Capítulo 13


– Bom dia.

Abri um olho ao ouvir o cumprimento inesperado assim que me levantei do sofá, e respirei fundo na tentativa de parecer menos exausto após a noite passada em claro.

– Bom dia – murmurei de volta, educadamente me escorando na entrada da cozinha, e enfim sua imagem entrou em foco. Blair estava em pé ao lado da mesa, despejando cereal numa tigela. Ao perceber meu cansaço, franziu a testa de leve.

– Te acordei? – ela indagou inocentemente – Desculpe.

Balancei a cabeça em negação, sem forças para gaguejar uma resposta, ainda mais depois de perceber suaves círculos escuros sob seus olhos. Pelo visto, não só a minha noite tinha sido péssima.

Procurei afastar tal pensamento de minha mente assim que ele surgiu. Estava cedo demais para me afundar em culpa e arrependimento.

– Não, eu... Já estava acordado – disse, mesmo que já tivesse respondido sua pergunta. A necessidade de manter meu raciocínio ocupado com qualquer tarefa era minha única esperança de não acabar balbuciando algo que não deveria ou me perder em devaneios impróprios.

Blair assentiu lentamente, sentando-se numa das cadeiras e hesitando por um momento, com o olhar baixo, antes de pegar a caixa de leite sobre a mesa e adicioná-lo ao conteúdo da tigela. Um breve silêncio se instaurou, até que ela voltou a erguer os olhos e sorriu fraco.

– Quer? – ela perguntou, um tanto tímida, indicando seu café da manhã – Eu disse que não ia dividir, mas era mentira.

Seu tom redimido me fez soltar um risinho baixo, porém verdadeiro. Ela realmente achou que eu levaria sua brincadeira a sério? Sempre tínhamos brigas fajutas como aquela quando...

Engoli em seco; o sorriso desapareceu rapidamente.

– Obrigado – falei apenas, e se não fosse pelo monstro rosnando em meu estômago, teria recusado sua oferta. Ocupei a cadeira à sua frente, passando no caminho por um dos armários e pegando uma tigela, e me servi sem dizer mais nada.

Apesar da postura amigável que ambos mantínhamos, algo havia mudado. A tensão entre nós havia retornado, e parecia furiosa por ter sido suspensa na noite anterior. Já não era mais tão fácil ignorar tudo o que pesava sobre nossos ombros, e o reflexo disso estava em nossas pálpebras pesadas, privadas de descanso por longas horas. O passado, nosso passado, batia incessantemente à porta de nossas consciências a cada olhar lançado, a cada palavra trocada, e nosso encontro inesperado (e frustrado) no corredor foi o divisor de águas nessa mudança brusca, eu tinha certeza disso.

Longos minutos se passaram, e nós apenas comemos, sem ousarmos desviar nossas atenções dos flocos coloridos em nossas tigelas. Terminamos nossa refeição praticamente ao mesmo tempo, e como se já não tivéssemos preocupações suficientes, resolvemos ter a mesma ideia ao mesmo tempo: suas mãos envolveram a tigela à sua frente, e meu braço se estendeu para alcançá-la, com a mesma intenção de levá-la até a pia.

Nossas mãos frias se encontraram sobre a cerâmica, e de imediato, o rosto de Blair ardeu, enchendo-se de cor. Meu coração bateu feito doido no peito; eu estava perfeitamente acordado.

– D-desculpe – gaguejei, meu olhar acertando o dela em cheio, ambos igualmente surpresos e embaraçados. Minha mão continuou sobre a dela, e por mais que a razão ordenasse que eu a retraísse instantaneamente, como se a tivesse exposto ao fogo, nada me parecia mais agradável do que mantê-la entre as chamas.

Ela abriu e fechou a boca algumas vezes, imóvel, antes de balançar negativamente a cabeça e baixar seus olhos para o fundo da tigela. Observei seu peito subir e descer num ritmo mais acelerado que o comum. Blair estava claramente lutando com todas as forças que ainda lhe restavam... E que com certeza eram mais eficientes do que as minhas, pois enquanto eu ainda mantinha meu braço esticado para tocar sua mão, ela se levantou de súbito, levando sua tigela consigo, e seguiu até a pia.

Assim que o encanto se quebrou e eu pude raciocinar novamente, uma culpa horrível me engoliu. Fechei os olhos, incapaz de acreditar que havia sido tão fraco. Eu havia imposto aquela distância, e ela fora a única de nós dois a se lembrar disso. Era inaceitável de minha parte ser tão fraco em sua presença... Mas, por maiores que fossem meus esforços, me parecia ainda mais inaceitável resistir. Cada célula em meu corpo vibrava na direção dela, me impelindo a estar sempre o mais próximo possível, e lutar contra esse magnetismo era desgastante, exaustivo demais. Eu me recordava de momentos de cansaço não apenas psicológico, mas que beirava também o físico, durante o tempo em que era seu professor. Me lembro de encerrar as aulas me sentindo drenado, esgotado por passar tanto tempo medindo cada gesto e tomando as devidas precauções para não me aproximar demais.

