• C A P Í T U L O IX •

A totalidade da lua cheia era visível entre os pinheiros e outros galhos desfolhados de algumas árvores. A neblina se estendia pelos arredores se partindo nos troncos sobre o luar sombrio que pouco iluminava, deixando tudo ainda mais assustador quando mergulhamos completamente no bosque. Um gentil caminho de terra entre arbustos e plantas nos guiava para a profundeza do bosque, conforme os cascos de Dark nos levava de mansinho por entre alamedas de pinheiros e outras árvores esguias de lenho perfumado. O assobio do vento, o som de rãs e pequenos insetos anunciavam o cântico da vida silvestre. A região não era preservada por atropelos humanos, emanando uma atmosfera misteriosa e de fato, perigosa.

- Dark, está tudo bem. - acariciei suas crinas quando percebi que abateu o andar.

Engoli a seco e olhei em volta. Não via nada. Com o cesto adornando o braço e a lamparina na mão, o bosque estava como fumaça esbranquiçada na penumbra na escuridão. Ergui a mão aumentando o feixe de luz, forcei as vistas e com dificuldade consegui perceber o tronco caído pelo caminho. Por mais que ignorasse a verdadeira relutância de meu amigo, eu não precisava de um dom para compreender um animal, pois qualquer um teria a capacidade de entender que o perigo poderia estar a espreita, e que Dark o sentia por perto. Portanto, a atroz vontade de vingança sobressaía com mais intensidade, não me restando dúvida que aquela era uma grande oportunidade.

Apeei do cavalo e envolvi meus braços em volta dele, colando sua cabeça na minha.

- Fique calmo, meu amigo. - minha voz soou abafada e trêmula, pela sensação gélida que perambulava meu corpo, acompanhando minha covardia e o medo do fracasso. - Também estou com medo, então... fique comigo. Só me resta você agora.

O Frísio bateu o casco fortemente em resposta e relinchou enraivecido. Era compreensível. Pois, quem em sã consciência entraria num bosque maligno a mercê de criaturas assassinas? Nem mesmo meu amigo acreditava na tamanha irresponsabilidade e desamor que minhas atitudes poderiam trazer para nossas vidas. Não era prepotência. Nem tirania. Eu não queria desgenerar ambas qualidades para meu próprio domínio. Eu apenas queria de volta o que me fazia falta. Não me contentaria com fantasmas do passado onde minhas memórias não seriam êxtase, mas pelo contrário, eu queria traçar meu próprio destino, e minha peculiaridade traria de volta o que estava sendo tragado. Uma desolada alma desejando o impossível em meio da escuridão com sua ignorância humana.

Convicta entre a ilusão, as minhas mãos abraçaram meu amigo com mais força, enquanto umedeci os lábios com a solitária lágrima que escorreu sobre minha pele suando frio.

- Por favor, eu preciso tentar.

Com o focinho, ele esfregou brandamente na minha bochecha acalentando minha angústia, da mesma forma que seu medo era acalmado. Porém, diferentemente, a brisa nos tocou suavemente causando mais frio, erijencendo os poros e erguendo os pêlos, deixando o calor do contato físico cada vez mais inútil e miserável.

Os arbustos chamaram nossa atenção quando dançou com o vento e seus frágeis galhos se partiram logo em seguida. Os assobios entre as árvores atormentaram meus ouvidos deixando os sinais vitais oscilarem apressadamente, dissipando a calmaria em frações de segundos. Ergui novamente a lamparina, iluminando os arbustos que estremeciam levemente, conforme a névoa era sutil ao se pôr em partes com o vento.

- Está vendo, Dark, é só o vento.

Uma grande quantidade de saliva desceu com dificuldade pela garganta. Eu queria crer que era apenas o vento, e foi isso que mantive na mente para não desvanecer minha coragem. Portanto, de outro modo, Dark deu dois passos atrás com relutância e minhas mãos o proibiram quando segurou as rédeas como impulso, e ele parou. Ficamos ali imersos na escuridão assistindo o olhar um do outro, onde meu amigo demonstrava aversão natural pelo o que considerava hediondo. Passamos a ouvir o ar frio entrando nas vias nasais e se agravando como uma nuvem de vapor saindo da boca.

O medo. O medo insistia em se fazer presente.

