Capítulo 24

Olá! Bom esse é o último capítulo e eu queria muito agradecer você por estar lendo essa história mesmo ela não sendo minha, essa é uma das minhas facfics favoritas da vida e eu tenho ela no meu perfil justamente para que eu possa ler ela sempre que eu quiser. Caso você queira ler alguma história minha entre no meu perfil e sinta-se a vontade!
Tenha uma boa leitura ♥️






Abracei o travesseiro outra vez, escondendo meu rosto do olhar inquisitivo de Zayn, que terminava de organizar algumas roupas e pertences na mala ao meu lado sobre a cama. Apesar de ter sucesso em minha missão, não foi suficiente para bloquear sua voz; como antídoto, hinalei os traços de seu perfume que sobreviviam na fronha a que eu me agarrava feito uma bolinha (insegura) de gente. 

– B, você não precisa ir se não quiser – ele suspirou, e eu me encolhi ainda mais ao ouvir a resignação em seu tom. 

– Mas você quer que eu vá – resmunguei, ainda mergulhada no travesseiro, o que fez com que minhas palavras saíssem abafadas – Não quer? 

Ouvi seus passos se afastando da cama e seguindo rumo ao banheiro, sem receber resposta. Alguns segundos de silêncio depois, ousei erguer um pouco a cabeça e inspecionar meus arredores, mas logo retomei minha posição defensiva quando notei seu retorno. 

– É claro que eu quero. Eu sempre quero que você esteja comigo, e dessa vez não é diferente, ainda mais agora que... 

Sua frase permaneceu incompleta por um momento, durante o qual deixei minha manha de lado e devolvi seu olhar distante com um preocupado, angustiado. Larguei o travesseiro, esticando os braços para segurar uma de suas mãos com as minhas. 

– Vem cá – murmurei, puxando-o em minha direção e liberando espaço sobre o colchão para que ele se sentasse. Obviamente, assim que ele o fez, coloquei-me em seu colo, aninhando-o em meus braços com um beijo no pescoço. 

– Tudo bem, está tudo bem – disse ele, baixinho, devolvendo o abraço com carinho. 

– Não está tudo bem, Zayn – refutei, encarando-o com seriedade – Sei que já faz um mês desde que tudo aconteceu, mas o impacto ainda é forte demais para enfrentar sozinho. 

– Mas é o aniversário de Ben – ele argumentou, dando de ombros – Não posso simplesmente ignorar isso, nem quero. Não vou me esconder. 

– E nem deve – concordei prontamente – Também acho que você deve ir. Sei que Ben sentirá sua falta se você não aparecer. 

Zayn desviou o olhar do meu antes de falar, sabendo que eu reprovaria o que viria a seguir.

– Não tenho tanta certeza… Ele tem… Outra pessoa para cuidar dele agora. 

– Zayn Malik, não seja ridículo! – exclamei, e como prova de minha irritação, segurei seu rosto para que ele não pudesse evitar minhas pupilas transbordando determinação – Ainda que ele tivesse trezentas pessoas para tomar conta dele, isso não se compararia ao vínculo que vocês formaram durante o tempo em que conviveram. Ele vai ficar chateado se você não for, tenho certeza absoluta disso. 

– E eu vou ficar chateado se você não for! – foi a réplica que recebi, acompanhada de uma expressão de cachorrinho sem dono com vestígios de desespero verdadeiro. Após respirar fundo, ciente de que ele tinha razão em resistir à minha ausência na casa de seus pais, ponderei sua chantagem emocional. 

– Eu sei. Eu deveria ir. Matthew estará lá, e por mais que eu não queira mais vê-lo nunca mais na vida, só de imaginar vocês dois no mesmo ambiente já me dá um aperto no peito. 

– Eu não vou fazer nada de errado – Zayn se prontificou a esclarecer, tirando as mãos de minhas costas por um instante para erguê-las em sinal de paz, assim como fez com suas sobrancelhas – Já ele... 

Concordei com a cabeça enquanto massageava o lóbulo de sua orelha distraidamente. 

– Como sempre, ele é o problema. Depois de tudo o que aconteceu, não podemos ser considerados culpados por não confiarmos nele. 

Zayn reproduziu minha confirmação silenciosa, com um pouco mais de pesar, no entanto.

– Se bem que... – ele começou, porém precisou de incentivo de minha parte na forma de um afago atrás da orelha para prosseguir – Se bem que ele já conseguiu o que queria, supostamente. Não significa que confie nele, nem um pouco, mas... Talvez dessa vez ele pare de nos atormentar. 

A ideia me parecia razoável, embora o receio de estar perto dele, ainda que por algumas horas, não diminuísse nem um pouco com a possibilidade. 

