• C A P Í T U L O VI •

   𝓝um pequeno decurso de tempo, eu e meus pais ficamos unidos aproveitando os momentos em família, inclusive o meu aniversário advir como o último dia. Não havia motivos para festejar. Eu não queria. A ocasião era desfavorável para alegria, a não ser, a causa da nossa decisão de estarmos juntos até o último suspiro.

   No alvorecer do lamentável dia, somos escoltados por soldados enquanto perseguimos rastros de animais selvagens entre a vegetação lenhosa e espaçadas, ocupadas na vasta extensão da floresta. Capturar animais, intencionalmente para tais fins como lazer era uma prática comum entre a nobreza aristocrata, mais precisamente para os homens. Todavia, minha mãe, como mulher, teve uma educação privilegiada, por assim dizer, pois além do arco e flechas, rastrear animais também foi algo que fez parte de sua infância na Escócia. Deste modo, ela visava a obtenção da perpetuação de tradições, perseguindo e abatendo, entre outras como justificativa do ser-humano de estar centrado no mundo.

   Sob a penumbra da densa cobertura de árvores altas, a andadura marchada de Dark nos mantinha a dois metros atrás de meus pais. O rei montava um cavalo mouro de pêlos interpolados em branco e preto, acizentado com reflexos azulados mas com a crina e cauda completamente negros. Ao passo que o alazão da minha mãe tinha pelagem avermelhada com crinas trançadas, ambos andavam com passos cadenciados e combinados, enquanto o casal, um ao lado do outro exibiam grã-finagem com seus trajes de montaria. A medida que ela andava à caça com seu amado, eu seguia a beleza da rainha revestida pelo traje ricamente bordado da longa saia sobreposta no dorso do cavalo, a jaqueta em tendência masculina era devidamente modelada no seu corpo esbelto, e o cabelo ruivo semipreso estava à sombra do chapéu com as penas mais bonitas que se pudesse encontrar.

   A transição deles entre a faixa intervalada da vegetação em período de estiagem, em suas formas de contato assemelhavam-se num jovem casal recém casados e fervorosamente apaixonados. A entrega de risos lisonjeiros aveludavam o cenário romântico, progredindo com toques de mãos na medida de seus talantes. A devoção entre os dois se tornava algo admirável. Era apreciativo. Era como se eu tivesse sido transportada para quase duas décadas antecessoras e testemunhasse aquela união arranjada que de fato deu muito certo. Foi incontestável. Perfeito.

   Meu pai havia sido educado, obviamente, por regras rígidas de acordo com o parlamento, mandamentos no qual o tornava autêntico, o legítimo rei de Virgínia. Portanto, minha mãe foi a diversidade na educação para mulheres. Ela era sim, refinada para uma boa esposa de acordo com as regras postas da sociedade, porém ela também era mais livre. Conduta adicional que intensificou a paixão de meu pai. Ele era um homem gentil e amou o companheirismo, e não apenas a mulher decorativa que a lei determinava. Aquela contradição aguçou o relacionamento dos dois. Era um contraste entre o sonho e a realidade.

   Ele sorria. A fisionomia alegre do rei era claramente visível. Sua expressão conspícua ressaltava a vista diante do grande amor que perdurou ao longo dos anos. As lágrimas preencheram minhas órbes, da mesma forma que o conhecimento acrescentou-se nas falhas inscientes sobre a dor que a solidão causava no seu coração. Ele sofria, previamente, pela perda.

   — Clara, minha flor.

   Eu, que até naquele momento estava inerte, indiferente, diante daquele casal, ergui o olhar e vi minha mãe com a expressão astuciosa, apeando do cavalo.

   — Venha por aqui. — sussurrou, acenando a cabeça para a esquerda. — De acordo com os rastros, deve ter algo logo atrás daquele tronco caído.

   Apeei do cavalo e ajustei a bainha da jaqueta ao endireitar a postura. Observei a pegada no solo desprovido de umidade, a marca de dois cascos pequenos e separados revelava ser de um cervo. Contudo, eu deixei Dark com os outros dois cavalos, cativos pelas ervas rasteiras que somavam com toda a vegetação, e segui os passos dos meus pais, sorrateiro, até ficar de cócoras na sombra daquele enorme tronco estendido.

   — Você quer tentar? — meu pai murmurou, estendendo o long rifle.

