Capitulo 4
Dois conceitos abo antes de começarmos a leitura:
Marca: é um compromisso maior que o casamento, inquebrável, não importa o que faça. Através da ligação estabelecida pela marca os parceiros podem compartilhar os sentimentos através deste vínculo. Se o seu parceiro estiver triste, feliz, com raiva, angústia, esses sentimentos serão sentidos.
Atar/nó: o órgão genital alfa incha ficando preso e vai lançando uma corrente contínua de esperma no ômega, visando facilitar a reprodução, uma taxa de fertilidade de 100% se um deles estiver em heat ou rut e se não houver uso de nenhum método contraceptivo. A sensação de "atar" é mais sexualmente prazerosa do que simplesmente gozar para os dois.
"Mesmo que a vida seja dolorosa e difícil as pessoas devem apreciar o que significa estar vivo."-Noragami
Todoroki se acomodou no sofá aconchegante de sua fala de estar, parecia calmo. Ficou feliz por terminar o trabalho cedo graças a ajuda da amiga.
Momo por outro lado estava um tanto nervosa, acabou de ouvir a história do amor platônico do alfa enquanto estavam no caminho de volta para a casa improvisada da omega, nem sabia como haviam chegado naquele assunto, mas tinha conhecimento que Shoto era apaixonado por esse tal Midoriya desde a faculdade, apenas nunca poderia imaginar que esse era um ômega casado, e detalhe: com um dos seus poucos amigos.
— Está apaixonado por um ômega casado — Momo pronunciou ainda desacreditada. Como se falar em voz alta tornasse aquilo real.
Se jogou na poltrona confortável do apartamento do amigo como se estivesse em sua própria casa, o que de certa forma era correto, Shouto havia emprestado o apartamento vazio até ela achar um lugar. Todoroki abriu a boca para falar algo, mas continuou em silêncio até criar coragem.
— Ele não é marcado — o alfa respondeu, como se aquilo anulasse o problema, todavia Momo ficou intrigada antes de irritada, parece uma situação muito improvável.
— Por que não?
— Bakugou nunca quis se ligar, acha que é responsabilidade demais — quando viu que Momo não estava satisfeita resolveu contar — Não deveria contar, mas a verdade é que ele diz nunca ter sentido a conexão, então não faz sentido eles se ligarem se a alma gêmea deles está por aí.
— Eu nem sabia que isso existia. Alma gêmea — a ômega riu — Não é apenas uma história boba que contam para crianças?
"Um fio invisível conecta aqueles que estão destinados a encontrar-se, independentemente do tempo, lugar ou circunstância. O fio pode esticar-se ou emaranhar-se, mas nunca romperá." Lenda Akai Ito.
— Os pais de Katsuki sentiram, os avós e os bisavós, é uma história de família. Eles acreditam ter algum tipo de sexto sentido para isso. Existem muitos outros relatos se você procurar, até algumas pessoas que dizem conseguir ver a linha vermelha.. Eu acredito.
— Ouvi algumas histórias assim, mas os cientistas dizem que quando você marca alguém essa pessoa vira a sua alma gêmea.
— Bem, eu acredito que é mais do que uma mordida no cio, algo mais profundo e sagrado. Destino — Nunca pensou que um dia ouviria o bicolor falando coisas assim — Não acredita?
— Não acredito em destino, não gosto da ideia de que não posso controlar a minha vida.
— Sempre tem uma resposta para tudo, por isso quero sua opinião.
Shoto sempre fora tão cético e nada crente, seja em religião ou pessoas. De modo inusitado ele acreditava que um ômega casado podia ser sua alma gêmea, definitivamente não era seu amigo de infância ali, deveria ter sido pego pelo governo e substituído por um estranho.
— Você quer minha opinião sobre isso? — Momo perguntou para ter certeza que não ouviu errado.
— Eu vou gostar?
— Claro que não! Ela se baseará na realidade.
...
Katsuki tinha um certo complexo de inferioridade, provavelmente oriundo do complexo de superioridade de sua mãe e das expectativas dela em si. Quando era menino se sentia ameaçado por Izuko, Bakugou era um alfa, ainda sim Izuko agia como se estivesse no direito de ajudá-lo. Aquilo o incomodou tanto que passou a fazer bullying com o menino, piorou quando ele descobriu que esse era um ômega, nem ao menos um beta, mas um omega; a classe mais baixa, se sentia no direito de agir com superioridade em sua frente. Estava fazendo algo racional. Demonstrar para aquele nerd idiota qual era seu lugar.
