Capítulo 1: Garota de Inverno

"Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo o nosso vazio."

Khalil Gibran

Borboleta sem Asas

Há poucas coisas no mundo que são horríveis e ao mesmo tempo boas, amar é um exemplo ótimo para isso, é maravilhoso estar amando, mas a distância da pessoa amada nos faz sofrer e isso é terrível, nascer no inverno é assim.

Não para qualquer criatura, para os cilians é a melhor dada, suas presas estão migrando para o sul e muitas delas passam por seus territórios, então há ambulância de alimento e sua espessa camada de pelos impede que sucumbam ao frio das nevascas, por outro lado, para os tolens é a pior, o pasto é escasso, então as manadas tem que migrar para o sul, passando por territórios de predadores, caso algum filhote nasça fora de época, este está condenado, seja por frio, fome ou cansaço, os filhotes tem que nascer na primavera assim como os albianos do bosque milenar.

Para eles, nascer no inverno é um misto de bom com ruim, seu aniversário é apenas seu e não em grupos de dez ou mais, todos esperam que você seja mais forte que os demais, mas também será excluído de muitas atividades e a maioria o temerá.

Para o azar ou sorte de Lair, ela nasceu durante o inverno, diferente das estações do mundo laical dos humanos cada estação de Albius dura alguns anos terrestres. O outono e inverno duram um ano e a primavera sempre mais longa chega à três, então a maioria nasce na primavera ou verão, pouquíssimos no outono e normalmente nenhum no inverno, o período menor de tempo e a baixa fertilidade no frio fez com que naquele ano Lair fosse a única à completar nove anos, embora no calendário gregoriano até o dia anterior ela tivesse treze anos.

Abro meus olhos despertando para um novo dia. Me sento na cama em um salto e tiro a camisa para o espelho, mas novamente não vejo nada, no reflexo minhas costas é lisa e clara, sem nenhuma marca e para meu azar, as omoplatas estão normais.

Deito novamente, me jogando para trás, olho paro o teto de meu quarto por alguns minutos e então tapo minha visão com o braço pouco antes de algumas lágrimas caírem.

- 738... - digo pausadamente para mim mesma, fora 738 dias esperando que meu corpo respondesse à necessidade fisiológica mais importante da minha vida e nada aconteceu. - Deve ter algo de errado comigo.

Depois de estar dois anos atrasada, é certeza que algo não está certo, meus pais perceberam que eu não amadurecia como os outros e por isso comecei à ser acompanhada pelo corpo de curadores de nossa cidade, mas de nada adiantou.

- Por que comigo? Os senhores do ar me odeiam.

Seco as lágrimas e levanto sem humor.

Desço a escada de corda para o patamar térreo, onde meus pais estão conversando, assim que me percebem eles param, contudo, sei que eu era o tema da conversa.

- Então minha borboleta sem asa já acordou? - diz minha mãe, ela costuma me falar que não devemos ter vergonha e nos esconder do que nos torna diferente, mas sim abraçar o que nos torna especial, contudo ainda não gosto do apelido.

- Você deveria estar mais animada, a final seus amigos vão começar à despertar hoje.

- Tem razão pai. - digo um pouco mais animada com essa perspectiva. No outono anterior era para eu ter entrado na fase de pupa, todos meus amigos e amigas haviam se preparado para isso com meses de antecedência e quando chegou a data de hibernar, isso não aconteceu comigo. Os dias do ano foram se passando e em todos eles eu acordava, o que não era para acontecer.

Passar o outono e o inverno sem meus amigos havia sido muito chato, só tinha os meus pais para conversar. Que fique registrado, meus pais são legais, mas não são bons exemplos de únicos amigos para uma garota adolescente.

Mas era eles ou as crianças cinco anos mais novas, isso me forçou à permanecer em casa mais do que o normal e agora estava livre.

Comi depressa, com o ânimo renovado, quem sabe Reissi já tivesse acordado.

Enquanto comia minha mãe voltou à falar que mesmo sob as mesmas condições cada um tinha sua hora de amadurecer, igual as flores na grande mãe, todas recebem os mesmos nutrientes, a mesma intensidade de luz e estão no mesmo ramo do mesmo braço, mas não brotam ao mesmo tempo, ela já disse isso dezenas de vezes em dois anos, o que não tem o efeito esperado já que eu sempre penso nos brotos que não desabrocham e apodrecem sem revelar sua beleza.

Talvez por eu ter nascido no inverno meu ciclo de metamorfose tenha sido alterado e no próximo outono chegue a minha vez, é claro que essa era a hipótese menos séria que falavam na minha frente, mas já ouvir dizerem que talvez eu tenha algum problema, doença desconhecida ou sequela de ter nascido no inverno, mas todos entraram em um consenso, é cedo para dizer já que até agora fora apenas uma primavera atrasada.

Termino minha refeição apressada, mesmo sabendo que é à toa caso Reissi ainda não tenha acordado. Meus pais me desejam um bom dia, então saio, desço a escada de corda da entrada até a plataforma, minha casa fica no sétimo braço da grande cewin, então é bem alta.

Assim como faço diariamente, cumprimento os vizinhos adultos, todos por onde passo me olham de forma estranha, sempre foi assim, sei que cochichavam sobre mim com ou sem minha presença, mas não dou importancia para eles, as crianças menores são as piores.