   Senti um sorriso vacilante se formar nos meus lábios. Minha cabeça balançou em negação, e eles compreenderam. Meus pais sabiam que para mim era difícil estimar a modalidade de caça, porém eu exercia para agradar minha mãe, que muito me aprazia vê-la feliz. Mesmo que precisasse ceifar o pobre cervo, se caso ela insistisse.

   — Minha flor. — ela agarrou o rifle que ocupava as mãos do marido. — A caça existe para não haver uma superpopulação de animais, onde eles acabariam sofrendo por falta de alimento no rigoroso inverno.

   — Eu super entendo, mãe. Por isso vou deixar para a senhora, pois não quero desapontá-la com a minha falta de prática. — esboçei um sorriso coagido, estimulando-os a rirem da causa risível.

   Ela, por sua vez, usou o tronco como estabilidade para o cotovelo dominante. Usou a mão esquerda para servir de apoio na frente do gatilho, enquanto a outra destrava a pederneira, conforme a coronha forjada em prata descansava no ombro sob a bochecha, para enfim poder ajeitar uma boa mira.

   Mirou naquele animal grande que arrancava e mastigava a grama espessa. De pelagem alaranjada com o ventre esbranquiçado, membros e cauda enegrecidos, no topo da cabeça tinha a ausência das galhadas ramificadas mostrando-se ser uma fêmea. Minha mãe inspirou uma vez admirando o alvo mover seu corpo robusto em frente a área vital, quando de repente, outra criatura com pelagem da mesma cor mas com manchas esbranquiçadas, revelaram o filhote camuflado por detrás de uma planta constituída por folhas largas e perenes, debruçado, esperando a mãe retornar para amamentá-lo. Bati com a língua nos dentes, ao passo que minha mãe deixou escapar um bafejo da boca, nos esquecendo da audição sensível daquela cerva que ergueu a cabeça com as orelhas aprumadas. A fêmea atentou-se, e minha mãe disparou.

   Disparou para o alto.

   As aves sacudiram os galhos das copas ao voarem pávidas, formando-se em seguida num dossel fechado, coincidente com os dois cervos que fugiram na direção contrária, para a vastidão da clareira que os absorveram. Meus pulmões arderam, pois parecia que eu tinha esquecido de como respirar, então em uma lufada, eu engoli oxigênio.

   — O filhote vai precisar da mãe. — seu boquejo acariciou meus ouvidos, porém teve efeito antagônico em meu coração.

   Eu olhei para ela com ardor nas retinas.

   — Eu também preciso de você, mãe. — balbuciei, lançando-me em seus braços emitindo um choro com veemência.

   — Eu sinto muito, minha flor. — tartamudeou, afagando meu cabelo. — Tudo tem seu momento. Onde uma coisa cai, outra cresce. Talvez não o que estava lá antes, mas com algo novo e maravilhoso também.

   — Eu prometo, mãe — voltei a encarar suas órbes celestes contornadas por carmim. —, que darei o máximo para me igualar na rainha que a senhora se tornou para Virgínia.

   — Tenho certeza que será a melhor. — depositou um beijo em minha testa.

   Eu não estava segura para levar os créditos. Receber o título com magnificência poderia ser uma mera ilusão. Tudo dependeria do parlamento, visando precipuamente da igreja, o que tornava na prática, inverossímil. Portanto, eu queria acreditar no impossível, no fausto acontecimento. Por um triz, nós queríamos.

•••

   Passamos o restante do dia explorando o território de Virgínia mediante os campos montanhosos e, outrossim, salpicando o capim na planície vasta e aberta, nós ainda galopamos pelo prado, na predominância da vegetação rasteira e arbustiva.

   Em decorrência, descansamos à sombra fresca de aprazíveis árvores reunidas em capões nas margens de um lago, que nos acolheu num ambiente agradável para reverenciar a poesia das andorinhas com a cacofonia atenuante do vento cruzando os galhos da vegetação lenhosa. Aproveitei e mostrei meu vínculo com ar, rodopiando folhas secas e chacoalhando arbustos para folgazar com graça. Nossa atividade idílica foi apreciada com a refeição consumida ao ar livre, enquanto fomos acomodados na grande toalha em tons alaranjados desfrutando dos assados e pães quentinhos aglomerados no cesto de vime. Favorecendo o convívio amistoso com reciprocidade, desfrutamos daquele momento tão bom e único. E o último.