– Espero que sim – murmurei depois de alguns segundos de reflexão. Ao perceber que me perdia em pensamentos, ele aproximou seu nariz do meu, novamente com seus olhos de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança. 

– Espero que você esteja lá comigo para ver. 

Disfarcei um sorriso conflituoso que cismou em desabrochar diante de seu charme. A ansiedade que me levara a buscar refúgio no travesseiro há alguns minutos voltou com força total. 

– Zayn, eu já expliquei que não tenho coragem de pisar naquele lugar depois da última vez em que estive lá... 

– Blair, eu já te expliquei que eles não têm nada contra você – rebateu ele assim que minha última sílaba ecoou pelas paredes de seu quarto – Pelo contrário! 

– Como pode ter tanta certeza? – retruquei na mesma velocidade. Ele revirou os olhos, todo dramático. 

– Pirralha, você caiu nas graças da última pessoa que imaginei que gostaria de você. Tem certeza de que quer continuar discutindo? 

Ambos rimos brevemente da menção à amizade inesperada entre Elliot e eu. De fato, aquele era um ponto fortíssimo a seu favor. Mesmo assim, lancei-lhe um olhar cético. 

– É diferente, e você sabe. 

– Só o que sei é o que já disse – ele afirmou, balançando negativamente a cabeça em resposta ao meu desconforto – Ninguém na minha família tem motivos para não gostar de você. 

Nossos olhos traduziram a profundidade do dilema que se camuflava na atmosfera amena de nosso debate. Quando Zayn voltou a falar, essa profundidade estava presente em sua voz, fazendo-a soar mais grave do que há poucos segundos. 

– Se existem motivos para que se sintam de alguma forma em relação a você, eles são inteiramente positivos. Você abriu nossos olhos... Você aliviou Emily de um fardo terrível. Graças a você, Ben evitou um drama ainda maior do que a atual confusão, da qual ele se lembrará vagamente no futuro. Só de imaginar o caos em sua mente caso ele soubesse a verdade anos mais tarde... O que você pensa ter sido algo doloroso, vergonhoso, repudiável, nos libertou de uma tempestade ainda mais tenebrosa. Matthew é o alvo de nossas desconfianças e decepções, não você, a pessoa que nos fez enxergar a realidade, a única pessoa que poderia ter feito isso da maneira limpa e discreta que fez. 

Seu discurso aniquilou completamente qualquer possível resposta que estivesse esperando em minha garganta. Apenas sustentei seu olhar sincero, disposto a me oferecer o mundo, o universo e todos os outros universos existentes para que eu acreditasse no que dizia, com a respiração levemente acelerada pela emoção que aquecia meu peito. Zayn beijou o canto de minha boca e então dirigiu a sua até minha orelha para concluir o argumento que enfim me faria ceder. 

– Todos são eternamente gratos a você. E eu também... Por muito mais motivos do que esse. 

Encolhi-me em seus braços, arrepiada da cabeça aos pés, sentindo-me amada da cabeça aos pés. Percebendo a eficácia de sua declaração, e a consequente mudança de decisão que eu estava prestes a anunciar, ele riu baixo em meu ouvido, ao mesmo tempo em que sua mão experiente escorregava de meu joelho para a parte superior de minha coxa, somente satisfeita quando as pontas dos dedos encontraram o tecido da samba-calção que eu roubara de sua gaveta mais cedo naquela manhã de sábado. 

– Está bem – murmurei, praticamente ronronando sob o efeito dos beijinhos que ele depositava em meu pescoço e ombro – Eu vou. 

Cerca de uma hora depois, passamos em minha casa para que eu também reunisse algumas roupas e pertences numa mala. Durante todo o tempo, mamãe se juntou a nós, ajudando-me a agilizar o processo e mantendo uma conversa amigável com Zayn, deitado em minha cama, dividindo o estreito colchão com a mochila que eu rapidamente enchia, com um de meus bichinhos de pelúcia em seu colo. Trocamos vários olhares cúmplices ao recordarmo-nos de quando aquela cena aconteceu pela primeira vez, na noite do baile de primavera, seguida da manhã em que quase fomos pegos no flagra e que resultou em seu salto de minha janela sem que minha querida progenitora sequer percebesse. E novamente, ela não notou a faísca de lembrança em nossos olhos, ou fingiu não notar. 

– Tem certeza de que está pronta para voltar àquela casa? – ela murmurou alguns minutos depois, já diante da porta de casa. Olhei por sobre meu ombro, vendo Zayn colocar minha mochila no bagageiro, e suspirei antes de responder, com um sorrisinho otimista. 

– Tenho. Ficarei bem. 

