Capítulo 21
Apesar do movimento de pessoas e veículos ao nosso redor, tudo parecia imóvel, imediatamente eliminado, a partir do momento em que Zayn surgiu. Menos meu coração, batendo desenfreado, e meus pensamentos, colidindo uns com os outros dentro de minha mente nublada pelo pavor. Nem mesmo o ar adentrava meus pulmões de bom grado, agarrando-se ao mundo exterior e deixando-me sem suprir minha necessidade de oxigênio, o que tornou minha respiração ofegante em menos de um minuto.
Os olhares dos dois homens à minha frente, um igualmente aterrorizado, outro uma mescla de raiva e incredulidade, estavam fixos em mim, um esperando e outro exigindo uma explicação. O peso da expectativa, combinado ao turbilhão de inseguranças que me paralisava dos pés à cabeça, atrapalhava ainda mais minha capacidade de reagir.
A lembrança da última vez que nós três nos encontramos, marcada pelo medo em minha memória, só agravava meu total amadurecimento.
– E então? Alguém vai dizer alguma coisa, ou posso começar a tirar minhas próprias conclusões?
As palavras de Zayn, ainda mais enfurecidas do que antes devido ao silêncio interminável que sucedeu sua pergunta, despertaram-me do choque de sua chegada. Mesmo sem saber direito como o responderia, gaguejei o que fui capaz de formular.
– Calma... Eu explico.
Ele ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa. Respirei fundo, buscando força para seguir em frente diante de toda a sua revolta.
– Venha comigo, por favor – pedi, com a voz fraca, levantando-me cautelosamente devido às pernas trêmulas – Não quero passar mais um segundo perto dele.
Notando a sinceridade em meu tom, a postura agressiva de Zayn diminuiu consideravelmente; enquanto nos afastavamos de Matthew, ainda surpreso demais para se manifestar, ou distraído demais com Ben para se importar, ele até chegou a colocar uma mão sobre meu ombro, preocupado com meu equilíbrio prejudicado.
– Você precisa me ouvir... Isso tudo... Não é o que parece – arfei, ao enfim pararmos a alguns metros da mesa. Certa de que estava sofrendo um ataque de pânico, tentei estabilizar minha respiração para poder continuar falando, porém sem muito sucesso. Zayn desceu sua mão para meu braço, dando um leve apertão na tentativa de me tranquilizar.
– Blair, fique calma – ele murmurou, buscando meus olhos evasivos com os agora aflitos dele – Seja o que for que você tem a dizer, eu tentarei compreender... Confio em você.
Minha garganta continuou apertada, embora sua declaração tenha acendido uma faísca de esperança em meu peito. Sem pensar duas vezes, sem sequer considerar a possibilidade real (e insuportavelmente dolorosa) de ser rejeitada, lancei meus braços ao redor de seu pescoço, deixando que meu coração desgovernado batesse contra o dele, e quem sabe transmitisse através de seus batimentos tudo o que eu precisava, mas não queria dizer. Felizmente, ele retribuiu o abraço, sussurrando palavras de incentivo enquanto eu buscava me recuperar do ataque de nervos para explicar tudo.
– Obrigada – suspirei ao soltá-lo, e levei as mãos ao rosto, preparando-me para o que viria.
– Tudo bem... Agora converse comigo.
Após mais alguns segundos de hesitação, dei início à revelação que deveria ter acontecido há muito tempo, se dependesse só de mim.
– Como você sabe, Matthew me procurou há um tempo... O que você não sabe, é que ele tem um motivo por trás de seu retorno.
Zayn franziu a testa.
– E você sabe disso como?
Engoli em seco. Nenhuma parte daquela conversa seria fácil.
– Eu me encontrei com ele... Horas antes de você aparecer na minha casa.
Sua expressão mudou de desconfiada para lívida num piscar de olhos. Minha coragem diminuiu consideravelmente, mas já não era possível voltar atrás.
– Eu precisava enfrentá-lo... Tentar eliminar o mal pela raiz, antes que a situação ficasse insustentável – expliquei, esforçando-me para manter minha voz firme – Mas não deu certo. O que ele tinha para dizer era grande demais. Grave demais.
– E o que ele tinha para dizer? – Zayn indagou, cruzando os braços em nítida desaprovação. Mordi o lábio inferior, prevendo uma queda de pressão só de imaginar sua reação ao que estava prestes a ouvir.