Apertei os dedos no couro das rédeas e puxei o Frísio hesitante por instantes, onde finalmente contribuiu para seguir o percurso do leste, na direção daquele tronco estendido.

Fungos salpicavam o chão úmido e sombreado, como os cogumelos hospedados no tronco caído que bloqueava o caminho, nos desafiando a saltar por cima e continuar a traçar nossa trajetória. Nas alturas, a lua me seguia dentre os galhos com sua dispersão de luz, que por outro lado, decaiu na umbra mal refletida quando a neblina começou a ficar mais densa. Os passos de Dark ficaram mais pesados e lentos, porém continuei puxando as rédeas para acompanhar a lua no bosque absorvidos por sombras, com a obscuridade se espelhando nos sinais de perigo. Nas minhas mãos acumularam suor sobre o couro das rédeas, e meus passos ficaram mais cautelosos quando o vento soprou e trouxe consigo um odor repugnante, de podridão, o cheiro de morte. Entortei a boca levando o pulso no nariz, pois aquele odor fétido entalou na garganta causando náuseas. Meu estômago revirou quando tentei respirar um pouco de ar fresco, quase deixando escapar o líquido ácido que subiu pelo esôfago.

"Hu Hu Huuu!"

Dei um salto de susto e um gemido apavorado. Com os batimentos cardíacos desregulados, a saliva escorregou ardida pela garganta conforme tentei forçar as vistas e iluminar mais uma vez a dianteira com a lamparina, me permitindo visualizar fracamente o borrão sombreado da coruja vocalizando com alta frequência sobre o galho de uma árvore.

- Coruja maldita. - resmunguei.

Minimamente contida, dei dois passos adiante com um nó na garganta, sentindo o medo se aliar com o vento frio e soturno, que passou de forma mansa bem rente ao ouvido, sussurrando promessas sorrateiras e me inebriando com carícias frígidas.

Escutei algo logo atrás de nossa retaguarda, como o som do rastejar sobre a terra e de folhas secas. Olhei por cima do ombro, vendo apenas árvores se agitando com o vento, e torci o nariz com o repentino odor de carniça que subiu com a ventania. Os frágeis galhos eram esmigalhados repetidas vezes, zombando do meu consciente levemente decaído por começar a pensar no remorso que pesaria sobre minhas costas. Engoli a seco e apertei os dedos. Relutei. Porém continuei a caminhada.

A pequena cesta presa em meu braço acompanhou meus curtos passos, na medida que aquele clima pestilento aumentava a cada instante como a neblina bloqueando a visão nítida. As folhas e galhos estalavam e persistiam a quebrar atormentando nossos ouvidos e abatendo nosso andar instantaneamente. Mesmo com dor nas retinas, era praticamente impossivel averiguar o que quer que esteja se movendo pelos arredores, pois o vento não estava forte o suficiente a ponto de balançar os arbustos com persistência.

Obviamente tinha algo a espreita.

Tudo se calou quando um estrépido de madeira se partiu subitamente. Arregalei os olhos assustada direcionada ao leste de onde o estridente som havia emitido. O galho parecia ter se partido sem esforço, e aquilo causou um medo indescritivelmente assustador. Outro estrépido de madeira se quebrou ao lado oposto, levando meu olhar consigo e extraindo um gemido assustado da minha garganta. Dei um par de passos atrás e senti meu cavalo encontrar minhas costas, porém ele estendeu a cabeça pro alto na expectativa de recuar e sair daquela cena horripilante. Batendo os cascos consecutivamente no chão, Dark estava cada vez mais inquieto pela agitação frenética do animal que aparentemente andava em circulos. Minha cabeça acompanhou o ruído das folhas secas sendo pisoteadas, mesmo estando difícil decifrar de onde vinha exatamente aquele som. Parecia uma brincadeira com suas presas.

Aqueles bons pensamentos que antes me pertenciam, passaram a entrar em discórdia com as preposições do povo sobre tais predadores e... A bruxa. Minha consciência se atemorrizou pela falta de conhecimento do mau que aquela mulher diabólica podia causar. O arrependimento estava vindo a tona. Comecei a questionar minha insanidade por deixar o palácio e adentrar um bosque repleto de maldade e perigos horrendos. Tudo por vingança. Por impulso. Até quando minha tendência de ignorar pressentimentos, afetaria a minha e a vida de amigos por agir como uma criança mimada e impulsiva?