E agora isso... Mais do que nunca, eu precisava me manter afastado, precisava seguir minhas próprias decisões, e havia falhado. Eu realmente tinha perdido o jeito. Agora, que eu sabia o que era poder tocá-la sem restrições, não poder orbitar livremente ao seu redor era inconcebível.

Quando enfim retomei o controle, suspirei profundamente e abri os olhos, dirigindo-os a ela sem me acovardar.

– Blair...

Assim que ouviu seu nome, ela se sobressaltou, e seus ombros se encolheram instintivamente, como se ela estivesse no limite de seu autocontrole e qualquer ação minha pudesse ser a gota d’água. Tal movimento brusco fez com que a tigela, já envolta em espuma, escorregasse de sua mão e caísse dentro da pia. O impacto quebrou a louça com estrondo. Me levantei num pulo e corri até ela, totalmente comandado pela preocupação.

– Está tudo bem – ela avisou, numa voz trêmula, sobrecarregada de retenção, ao perceber minha aproximação – Não foi nada, está tudo bem.

Seus olhos permaneceram baixos, e seu rosto ainda queimava de vergonha por sua reação intensa. Segurei seus pulsos e inspecionei cada centímetro de pele, buscando algum machucado em meio à espuma que cobria parte de suas mãos. Levei-as até o jato de água que saía da torneira, com o intuito de enxaguar o detergente, e assim que o fiz, Blair se encolheu novamente, e seu rosto se contorceu de dor. Quando a água lavou toda a espuma, pude ver o corte razoável que um dos cacos havia aberto numa de suas mãos.

Respirei fundo ao perceber que ela havia se ferido, e senti minha culpa aumentar infinitamente. Porém, o filete de sangue que escorria de seu machucado, sendo imediatamente estancado pela água corrente, fez com que meu cérebro ativasse o piloto automático, e eu não me permiti pensar em outra coisa a não ser cuidar dela.

– Onde fica o kit de primeiros socorros? – murmurei, tentando soar calmo para que ela não se assustasse. Eu sabia que ela era durona quando se tratava do sangue dos outros, mas bastava um corte de papel na ponta do dedo para que seus olhos se enchessem de lágrimas.

– No banheiro, lá em cima – ela respondeu, baixo.

– Deixe a mão sob a água, está bem? – adverti, penalizado pelo tom nervoso de sua voz – Eu já volto.

Mal esperei que ela assentisse para voar escada acima; revirei o banheiro até achar o que procurava e voltei para ela, que permaneceu na mesma posição durante o meio minuto em que a deixei.

– Pronto – falei, um tanto ofegante, me aproximando e fechando a torneira – Vem.

Posicionei uma toalha de rosto sob seu braço para que ela me acompanhasse até a mesa, e dessa forma ela o repousou sobre a superfície de madeira, sentando-se no lugar que antes ocupava. Puxei a cadeira mais próxima e também me sentei para cuidar do ferimento.

– Está doendo muito? – questionei enquanto pegava o antisséptico do kit e uma bolinha de algodão, mal tirando os olhos de Blair, que negou com a cabeça – Fique tranquila, vai ser rápido.

Ela engoliu em seco, ciente de que o que estava por vir não seria exatamente agradável, e eu rezei para que não fosse um corte profundo. Observei o machucado enquanto embebia o algodão no remédio, e o sangue parecia ter sido contido pela água, o que era um ótimo sinal. Se ela realmente precisasse de atendimento médico, o corte provavelmente teria sangrado desde que fechei a torneira. Tal constatação ajudou a me acalmar, pelo menos minimamente.

– Respire fundo – pedi, sem conseguir evitar comentários reconfortantes diante de seus olhos já levemente chorosos. Suavemente, passei minha mão livre sob a dela, da mesma forma que havia feito por acidente alguns minutos atrás, e meu polegar automaticamente acariciou a pele úmida, tentando transmitir apoio. Ela se arrepiou, como sempre acontecia quando nossos corpos estabeleciam qualquer forma de contato físico, e nossos olhos foram compelidos a se encontrarem.

Diferentemente da primeira vez em que segurei sua mão, não nos sentíamos culpados, apenas conectados. Ela soltou o ar que involuntariamente havia prendido, relaxando visivelmente devido ao meu toque, e por um instante, eu me esqueci de tudo.