   O passeio se estendeu no litoral de Virgínia, onde a água calma trazia a maré relativamente alta banhando nossos pés descalços quando veio ao nosso encontro. O mar foi saudoso, evocando lembranças agradáveis da minha infância como quando eu desfrutava de mergulhos com minha mãe, e durante aquela tarde, eu pude vivenciar mais uma daquelas recordações.

   Com menos vestimenta e mais desleixados, sem nos importar com a inconveniência, nós brincamos descabidos pela faixa de areia perseguindo uns aos outros num ritmo contínuo. A água se manifestou suscita ao riso por meio de comicidade, agregando para nossa diversão suas ondas folientas e refrescantes. Por alguns instantes, a perda que sucederia mais tarde acabava escapando de minha memória, me deixando absorta em meio daquele frenesi de sensações.

   O entardecer calhou com cores quentes no céu, contrabalaceando com azul e o verde do mar. Aquela água cristalina foi extremamente convidativa para presenciar o belíssimo pôr-do-sol. Eu e meu pai abraçamos minha mãe, sentados na areia fofa diante da paisagem magnífica do sol descendo preguiçosamente, com a corrente da água balançando para um lado ora para o outro. A mesma água que sempre foi transparente e que naquele momento estava num tom dourado, sendo cada vez mais atrativo em vislumbrar aquele espetáculo.

   Minha mãe suspirou. Ela estava feliz, porém seu ânimo já requeria esforço, faltando fôlego para tanta predisposição.

   — Está sendo um dia maravilhoso, mas talvez agora seja necessário retornar para Swallow. — a voz dela parecia mais frágil, com as cordas vocais fraquejando seu exímio.

   Levei meu olhar ligeiramente à ela, notando uma feição com traços cansados e olhos fundos destacados por uma pigmentação mais escura na região das órbitas. As lágrimas preencheram seus olhos pelo teor de sua vida perder o alento, porém os seus lábios mostraram um sorriso cedido à vontade de outrem. Apesar da dor entesar meu âmago e as lágrimas teimarem para sair, tanto eu quanto meu pai, concordamos apenas com um sorriso ameno, pois já havíamos decidido transformar aquele dia em uma bela recordação.

   O rei serviu de amparo para ela se por de pé, pois seu corpo assemelhou-a numa aparência cansada. Suas mãos quase inaptas precisaram de auxílio para ajustar a vestimenta decentemente, e uma pontada no meu peito intensificou ainda mais a apreensão em relação a perda. O medo da hora que se aproximava, pois era curto. Não tínhamos muito tempo.

   Entretanto, meu pai levou sua esposa a galope para um percurso que se tornou tão doloroso, quanto o dia que descobri toda a verdade. Galopeei em Dark guiando a montaria da rainha, com a perspectiva de controlar um choro abusivo, com lágrimas que corriam copiosas, com a dor implantando suas raízes tão fundo, no côncavo de minha alma. Era inevitável acalmar meu coração. Era improvável aceitar aquele destino.

   Ao retornar para o Castelo Swallow, minha mãe sentiu que necessitava de um descanso. Optou repousar no recinto descoberto no interior do castelo, assentando na poltrona para bebericar um chá de erva cidreira com a companhia de minha presença, ao mesmo tempo que desfrutava da vista do céu com nuvens acinzentas. Ali, a rainha revelou sua perturbação diante da ideia de dormir, no medo de um simples cochilo se tornar uma fatalidade por não readquirir força para despertar em vida. Seus olhos pareciam estar cada vez mais pesados, custosos para sair do ritmo compassado. Sua boca estava ressecada, hidratado miseravelmente pelo chá em períodos mais alongados, enquanto sua expectativa de apaziguar as incabíveis tormentas piscicologicas eram meras diligências.

   Uma produção sonora passou a percutir vibrando na sala secundária que ligava naquela área externa, um som agradável e encorpado que se propagou alto pelo ambiente. Estiquei as vistas para averiguar o instrumento robusto em mogno e o responsável pela melodia que minha mãe apreciava. O rei dedilhava com maestria nas mais de oitenta teclas do volumoso piano de cauda, sentado elegantemente na banqueta estofada, ainda que sua roupa estivesse toda amarrotada e suja de areia. Sua tentativa era uma busca minuciosa como medida necessária, uma distração da poesia chorosa soletrando sentimentos, arrancando sorrisos singelos e de bom agrado de sua amada esposa.