O ar pútrido impregnava as narinas com ardor. Revirava minhas entranhas com aversão, causando náuseas e pontadas de dores na cabeça. O ambiente estava insuportável, emanando maldição e com cheiro de morte. Eu precisava sair dali. Estava ofegante. Apavorada. Arrependida. Olhei em volta, mas não encontrava nada além do nublado na escuridão. Não sabia onde estava e nem como voltar o caminho, apenas entendia que era o alvo de algo grande e que precisava fazer algo, com urgência.

- Eu sinto você. Eu escuto você. Eu preciso de você.

A calmaria era extinta. Em meus ouvidos cruzavam aqueles ruídos assustadores dificultando minha concentração para encontrar o ar. Fechei os olhos e respirei fundo. Mesmo com a confrontação dos meus órgãos à trabalharem normalmente, eu me esforcei até o limite para sentir o ar me tocar com leveza, decorrendo em minha pele com mais intensidade e sentindo sua conexão com meu desespero e súplicas. Os zumbidos invadiram meus ouvidos com persistência, como vozes conjuntas em um único timbre. A capa vermelha levitou se estendendo para o alto, como também a barra do vestido claro que elevou como companhia. Além das vestes, meus pés se despedirem do chão levitando com as folhas secas que giraram em minha volta como um rede moinho.

"O perigo... Ao seu lado..."

O tenor de vozes agudas diziam como um zunido numa tentativa sonora de alerta, porém com um timbre claro e de perfeito entendimento.

Abri meus olhos subitamente. Assustada, eu pude ver que a neblina havia desaparecido com a rajada do ar quando partiu, como uma varredura altamente competente. As árvores e arbustos eram iluminados fracamente pela lua, e com ajuda da lamparina permitiu minhas vistas em procurar o perigo no qual fui alertada pelo ar. Um gemido falho passou por meus dentes causado pelo distúrbio na respiração, quando percebi que estava sozinha, sem meu amigo.

- Dark...? - murmurei seu nome com lágrimas nos olhos.

Não. Eu não estava sozinha. Sem meu cavalo, mas não sozinha.

Os ruídos eram persistentes e o cheiro forte da podridão aumentava constantemente. Estava ofegante. Me afogando em minhas próprias lamentações. Girei em torno de mim mesma, até pousar os olhos no caminho estreito entre arbustos que supostamente me levaria de volta para casa. Portanto, antes que eu pudesse mover uma perna, um galho se partiu quando uma revoada de pássaros voaram para longe, tão rápido quanto as minhas vistas que a seguiram, deixando meu olhar encontrar a cabeça de um porco pendurada no tronco em minha direita.

Travei. Engoli o grito e o censurei através das minhas mãos. A cabeça acinzentada e banhada num líquido rubente, expesso e ressecado, me causaram repugnância quando também vi os punhados de insetos rastejando entre o sangue nos cortes profundos. Meu coração bateu com tanta força que o senti pulsar na garganta como se estivesse preso ali. Olhei mais atentamente, mas não localizei mais nada fora do comum além daquela cabeça com odor fétido repulsivo. Ergui a lamparina e com sua luminosidade pude notar que mais atrás tinha outra cabeça de um pequeno leitão em decomposição noutro caule lenhoso sem ramos ou galhos. Recuei os passos horrorizada sem tirar as vistas daqueles porcos de dorso arrancando e aparentemente devorados por algum predador grande. Sorrateira, analisei um olho da primeira cabeça, esbranquiçado e vidrado em mim, porém sem vida. Ao passo que no outro olho, havia rupturas com fissuras revelando ser de alimento para corvos.

Tentei me equilibrar no emaranhado de raízes pelo chão, enquanto continuei a andar de costas sem desgrudar as vistas daqueles animais abatidos sem piedade. Minhas costas entra em colisão com a espessura áspera da madeira descasca de uma árvore como pilastra. Precisei tomar um tempo para tentar colocar meus sinais vitais em ordem. Entretanto, ao invés disso, fui interrompida por gotículas sobre o capuz da minha capa, escorrendo em minha testa um líquido frio e pungente, um fluido tão vermelho quanto minha capa. Oscilei minha respiração depois de esfregar as pontas dos dedos, espalhando o cheiro pungente de sangue sobre minha pele. Ergui a face para o alto trazendo mais uma onda de horror entre minhas entranhas, visualizando vísceras penduradas num dorso rasgado ao meio, de outro porco pendente nos galhos nodosos e retorcidos, como garras gigantes sempre a espreita. Meu coração bateu descompassado e algumas gotas de sangue despontaram em meu rosto, fazendo minha boca entortar anojada como as pernas que se locomoverem depressa.