Pisquei repetidas vezes para retomar o foco, e me concentrei em limpar o ferimento, que já voltava a apresentar um leve sangramento. Seguindo meu próprio conselho, respirei fundo e pressionei o algodão com delicadeza sobre o corte. Ambos reagimos por reflexo: ela tentou retrair a mão, e eu a segurei no lugar. Blair mordeu o lábio, reprimindo uma reclamação, e eu continuei minha tarefa, sem pressa, porém sem estender demais a tortura. Estava quase terminando quando percebi que ela havia relaxado novamente, acostumada à ardência, e pude sentir seu olhar sobre mim.

– Você se lembra... – ela murmurou, interrompendo a frase para segurar um gemido de dor devido ao efeito do antisséptico sobre o corte – De quando me deixou dirigir sua moto... E eu fui um completo desastre?

Ergui meu olhar de sua mão para seus olhos, que instantaneamente se fixaram nos meus com uma clareza distante, nostálgica. Logo voltei a me concentrar no machucado, porém parte de mim havia sido irremediavelmente tocada pela lembrança que ela havia trazido à tona. Um sorriso fraco tomou conta de meus lábios sem prévio aviso, e eu estava tão exausto (em todos os sentidos) que me dei ao luxo de permitir que ele permanecesse ali. A sensação de reviver pequenos momentos com ela se revelara tão revigorante e necessária que em pouco tempo eu havia me tornado escravo do curto passado que tivemos.

– Por um momento eu tive certeza absoluta de que você tinha quebrado no mínimo uns dois ossos – ri baixo e distraidamente, finalizando a limpeza do pequeno ferimento com todo o cuidado que minha consciência parcialmente ativa permitia – Ainda mais quando te vi chorando feito uma criancinha.

Blair soltou uma risada curta, seus olhos fixos em mim, porém sem realmente me ver, como quem se transporta para outro lugar – no caso, para outro tempo. Onde tudo parecia natural, transparente... E inacreditavelmente simples.

– Doeu pra caramba, tá? – ela reivindicou, fazendo meu sorriso se alargar. Franzi a testa em contestação.

– Me poupe, você escapou razoavelmente intacta, apenas com os joelhos ralados – brinquei, deixando de lado o algodão levemente manchado de sangue, e reunindo um pedaço de gaze e esparadrapo para fazer o curativo – A moto sofreu muito mais, acredite.

– Você ficou o resto do dia trabalhando nela – Blair admitiu, em tom de culpa, e eu assenti, cobrindo o corte com o curativo e me certificando de que o esparadrapo havia se fixado em sua pele – E perguntando se eu estava bem ao mesmo tempo... Só pra ter certeza de que eu não havia me arrebentado.

– Como você é uma garota de sorte, ficou tudo bem – falei, atrevendo-me a encará-la e imediatamente me arrependendo. Não por encontrar seus olhos serenos e verdadeiramente felizes com as lembranças que se desenrolavam por trás deles, mas sim, por saber que em algum momento eu deveria desviar o olhar e quebrar aquela ligação entre nós, tão íntima e preciosa mesmo depois de tudo o que havia acontecido.

– Mas você me levou ao hospital mesmo assim... Por medo de alguma hemorragia interna ou algo igualmente dramático – ela continuou, esboçando um sorriso tranquilo – Não sossegou enquanto o médico não confirmou que eu estava realmente bem.

– E você cochilou na volta pra casa, depois de tanta aventura – completei, meu coração acelerando cada vez mais ao seguirmos recriando aquele dia em nossas mentes e caminhando um passo a mais na direção do precipício que nos separava, o medo de cair já se dissipando sem que algo pudesse ser feito para reativá-lo enquanto a vontade de cair nos dominava numa velocidade assustadora – Eu te carreguei até a cama, tirei seus sapatos e te coloquei pra dormir.

– Colocou mesmo – ela disse, sorrindo abertamente, seus olhos jamais abandonando os meus – Você cuidou direitinho de mim.

Senti sua mão se virar para baixo sobre a minha, fazendo com que nossas palmas se encontrassem, e as pontas de seus dedos repousaram sobre meu pulso. Uma voz distante no fundo de minha mente avisava que eu havia baixado demais a guarda e que não seria capaz de reconstruí-la a tempo, mas eu mal podia ouvi-la, não agora que outra voz reverberava em todo o meu ser. A voz que só ela conseguia fazer se manifestar dentro de mim.

– E sempre vou cuidar – sussurrei, sem saber ao certo como encontrei as palavras e o pouco de fôlego com o qual as proferi – Não importa o que aconteça.