•••

   O requinte da enorme mesa de jantar primorou com os adornos da louça banhada a ouro. Porém o rei sentado na grande poltrona na ponta da mesa, apresentava uma expressão abatida, como se estivesse numa ausência de plenitude perdido num emaranhado de pensamentos frágeis. Desde nossa chegada ao castelo, eu também havia me tornado alguém de poucas palavras e, naquele momento, inerte sob o efeito do medo. Uma carência de energia, inanimado diante da morte.

   A rainha estava atrasada, no entanto. Ela havia decidido, com antecedência, subir ao seu aposento com a sra. Susanne e banhar para o jantar, nos deixando a sós por minutos consideráveis torturantes, após também estarmos devidamente limpos. Naquela mesa, estávamos acompanhados pelo peso dos nervos simultâneos com a ardência tensional em cada arquejo. Em vista disso, não obtive outra alternativa a não ser acompanhar, por detrás dos lacaios, os ponteiros do relógio e no movimento pendular que trocava de posição na sua mesma trajetória. Era um misto de sensações dentre o tic-tac e as batidas do meu coração.

   O vulto esguio no vestido rosa me despertou da divagação de pensamentos, trazendo aquela condição autêntica assentar sobre nós mais uma vez. Minha mãe estava pálida, de uma tonalidade absurdamente lívida. Por um minuto eu deixei de respirar. O susto atou nossas vozes, no mesmo instante que olhei para o rei de face descorada. Eu podia jurar que aquele tirante amarelado de sua pele refletia na minha fisionomia.

   — Minhas sinceras desculpas. — ela oscilou a voz com rouquidão, contrariando a harmonia da fonética. — Eu não consegui estar a altura desse jantar. — apoiou os dedos na boca ressecada, e engoliu o choro que insistia emanar de seus olhos.

   — Você está linda, minha querida. — ele se ergueu tão depressa quanto as suas pálpebras piscaram. Segurou suas mãos apertando com delicadeza os dedos compridos, enquanto tentava não escancarar uma varredura no semblante assustador de sua rainha. — Eu sei que essa condição molesta lhe aborrece, mas o que importa agora é que a sua radiante presença propaga um sentimento bom e intenso. — sorriu, guiando suas órbes azuis e fundas para minha direção.

   As lágrimas passaram a denotar lentas em minhas bochechas, da mesma forma que surdiu no rei de Virgínia. Era doloroso vê-la com o corpo lânguido, onde também necessitava ser servida de apoio para conseguir assentar uma simples cadeira.

   O rosto feminino que era favorecido vigorosamente tinha sido desencantado, apresentando um estado mórbido com enfermidade. As olheiras estavam destacadas num tom arroxado devido ao pigmento sanguíneo, e sua boca estava marcada por pequenas ranhuras na camada fina de pele demasiada seca. Em seus lábios fendidos formaram-se um sorriso terno quando examinou sua filha sentada à sua frente, me incentivando a contribuir uma miséria de encorajamento através da minha expressão facial, ao mesmo tempo que sequei minhas lágrimas perante aquele destino desditoso.

   De forma esmerada, os criados deixaram os pratos abastecidos com o caldo para aquecer o estômago. O odor deleitante emanou daquele preparado de frango embriagando minhas narinas para despertar a fome, onde eu foquei no aspecto qualitativo dos ingredientes sentindo o desânimo reprimir ações que já eram aprisionadas, regendo como conformidade mortal. Tanto eu quanto meus pais ficamos imersos nos próprios pensamentos, sob o tirlintar dos talheres nos pratos de porcelana. Minha mãe derrubou as pálpebras para degustar uma derradeira satisfação advinda daquela refeição. Todavia, meu desempenho para engolir uma pequena porção de carne estava sendo exercida com dificuldade, enquanto meu pai bambeava a colher entre seus dedos sem ao menos tocar no próprio alimento.

   — T-talvez seja melhor... d-deitarmos mais ce-do... — minha mãe falhou na voz afônica, levando nossas vistas para o rosto que perdia a vitalidade de forma brusca. O tom amarelado predominou na sua face, abruptamente, intensificando a brancura na boca e o envelhecimento no azul de seus olhos. Parecia uma aparência sem vida. — Eu... eu... — titubeou o dorso sob efeito da debilidade.