Voltei o trajeto desnorteada entre a escuridão novamente esbranquiçada pela neblina. Como se tudo girasse em minha volta, uma pressão esmagadora afetou meus pulmões com brutalidade, deixando minha cabeça pesada e com as pernas enfraquecidas. Estava tomada pela ânsia, pela sensação da ansiedade dilacerante. Minha respiração era o que cantarolava meus ouvidos, numa expectativa de assumir o controle dos sentidos mais uma vez.

O mesmo tronco caído no chão me serviu de guia. Ao longe, escuto um relincho assustado e cascos pesados baterem no chão, antes que eu pudesse atravessar aquele caule estendido.

- Dark...? - suando frio, eu parei e iluminei os arbustos com a lamparina. Eu não podia deixar meu amigo para trás. Não devia. - Cadê você, meu amigo?

Um arrepio gelado percorreu meu corpo quando um relincho estridente se sobrepôs com a cacofonia do vento e de galhos. Optei por sair da trilha e me aprofundei nos limites do bosque, tentando encontrar o Frísio entre o denso mar da névoa. O cavalo voltou a relinchar muito alto, seguido de um som grave e rouco em um urro, ecoando sobre o vento em um horror que desconhecia. Apressei os passos e afastei alguns galhos que dificultavam a passagem. Meus pés amassaram as folhas secas que definharam no chão, denunciando minha proximidade para Dark e para aquele que esteja assombrando meu amigo.

Alguns segundos se passaram e eu estava exausta por rodar em círculos e não encontrar uma pista de onde ele poderia estar. Vaguei sobre a relva e o sentimento de preocupação me invadia com mais intensidade, pois não o encontrava.

- Dark... - supliquei por seu encontro, e obviamente chamando atenção do animal que nos rodeava para um bote brutal. - É tudo minha culpa. - balbuciei.

As lágrimas escorriam pesadas sobre minha face. Não queria dar brecha para pensamentos traiçoeiros e desistir de meu melhor amigo, porém nada fluía com eficácia em minha mente. Derramei mais lágrimas dolorosas sem uma pausa entre elas, enquanto meu coração se contorcia amargamente pelo remorso. Por ter falhado tanto. Pelo desgosto penoso que punia e me destroçava aos poucos.

Um novo relinchar me tirou do transe depressivo, e a esperança reacendeu com vigor em meu peito. Forcei a visão ao olhar em volta, até encontrar o contraste do vulto negro erguido ao elevar as patas dianteiras, entre a neblina branca como polvilho de um alabastro. Sem hesitar, eu me aproximei dele em frações de segundos, avistando seus olhos esbugalhados na minha direção.

- Vem, vem comigo. - tentei passar a mão nos pêlos escuros do Frísio na expectativa de acalmá-lo, porém ele recuou, revelando seu medo inabalável, doentio, pelo quê o cercava. Ergui as mãos em rendimento, pois com o seu desespero, eu poderia ser atingida e virar uma presa fácil, como aqueles três porquinhos.

As orelhas do cavalo era privilegiada ao prever ameaças de modo característico, se movendo constantemente conforme seguia o que considerava perigoso, entretanto, ambas ficaram voltadas para minha direção, revelando também através de seus olhos que o inimigo estava em minha retaguarda.

Fiquei em pânico. Minha capa bateu a favor do vento, derrubando o capuz e bagunçando minhas madeixas com as lufadas da ventilação que açoitaram suavemente minhas costas. Precisei digerir mais um pouco de saliva que desceu rasgando pela garganta, conforme minhas pernas cambalearam minimamente quando girou meu corpo devagar.

O som das folhas estalando com os passos da criatura, levaram meu olhar consigo na direção do par de olhos em tom fulvo, que surgia iluminados dentre a película nebulosa na escuridão. O horror a minha frente não demonstrou uma fagulha de sua verdadeira forma, me deixando apenas com uma suave brisa que agitou meus cabelos e refrescou o suor que escorreu em minha testa.