Mas no ensino médio as coisas se complicaram e pensou que talvez aquele nerd não fosse uma ameaça, na verdade, começou a encará-lo como um ajudante. Alguém leal sempre pronto para fazer o que precisasse, com a descoberta da sexualidade e mudanças no corpo, caía bem ter alguém assim por perto. Poderia suportar as coisas assim. Sua mãe aprovou a aproximação e incentivou a amizade e o namoro, então as coisas foram acontecendo naturalmente.
Todos sabiam como Katsuki sempre queria ser o melhor e tinha tanta confiança que se tornava arrogante. Entretanto, foi na universidade que não pôde mais correr do fato; Todoroki Shouto era melhor do que ele. Um alfa lúpus era certamente inigualável. Mesmo que suas habilidades sociais não fossem as melhores e que a cicatriz em seu rosto não fosse exatamente bonita, ele ainda era perfeito. Aquilo atingia o complexo de Katsuki de tal forma que sentia a mesma urgência de se provar superior como fez com Izuko. A diferença é que agora não era um menino e Shouto nunca iria permitir ser tratado daquele jeito.
Por isso, Bakugou continuou vivendo como o alfa arrogante que sempre foi, ignorando suas inseguranças e mantendo Izuko ao seu lado. Deku era ótimo, não só um ótimo ômega, mas um ótimo companheiro e homem. Katsuki aprendeu a apreciar essas qualidades, o omega era inteligente versado e sabia se portar nas diversas situações. Izuko é cativante, brilhante como o sol, simples e encantador. Heróico e bondoso, sabia se defender mesmo parecendo fraco, sabia proteger quem amava. Indubitavelmente, seria impossível não se agraciar e sem ao menos perceber, Katsuki se apaixonou por ele. E foi assim por mais alguns anos.
Até de repente não ser.
Assim como não poderia indicar uma data exata para quando percebeu seu amor, não conseguia indicar quando deixou de amar. Muitas coisas aconteceram desde então, eles eram adultos agora, tinham maiores preocupações — Katsuki odiava isso; o fato de o amor deixar de ser uma prioridade — parecia comum não serem loucamente apaixonados, bastante normal não ter a mesma sede como quando jovens. Era difícil dizer o que era a ausência de hormônios e o que era ausência de amor.
Melhorou significantemente com a notícia do bebê. A vida voltava a brilhar nos olhos do casal, tinham um motivo para comemorar e os seguintes meses foram de paz, parceria e afeto. Contudo, foi difícil para ambos quando o bebê nasceu prematuro, fraco e doente, mesmo com tantos cuidados na gestação. Cada um se culpou silenciosamente, isolados em suas próprias bolhas amarguradas.
O alfa não conseguia olhar para Izuko sem vislumbrar o semblante sofrido enquanto olhava o recém-nascido sem vida. E mesmo que fingisse odiar Izuko, no fundo dizia a si mesmo que era sua culpa, todo aquele sofrimento foi causado por si. Não tinha mais o direito de tocar em Izuko, não conseguia fazer e o simples pensamento lhe parecia nojento.
Se sentiu um animal quando seu rut chegou. Ainda nem haviam completado a semana de luto, mas seu desejo carnal brilhava. Pervertido e doente, era assim que se sentia quando seu corpo ardia em febre implorando pelo corpo de um ômega, não podia suportar aquilo e tomou uma injeção para suprir seus instintos. Midoriya claramente não tinha saúde física ou mental para lidar com aquilo, não pareceu incomodado em saber da injeção e acabou tomando uma também, desde então eles satisfaziam a luxúria por meio de remédios.
E assim se passaram seis meses da perda deles.
Katsuki recebeu a surpreendente notícia de Uraraka, seu marido aparentemente estava grávido. Enquanto dirigia pelo caminho de casa, só esperava encontrar uma resposta decente que explicasse o que diabos aquilo significava.
Não deveria se exaltar, encostou a cabeça no batente da porta de entrada e respirou fundo tentando organizar seus pensamentos. Antes de fazer qualquer coisa, a porta foi aberta para sua surpresa, já que nem havia tocado a campainha ou batido na porta. Era Tsuyu Asui saindo da casa, provavelmente seu expediente acabara.