Ando pelo braço da grande cewin e sigo pela passarela até o braço da grande aurora, para então a contornar pela escada espiral onde trombo com um albiano de armadura, ele me atropelaria sem hesitar e não pararia para ver se estou bem, mas sou mais rápida e saio da frente, abrindo caminho, eles nunca estão sozinhos.

Conto os soldados que passam por mim me ignorando, um grupo de doze, algo anormal, já que costumam andar em trios.

Todos usam armadura completa, o que também não é normal, eles seguem até a plataforma de decolagem e alçam voo, as asas de todos são azuladas, exceto a do líder que é plateada.

Quando eles fecham as asas e se atiram em queda livre corro até a beirada e vejo eles desaparecer na névoa continua. Ser como eles é o sonho da maioria de nós.

Sem a distração, continuo para a grande mãe, a maior de todas as árvores do nosso mundo e o ponto onde se originou nossa cidade, ela, suas filhas e netas menores sustentam todas as plataformas que formam a cidade alta.

Chego a praça e vejo três pessoas feridas sendo carregadas para o centro de cura. Um grupo de socorristas carregava um soldado inconsciente, assim que eles pousaram com a maca móvel outro grupo se encarregou de prestar os primeiros socorros ali mesmo à fim de garantir a vida dele.

Me aproximo e vejo que é um dos soldados que vi agora há pouco. Todos perguntam o que está acontecendo, já que há dois séculos vivemos um período de paz e acidentes não são frequentes em nossas construções.

Os socorristas conseguem despertar o soldado, um deles apoia suas costas para ele permanecer sentado, não está seriamente ferido, mas disseram que ele foi atingido em voo e caiu de uma altitude elevada, então podia ter ossos fraturados ou vasos rompidos, mas sua expressão transmitia confusão, não parecia sentir dor.

- O que aconteceu? - perguntou o socorrista que o apoiava, o soldado ficou calado por algum tempo e então começou a falar.

- Rece... bemos.... um... alerta... dos vigias... Das raízes... - quando ele começou a falar ficou evidente que seu peito doía e ele estava se esforçando muito, mas conforme foi falando, ele melhorou gradualmente.

- Sendo atacados? Por quem?

Perguntou alguém dentre as pessoas que se acumulavam no local, não olhei para a direção da voz, identifiquei a segunda pessoa à levantar a voz e era uma vizinha minha, uma senhora sem filhos que estava com os olhos esbugalhados.

- Porque isso?

- Deixem ele falar! - Exclamou um jovem soldado, pouco mais velho que eu, suas asas nem deviam ser fortes o suficiente para tirar ele do chão.

- Golens do pantano... - voltou a falar o soldado ferido. - Estavam... atacando a base da grande mãe e outras árvores importantes... meu grupo foi enviado... E fomos emboscados.

- Vou chamar a senhora Bétula, nossa líder precisa saber disso, todos vocês voltem para suas casas.

Todos obedeceram, mesmo que a contragosto, todos levantando várias teorias do que estava acontecendo. Eu sei que devo obedecer às ordens dos soldados, mas não posso simplesmente voltar para casa sem ver se Reissi já despertou. Enquanto ainda há bastante pessoas passo por eles e continuo em direção à grande mãe.

Quando chego ao invés de ver vários adolescentes saindo de seus cásulos admirados com a mudança, me deparo com uma cena horrível e grito. Soldados da Aida que estavam a vigiando me cercam e um deles me afasta do local, tento resistir, mas ele é mais velho que eu e muito mais forte.

A grande mãe está morta, ao menos é o que parece, o tronco naturalmente branco e liso está preto e com muitas rachaduras, era para estar florescendo, ontem havia milhares de botões prontos para se abrirem, mas agora estão caindo sem brotar, as folhas na copa estão marrons com manchas amareladas e caem aos montes como se fosse outono e os casulos dependurados nos principais braços, onde meus amigos estão hibernando estão pretos e ainda fechados.

Os soldados estão retirando os casulos e os abrindo à força com facas, vejo Reissi ser retirada do seu casulo, suas asas são lindas, um tom rosado perfeito e pequenas como ela, totalmente formadas, mas minha amiga não acorda.

- O que está acontecendo? - pergunto me aproximando preocupada para o soldado.

- Ainda não sabemos com exatidão, às ordem são para permanecer em casa

Lembro que o soldado ferido disse que estavam envenenando a grande mãe, mas por que fariam isso
e como conseguiram invadir o círculo Heiven Hall?

*Cidade alta

~NOTAS~

Oii gente, acabei de terminar esse capítulo, sabe eu queria muito escrever esse livro à um bom tempo, ele é um novo velho projeto meu, mas não conseguia escrever, agora tendo terminado A Lenda dos Dragões Elementares vou tentar usar tudo que aprendi ao construir um mundo fantástico para fazer essa obra.

Eu tinha o projeto de dois livros, Heiven Hall, o círculo quebrado e A Garota da Neve, dois projetos que eu não conseguia desenvolver, mas agora acho que vai, faltava algo e agora acho que sei o que era, faltava a Borboleta Sem Asas, unindo esses três projetos eu tenho um enredo perfeito.

Então, espero que gostem e dessa vez serei mais regrado, irei publicar toda sexta feira, sendo que sábado e domingo só escreverei Prisão de Pássaros.

Espero cumprir os prazos...😊

Já que a "Borboleta sem Asas" não vai ser minha única protagonista mais estou pensando em mudar o nome do livro para Heiven Hall, O Círculo Quebrado, o que acham?

1. Mantenho Garota Sem Asas;
2. Mudo para Heiven Hall, O Círculo Quebrado.

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