Mesmo que fosse mentira, e talvez exatamente por essa razão, sabia que seria um enorme transtorno para ele. Seu primeiro instinto seria o de voar no pescoço de Matthew, não só por me ameaçar, mas também por envolver Ben e Emily em suas tramoias, e sabe-se lá quantas pessoas seriam necessárias para apartar a briga. De qualquer forma, ele precisava saber. Depois do comportamento violento de Matthew após saber o resultado do exame, manter Zayn no escuro em relação ao que se passava apenas colocava todos os envolvidos em risco, inclusive ele.
E se eu ainda precisasse de mais motivos para me incentivar a abrir o jogo, era só me lembrar do quanto os poucos segredos que guardamos um do outro prejudicaram nossa relação no passado, e muito provavelmente, prejudicariam mais uma vez...
– Promete que vai ficar calmo – implorei, numa tentativa desesperada de amenizar a situação, que ele prontamente descartou com um risinho hostil.
– Como eu posso prometer alguma coisa se você mesma não cumpriu a promessa que me fez fazer, sobre não termos mais segredos entre nós?
Assenti devagar, envergonhada depois de ter meu erro trazido à tona, porém não desisti de tentar fazê-lo entender o que estava de fato acontecendo.
– Ele me pediu para não contar... E depois me ameaçou, para ter certeza de que minha vida seria um inferno... Com certeza, ele sabia que em algum momento você descobriria e que teríamos essa conversa, e que você não acreditaria em mim...
Parte do pânico que me asfixiava há alguns minutos voltou à vida, e por mais irritado que estivesse, ele não perdeu a paciência; pelo contrário, colocou as duas mãos sobre meus ombros e os massageou de leve, tentando restaurar um pouco da paz.
– Odeio dizer isso, mas ele está certo – Zayn disse, e por um instante meu coração acelerou tanto que pensei que fosse parar – Mas não em relação à última parte. Eu acredito em você. É nele que não posso, nem consigo acreditar, não depois de tudo que ele te fez passar.
Respirei fundo, cansada de sentir medo, de me sentir culpada por algo que praticamente nada tinha a ver comigo, a não ser pelo fato de que Matthew me envolvera na história à força. Motivada por sua reafirmação de confiança, simplesmente deixei que as palavras saíssem de minha boca, com os olhos fixos nos dele.
– Matthew acha que é o pai de Ben.
Zayn devolveu meu olhar por cerca de vinte segundos, sem dizer uma palavra ou mover um músculo. Estava começando a ficar preocupada quando enfim ele se pronunciou.
– Ele acha o quê?
Examinei sua expressão psicótica por um instante antes de repetir.
– Que é pai de Ben. Disse que não foi você quem dormiu com Emily naquela noite... Foi ele.
Mais silêncio de sua parte, bem mais curto do que o anterior. Eu não me lembrava de tê-lo visto tão quieto após uma notícia impactante antes. Se bem que eu nunca o tinha visto receber uma notícia tão impactante antes.
– Já que você diz que tem uma explicação para tudo isso, por favor, me dê um motivo para não voltar àquela mesa agora e acabar com aquele pilantra.
– Não faça isso, por favor – pedi, embora a última pessoa que quisesse proteger fosse Matthew – Não vale a pena. Nós já sabemos que ele está mentindo.
– Mas é claro que ele está mentindo! Filho da puta maldito! – Zayn vociferou, lançando olhares nada amigáveis na direção de Matthew, e somente depois de sua ira dar lugar à racionalidade outra vez, ainda que minimamente, ele voltou a me encarar com o semblante confuso – Espera... Nós já sabemos? Quem mais está envolvido nisso?
Fechei os olhos momentaneamente, percebendo que revelara detalhes demais. No entanto, se era para contar a verdade de uma vez, que fosse toda a verdade, sem cortes. Elliot me perdoaria por metê-lo na encrenca... Pelo menos era o que eu esperava.
– Seu primo. Ele também sabe de tudo.
Zayn abriu e fechou a boca várias vezes, a cada tentativa mais inconformado. Antes que ele encontrasse sua voz, voltei a falar, temendo não ter outra chance tão cedo, a julgar pelo nível de incredulidade em seu rosto.
– Nós fizemos um exame de DNA recentemente... Matthew insistiu, e como eu queria me livrar dele o quanto antes, ainda mais depois do que ele aprontou na festa da Dianna, resolvi ceder. Foi idiota, eu sei, mas eu não sabia o que fazer. Elliot me ajudou a coletar as amostras, e estava conosco quando soubemos o resultado.
– Negativo, óbvio! – Zayn exclamou, mal esperando que eu terminasse de falar – Caralho, Blair, como assim o Elliot está metido nisso? Que merda! Quando eu digo que você sempre me surpreende, não estou te desafiando... Mas dessa vez você se superou pra sempre!