Mamãe assentiu, também olhando na direção dele, e acenou, em resposta ao gesto de despedida que imagino que tenha feito. Logo em seguida, nos abraçamos rapidamente. 

– Cuide-se. Qualquer coisa, é só ligar. 

– Pode deixar – respondi, descendo os degraus da soleira devagar – Cuide-se você também. Amanhã à noite estarei de volta. 

Caminhei até o carro e acomodei-me no banco do carona, onde confortavelmente passei cerca de uma hora ouvindo música e jogando conversa fora com o belo motorista que nos levava até a casa de sua família. Por mais que tivéssemos resolvido nosso primeiro impasse mais cedo, ainda restava uma apreensão latente, um incômodo diante do iminente encontro indesejado com Matthew. Contornamos a situação como pudemos no limitado espaço interior do carro, vez ou outra apenas curtindo a trilha sonora com o olhar perdido no vasto espaço do mundo exterior ao nosso redor. 

A imponente cerca viva que circundava a casa dos Malik se aproximou sem demora, e com ela se desfez nossa pequena cerca imaginária contra as preocupações que as próximas horas reservavam. Zayn parou diante do portão, esperando sua abertura; percebi que seus dedos se fecharam ao redor do volante, em sinal de nervosismo. Instintivamente, levei uma mão ao seu braço e o apertei de leve, recebendo um sorriso sereno que não atingiu seus olhos, estrategicamente escondidos sob as lentes dos óculos escuros. Ele estava tenso, e não o culpei, pois também estava. No entanto, naquele instante, seus esforços para manter-se calmo eram muito maiores do que os meus, sem sombra de dúvida. Eu podia sentir sua instabilidade emanando de cada poro, por mais que ele mantivesse a fachada de tranquilidade que talvez pudesse enganar alguns de seus parentes. 

Naquele breve instante, que não durou mais do que meio minuto, fiz a única coisa em que pude pensar para demonstrar meu apoio. 

– Ei – cochichei para que ele voltasse a me olhar, e quando o fez, levei as mãos à corrente prateada ao redor de meu pescoço. Zayn apenas me observou passar o colar por minha cabeça, e então passá-lo pela sua, abrigando o pequeno talismã sob a gola de sua camiseta. Minha mão repousou sobre seu peito, sentindo os batimentos cardíacos um tanto acelerados reverberarem contra minha palma; meus lábios repousaram sobre os dele num beijo breve, porém significativo, que me permitiu transmitir a mensagem desejada sem emitir um som. 

Você precisa dele mais do que eu. 

– Obrigado – ele soprou enquanto nossos rostos ainda estavam próximos, ao que balancei a cabeça, pois seu agradecimento não era necessário. 

Os portões se abriram e seguimos jardim adentro, até a frente da casa. Reunimo-nos após sair do veículo, caminhamos de mãos dadas até as escadas da mansão, e subimos juntos (eu com o braço livre envolvendo o dele, ele com a mão livre sobre o meu) os degraus em que há um mês e meio nos despedíramos – pela última vez, eu esperava. 

– Querido! – Audrey exclamou ao nos ver à entrada da sala de estar, dando seu melhor sorriso – Ah! E querida

Todos rimos de seu adendo, e trocamos abraços carinhosos. Ela tocou meu rosto com genuíno deslumbre, analisando-me atentamente, e apesar da nítida diferença no teor de suas intenções, reconheci em suas íris o mesmo brilho que tanto vira nas de seu filho. Disfarcei a enorme felicidade que seu gesto despertara em mim com um sorrisinho encabulado. Zayn apertou minha mão, e quando lancei-lhe um olhar emocionado, vi que ele também fora tocado pelo ato acolhedor da mãe. 

– Obrigada – murmurei após reencontrar minha voz, ao que ela reagiu com um aceno gentil. 

– Nós é que agradecemos. Você é muito bem-vinda aqui. 

Abri a boca para agradecer novamente, mas não tive a chance de dizer uma palavra, tendo o momento ternura bruscamente interrompido por um grito estridente. 

– Vocês chegaram! 

Todos nós pulamos, e Zayn e eu olhamos para trás, não com o intuito de reconhecê-lo, já que tal reação inconfundível só poderia ter vindo de uma pessoa. 

– Elliot! 

Imitei seu sorriso eufórico e corri em sua direção, com os braços esticados para a frente assim como ele. Abraçamo-nos como se não nos víssemos há muito tempo, e de fato, desde nosso último fatídico encontro, nossa amizade crescera vertiginosamente. Falávamos um com o outro praticamente todos os dias desde então, fato que ainda espantava Zayn. 