Seu sorriso se dissipou lentamente, à medida que ela absorvia minha confissão. O vazio distante em seu olhar foi gradativamente substituído pela seriedade do agora, a noção do que nós estarmos juntos ali, em nosso próprio universo intacto de carinho, significava e podia trazer como consequência.

– Você não sabe como é bom ouvir isso – ela enfim disse, e o tom trêmulo em sua voz denunciava o que eu sempre soube, mas escolhi não considerar para conseguir continuar firme em minha decisão: eu estava sofrendo, mas ela também estava, e provavelmente até mais do que eu.

Pela primeira vez, tentei me colocar em seu lugar, de verdade, sem restrições. Tentei imaginar como seria descobrir que quem amo na verdade não é quem aparenta ser, e me ver categoricamente posto de lado, removido de sua vida, ainda que eu não tivesse certeza de como queria participar dela após toda a decepção. Me vi subitamente sozinho, sem certezas, sem motivos para ter esperança, sem sequer uma notícia, ainda que fosse para saber que tudo estava indo bem sem mim. Me vi no escuro, sem qualquer incentivo para buscar alguma luz, deixado para trás...

Me vi refletido em seus olhos, percebendo o enorme erro que havia cometido.

Meses se passaram, sem uma palavra, com tanta mágoa e tanta tristeza entre nós, e agora tudo parecia igual, se não mais intenso e real... Nós não podíamos estar errados, podíamos? Ainda que eu não fosse o melhor homem que pudesse ser, o melhor homem que ela merecia que eu fosse, aquilo que nos unia, que nos puxava de volta para o mesmo lugar de onde tão determinadamente nos afastávamos, seguindo direções opostas, não poderia ser tão condenável e ao mesmo tempo tão certo se não fosse exatamente isso. Se não fosse certo.

Nossos lábios se encontraram antes que nossas mentes pudessem articular algum outro plano para nos manter afastados.

Blair segurou forte em minha mão, como que buscando algo em que se apoiar enquanto caíamos do abismo, juntos. Acariciei seu rosto com a mão livre, sentindo meu corpo inteiramente eletrificado pela sensação de beijá-la outra vez depois de todo aquele tempo de distância. Ela repousou sua mão na curva de meu pescoço, deslizando-a para minha nuca e aprisionando meu cabelo entre seus dedos saudosos. Aprofundamos o beijo sem demora, famintos um do outro, e em poucos segundos, envolvi sua cintura com meu braço, puxando-a para meu colo; ela obedeceu de bom grado, acomodando-se de lado sobre minhas pernas.

Desabriguei minha mão de seu aperto e desenhei o contorno de seu braço às cegas, seguindo até seu cotovelo, para então conduzi-lo até meu ombro e fazê-lo envolver meu pescoço. Blair sorriu contra meus lábios, prontamente atendendo ao meu pedido e me abraçando apertado. Seu perfume invadiu minha mente, impedindo o surgimento de qualquer pensamento a não ser o que ela vocalizou, com a testa unida à minha e os olhos fechados.

– Que saudade...

Abracei sua cintura com mais força, trazendo-a para ainda mais perto de mim, e respondi com outro beijo, que pareceu durar um mísero segundo, embora estivéssemos nitidamente descabelados, com os lábios avermelhados, e sem fôlego quando o partimos. Todo o tempo perdido levaria ainda mais tempo para ser recompensado, foi o que rapidamente percebi. Não desperdicei mais um instante, e mesmo precisando desesperadamente de ar, voltei a beijá-la com toda a intensidade que meu corpo implorava para externar, depois de meses de contenção.

Como foi que sobrevivi mais de um minuto sem ela?

– Zayn – ela murmurou, afastando um pouco o rosto do meu e fitando meus olhos com certo receio.

– Blair – chamei de volta, forjando uma seriedade que ela logo desmascarou, rindo junto comigo. Era impossível esconder minha felicidade, e sentir a dela me contagiando apenas me fazia voar mais alto. Levamos alguns segundos para nos recuperarmos de nossa idiotice, e então ela voltou a demonstrar sua insegurança. Ao falar, ela manteve os olhos baixos, brincando com a gola de minha camiseta.

– Falando sério agora... Você tem certeza de que...

Cobri seus lábios com meu indicador antes que ela completasse sua pergunta.

– Falando sério agora – respondi sem hesitar, e toquei a ponta de seu nariz – É claro que eu tenho certeza.

Um sorriso lindo surgiu em seu rosto, mas ainda não era inteiramente seguro, magnífico, como eu sabia que podia ser e queria que fosse. Sua preocupação era compreensível, e eu faria de tudo para que ela entendesse que eu sabia o que estava fazendo. Chega de sofrer pelo que não podíamos mudar; na tentativa de ser verdadeiramente digno de seu afeto, eu apenas criei novos motivos para que ela se ressentisse. Estava farto de me punir, de nos punir, por algo que nunca havia sido um problema. Ela me amava como eu era, e eu só tinha a agradecer por isso, começando desde agora, já que minha dívida era tão extensa que eu a perdia de vista.

