sua nova posição suas asas posteriores se dobram, as asas dele ainda estão macias, enrugadas e pequenas, ainda sem adquirir sua real forma e temo que algum vaso se rompa se ele continuar se movendo assim.
- Ginta, fica calmo... Está tudo bem... - digo com a voz baixa e tranquila, mas firme, ele precisa perceber que não há perigo.
- Eu vi você... eu vi você... - ele sussurra e eu mal consigo ouvir. - Fique longe de mim! Eu vi você! A morte branca.
Embora não esteja quente o suficiente nem mesmo para nos aquecer para um voo e há pouco ele estava gelado, agora está transpirando de forma excessiva e está corado, sinal que seu medo é genuíno, vejo seus olhos focalizarem cada movimento meu, traduzindo qualquer ação para tentar indentificar meu ataque, como se eu fosse fazê-lo.
Os curandeiros se aproximam para ver o que está acontecendo, dois deles se postam ao pé da cama, mas não se aproximam mais esperando que eu vá acalmá-lo e é o que tento.
- Você estava lá, enquanto eu dormia, você irá matar...
- Você está confuso e eu entendo, mas você está seguro. - digo me aproximando com cautela para não o assustar mais.
- Fique longe de mim!
Tentando se afastar mais e me manter longe Ginta acaba me batendo no rosto com o dorso da mão. Fico parada em choque, sei que não foi intencional, mas algumas lágrimas correm por meu rosto e ao ver que Ginta não reage à isso deixo o pronto socorro correndo.
Imagem meramente ilustrativa, já que ela não possui asa... ainda...
***
Oii gente...
Boa tarde e me desculpem pelo atraso de DUAS semanas, sério não era a minha intenção, tive alguns problemas com base em algumas características que quero firmar nos personagens, todos já perceberam que eles não são humanos né? Eles tem asa e moram em árvores então não tem o que dizer, mas isso trouxe alguns problemas que eu não havia pensado, problemas que são anormais e fúteis quando se narra humanos, mas que me fazem pensar ao escolher abordar o que eles são. Características como chorar, transpirar, empalidecer, anatomia corporal e das asas, desenvolvimento, alimentação, visão, essas coisas me renderam boas horas pesquisando.
Segundo, se você está pensando neles exatamente como humanos, vai se surpreender um pouco, algumas características que eles têm não são nada humanas e pretendo descrever aos poucos, ainda estou em dúvida do que eu preservo da anatomia dos seres que os inspiraram, é que acho que algumas coisas deixariam eles muito bizarros então ainda estou pensando se coloco ou não.
Votem e comentem em todos os capítulos, é muito importante para mim e para a história.
logo pessoinhas, espero publicar o próximo logo para que não esperem muito.
Beijos...
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