– Que bom que ele te convenceu a vir – Elliot riu, quando nos reaproximamos dos outros presentes, e também cumprimentou o primo com um abraço, tão carinhoso quanto o meu, embora menos empolgado – Essa sabe ser manhosa quando quer, não é mesmo? 

– Ah, sabe – ele respondeu com uma risada convencida, e ergueu as sobrancelhas – Mas eu sei convencê-la muito bem. 

– Pelo amor de Beyoncé, parem de esfregar todo esse amor na minha cara! – resmungou Elliot com a expressão enojada, abanando as mãos diante do rosto como se algo cheirasse mal – Tenha um pouco de respeito pela sua família! 

Gargalhadas preencheram a sala, e uma sensação de conforto se estabeleceu sobre nós, um conforto que eu não esperava sentir, muito menos tão depressa. Meu coração estava mais tranquilo, ainda que a principal ameaça estivesse por vir. 

– Vamos pro meu quarto fofocar enquanto seu hombre leva as malas lá para cima – disse meu mais recente amigo, sem esperar resposta, já me puxando rumo à escadaria principal. Tentei ancorar-me a Zayn, incerta de que o melhor a fazer era nos separarmos tão cedo, mas ele assentiu discretamente, certo de que ficaríamos bem com as atuais companhias, e murmurando um “até daqui a pouco” antes de me ver ser arrastada degraus acima, com um sorrisinho divertido. 

Por mais que tenhamos rido e tagarelado a ponto de enxugar lágrimas dos cantos dos olhos e sentirmos as gargantas secas, parte de mim continuava preocupada com meu namorado. Embora eu soubesse que a festa de aniversário de Ben só começaria dali a duas horas, a consciência de que Matthew poderia aparecer a qualquer momento me perturbava como se ele já estivesse ali, bem atrás de mim, e por mais que eu olhasse por sobre meus ombros, não podia enxergá-lo. 

– Entendi, você quer voltar pro seu bofe, é isso – Elliot suspirou, deixando o celular de lado depois de postar uma foto nossa no Instagram – Você não me engana com esse arzinho melancólico e essas olhadas pela janela. 

Esfreguei os olhos com as pontas dos dedos, sinceramente envergonhada, mas incapaz de desmentir a veracidade de sua constatação. 

– Desculpe... Estou nervosa com essa festa. Você deve imaginar o motivo. 

– Claro, e não tiro sua razão – disse ele sem pestanejar – Eu também estaria em seu lugar. Na verdade, mesmo não estando em seu lugar, estou um pouco apreensivo. 

– Pelo que você me disse, ele tem se comportado bem durante suas visitas – comentei, cruzando as pernas sobre sua cama – Espero que essa boa conduta se mantenha hoje. 

Elliot concordou com a cabeça, e sua postura transmitia tranquilidade. Ele era a fonte mais confiável que eu tinha a respeito do comportamento do ilustríssimo convidado que me causava certa dor de cabeça, portanto sua opinião valia muito.

– Ele não é doido de aprontar alguma coisa com tanta gente em volta, especialmente agora que conseguiu o que tanto queria, comprovar sua paternidade. Sério, essa tensão de vocês é totalmente justificável, mas tenho 99% de certeza de que tudo correrá bem, e Matthew não os importunará. 

– O 1% é o que me estressa – confessei, mas dei de ombros logo em seguida – Enfim, não posso prever o futuro. Teremos que esperar para ver. 

– Relaxa, mulher, vai dar tudo certo! – ele disse, colocando as mãos sobre meus ombros e dando um apertão que fez com que eu me contorcesse contra o encosto da cama – Agora vamos encontrar seu homem antes que todo esse seu nervosismo me deixe com acne. 

Ainda rindo de sua massagem relâmpago e também de sua frase exagerada, deixamos o quarto e exploramos o resto da casa em busca de Zayn; levamos algum tempo para enfim encontrá-lo no jardim, enchendo balões de ar com o pequeno aniversariante e sua mãe. 

– Não acredito que não me chamaram para esse belíssimo ritual! – Elliot guinchou, apressando-se para ocupar o espaço livre ao lado da irmã sobre a toalha estendida na grama – Venha ajudar, Blair, todo par de pulmões é bem-vindo quando o assunto são bexigas coloridas. 

Assenti prontamente, mais do que disposta a ajudar, mas a fragilidade do momento compartilhado por Ben e o tio, que até pouco tempo achava que era seu pai, manteve meus pés grudados a uma pequena distância do trio, que agora se tornara um quarteto, feliz, de bochechas coradas após tanto soprar. Zayn retribuiu meu olhar comovido com um contente, verdadeiramente pleno, que dissipou a neblina de preocupação em minha mente. Acalentada pela alegria em seu sorriso, e também pelo doce cumprimento que recebi de Emily (“sim, por favor, junte-se a nós”) e de seu filho (“você e o tio Elliot enchem as bexigas rosa e verdes, eu e tio Zayn enchemos as amarelas e azuis”), sentei-me sobre a estampa xadrez e contribuí com o máximo de gás carbônico que pude. 