– Eu não quero te perder de novo – ela murmurou, em tom de confissão, ainda com os olhos baixos – Então me diga de uma vez, antes que eu me iluda e seja tarde demais para voltar atrás...

Blair engoliu em seco antes de retribuir meu olhar e enfim dar voz ao que a preocupava.

– O que isso significa?

Afastei uma mecha de seu cabelo, abrigando-a atrás de sua orelha. As palavras que saíram de minha boca vieram diretamente da alegria pulsante em meu peito, sem filtro, sem comedimento, sem medo.

– Significa tudo. Significa que eu amo você, e que eu sinto muito por tudo que eu te fiz passar.

Ela apenas me encarou por um instante, processando o que ouviu, até que um brilho encheu seus olhos e contaminou todas as suas feições, permitindo que o sorriso que eu tanto aguardei aflorasse em seu rosto. Sorrimos um para o outro feito duas crianças em manhã de Natal; ainda que ela estivesse rindo, desconfiei quando escondeu o rosto em meu pescoço.

– Ei... – sussurrei, convencendo-a a voltar a me olhar com um carinho no queixo, e minhas suspeitas se confirmaram quando observei a excessiva umidade em seus olhos – Não faz assim.

– É por causa do machucado – ela fungou, lançando um olhar envergonhado em minha direção. Cerrei os olhos, nem um pouco convencido, e mordi sua bochecha sem aviso prévio, fazendo-a soltar um gritinho. Ela estapeou meu ombro até que meus dentes a libertassem, e voltamos a agir feito dois patetas apaixonados.

Em pensar que há alguns anos, a mera ideia de me comportar dessa forma me traria náuseas... Agora, no entanto, eu era o pateta mais orgulhoso de ser pateta que o mundo já viu. Claro que só na frente dela, e em ocasiões especiais. Patetice constante não era muito o meu estilo. Blair passava mais tempo me socando e mostrando a língua pra mim por meus arrotos apaixonados do que se derretendo de amores por minhas declarações poéticas.

Se bem que eu sabia fazê-la derreter rapidinho...

– Fala de novo – ela murmurou, mal podendo disfarçar sua euforia. Com um riso curto, levei minha boca até sua orelha e obedeci.

– Eu amo você.

Um suspiro quente escapou de seus pulmões. Ela apertou a gola de minha camiseta e se encolheu ainda mais em meu abraço.

– Só mais uma vez.

– Eu amo você – repeti, sentindo minhas pálpebras cada vez mais pesadas e o oxigênio cada vez mais escasso – Eu amo você, eu amo você, eu amo você...

Nossas bocas se encontraram com urgência, e minha mão se encheu com a maciez de sua coxa, praticamente toda exposta pelo shorts de seu pijama. Meu sangue borbulhou nas veias ao ouvi-la ensaiar um gemido enquanto aprisionava meu lábio inferior entre seus dentes, e minha sanidade evaporou quando ela se remexeu em meu colo, provocando um leve atrito que tirou meu fôlego. Subi meu toque e brinquei com o tecido de sua roupa, ansiando o calor que eu sabia que encontraria se apenas avançasse mais um pouco entre suas pernas.

Blair se empenhou em traçar um caminho torturante de beijos por minha mandíbula, seguindo para meu pescoço. Suas unhas arranharam de leve o outro lado de meu rosto em provocação, e eu beijei sua palma, sobre o curativo que havia acabado de fazer. Sorrateiramente, continuei escalando sua perna por sobre o shorts até atingir o cós, acariciando a região logo abaixo de seu umbigo com meu polegar antes de embrenhar meus dedos sob o elástico de sua calcinha. Ela soltou o ar pesadamente, descolando sua boca da parte de trás de minha orelha, e eu prossegui, descendo sem pressa e explorando cada centímetro de pele no caminho. Abaixei a cabeça ao atingir meu destino, repousando minha testa sobre seu ombro com os olhos fechados, concentrado em sentir cada reação que seu corpo oferecia aos meus estímulos. Ela respirou fundo quando as pontas de meus dedos encontraram a umidade entre suas coxas; sem exercer muita pressão, acariciei a região sensível e senti minha boca salivar ao perceber o quão intenso era seu desejo.

– Quero te beijar – sussurrei para a curva de seu pescoço, completamente refém. Blair trouxe sua boca até a minha, respirando com dificuldade devido aos lentos movimentos de meus dedos, e eu retribuí o beijo que ela me deu. No entanto, não era àquele tipo de beijo que eu me referia. Eu ainda estava sedento.