— Senhor Bakugou — Ela cumprimentou com um aceno educado e saiu sem esperar respostas.
— Kaachan? — a voz do omega se fez presente, ele havia acompanhado Tsuyu até o corredor e se surpreendeu ao ver o marido em casa, principalmente naquela hora.
— Precisamos conversar, Deku.
...
Era março e o ano letivo terminaria no final do mês e assim eles iriam terminar o ensino médio. Esse pensamento deixou Katsuki inquieto, seriam grandes mudanças e finalmente havia oficializado o namoro com Izuko, não queria ter que lidar com uma relação a distância ou algo do tipo.
— Quando a escola terminar, você quer ir pra faculdade? — o loiro indagou se jogando na cama de Izuko como lhe era usual.
Os dois ainda estavam de uniforme, com as mochilas largadas no chão e alguns biscoitos que Inko sempre os obrigava a aceitar.
— Eu vou aonde for — o ômega sorriu simplista.
— Fala sério, não tem amor próprio ou ambições?
— Dei todo meu amor pra você, e minha ambição é te ter ao meu lado.
Era um belo sorriso, nem parecia que ele falava palavras tão terríveis. Katsuki não sabia como responder àquilo, pois não concordava com a atitude ou tipo de pensamento que Midoriya tinha, mas era jovem e idiota, seria mentira dizer que algo em si não se satisfazia com aquelas palavras. Então disse a si mesmo que não era nada demais, era normal Izuko pensar assim, não carregava o verdadeiro peso do significado daquelas palavras.
— Deveríamos morar juntos então, ficaria feliz?
— Está brincando?! Isso é possível? Vamos fazer isso!
Izuko começou a pular animadamente e então se jogou na cama ao lado de Katsuki que sorria por ver seu namorado tão espontaneamente alegre. Nesses momentos, era como se Midoriya irradiasse, era impossível não olhar.
— Calma, Calma. Teríamos que falar com nossos pais, mas minha mãe estava comentando que se você quisesse ir para a mesma faculdade, ela poderia te dar uma mãozinha, sabe? Na entrevista, pelo menos.
Midoriya se sentou na cama para olhar pelo o rosto do namorado, não estava gostando do rumo da conversa. A universidade que Katsuki iria possuía uma taxa de aceitação muito baixa, e era dividida em duas fases, a primeira era uma prova e a segunda uma entrevista. Por "dar uma mãozinha" provavelmente significava que Mitsuki tinha certo poder sobre a instituição e poderia escolher alguns alunos. Isso não parecia nada surpreendente, já que a família Bakugou era uma das que comandavam a economia do país.
— Hum, claro, digo, se não for um problema para ela — Sinceramente, Izuko queria negar e dizer que aquilo soava corrupto e injusto, contudo não queria brigar, então apenas continuou — Mas o que isso tem a ver com morarmos juntos?
— Bem, se você conseguir entrar na universidade é mais um ponto a favor para morarmos juntos. Tenho certeza que minha mãe irá apoiar, ela adora a ideia de ter você como genro.
Bakugou finalizou a frase sem perceber a bomba que deixou escapar, só notou olhando o rosto de Izuko, primeiro surpreso e em seguida com olhos brilhando e um sorriso enorme.
— Genro? Mal saímos do ensino médio, isso foi um pedido? Eu aceito — Ele tagarelava alegremente o que fez Katsuki soltar boas risadas — Onde vamos morar? Somos só dois, mas eu sempre quis ter um animal, acho que um apartamento é suficiente, seria bom um lugar perto da universidade, mas deve ser caro.
— Não se importe com o preço, podemos só dizer como queremos e contratar corretores para achar o imovel. Não se preocupe com besteiras, Deku — Bakugou bagunçou os cabelos esverdeados do namorado em repreensão.
— Oh, como o esperado do herdeiro Bakugou, a segunda geração de uma família rica não se importa com o preço — Midoriya tinha uma expressão de surpresa exagerada apenas para irritar o loiro.
— Fala assim, mas também é filho de uma família rica. Toshinori é o ator mais conhecido do país.
— Não sou filho de uma família rica, tenho uma agora, depois que Toshinori casou com a minha mãe. Mas isso não muda o fato de que cresci em uma realidade bem diferente da sua — explicou, não estava sorrindo mais, não estava bravo, todavia era um assunto sério e que Katsuki parecia não compreender — Não estou me fazendo de coitado, nunca passei necessidade, eu apenas era pobre e invejava você por ser rico.