Mesmo no breu, eu consegui decifrar a forma do animal, delineando mais a sua silhueta envolta de uma tênue sombra, que se dissipou quando ele deu um passo a frente, se revelando aos poucos com o rosnar vibrando na garganta e exibindo a saliva escorregadia entre seus dentes salientes de uma forma ameaçadora. Um arrepio percorreu minha espinha e meu peito fraquejou na respiração. O lobo a minha frente ficou totalmente visível e desmascarado de um horror quase indescritível, me observando sem pressa entre os arbustos quando finalmente começou a se movimentar com cautela.

- Dark, vamos ter que correr. - trêmula, falei sem despregar as vistas no inimigo.

Seu corpo era maior, fora do comum, com longos pêlos sebentos e desgrenhados me causando pavor, assim como as presas pretuberantes que se destacavam periculosamente. Recuei dois passos e fiquei ao lado de Dark, escorregando as pupilas pelos cantos dos olhos na procura do restante da matilha, porém, para minha mísera sorte, parecia ser um lobo solitário. O Frísio deitou as orelhas para trás e golpeou o solo com os cascos estando enraivecido. O que antes parecia ser medo, naquele momento mostrou querer se proteger, me proteger, como um anteparo diante de um ataque. Quando dei mais um passo atrás, o lobo inclinou a cabeça e soltou um uivo rouco e estridente, como se anunciasse minha chegada para alguém. Aquilo, de alguma forma, incentivou Dark a se inclinar elevando as patas dianteiras em um relinchar de fúria.

Com os pensamentos desorientados e com aqueles impulsos inusitados, fui empurrada pelo meu próprio cavalo como incentivo para iniciar uma fuga. Seus passos acompanharam minhas pernas desgovernadas e sem rumo, apenas correndo como se cada suspiro, fosse o último. Continuei disparada, mergulhando entre os infindáveis feixes de luar que banhou aquela escuridão claustrofóbica. Via apenas Dark ao meu lado, arriscando sua vida sem me deixar para trás. O som gutural do lobo voltou a ecoar, inundando a brisa fria que chocou em meus ouvidos com brutalidade. Ele nos perseguia. Faminto. Ou apenas com o propósito de matar, destroçar.

O lobo nos alcançou facilmente, não custando mais tempo para estar a meio metro de distância. Portanto, Dark diminuiu os passos me deixando na frente com o coração descompreendido, ou dilacerado com sua próxima atitude. Ele ficou para trás.

Dark, não!

De respiração pesada e com o rosto inundado em lágrimas, eu tentei olhar por cima do ombro enquanto ainda corria, conseguindo visualizar dentre as nuances do luar, meu amigo desferir um golpe com as patas traseiras depois de firmadas as dianteiras. Devido a sua força, o lobo não teve chance e foi arremessado a uma distância considerável e a favor para nossa fuga. Minhas pernas tremiam e enfraqueciam a cada pisada que parecia firme, me esforçando para continuar correndo e me afundar naquela escuridão totalmente sombria. Todavia, a vegetação arranhava minhas bochechas e o tecido que me cobria, enquanto cipós emaranhados no chão dificultaram meu equilíbrio no acesso fragoso, enroscando no pé direito e me derrubando no solo abrasivo por raízes e pedras, assim como os doces que se perderam entre o arranjo desordenado da planta sob a bruma. Um grunhido de dor escorreu por meus dentes ao sentir o tornozelo palpitando por ser torcido.

O medo ainda me perseguia, como o lobo que o sentia cada vez mais perto. Com dificuldade, agarrei a aba da saia pálida e me forcei a ficar de pé, o suficiente para cambalear em passos apressados para atrás de uma árvore consideravelmente grande como um esconderijo na espera de um milagre.