– Eu quero... – ofeguei, removendo minha mão de dentro de seu shorts e passando meu braço por baixo de seus joelhos; envolvi sua cintura com o outro, e levantei da cadeira, carregando-a comigo, para deitá-la sobre a mesa ao nosso lado, empurrando todo o resto.

Seus quadris estavam alinhados com a beirada do móvel, suas pernas pendiam uma de cada lado de meu corpo, e ela se esparramou sobre a madeira escura, com o olhar fixo no meu. Minhas mãos deslizaram por sua cintura, levando junto consigo em sua subida a camiseta do pijama, e meus lábios encontraram sua barriga. Ela arqueou as costas em resposta à minha carícia, removendo a primeira peça de roupa e expondo seus seios. Levei meus beijos até eles, com toda a paciência e dedicação do mundo. Blair mantinha os lábios entreabertos, e por entre eles uma sinfonia de gemidos baixos escapava a cada toque de minha língua em sua pele. Uma vez livre da parte de cima de seus trajes, minhas mãos passaram a trabalhar na parte de baixo, empurrando os dois itens restantes de vestuário enquanto a distraía com beijos e leves mordidas.

Assim que a despi por completo, espalmei minhas mãos ao lado de sua cabeça e olhei fundo em seus olhos. Meu rosto pairou a centímetros do dela quando enfim finalizei minha frase:

– Te beijar.

Mantive contato visual conforme erguia meu tronco e me sentava numa das cadeiras atrás de mim, bem diante dela. Percorri o interior de suas coxas com minhas mãos e as afastei, umedecendo meus lábios discretamente para então saciar meu desejo e beijá-la exatamente onde queria.

Seus dedos se embrenharam em meu cabelo de imediato, acompanhados de um longo gemido. Continuei acariciando suas pernas conforme minha língua se movia, por vezes em círculos, por vezes, verticalmente, ora rápido, ora devagar. Quanto mais eu provava dela, mais eu queria; não havia melhor sabor no mundo. Meu corpo inteiro queimava de vontade, e eu somente não dirigi minhas mãos ao volume incômodo em minhas calças porque estava concentrado demais em fazê-la se contorcer sobre a mesa sem nem sequer ter removido uma peça de roupa.

Sua respiração tornou-se ainda mais irregular após algum tempo, e só para provocá-la, interrompi minhas atividades e ergui um pouco o rosto para observá-la: seu corpo estava recoberto por uma fina camada de suor, o que apenas o tornava ainda mais convidativo, e suas feições denunciavam o alto nível de excitação no qual ela se encontrava, à beira do abismo. Imediatamente percebendo minha pausa, ela me olhou; deslizei uma mão por sua barriga, e Blair entrelaçou seus dedos nos meus. Retomei meu trabalho, e em poucos minutos ela atingiu o ápice, apertando minha mão com força.

Relutante, permaneci onde estava, permitindo que ela recuperasse o fôlego e recolhendo o resultado de meus esforços. Somente parti o beijo quando ela ergueu o tronco da mesa. Levantei meu rosto até o dela, recostando-me na cadeira, e enxuguei meus lábios com as costas da mão, com os olhos vidrados. Sua boca e bochechas estavam vermelhas, e seu cabelo desgrenhado denunciava claramente o evento nem um pouco ortodoxo que havia se passado. Ela estava nua, sentada diante de mim, com as pernas abertas e a respiração irregular; talvez fosse a saudade, talvez fosse o efeito sempre inebriante de levá-la ao orgasmo, talvez fosse verdade – não importava.

Eu nunca a tinha visto mais linda. E mais minha.
Com um sorriso sujo, ela esfregou um dos pés no lado externo de meu joelho, e aos poucos o apoiou por inteiro sobre minha coxa. Continuamos nos encarando, numa espécie de transe, e ela continuou seu trajeto, parando ao atingir minha virilha com a ponta do pé. Levei minha mão até sua panturrilha, acariciando a pele quente, prestes a me render. Por mais que eu amasse dominá-la, em nossas disputas silenciosas por poder, eu geralmente jogava a seu favor, minha única estratégia tendo como objetivo vencer a mim mesmo e deixar que ela conquistasse o controle. Eu não me importava com a derrota, pois sabia que a sanção seria tão incrível quanto a vitória, se não ainda mais.

Blair havia vencido assim que coloquei os olhos nela; eu já estava mais do que acostumado a perder.

– Sabe o que é curioso? – ela indagou, ficando de pé – Como é que, vez ou outra, eu me encontro completamente nua, enquanto você ainda está completamente vestido?