– Eu sei, eu sei, foi errado cair na conversa dele, mas... Eu tive medo de ter te forçado a fazer algo que não deveria ter feito – justifiquei, voltando a sentir a ansiedade me dominar – Matthew tinha uma história relativamente plausível, além de não fazer sentido nenhum mentir sobre algo que poderia ser facilmente descartado, que foi exatamente o que aconteceu...
Minhas palavras se perderam em minha garganta ao observar o que se passava na mesa a poucos metros de nós. Emily se aproximara com Ben, e Matthew interagia com o pequeno, que respondia de sua maneira simpática. O brilho que vi nos olhos dele ao rir com o menino, sem precisar de um motivo, apenas por tê-lo à sua frente, enquanto a mãe tentava impedir o contato dos dois com as feições ligeiramente assustadas, fez com que toda a minha visão da situação mudasse por completo.
Estava muito claro para mim que sim, Matthew erapai de Ben. Eu podia não acreditar em mais uma palavra que saísse de sua boca, mas nessas... Nessas eu precisava acreditar.
– Ela descobriu – murmurei, perdendo-me em meus pensamentos alucinados – Ela descobriu de algum jeito...
Zayn olhou na direção deles, e então voltou a me observar, boquiaberto, perdido, assustado. Não tive condições de continuar explicando, apenas vasculhei minha memória, buscando alguma pista de quem poderia ter ajudado Emily em sua empreitada de falsificar o exame de DNA novamente, dessa vez, por seu próprio interesse – medo de Matthew depois de tudo o que ele a fez passar, talvez? Medo de que ele fosse um mau pai para seu filho? Eu não a culparia por nenhuma das duas possibilidades.
– Blair? – Zayn chamou, em vão; ergui uma mão indicando que precisava de um minuto para organizar minha mente.
Elliot? Será que sua suposta ajuda era apenas um plano para acobertar a verdadeira história? Estaria ele do lado de Emily desde o começo, desde que mentiu sobre o próprio primo para mim?
– Não... – balbuciei, balançando a cabeça – Ele não.
– Blair...
– Espera... Eu entendi agora. Só preciso que me deixe pensar, e então explicarei tudo...
Quem mais sabia do exame? Eu, Elliot, Matthew... Meu pai.
– Blair!
Assustei-me com sua voz alta me chamando, e devolvi seu olhar furioso. Eufórica com minha descoberta, mesmo que não pudesse prová-la de forma concreta (pelo contrário, dois exames de DNA refutavam minhas certezas), não pude evitar o fluxo de palavras que escapavam de minha boca, apesar de sua expressão desencorajadora.
– Zayn, é verdade! Ele está dizendo a verdade! Eu não posso provar, mas você tem que acreditar em mim! Alguma coisa está errada nessa história toda!
Ele franziu ainda mais a testa. Apontei para a mesa, onde Emily ainda tentava evitar que os dois interagissem, sem muito êxito.
– Olha pra ela! Está tão desconfortável com a situação... Desconfortável até demais... Esse comportamento não é normal!
– Esse comportamento não é normal – ele rebateu, segurando meus pulsos enquanto eu gesticulava feito uma histérica – É claro que ela não o quer perto do Ben, ela sabe exatamente que tipo de pessoa ele se tornou! Você, em compensação, parece ter esquecido...
Sua resposta rude me paralisou da cabeça aos pés. Apenas devolvi seu olhar indignado com um vazio, desiludido.
– Você não acredita em mim.
Zayn suspirou, entristecido pelo desapontamento em minha voz, mesmo que o sentimento fosse mútuo.
– Eu... – ele começou a falar, mas desistiu, dando de ombros – Eu nem sei o que te dizer.
Pisquei algumas vezes, lutando contra as lágrimas frustradas que começavam a arder em meus olhos. Quebrei o contato visual, incapaz de suportar a reprovação nítida em suas íris, e assenti lentamente, derrotada. Sua atitude cética, por mais previsível que tivesse sido, doía infinitas vezes mais agora que se tornara realidade.
– Eu entendo – falei, tão baixo que ele mal me ouviu – Eu... Eu entendo. Me desculpe.
– Preciso levá-los daqui. Não posso ficar mais um minuto perto desse imbecil, muito menos deixar que eles fiquem.
Assenti novamente, inerte, congelada pelo muro de gelo que ele construíra entre nós em tão pouco tempo, com o gelo que eu forneci ao longo daquelas semanas de mentiras e especulações absurdas.