— Você não era pobre, sua mãe tem uma casa em um bairro caro e você ia pra escola. Tá, você começou a trabalhar no ensino médio pra ter uma grana, mas um monte de gente faz isso. É claro que não vai ter dinheiro igual eu, mas era mediano.
— Aquela casa era tudo o que minha mãe e meus avós haviam juntado na vida e mais algumas dívidas. Óbvio, existem mais pobres do que eu, que mesmo em três vidas não teriam aquela casa. E claro, você não é um parâmetro de comparação, você é rico demais, o bastante para não entender o que é pobreza.
Não era a intenção de Midoriya transformar aquela conversa em uma discussão socioeconômica, mas era mais forte que ele, tentava ao máximo evitar brigas, principalmente conhecendo o gênio de Katsuki, todavia esse tópico era algo que o incomodava demais para ser ignorado.
— Eu só — Katsuki se interrompeu, respirou fundo sem querer brigar — Esquece. Vamos nos preocupar com o nosso futuro a partir de agora, o passado não importa. Deveríamos ir procurar o apartamento juntos.
Midoriya sorriu, sempre cedia nas brigas, mas parecia legal sentir esse poder, ver a postura derrotada de Katsuki que se calava para evitar discussões era algo que ele iria aprender a apreciar.
— Sem corretores de imóveis?
— Claro. Só nós, como dois jovens normais.
— Sério? — Tinha um sorriso enorme e deu um pulinho alegre quando exclamou.
— Ou eu não me chamo Katsuki Bakugou.
...
— Você está me traindo, Deku? — o loiro indagou com a serenidade de alguém que perguntava as horas.
O casal estava sentado na sala, Katsuki apoiou os cotovelos nos joelhos e se inclinou para frente, encarando os olhos esmeralda como se pudesse ver tudo o que se passava em sua mente. A pergunta repentina deixou Izuko surpreso e ele não fazia ideia de onde aquilo havia surgido, mal se falavam há meses e a primeira conversa que estavam tendo era assim. Não parecia um bom sinal.
— Eu não estou — respondeu prontamente e piscou lentamente procurando se manter calmo — Mas se puder me explicar de onde tirou isso...
— Ouvi que está grávido, então... ou é um tipo de não-tão-Virgem Maria ou está me traindo.
— Sabe que é impossível eu estar grávido. — Midoriya disse com convicção.
— Foi o que eu pensei, mas agora, são muitos sinais para ser coincidência. Seu apetite diminuiu, você perdeu peso, tem enjoo e vômito — Ele deu uma pausa e inclinou a cabeça claramente olhando para a barriga de Izuko — A sua barriga parece ter um protuberância.
— E como sabe disso sendo que nem me vê?
— Tsuyu me mantém informado, além disso, eu li seu prontuário médico.
— Era privado!
— Não sou um estranho, eu sou seu marido.
— Não é real... não tem como ser. Por favor, acredite em mim, Kaachan — os olhos de Midoriya estavam brilhando com as lágrimas que logo iriam escorrer por seu rosto, ele tinha certa instabilidade emocional, por isso chorava com rapidez e sem controle.
— Sem falar no seu feromônio, basicamente grita "estou grávido" — Katsuki fez um careta quando terminou, o cheiro exalado era único a ômegas grávidos, assim avisam os alfas para não mexerem consigo — ... A única coisa que eu sei é que é impossível que seja meu filho, quem é o pai?
Katsuki era um tanto racional, mas isso não quer dizer que seus feromônios estavam totalmente controlados, certa aura emanava dominância, o que sufocava o omega já preso em suas próprias divagações, como de costume, ele murmurava milhares de coisas para si mesmo.
— Não tem como, mesmo que eu tenha feito algo, eu estou amaldiçoado, não posso estar grávido! — ele disse, finalmente olhando no rosto do marido.
— Do que caralhos 'tá falando?!
— Os médicos disseram que é muito raro um ômega conseguir engravidar depois de... matar o filho — Midoriya que até então estava com a cabeça baixa levantou e olhou diretamente nos olhos de Bakugou, com o rosto vermelho e as lágrimas escorrendo.
