Capítulo 3

Sinto uma pressão firme ao redor do meu braço, mãos pequenas e fortes me arrastando até a superfície. A água turva se dissolve aos poucos, e a luz do dia começa a perfurar o azul escuro ao meu redor. 

 Sol, vento, e sal na pele. Meu peito se expande, lutando por ar. Quando abro os meus olhos, encontro outros dois, azuis, fixos nos meus. cabelo loiro molhado, grudado no rosto. A água ainda nos envolve, até o peito, enquanto ambos arfamos, encharcados e assustados. Ela não diz nada, apenas mantém os olhos em mim, buscando alguma garantia de que estou bem. Tento desviar o olhar, mas ela não permite; a intensidade de seu olhar é quase uma âncora.

— Eu só... — ela começa, mas a frase se dissolve no fôlego curto, os lábios trêmulos, os olhos ainda fixos nos meus, mais um pedido mudo de desculpas do que qualquer outra coisa.

— Está tudo bem. 

— O meu corpo só... se moveu sozinho... 

 — Está tudo bem. — insisto. — Eu... me distraí, só isso. — Tento dar de ombros, mas a água ao nosso redor faz o gesto parecer mais desajeitado do que eu queria.

Ela ri, mas é um riso breve, carregado de tensão e alívio misturados.

— Achei que você não voltaria. — o sorriso se desmancha tão rápido quanto se formou.

Tento repetir as palavras, quase como um mantra: 

— Está tudo bem. — pauso, pois percebo que ainda estamos muito perto um do outro, e de repente sinto uma pontada de constrangimento, como se os seus olhos tivessem me lido por dentro. — Eu não estava, você sabe... — as palavras morrem nos meus lábios. Nem sei o que dizer a mim mesmo, muito menos a ela. Estava me afogando? Tentando fugir de algo? As palavras dançam em minha cabeça, mas todas parecem erradas e fora de ritmo.

Por um instante, o silêncio entre nós se torna pesado, um abismo que só as ondas conseguem atravessar.

— Eu sei, desculpe. — A voz dela vem baixa, como se estivesse desmoronando. — Você afundou e não voltava, então... eu não pensei. Meu corpo só... reagiu. — Sua mão ainda segura o meu braço, um toque que parece tão urgente quanto involuntário. — Eu precisava tentar. Prefiro falhar do que ver algo ruim acontecendo e não fazer nada. Posso lidar com a vergonha, mas não com a culpa.

A sinceridade em suas palavras é desconcertante, algo que parece mais profundo que o medo.

Procuro, mas  não encontro as palavras certas, então fico em silencio, deixando o som do mar falar por nós, enquanto o toque dela ainda me prende, como uma lembrança de que estar à deriva não significa sempre estar sozinho.


•••


Sentados na areia.

Ela encara fixamente o mar à nossa frente, os olhos perdidos no movimento constante das ondas.

Os primeiros raios de sol serpenteiam entre as nuvens, banhando o rosto dela em um brilho suave, quase etéreo. Não consigo desviar o olhar.

— Apesar de você ser lenta e indecisa, é bem intrometida. — Minha voz quebra o silêncio. — Se continuar assim, vai acabar cometendo um grande erro.

Ela se vira para mim, a testa franzida, os lábios ligeiramente entreabertos. Por um momento, penso que exagerei.

— Do que você está falando? — Sua voz sai baixa, mas firme. O rosto dela fica vermelho, e não sei se vai começar a chorar ou me socar. Quero rir, mas algo no olhar dela me impede. — Do que você está falando? — Repete, olhos estreitados, os punhos cerrados enquanto morde os cantos dos lábios.

— Está tudo bem deixar pra lá aqueles com quem você não se importa. — Solto, sem saber exatamente de qual parte de dentro de mim isso vem.

Ela desvia o olhar para o mar, um suspiro longo e pesado escapando de seus lábios.

— Toda vida importa... — Ela diz, quase para si mesma. Depois de um momento, inspira fundo e continua. — Isso me lembra daquele dia... — Sua voz vacila. — Há muito tempo. Eu podia ter salvado... aquele cachorro.

Ela abraça os joelhos junto ao corpo, a postura retraída contrastando com a força que tenta transmitir. Sinto vontade de me aproximar, mas fico onde estou, respeitando a distância.

— Quando eu era criança, vi um cachorro ser atropelado. — O vento bagunça seu cabelo, e ela ajeita uma mecha atrás da orelha com delicadeza. — Ainda estava vivo. Não havia mais carros. Havia tempo suficiente para salvá-lo.

Seu olhar se torna nebuloso, como se as memórias a envolvessem.

— Mas eu fiquei parada. Só olhando. — Sua voz está quase inaudível agora. — Fiquei tão frustrada por ser tão fraca, tão patética. — Ela se levanta lentamente, caminhando até a beira do mar. Quando se vira para mim, seus olhos são uma tempestade entre cinza e azul. — Então, na próxima vez que algo assim acontecer, quero poder correr. Quero poder agir.

— Você provavelmente conseguiria agora. — Minhas palavras parecem atravessar a barreira invisível que a mantinha retraída.

Ela respira fundo, e um sorriso melancólico atravessa seu rosto, quase como um raio de sol em meio às nuvens.

— Isso seria bom. — Ela finalmente diz, voltando o olhar para o mar, a voz carregando um alívio quase imperceptível.

— Espero que o seu celular tenha sobrevivido ao mergulho. — Comento, tentando quebrar o silêncio que havia se formado entre nós.

Ela se vira rapidamente, com um brilho de provocação nos olhos.

— Por quê? Você quer o meu número?

Fico sem resposta, rindo para disfarçar minha surpresa.

— Eu não tenho celular. — Ela continua, dando de ombros. — Acho que eles estão adoecendo a nossa geração.

— E como eu vou te encontrar de novo? — Pergunto, tentando soar casual.

— A gente se esbarra por aí. — Ela diz, com um meio sorriso. — Não é como se estivéssemos na maior cidade do mundo.

Há uma certa leveza nas palavras dela, mas algo mais profundo se esconde ali, como as ondas que vêm e vão.

Cabelos loiros, jeans desbotado... fico observando enquanto ela se afasta, desaparecendo pouco a pouco.

Ela está na minha cabeça agora, grudada como uma melodia. Às vezes, você só precisa ouvir alguns segundos de uma música para saber que ela vai ser a sua favorita.

Brigando, gritando, xingando, fugindo, mergulhando, quase me afogando... 

Deitado na areia da praia, tento processar tudo. Mas os sentimentos vêm todos de uma vez, como uma supernova, violentos e sem aviso. Não consigo filtrar nada.

Mas isso não é o fim. É apenas o começo.

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