   — Mãe...?

   Antes que eu concluisse com o questionamento, minha mãe perdeu a consciência tombando a cabeça para a direita, sendo acolhida agilmente pelas mãos de meu pai.

   — Ajudem! — o rei ordenou com prostração, e os lacaios que vigiavam foram ágeis segurando o corpo incônscio antes que pudesse desmoronar no chão. — Levem-na para o quarto. — com a voz trêmula, ele ficou desnorteado agarrando o próprio cabelo. Ele parecia um homem qualquer, sem títulos ou um reino inteiro, apenas alguém que sofria por um amor. Pela perda de seu grande amor.

   Aquela cena aliciou meu peito, criando nós nas veias e nas vias respiratórias. Meus pulmões ardiam. Meu coração era desvairado como aquela cena precavida. Eu estava estagnada. Tentando assimilar entre borrões da minha visão deslustre, o meu pai governar uma comoção violenta, seguindo os lacaios a levarem para o aposento da rainha. Afundei inconscientemente, como se uma torrente do meu coração fosse derramar-se em meu peito. Lacrimejando com olhos rasos e congelados num berro inaudível. O tempo havia acabado. Aquele era o momento que faltava para a sua morte.

•••

   O tempo, entretanto, morria. Maculado precipitadamente por resquícios de vida, como as batidas estridentes do meu coração. Fazia mais de meia hora que meu pai encontrava-se no interior do aposento da rainha, me deixando do lado de fora com a expressão inanimada e a falta de vivacidade nas sensações, sentindo apenas as mãos frias de Margot acalentando as minhas que sofriam uma trepidação nervosa. Em defronte da porta daquele quarto, nós esperávamos por notícias das quais eram óbvias, as mesmas em que todos, com antecedência, estavam cientes daquela certeza fatalista e de fato, inquestionável.

   A fechadura ameaçou pôr fim naquele aterrador nefasto, abrindo a passagem para o indesculpável destino. A sra. Susanne parou na soleira da porta, entre o desfecho trágico e a pronunciação que não podia ser prorrogada, então ela disse:

   — A rainha deseja vê-la.

   Fiquei por instantes num estado de irresolução, pois não imaginava que aquela despedida fosse capaz de devastar qualquer ato de coragem. Por causa disso, eu respirei fundo para aprumar a mente, titubeando em dois passos antes de conseguir guiar minhas pernas com prudência.

   A atmosfera taciturna da noite infundia pavor, deixando a penumbra de pouca luz das velas em castiçais, iluminar fracamente o ambiente. O rei ao lado da sumptuosa cama dossel, acompanhante da minha mãe deitada em seu leito de morte, acomodada em almofadas de seda ainda que estivesse com o vestido rosa e bufante. Um momento fúnebre que acarretou uma melancólica e assombrosa sensação, com o efeito da corrente fria perambulando na espinha.

   Os pilares esculpidos nas extremidades da cama serviam de moldura para as cortinas de veludo carmesin com bordados enriquecidos em pérolas e fios de ouro. O tecido tinha a consistência suficiente para não sacudir-se com o vento, porém a cortina voal da janela esvoaçou-se com a ventania algures, do tempo que rasgava as nuvens acinzentas no fundo sombrio daquele céu umbroso. A andorinha amiga surgiu sacudindo as asinhas, sem tempo para pousar devido aos tabefes que a sra. Susanne lançou para expulsá-la, então a passarinha deliberou aceitar mergulhar na escuridão lá fora. A governanta aparou o ímpeto sopro do vento quando fechou a janela de forma abrupta, encerrando aquele lapso de pensamentos que vagavam pela minha mente.

   O rei levou minha atenção consigo, quando seus traços suavizaram me dizendo palavras mudas e condizentes num único olhar, como convite para sentar ao lado de minha mãe assim como ele tem feito no lado oposto da cama.

   — Ve...nha..., minha flo...r. — além da perda parcial da voz da minha mãe, a rouquidão na respiração também tornou-se irregular. O convite dado arrematou com o vacilante sorriso no falto de sua força, erguendo a mão definhada para procurar afago na minha.