Como uma reação natural, ao ver um ômega indefeso o alfa se concentra em liberar feromônios no objetivo de acalmá-lo. Se sentia um tanto culpado, pois mesmo imaginando que isso poderia afetar o omega se fosse mentira a raiva o fez apenas pensar o pior e acusá-lo sem nenhuma prova.
Por outro lado, Katsuki não tinha a capacidade de mentir, não iria dizer o que o ômega queria ouvir. Porque no fundo, também culpava o ômega, sabia o quão cruel e babaca estava sendo, mas se calou, incapaz de confortar o marido. Deveria sentir empatia, afinal, eram um casal que haviam perdido o filho, mas de algum jeito aquilo os afastou, e Katsuki só conseguia sentir raiva.
— Não é justo usar isso, não fale.
— Desde que o nosso filho morreu-
— Não! — Katsuki exclamou e Midoriya crispou assustado, o que fez o alfa abaixar o tom — Não fale dele.
Os olhos carmesim encararam o chão sem ter coragem de olhar o outro, mas o fizeram assim que ouviram as gargalhadas. Era como um riso de loucura e isso assustou o loiro que nunca havia visto Izuko assim, uma expressão deplorável no rosto. Não conseguia entender como ele mudou tão rápido, como se todo o resto fosse fingimento, mas Katsuki o conhecia a tempo suficiente para saber que não; risadas de filmes de terror ou lágrimas inocentes, ambos eram Izuko.
— Você nunca vai me perdoar? Eu não tenho direito de sofrer pela morte do meu filho só porque o matei?
—— Ele morreu por causa da deformação dos órgãos, não faça soar que jogou o menino pela janela ou algo assim — Bakugou não pareceu amigável dizendo aquilo, ao contrário, parecia uma repreensão.
— Sabe quem deformou aqueles órgãos? Eu! Eu não pude gerar ele apropriadamente, meu corpo tentava matar aquele bebê dentro de mim. E você age como se eu não tivesse o direito de me sentir triste.
— Eu nunca disse isso-
— O jeito que me olha é como se me incriminasse e me julgasse, nunca aguentou me ver sofrer. No dia em que ele morreu, ao invés de falar comigo, você preferiu sumir do mapa, você não estava lá! Deveríamos estar juntos nessa, mas você não estava do meu lado.
— Achei que minha presença não importaria. Faz muito tempo que você não se importa com "nós", é tudo sobre Mitsuki.
— Está com ciúmes da sua mãe?
— Não é ciúmes, Deku. É uma constatação. Você não se esforça para manter nosso relacionamento, fala sério, faz meses que eu não sei mais como é seu toque, e eu não estou falando de uma maneira sexual, você sabe muito bem, nem tenta olhar na minha cara.
— Meu filho morreu, me desculpe se não estou no melhor humor ultimamente.
— Meu filho morreu! Você perdeu sua barganha, seu plano ou seja lá em como você pensava, mas com certeza não era um filho. — Katsuki esbravejou, não foi só um grito, mas um com essência alfa, Midoriya nunca o viu assim, e tentou se controlar para não tremer.
O loiro fechou os olhos tentando se acalmar — Faz tanto tempo que está assim que nem sei dizer se apenas não foi sempre desse jeito, tão obcecado em ser o genro da Mitsuki Bakugou e esqueceu de ser meu marido. Parabéns, você se tornou tudo que mais repudiava, mas... ao menos se lembra?
— Me lembro de muitas coisas, como o dia em que fui abandonado naquela droga de hospital no dia mais horrível da minha vida. Eu nunca joguei isso na sua cara, eu nunca briguei com você, sou paciente em como está se distanciando e sendo frio, mas eu me importo um pouco com a opinião da sua mãe e de repente me torno o pior marido do mundo?
— Você adora colocar as coisas ao seu favor. — Katsuki soltou um riso sarcástico, tinha mais ódio que qualquer outro — Eu tive um motivo pra não estar lá.
— O que era mais importante do que nosso filho, do que nosso casamento? Me diga!
— Eu sei de tudo, Izuko. Sou um idiota e babaca, mas se quer saber, acho que talvez tenhamos merecido todo esse sofrimento.
— De tudo — Midoriya ecoou sem parecer levar a sério.
O alfa não pensou que um dia iria realmente falar em voz alta, mas já estava cansado de ignorar a situação. Sabia que não poderia viver desse jeito por muito mais tempo.
— Eu sei que planejou engravidar para me obrigar a te marcar. Também sei que minha mãe te incentivou, ou melhor, deu a ideia.