Ergui uma sobrancelha, observando-a cercar minhas coxas com as suas e sentar em meu colo, com as mãos sobre meus ombros.

– Isso é uma cena recorrente entre nós? – rebati, fingindo não me recordar das inúmeras outras vezes em que tal situação havia ocorrido, mas com especial carinho, da primeira vez, na noite do baile de primavera; ela assentiu, mordendo o lábio – Hm... E isso te não te agrada?

Ela suspirou pensativamente, descendo as mãos por meu peito e abdômen e parando ao atingir a barra de minha camiseta, enquanto as minhas ocupavam seu lugar de costume em sua cintura.

– Pra ser bem sincera, eu não tenho do que reclamar – ela respondeu, livrando-me da peça de roupa sem cerimônias – Mas eu prefiro muito mais quando o jogo está equilibrado.

– Ah, é? – provoquei, antes de segurá-la pela cintura e puxá-la para mim – Fico grato pela consideração.

Suas unhas se fincaram em meus bíceps em resposta ao contato direto de nossos corpos. Seus mamilos se enrijeceram contra minha pele, me fazendo ver estrelas; o mero fato de estar abraçado a ela sem barreiras entre nós já bastava para me tirar do sério.

Já ficou óbvio que eu era pirado por aquela garota ou preciso elaborar mais um pouco?

– Se eu fosse você, não comemorava antes do tempo – ela retrucou, beijando preguiçosamente o canto de minha boca – Eu nunca disse que igualaria o placar... Pelo menos não tão cedo.

Blair percorreu meus lábios com a ponta de sua língua, levando suas mãos até o botão de minha calça, e eu senti calafrios descerem por minha espinha ao me dar conta de que aquilo realmente estava acontecendo. Todas as noites, desde que ela deixou a casa de meus pais pela primeira vez, eu imaginei aquele momento em minha mente, quando enfim sentiria seu toque de novo. Fechei os olhos, implorando por misericórdia, e respirei fundo ao sentir o botão abrir, aliviando parte da pressão que começava a me sufocar. O zíper seguiu o mesmo caminho, permitindo que as pontas de seus dedos passeassem por parte de meu membro por sobre a cueca. Ela depositou mais um beijo no outro canto de meus lábios e manteve o rosto colado ao meu, de forma que seus cílios fizessem cócegas em minhas pálpebras. Tudo em mim parecia tão quente que eu temia uma queda de pressão a qualquer instante – não por meu bem-estar, mas pela interrupção indesejada que isso causaria.

Contrariando minhas expectativas, ela levou suas mãos de volta para meus ombros, abandonando meus jeans exatamente onde estavam, e iniciou um movimento de vai e vem com seus quadris, para frente e para trás. Tal processo originou uma fricção que, juntamente com toda a encenação bastante fiel do ato em si, bastou para me fazer jogar a cabeça para trás em poucos segundos.

– Porra, Blair... – suspirei, perdendo o controle e me agarrando à sua cintura ondulante na tentativa de não estragar o momento antes da hora. Seu corpo reproduzia todos os detalhes ao se afastar e voltar a se aproximar do meu: suas coxas se retesavam e relaxavam sobre as minhas, seus seios roçavam em meu peito, seu rosto subia e descia a cada investida imaginária... Era real demais, e eu só tinha tirado a blusa.

Aquela pirralha estava acabando comigo.
Como se todo o resto não bastasse para me enlouquecer, ela começou a gemer perto de meu ouvido, deixando-se levar pelo efeito de seus movimentos em seu próprio corpo. Mordi meu lábio com força, respirando fundo e de olhos fechados, imaginando o que seria de mim quando eu realmente estivesse dentro dela. Se já me encontrava naquele estado com uma mera simulação...

– Eu preciso... – murmurei, levando uma de minhas mãos até seu cabelo e prendendo algumas mechas em meu punho. Não consegui terminar a frase, pois já estava atingindo o limite de meu autocontrole, mas não precisei. Ela também precisava.

Numa sequência de movimentos desajeitados e apressados, removemos o resto de minhas roupas; porém havia mais um problema.

– A camisinha – ela disse, assim que nos vimos livres de qualquer vestimenta – Eu já volto.

Rosnei todos os xingamentos que conhecia ao vê-la correr para fora da cozinha e subir as escadas, levando uma das mãos à cabeça e puxando os cabelos para trás. Lancei um olhar constrangido à situação entre minhas pernas, nem um pouco satisfeita com a interrupção, e fechei os olhos, tentando recuperar um pouco do fôlego e frear os pensamentos impuros que bombardeavam minha mente. Se ela demorasse a voltar, eu acabaria terminando o trabalho sozinho, num ato totalmente involuntário.