Graças ao reforço à equipe, todos os balões foram devidamente soprados, amarrados e organizados com barbante em enfeites aleatórios – a especialidade do “tio Elliot”, segundo Emily, o que fez seu primo rir ao se recordar de alguma lembrança que ele narraria mais tarde durante a festa, e que também me faria rir – e então colados às paredes, pilares, portas, beiradas de mesas... Enfim, quaisquer superfícies horizontais desocupadas. Tão empolgado com sua missão de enfeitar a casa com bexigas, e também contagiado pela eletricidade do sobrinho, que saltitava em seu encalço para onde quer que fosse para orquestrar a decoração, Elliot chegou a colar uma bexiga em minha testa, como se fosse um chifre azul pendendo para a frente. 

– Vejam só, a tia B virou um unicórnio! – ele riu, admirando sua obra-prima, e eu balancei a cabeça repetidas vezes para intensificar o efeito dramático de seu feito. Não havia uma pessoa que estivesse por perto, fosse da família, fosse do grupo de funcionários que trabalhavam na casa, sem um sorriso no rosto, infectados por nossas risadas, não só nesse momento, mas durante todo o tempo em que trabalhamos em conjunto na arrumação para a chegada dos convidados. 

O céu já exibia nuances alaranjadas quando Zayn declarou o fim dos preparativos.

– Tudo certo, pessoal, agora podemos seguir para nossos respectivos cômodos e ficarmos lindos e cheirosos para a festa do... De quem mesmo? 

– Ei! – Ben reclamou, puxando a blusa do tio com falsa revolta – É a minha festa! 

– É a sua festa! Rargh! – ele repetiu, erguendo o menino do chão e fingindo que mordia sua barriga, enquanto o pequeno lutava como podia, contorcendo-se e implorando por misericórdia. Cobri a boca com uma mão, abafando uma gargalhada, e percebi que Emily cruzou os braços sobre o peito ao meu lado, lutando contra a mesma reação. 

– Zayn, ele vai ter outra crise de asma, cuidado – ela advertiu, e não precisou repetir. Sua hilária tortura acabou, mas ele manteve a criança nos braços, vendo-o apontar para a faixa a alguns metros dali que dizia “Feliz Aniversário, Ben!” e ouvindo-o explicar com o melhor de sua capacidade, ainda que alguns problemas de dicção persistissem, que aquela era a sua festa e que naquele dia ele completava sete anos de vida. O interlocutor atento se desculpou pelo breve e descabido esquecimento, e libertou o garoto após trocarem beijos gostosos nas bochechas. 

– Como você pôde esquecer de quem é a festa? – brinquei ao vê-lo caminhar até mim, sem conseguir disfarçar o sorriso causado pela fofura do que acabara de presenciar – Já está ficando gagá, senhor Malik? 

– Não me venha com esse papo de velhice, ou terei que refrescar a sua memória em relação a alguns assuntos, como por exemplo... – retrucou ele, passando um braço ao redor de minha cintura, e o resto de sua resposta foi sussurrado ao pé de meu ouvido, causando-me arrepios e risinhos envergonhados. 

– Vamos para o quarto – pedi, já sentindo a respiração prejudicada depois de alguns segundos indecentes de sua voz rouca narrando momentos ainda mais indecentes somente para que meus tímpanos a captasse – Por favor... 

– Só se me ajudar a subir as escadas – ele impôs, afastando-se para exibir a curva maldosa que moldava seus lábios – Estou um pouco sem fôlego... Sabe como é, a idade chega para todos. 

Dei um tapa em seu braço, mostrando a língua da forma mais imatura que pude, antes de puxá-lo pela mão casa adentro. 

– Vamos lá, vovô. 



– E aí ele se enroscou nas bexigas de um jeito que o fez tropeçar e cair bem em cima da aniversariante! 

Gargalhadas altíssimas se seguiram à explicação de Zayn a respeito do tempo em que Elliot trabalhou como decorador de festas de aniversário, seguindo um hobby da mãe, que se ocupara com a tarefa há alguns anos, apenas para se aproximar de um confeiteiro bonitinho que trabalhava no buffet contratado por ela. Lancei meus braços ao redor do protagonista desastrado da anedota, que buscava se esconder atrás do copo de suco de framboesa que bebericava, o que só tornou tudo ainda mais engraçado. Considerando o fato de que todos no grupo (eu, Zayn, Elliot, Emily, Ben, Audrey e Margaret, avó do aniversariante) também estávamos bebendo suco, refrigerante ou água, regra expressa de toda festa de criança da família Malik, pelo menos até a hora em que os pequenos estivessem dormindo, os risos custaram a cessar. 