Mentiras e especulações absurdas que, agora eu sabia, não eram tão absurdas assim. Mas como fazê-lo perceber?
– Quer uma carona para casa? – Zayn perguntou baixo, frio, distante, embora não completamente, pelo toque de preocupação óbvio em sua oferta – Posso aparecer lá mais tarde. Podemos conversar melhor quando você estiver mais... Calma.
– Não, obrigada – respondi sem pestanejar, ainda recusando-me a olhá-lo – Eu estou bem.
Ele suspirou profundamente, o que só me deixou ainda mais transtornada. Ele estava sentindo pena de mim, achando que Matthew entrara em minha cabeça, e que tudo aquilo era uma loucura. Não podia culpá-lo, afinal, também tive uma reação bastante adversa quando descobri, mas não podia admitir que ele, o enganado, a vítima daquela intriga, estivesse tão certo de que eu estava errada.
– Por favor...
– Você nem tentou acreditar em mim – murmurei, sem querer mais ouvir uma palavra dele naquele tom degradante – Por mais difícil que possa ser... Você nem sequer tentou.
Zayn abriu a boca para responder, mas antes que pudesse emitir qualquer som, dei-lhe as costas e fui embora, fazendo questão de passar pela mesa onde Matthew ainda só tinha olhos para o filho, enquanto eu só tinha olhos para Emily, e os segredos que sua carinha inocente escondiam.
– Eu não acredito nisso – Elliot suspirou, cobrindo o rosto com as mãos – O que ele foi fazer aí? Ainda mais com a minha irmã e o Ben?
Encarei a tela do computador, por onde conversávamos por chamada de vídeo. Depois de contar o que se passara há apenas algumas horas, mecanicamente, chocada demais para exprimir o medo e a tristeza que só cresciam dentro de mim a cada vez que a reação de Zayn se repetia em minha memória, assisti às lamentações de seu primo, somente agora recuperando alguma cor depois de empalidecer devido ao meu relato.
Se ele ficou branco como papel ao me ouvir contar o ocorrido, imaginei de que cor fiquei quando os eventos que descrevi ocorreram.
– Eu não sei – respondi, sem emoção, com o olhar distante – Mas preciso confessar que algo me pareceu estranho na situação toda.
Elliot franziu a testa, e sua curiosidade fez com que se aproximasse da câmera sem perceber.
– Você acha que foi armação de Matthew?
– Não... A cara aterrorizada que fez quando viu Zayn foi totalmente espontânea. Assim como o sorriso iluminado que deu quando viu que Ben estava com ele.
– Então... Você acha que ele não está mentindo?
Balancei negativamente a cabeça.
– Eu tenho certeza.
Ele respirou fundo, e assoviou ao soltar o ar, processando o peso de minha afirmação.
– Você sabe o que eu penso – disse ele enfim, sem julgar meu posicionamento assertivo – Acho que tem alguma coisa estranha nessa história, algum detalhe que deixamos passar... Mas por onde podemos sequer começar a procurar, se tudo está contra essa possibilidade? Quer dizer, dois exames de DNA... Não é fácil derrubar um argumento desses.
– Eu não sei... Pra ser bem sincera, eu não sei de mais nada.
Dessa vez eu escondi meu rosto nas mãos, reprimindo a vontade de sucumbir ao choro preso em minha garganta. Eu não queria chorar. Eu estava certa, sabia disso, por que deveria me sentir mal? Aquele era só mais um impasse, um obstáculo a ser superado... Bastaria manter a calma e encontraria uma saída.
– Não fica assim, poxa – Elliot reclamou, fazendo-me pular de susto na cadeira – Foi só eu começar a ir com a sua cara que você fica toda chorosa e quer desistir de tudo? Para com isso, garota! Tô contigo, relaxa que a gente vai dar um jeito.
Um risinho desanimado borbulhou de meus pulmões diante de seu simpático, ainda que disfarçado, incentivo, que ele só percebeu porque meus ombros se mexeram para acompanhá-lo. Voltei a revelar meu rosto, agora um pouco menos desolado, e assenti de leve.
– Obrigada, Elliot... De verdade. Você tem sido de grande ajuda.
Ele ergueu uma sobrancelha, simulando desdém, apesar de estar claro que ele queria sorrir de volta.
– Já disse que estou nessa pelo meu sobrinho, e não por você, sua...
Minhas duas sobrancelhas subiram diante de sua pausa, durante a qual ele buscava algum adjetivo ofensivo para completar sua resposta; não demorou muito e ele desistiu, revirando os olhos.