   Eu, no entanto, assentei no colchão acetinado e revestido pelo fino lençol de linho, e então segurei seus dedos tão gélidos quanto a rigidez deles, com as pontas azuladas, unhas enegrecidas e manchas alastradas decorrentes na região do antebraço. Apertei os lábios e senti uma pontada no peito, sendo inevitável segurar as lágrimas que, inicialmente, eram retidas. A minha mente não queria ser convecida que eu estava perante a fatalidade daquela que mais havia me amado e, outrossim, a sua aterradora fisionomia com tonalidade anêmica, das linhas finas sem elasticidade na pele, como a procidência das pálpebras sobre a ausência de viço no azul opaco de seus olhos.

   Aquele semblante cadavérico parecia estar sucumbindo por um ardil ataque vindo do imo de sua alma, no qual extorquia os sinais pouco a pouco, sugando seu espírito.

   — Não... me ar...rependo do que... fiz. — com dificuldade, ela arfou com frequência. — Eu fari...a tudo de... novo. — deixou a boca semiaberta pelo efeito gradativo do rouquidão dos pulmões. Por causa do seu empenho, ela apresentou uma agitação de borbulhas de oxigênio na saliva através da garganta ruidosa.

   — Mãe, não se esforce. — lágrimas copiosas escorreram nos meus lábios inundando a súplica lacônica, porém ela ignorou e continuou dizendo: 

   — Vo...cê se tor...nou a flo...r que me sal...vou. — reforçou sua persistência para erguer a mão, esticando o indicador para meu peito, diretamente no coração. — É fo...r...te como a raíz fir...me da flor.

   — Mãe — balbuciei, apertando seus dedos absurdamente frios e com tremores ocasionais contra meu peito. —, fica comigo, por favor.

   — É o be...m mais precio...so que algué...m pode...ria te...r. — já era quase inaudível a sua voz, e a sua perda de reflexos já estavam evidentes.

   — Você foi uma mãe maravilhosa, meu amor. — meu pai afagou as madeixas ruivas dela e estalou um beijo na testa, repousando seus lábios trêmulos na pele pálida ao dizer: — Eu te amo tanto. — arrematou com suas lamúrias, permitindo-se chorar pela dor que guardou durante esses anos antecedentes. Pela dor de ter que perdê-la. Por não ter conseguido mudar o fado trágico de sua amada.

   Eu não tive bom êxito para deixar de chorar, deplorar aquele infortúnio destino. A dor também fez sua morada em meu peito, e entalou na garganta ocupando tudo que havia de mais recôndito. Não havia um recanto do meu corpo que estivesse livre daquela dor.

   Sua mão ainda era aprisionada pela minha, sofrendo tremores e suando frio de acordo com o ritmo cardíaco que ficava cada vez mais acelerado, deixando ela ofegante em estado de agonia pelo escasso ar que se perdeu nos pulmões padecidos em anomalia. A incompetência me dominou por não saber o que fazer. Por não ter aptidão necessária para amenizar o seu tormento. Por não ser capaz de arrancar aquela maldição que decretou o término de sua vida, em uma falência gradativa e iminente.

   Neguei com a cabeça no momento que senti sua mão pendente num estado de torpor, despedindo-se de mim e tombando no colchão. Despencou-lhe também seus sinais vitais, e tudo o que atravessou nossos ouvidos foi o último fôlego que evaporou com a fraca voz na vasca de sua morte:

   — Eu amo... v... — ela não conseguiu consumar suas palavras, afundando num estado de inconsciência profunda ao congelar seus falecidos olhos vagos.

   — Não, não, não... — eu desabei inconsolável sobre o corpo incônscio e enrijecido, manifestando dor ao soar plangente da estrepitosa tortura que contraía meu coração. — Eu te amo, mãe... Eu te amo.

   Meu pai também desfiava lamúrias. Acompanhando a dor açoitar até os profundos recantos da minha alma, o desespero por suplicar clemência, pela esperança de poder reverter aquela maldição. Ele me amparou com um abraço, e na minha mente percorreu os fatos que minha mãe havia me contado dias atrás.

    Não era pra ser com ela...

   Aquilo não devia ter acontecido e, infelizmente, não podia ser desfeito. Era, deveras, um definitivo arremate e um longoroso martírio. O sacrifício da rainha de Virgínia.

•••

"Ser corajoso é fácil. Tudo o que precisa fazer, é ser mais assustador do que qualquer coisa que te assusta."

Bambi.

•••

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