– Obrigado por arruinar a minha reputação para mais uma pessoa, priminho – ele resmungou, fazendo beicinho. 

– Qualquer dia desses eu conto a quantidade de micos que meu passado sombrio esconde, pode ser? – sugeri, e com um aperto de mão, selamos o acordo. 

A festa começara há meia hora, e a todo instante mais convidados chegavam com presentes dos mais variados tamanhos e formatos, roubando a atenção dos anfitriões de diversas formas e por diversos períodos de tempo conforme sua proximidade com cada um. Zayn nunca saía de meu lado, sempre com uma mão sobre minha coxa, ou com o braço esticado sobre o encosto de minha cadeira, ou lutando com seu pé direito contra o meu esquerdo pelo ínfimo espaço entre nossos lugares, só pelo prazer de ter uma desculpa para contato físico, ou com os olhos fixos em meu rosto, ou nos meus, ou com alguma parte de si diretamente ligada a alguma parte de mim.

Tudo ia às mil maravilhas, até que... 

– E aí, cara? Feliz aniversário! 

Ao ouvir a voz familiar, a voz que temera ouvir desde que decidira comparecer à festa, a poucos metros de nós, meu corpo inteiro ficou tenso, meus sentidos se apuraram, meu rosto se fechou, prevendo um desastre que muito provavelmente não viria, mas que seria muito desastroso caso ocorresse. De imediato, coloquei minha mão sobre a Zayn, que por sua vez se achava sobre meu joelho, notando que ele também percebera a chegada de Matthew, embora não demonstrasse qualquer sinal de irritação a não ser pelo maxilar travado. 

Por um longo tempo, aquele foi o único sinal de sua presença de que tivemos notícia. Nem sequer olhamos em sua direção ao chegar, e por mais que conter o impulso de localizá-lo visualmente tenha prevalecido sobre a indiferença, não encontramos sinal dele. Se Elliot não tivesse se reaproximado de nós, após zanzar por entre os convidados durante quase quarenta minutos, teria começado a duvidar da autenticidade de meus sentidos. 

– Acho melhor evitarem o jardim por um tempo – ele murmurou, o mais neutro possível – Quando a barra estiver limpa, eu aviso.

Suspiramos aliviados ao enfim termos notícias do paradeiro de Matthew, por mais inconveniente que sua presença fosse. Sem dúvida alguma, seguiríamos o conselho de Elliot, que voltou a sumir na restrita multidão ao nosso redor. Estávamos mais do que confortáveis com a quietude de nosso cantinho no sofá, Zayn numa ponta, eu no meio, e Audrey ao meu lado, incansável em sua tarefa de ser a pessoa mais fofa do universo. Algum tempo de conversa agradável depois, ela pediu licença para agraciar também outros convidados com sua presença, liberando um espaço para que outra pessoa se sentasse ao meu lado.

Cerca de dez segundos se passaram, durante os quais trocamos um beijo recatado e rimos de algo que sua mãe acabara de dizer, até que tia Margaret ocupou o assento vago, com três álbuns de fotografias em seu colo e um sorriso beirando o assustador em seu rosto exageradamente empolgado. 

– Você gosta de fotos? – ela questionou, acendendo um cigarro, e sem esperar resposta, abriu o primeiro álbum, apontou para a imagem de um casal de crianças, sob o qual se lia “Zayn e Lucy, verão de 1993”, começou a explicar sobre o terrível incêndio na casa da família Hayes... 

– Ah, não, tia, hoje também não vai rolar – Elliot interveio, emergindo do mar de pessoas com uma mão esticada em minha direção – Posso roubá-la um minutinho? Obrigado! 

Zayn parecia confuso demais para responder, e pela segunda vez consecutiva, a pergunta não precisou de resposta, pois pela segunda vez naquele dia, encontrei-me sendo arrastada para fora da sala de estar. 

– O que foi, criatura? – indaguei, quando enfim paramos próximos à saída principal da casa. Elliot mordeu o lábio inferior, apreensivo, antes de revelar o motivo de seu pequeno sequestro.

– Ele quer falar com você. 

Levei alguns segundos para processar aquelas cinco palavras, e então mais dez para aceitar o sentido que meu cérebro atribuíra a elas. 

– O quê? 

Ele balançou as mãos nervosamente na frente do corpo, temendo que eu tivesse um surto psicótico. 

– É sério, ele disse que precisa... Que precisa se despedir. 