– Infelizmente, você é bonita e legal, então deixa pra lá.
Ambos rimos de seu comentário, e eu agradeci levando uma mão ao peito em sinal de honra.
– Bem, eu tenho que ir agora... Foi um longo dia, preciso descansar. Minha cabeça não para de rodopiar, e encarar a tela do computador só está piorando a situação.
– Tudo bem, nos falamos depois – ele disse, seu sorriso transformando-se de divertido para compreensivo – Qualquer coisa, me liga. Se bater alguma crise e precisar conversar, estou aqui.
Concordei com a cabeça, o que não foi suficiente.
– Mas é pra ligar, hein, sua bunda?
– Está bem, eu vou ligar! – confirmei, erguendo as mãos em rendição – Mais uma vez, obrigada por tudo.
– Tudo bem – ele respondeu, e subitamente tomou um rumo reflexivo – Você foi a primeira namorada de Zayn com quem consegui me dar bem. Estava precisando mudar meus hábitos. Se tem uma coisa que eu detesto é ser previsível.
Engoli em seco, emocionada com sua revelação, e ao mesmo tempo entristecida pelo primeiro pensamento que me veio à mente, que foi logo convertido em palavras.
– Aproveite enquanto pode... Sabe-se lá por quanto tempo ainda serei namorada de Zayn.
Elliot abriu a boca para refutar minha atitude pessimista, mas eu não o deixei sequer começar, abaixando a tela do notebook e silenciando sua bronca de imediato. Após um longo suspiro e algum tempo de contemplação inútil, levantei-me da cadeira, apenas para voltar a me atirar de cara na cama. O quarto estava completamente escuro agora que o computador não o iluminava, e eu preferia assim. Minha mente precisava de um pouco de paz.
Fui acordada dez minutos depois pela vibração de meu celular, perdido sobre o colchão. Meu coração quase não suportou o susto, seguido de perto pela apreensão. Estava com medo de saber qual nome leria no visor antes mesmo de tatear pela cama e encontrá-lo. Num ato de bravura vinda do além, olhei para a tela do aparelho, na mesma hora em que a pessoa do outro lado da linha desistia de ser atendida.
1 chamada perdida: Zayn
Ao mesmo tempo em que senti um alívio enorme percorrer minha espinha ao saber que ele estava tentando falar comigo ao invés de ignorar minha existência, e também por não ser Matthew me importunando, não pude evitar ser dominada por um nervosismo que não tinha energias para sustentar, não depois de um dia daqueles.
– Desculpe – murmurei, decidida a não atendê-lo caso voltasse a ligar, e coloquei o celular na primeira gaveta do criado-mudo, querendo apenas me afastar de qualquer forma de comunicação. Meus dedos tocaram papel no fundo da gaveta ao depositar o aparelho ali, e por algum motivo – curiosidade mórbida, tortura, idiotice – resolvi retirá-lo de lá e lê-lo, mesmo que já soubesse de que se tratava.
Com preguiça de acender o abajur, usei a tela do celular para iluminar as palavras escritas nas duas folhas dobradas juntas, uma mais antiga, outra bastante recente.
Por um instante, odiei-me por ter insistido em olhar novamente para aqueles papéis, provas de minha estupidez. Por um instante, no escuro, encolhida em minha cama, duvidei de mim mesma. Valia mesmo a pena insistir em meu instinto, quando o que estava em jogo era nada mais, nada menos do que meu relacionamento com Zayn?
Por mais que partes de mim ainda relutassem em desistir, a resposta foi mais do que óbvia.
Negativo.
– Devo estar ficando louca... – murmurei, dobrando novamente os papéis, porém o celular iluminou uma parte da página que me chamou a atenção. Parei por um momento, processando a informação que acabara de receber, e voltei a desdobrar os resultados, colocando-os lado a lado sobre meu colo e alternando a luz do aparelho entre os dois.
Pela segunda vez em um só dia, tive sérios problemas respiratórios, ambos motivados por choques emocionais.
Tremendo da cabeça aos pés, encarei os papéis por mais alguns segundos, certificando-me de que não estava fantasiando, antes de procurar um nome na lista de contatos do celular, ação que levou o triplo do tempo necessário devido à adrenalina cada vez mais significativa em meu sangue.
– Que rápi...
– Elliot.
Ele parou de falar assim que ouviu o desespero em minha voz.
– O que aconteceu, mulher? Assim você me assusta, credo!
Recuperei parte do fôlego perdido em minha descoberta acidental, porém crucial.
– Preciso da sua ajuda. Tem alguém que preciso visitar.
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