Não havia mais o que fazer. Não podia fugir, nem correr. A amargura abrangeu todos os meus poros e penosamente esmigalhou meu coração sem piedade. Meus olhos ardiam por lágrimas que inundava a face suada em frio. As cascas do tronco cravaram entre minhas costelas quando me encolhi e abraçei minhas próprias pernas, me causando um total pavor iminente. Folhas secas definharam por pegadas que ecoavam próximo de meus ouvidos, sussurrando seu ultimato. Forcei as mãos sobre a boca estancando a respiração dilacerada e soluços desenfreados de escaparem, numa tentativa desesperada de me manter num silêncio absoluto. Fechei os olhos e esperei pela morte. Escutei a pulsação de cada batimento cardíaco que contraía na cavidade torácica, como a cada passo que soava mais próximo tornando o peso do coração e das lágrimas cada vez mais insuportáveis, como se a qualquer momento eu fosse desfalecer com a cacofonia para um decesso súbito.

O vento soprou em meu rosto e refrescou a umidade da pele, bagunçando meu cabelo e despertando minhas vistas quando mergulhou nas vias auditivas com o agudo timbre de vozes ao entrar em contato comigo. Implorei mentalmente pela vida, e o vento soprou mais depressa.

- Eu preciso de você, agora. - balbuciei.

Uma rajada de vento emanou dentre a copa das árvores, atravessando o bosque bruscamente e levando consigo toda aquela névoa esbranquiçada como poluição. O solo estremeceu fazendo algumas rachaduras e os galhos oscilaram de um lado para o outro freneticamente. Pousei as mãos na terra e senti seus pequenos grãos inconsolidados tremerem exasperadamente, num desespero intenso de sua conexão. De alguma forma, eu senti sua vibração, a fome e o elo. A terra estava faminta.

A aura estranha daquele bosque já não fazia tanto alarde, era como se eu sentisse toda a vibração ao meu favor. As vozes enalteciam com grandeza por todos os lados, incentivando a terra, pequenas pedras e folhas secas do outono a se elevaram para o alto, erguendo também a minha capa e as madeixas do meu cabelo escuro.

Entre os feixes de luz do luar, estava o perigo. A sombra sorrateira e impetuosa do animal transitando em passos calculados ao meu lado, enquanto a figura dele se prostava bem a minha dianteira. A criatura dos pêlos desgrenhados me observou com seu par de olhos sinistros, antes do urro que estremeceu na garganta. Deu um par de passos e ficou cara-a-cara comigo. O som da sua respiração entrecortada era tudo que conseguia ouvir. Sua saliva passou escorregadia nas presas salientes, me dando calafrios quando uma gota se esticou e encontrou a saia do vestido. Meu grito ficou congelado na garganta e tudo que conseguia fazer, era fitar aquele horror inefável.

As lembranças pousaram em minha mente num piscar de olhos, me amaldiçoando por causar sofrimento ao meu melhor amigo, Dark. Não sabia o que havia acontecido com ele e tal sentimento se tornava ainda mais devastador. Apertei aquela terra eufórica e cerrei os dentes para não soltar um grito estridente. Estava com raiva. Repleta de um remorso tão capaz de causar danos ao meu psicológico, quanto a corrosão de um aço denso, espesso.

Pensei em meus pais. Meus erros. Tudo custando minha vida, e de Virgínia.

Meu coração bateu acelerado enquanto tentei me convencer de que o vento me manteria segura, e salva. Eu queria acabar com o lobo, era uma necessidade. E naquele momento, eu tinha a ajuda que precisava.

O cheiro podre se esvaiu da boca do lobo, tocando minha pele e fazendo que a bile amarga subisse pela garganta, arrancando rapidamente meus devaneios de lamentações. Em um movimento rápido, a criatura desferiu um golpe com uma de suas patas cheia de garras, porém, por impulso, ergui as mãos instantaneamente e o vento empurrou a fera antes mesmo que atingisse meu rosto. Acompanhei as afiadas garras atravessar a fagulha de espaço que existia entre nós. O animal cravou as garras no solo e tentou se arrastar com dificuldade para a minha direção, entretanto, seu esforço tornava-se inválido, pois o vento insistia contra ele, lhe restando a tapear o nada enquanto era empurrado.

Ergui meu corpo e deixei aquela terra que antes se instalava nas minhas mãos, escorregar pelos dedos e encontrar o solo mais uma vez. Diante daquele animal grotesco, com os olhos direcionados e convictos de vitória, senti meu sangue dançar em júbilo pela sensação de poder que bombeava nas veias. O lobo relutava, desferia golpes no ar na expectativa de dar uma passo a frente, porém era em vão. Meu corpo entrou em um torpor, ficando mais relaxado com o frescor do ar em cada poro de minha pele. A sensação de leveza era tanta, que flutuei perdendo a gravidade juntamente das folhas e um pouco daquela terra.