À essa altura, meu coração ricocheteava contra as costelas, em completa desordem.

– Como assim, “se despedir”? Por acaso ele vai embora, ou... 

Não pude completar a pergunta, por mais que minha mágoa quisesse com todas as forças que eu fosse capaz de dizer ou vai morrer? 

– Não, não, nada disso – Elliot esclareceu sem demora – Mas ele sabe que você, er... Não quer vê-lo nunca mais, e Zayn muito menos. Ele diz que entende, e que evitará dividir os mesmos espaços que vocês quando vierem nos visitar, mas não quer que seu último contato tenha sido... Bem, o que foi.

– Ele está certo, eu nunca mais quero vê-lo – afirmei, uma onda de repulsa subindo por minha espinha e esquentando meu rosto – Por que ele ainda insiste em me atormentar? 

– Por favor, B – murmurou ele, tentando me acalmar – Ele está sendo sincero dessa vez. Deixe que ele diga o que tem a dizer e então suma de sua vida. De suas vidas. 

– Elliot, você não entende... 

– Sei disso. Mas eu entendo que você se importa com o futuro dessa família, inclusive com o de Ben, e essa é a sua oportunidade de selar o acordo de paz nesta casa. 

Franzi a testa, sem entender o que ele queria dizer, e ele completou sua linha de raciocínio. 

– Deixe que ele diga o que quer que seja, deixe-o atingir algum tipo de paz, não incite ainda mais raiva em seu coração agora que tudo está bem... Dê adeus a essa parte da sua vida em definitivo. Sei que você tomou a mesma decisão da outra vez, quando ambos descobriram sobre seus relacionamentos às escondidas. Tome a decisão certa de novo e siga em frente, de consciência totalmente limpa. 

– Como você sabe de tudo isso? – balbuciei após longos segundos de assimilação; ele apenas deu de ombros. 

– Eu sei de algumas coisas, baby. 

Olhei para as portas abertas, esperando que a brisa noturna que passava por elas me trouxesse a resposta para aquele impasse. Quando voltei a encarar Elliot, minha decisão estava tomada. 

– Ele ainda está no jardim? 

A resposta foi afirmativa. 

Elliot me acompanhou até o banco em que três pessoas, dois adultos e uma criança, observavam o céu estrelado em meio aos arbustos e esparsas árvores que recobriam a área externa da casa. De alguma forma, contive meu instinto de sobrevivência ao vislumbrar o perfil Matthew, e não corri o mais rápido possível na direção oposta. 

– Vem, filho, vamos voltar para dentro, está frio aqui fora – Emily ordenou, levantando-se ao nos ver e levando o pequeno consigo de volta para sua festa. Meu estômago se revirou ao estabelecer contato visual com a pessoa que só então se levantava. Elliot apertou meu braço de leve, sussurrando que ficaria por perto, antes de nos dar alguma privacidade, por mais indesejada que fosse. 

– Obrigado por concordar em me ouvir – Matthew começou, bastante nervoso; não movi um músculo, com os braços firmemente cruzados e cara de poucos amigos – Sei que não deve ter sido uma decisão fácil. 

– Diga o que tem a dizer de uma vez e me deixe em paz – falei, curta e grossa, a cada segundo mais desconfortável. Ele assentiu, depois de processar a desagradável ardência de minhas palavras, que o atingiram como um tabefe. 

– Eu só quero... Agradecer. Pelo que fez. Por ter desvendado o mistério. Por ter insistido em minha versão dos fatos, por mais mirabolante e improvável que fosse. Eu fui uma pessoa horrível com você, e me arrependo sinceramente do quanto te fiz sofrer. 

Ergui as sobrancelhas, quase impressionada com seu discurso esfarrapado, ainda que soasse vagamente sincero. No entanto, o que se seguiu comprovou o quão certa eu estava a respeito de querê-lo fora de minha vida o quanto antes. 

– Mas entenda que você também me feriu, e muito, ao me trair com meu melhor amigo... 

Cerrei os olhos diante de sua cara de pau, diante de sua atitude ridícula de desenterrar aquele argumento, logo aquele argumento, e jogá-lo na minha cara, àquela altura do campeonato, depois de tudo o que acontecera, depois de tudo o que fizera, não só a mim, mas a Zayn, a Emily, a Ben, ao resto da família... Agradeci mentalmente por ter comido pouco na festa até então, pois o mísero conteúdo de meu estômago ameaçava voltar por onde entrara.

– Sabe o que eu entendo, Matthew? – comecei, com o máximo de esforço para conter a gargalhada ensurdecedora que eu gostaria de dar – Eu entendo que você é uma pessoa horrorosa, e que nunca vai mudar. Essa é a única explicação para esse momento, para definir a personalidade de alguém que prejudica as vidas de tantas pessoas e ainda tem a coragem de se fazer de vítima. 