Poucos segundos se passaram até que ouvi passos apressados se aproximando, e se a imagem de Blair correndo até mim, sem roupas, rasgando a pontinha da embalagem da camisinha com os dentes não fosse trágica, teria sido cômica. E muito excitante em algum momento posterior, sem dúvida alguma.
Ela retomou sua posição em meu colo, habilmente lidando com o preservativo, e ambos soltamos suspiros aliviados que mais pareceram risinhos torturados quando tudo estava certo. Acariciei suas coxas, inclinando a cabeça em sua direção e roubando um rápido, porém intenso beijo para refrescar nossas memórias. Num movimento simples e fácil, tão natural quanto respirar, eu estava dentro dela.

Unimos nossas testas, ambos com os lábios entreabertos em êxtase, e permitimos que nossos corpos absorvessem todas as sensações que explodiam dentro de nós. Uma vez recuperada do furor inicial, ela voltou a se mover sobre mim, da mesma forma que fazia por sobre minhas roupas. Seus braços envolveram meu pescoço, apoiados em meus ombros para ajudá-la a tomar impulso, e minhas mãos recaíram sobre sua cintura, guiando seus movimentos; sem mais floreios, transamos no meio da cozinha.

O calor que me preenchia se tornou ainda mais insuportável adicionado ao calor que vinha de dentro dela. Seu corpo me abraçava, por dentro e por fora, transformando-se numa nova atmosfera sem a qual eu sufocaria e que ao mesmo tempo me levava cada vez mais para perto de uma espécie de morte. Eu não me julgava capaz de suportar toda a intensidade que ela compartilhava comigo a cada som rouco que escapava de sua garganta, a cada sopro de ar quente que acarinhava meu rosto, a cada espasmo interno de seu corpo, que eu também sentia. Naquele momento, que pareceu se desenrolar em velocidade reduzida, eu tive certeza de que se eu estava doente, ela era a cura, e de que se ela era o meu fim, ela também era o meu começo.

Ela era tudo, e se eu tivesse que viver sem ela mais uma vez, nada me restaria. Nem eu mesmo; tudo ficaria com ela.

Apesar do ritmo acelerado de nossos corpos, levei meus lábios até os dela, e coloquei neles tudo o que tinha. Apertei sua cintura com força, colocando na ponta de meus dedos tudo o que tinha. Abri meus olhos por um instante, bem a tempo de observá-la atingir o clímax novamente, e coloquei neles tudo, tudo o que eu tinha.

Era tudo dela, de qualquer forma. E eu não queria que fosse diferente.

Meu ápice veio logo em seguida, acompanhado de um beijo demorado no pescoço. Blair descansou a cabeça em meu ombro, mantendo o rosto escondido onde seus lábios ainda repousavam vez ou outra, e eu acariciei suas costas, aos poucos retornando do estado de graça ao qual ela havia me elevado.

– Lembre-se de colocar algumas camisinhas no kit de primeiros socorros a partir de hoje – ofeguei quando fui capaz de raciocinar claramente outra vez, após beijar seu ombro.

– As desvantagens de transar em lugares não convencionais – ela riu, com a voz serena – Nada com o que já não estejamos acostumados.

Sorri ao ouvir seu comentário, aliviado por poder finalmente revisitar nossas memórias sem ser instantaneamente esmagado por toda a culpa e sensação de desmerecimento. Tudo parecia tão ridículo de minha parte... Tentar mudar quem eu era, tentar adotar uma nova postura, tão radicalmente diferente da minha, por um erro do passado que havia retornado para acertar as contas e que era completamente desvinculado do resto. Ela esteve certa o tempo todo. Eu precisava viver por mim, não pelos outros, nem mesmo por ela – por mais que tal noção me parecesse um tanto difícil de aceitar, já que meu amor por ela vinha sendo grande parte de mim há alguns anos, e ainda que um dia ele deixasse de existir, eu simplesmente não conseguia me ver desligado de sua vida. Ainda que no futuro eu deixasse de amá-la, por qualquer motivo que fosse, eu sentia em meus ossos que continuaria fazendo o que me fosse possível por ela.

– A propósito, obrigada... – ela murmurou, e sua voz tão próxima me trouxe de volta à agradável realidade – Pelo curativo.

Peguei sua mão e a ergui até meu rosto, beijando a ponta de cada dedo com calma e, por fim, o esparadrapo em sua palma.

– Sempre que precisar, é só chamar – brinquei, fitando nossos dedos entrelaçados.

Blair afastou o rosto de meu pescoço para me olhar, com uma sobrancelha erguida em tom provocativo.

– Pode deixar – ela disse, abrindo um sorriso malicioso – Eu vou chamar.

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