Encarei a dificuldade do animal para avançar em meio do vendaval. As árvores contorcia seus galhos e outras balançavam de um lado para o outro freneticamente, parecendo se esticar na direção daquele lobo querendo o alcançar desesperadamente. As patas traseiras afundaram no solo que se auto partia lentamente, com os milhares de grãos de terra saltitantes que corriam contra o animal. Acabei me sentindo abraçada pela massa de ar frio, ficando mais segura e conectada com o vento, que consequentemente, a terra parecia estar também ao meu favor.

Extasiada pelo efeito de exaltação, eu estendi a mão na direção do lobo arremessando-o metros atrás com a obediência do vento. Porém, para minha surpresa, ele se ergueu tão rápido quanto a sua violenta oposição contra minha figura, saltando em minha direção em frações de segundos. Minhas mãos se ergueram por conta do susto inusitado que desgovernou meus batimentos e escorreu pelos dentes, projetando uma rajada de vento contra a sua impetuosidade aguda de fúria. O animal foi aniquilado, sendo lançado bravamente contra uma árvore, como também meu corpo que chocou no tronco em minha retaguarda, aplicando uma batida bruta na minha nuca. Uma colisão. Um embate impetuoso de dois inimigos.

As aves desferiram seus cantos em pavor e bateram as asas sobrevoando assustadas para o céu esbranquiçado por nuvens, juntamente com a ventania que arrancou o resto de folhas que adornavam os galhos. Tudo desabou quando senti o chão bruscamente. A dor se apoderou de meu corpo pela colisão. O estado de fadiga provocado por tanto esforço, me trouxe uma exaustão a ponto de não conseguir mover um dedo. As pálpebras pesadas oscilavam com esforço para se manter despertas no lobo completamente imóvel e aparentemente inconsciente. Parecia sem vida.

Minha consciência parecia desvair a cada vez que piscava os olhos. Observando ou alucinando raízes surgirem dentre a escuridão, se contorcendo e serpenteando agitadas em volta do lobo desacordado. O solo tremia e as raízes se enroscavam no animal se aninhando por todo seu corpo, enquanto a terra se abria e engolia a fera aos poucos. De pálpebras extremamente pesadas e me questionando se estava em um desequilíbrio da minha faculdade mental, eu ainda pude notar que ao lado de uma árvore, havia a forma de uma silhueta humana coberta por uma capa envolta de uma tênue sombra, não monstrando uma fagulha de sua verdadeira fisionomia. Em meio a um longo suspiro de exaustão, senti minha energia se esvair aos poucos enquanto me frustrava por não conseguir manter meus olhos abertos por mais tempo, até que meu corpo ficou totalmente relaxado e vi somente a escuridão.

Ainda alternava entre a linha do sono e a realidade, quando abri minimamente os olhos. Comecei a despertar sentindo um calor agradável me embalar, aninhada em braços firmes e envolventes. Pisquei diversas vezes na expectativa de acordar e conhecer o homem que me carregava entre o denso bosque, porém a visão ainda era turva. A noite ainda pairava soturnamente, então conclui que não fazia muito que estava desacordada. Contudo, com o pouco de esforço que ainda existia, eu girei a cabeça e olhei para o trajeto que as pernas do homem traçava, andando pelo gentil caminho de terra que nos guiava seja lá para onde que estaria me levando. Inspirei um pouco mais de ar quando avistei a mesma silhueta que antes tinha visto. A sombra estava parada atrás de um arbusto e tudo que conseguia pensar, era se a imaginação ou a realidade comandava meu consciente.

Meus pensamentos estavam pesados e pareciam ter se esvaído aos poucos para o mais fundo de minha mente, me sentindo cada vez mais sonolenta. Tudo o que via era apenas borrões, esmaecendo lentamente até perder os sentidos e encontrar a mais uma vez a escuridão.

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"Quando sonha seu sonho, tem o lobo no meio e um medo medonho. Mas também tem vontade de seguir seu caminho, e encara a verdade, modifica o destino."

- Chapéuzinho Vermelho.

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