Assim que percebeu o tom de minha resposta, ele se encolheu, evitou meu olhar, largou a postura de sutil superioridade disfarçada de humildade carregada que mantivera até então, trocando-a por sua verdadeira face, a de pura covardia. Olhei-o de cima a baixo com desdém queimando em minha garganta, e não me arrependo de uma palavra sequer que por ela passou naquele odioso instante. 

– E sabe o que mais eu entendo agora, depois de todo esse tempo? Eu entendo que a promessa que me fez, a maldita promessa que eu te fiz fazer na casa de praia, onde eu te traí duas vezes com o seu melhor amigo enquanto você dormia, já estava sendo cumprida muito antes de ser feita. Você me machucou muito mais ao ter plena consciência de que me iludia com a mentira de que eu era a única em sua vida, quando decidiu começar um relacionamento comigo mesmo já sendo noivo de outra, quando nem sequer pensou em ser honesto comigo mesmo estando prestes a se casar. 

Matthew fechou os olhos com força, resistindo ao ácido extremamente corrosivo que saía de minha boca na forma de palavras, e que aos poucos abria feridas não em sua pele, mas em seu orgulho, em sua dignidade, se é que ele possuía algum dos dois. Não me forcei a parar, nem mesmo quando senti lágrimas incômodas borrarem minha visão, lágrimas que jamais derrubei, não por ele, nunca mais por ele. 

– E depois, você voltou para enfiar o último prego no caixão, não é mesmo? Aproveitou-se da ironia do destino e fez o que pôde para me infernizar... Afinal, eu te fiz prometer, não fiz? Pois bem, promessa cumprida. Pode fazer o que quiser com ela agora. Espero que ela te ajude a dormir à noite quando os fantasmas de todas as merdas que você aprontou finalmente te encontrarem e te assombrarem até mesmo quando as luzes estiverem acesas. 

– Eu não mereço ser tratado desse jeito... 

– Não, não merece – interrompi, permitindo-me rir de sua tentativa fajuta de se defender – Você merece pior. Mas felizmente Zayn não quer nem lembrar que você existe. Considere-se um homem de sorte. 

Por alguns segundos, encarei seu rosto ridiculamente contorcido num misto de medo e tristeza, sentimentos que não me pareciam sinceros, nem mesmo com o quilate de minhas ofensas. Nada que viesse dele me parecia sincero, não depois de ouvi-lo ressuscitar acusações que pouco importavam, considerando-se a atual conjuntura dos fatos. Além do mais, ele estava certo desde o começo: não merecia minha atenção, muito menos meu respeito, e menos ainda a minha consideração. 

– Só mais uma coisa – falei por fim, apontando um dedo em sua direção – Se eu souber que você saiu da linha, Healy, nem que por um milímetro, nem que por um segundo... Eu juro que eu, e Elliot, e Emily, e Zayn, e toda a família desse garoto, todos estamos de olho. Se aprontar mais uma, você nunca mais verá seu filho. 

Ele abriu a boca para retrucar, ou implorar, ou insultar, mas eu não estava interessada. Dei meia volta sem a menor necessidade de olhar para trás, e marchei de volta para a casa, da qual não deveria ter saído, já que aqueles preciosos minutos desperdiçados em má companhia teriam sido muito melhor aproveitados vendo álbuns de fotos com tia Margaret. 

– Garota, essa sua língua é terrível – Elliot murmurou ao se unir a mim na metade das escadas que levavam às portas de entrada – Amanhã o jardineiro terá que recolher os pedaços de Matthew que sobraram depois dessa conversa. 

– Eu faço o que posso – respondi, desfazendo-me de toda a ira com um suspiro profundo e voltando a sorrir assim que pisei na sala de estar outra vez. 

– Está tudo bem? – Zayn perguntou quando me reaproximei, oferecendo-me um copo d’água – O que ele queria? 

Por uma fração de segundo, pensei em ocultar a verdade, mas dispensei a possibilidade ao me recordar do histórico de mentiras entre nós, e do rastro destruidor que deixara. Drenando quase todo o conteúdo do copo num só gole, apenas balancei a cabeça negativamente. 

– Mais tarde. Agora, eu só quero fazer uma coisa. 

Minha resposta evasiva deixou-o bastante confuso, porém seu complemento, um beijo na boca, acompanhado de meus braços ao redor de seu pescoço, bastou para desanuviar seus pensamentos até que a explicação viesse, mais tarde, em nosso quarto, depois de uma noite tranquila na companhia de sua família. 

FIM!

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