— Eu não... Quem... — Izuko paralisou, mal conseguiu balbuciar sua fala, ainda muito surpreso.
Katsuki sempre foi receoso em relação a isso, e tiveram algumas discussões sobre, enquanto namoravam, com a gravidez e o casamento apressado ele foi basicamente obrigado a marcar o omega, mas antes disso, Izuko começou a enfraquecer. Assim, mesmo com todos os esforços, Izuko continuava um omega sem marca.
— Eu não sou tão tapado assim. Me lembro perfeitamente de como você era tímido, mas naquele dia se jogou em cima de mim, implorou para "atar".
— Foi pelo prazer, eu estava confuso e quase em heat — Midoriya tentou mentir, mas era óbvio pela voz trêmula e olhar desesperado.
— Então olhe nos meus olhos enquanto diz isso. Diga que não furou aquelas malditas camisinhas, que estava tomando suas pílulas contraceptivas. Olhe para mim e minta! — Katsuki segurou os ombros do marido forçando-o a olhar para ele.
—... Tudo o que eu fiz foi por nós.
Os olhos carmesim não conseguiram sustentar o olhar, uma sombra de penumbra cobriu seu rosto quando ele se afastou com uma expressão de desgosto.
— Quem é você?
A pergunta pairou no ar e Izuko chorou, sem certezas ou muita esperança de que a resposta iria resolver a situação.
Em algum momento, quando Tsuyu voltou das compras, ela o acolheu e o acalmou, até que ele adormeceu.
...
— Temos mesmo que fazer isso? — Katsuki se jogou na cama, estava com preguiça.
Eles haviam acabado de se formar no ensino médio e estavam falando sobre procurarem uma casa como haviam prometido. Estavam sentados no sofá da mansão Bakugou, depois de anos juntos aquela era uma cena casual, nenhum deles tinham nada específico para fazer lá, só estavam aproveitando a companhia um do outro sem sequer interagir adequadamente.
— Você parecia animado antes — Izuko respondeu com um sorriso gentil como sempre, acariciou o cabelo revoltado do loiro tentando baixá-lo, sem sucesso.
— A expectativa é legal, mas encarar isso é mais difícil.
— Então seria melhor não irmos?
— Hum? — Katsuki até mesmo desviou o olhar da televisão e mudou sua postura relaxada com a surpresa.
— Eu estava pensando nisso, também acho uma perda de tempo. Digo, adoro passar tempo com você, mas tem aquela exposição de arte e o leilão para ir no final de semana, além da festa beneficente que estou organizando junto com Mitsuki.
— ... então você não quer ir?
Midoriya falava enquanto digitava algo no celular, nem precisava perguntar quem era, obviamente, só uma pessoa poderia interromper a conversa dos dois. Mitsuki.
— é, já que você não faz questão. Acho que deveríamos procurar um corretor, na verdade, — mais uma pausa, ele tentava raciocinar algo, e Katsuki julgou que não tinha nada a ver sobre a conversa entre eles, e sim a do celular — Tomei a liberdade de já pedir para sua mãe fazer isso e foi muito eficiente, tenho fotos de alguns lugares aqui, posso te passar agora.
— Eu não- Katsuki conseguiu concluir sua fala.
— Depois nos falamos, parece que precisam de mim lá — o ômega apenas virou a tela do celular para ele, como previsto, o nome de sua mãe lá, não conseguiu ler a conversa pela rapidez, quando se deu conta Midoriya já tinha estava de pé — Desculpe, querido.
— Ah, não. Vá em frente.
— Nos vemos final de semana no leilão — Se inclinou para dar um selinho no namorado.
— Eu não vou ao leilão, é chato.
— Você não é mais uma criança, precisa ir aos eventos sociais e se comportar.
— Por que? Na real, eu nem faço ideia do que é esse leilão ou pra que estão arrecadando esse dinheiro.
— Você descobre isso lá, vamos, se não vai por mim ao menos vá pela sua mãe. Ela também está organizando.
— E como ela, você não quer realmente a minha presença, só precisa de mim lá pra montar sua família perfeita, no caso, seu alfa. Ao menos percebe que só vai ser humilhado lá por ser um ômega e receber um monte de comentários preconceituosos daquela gente conservadora de mente fechada.
— Eles têm a mente fechada porque ninguém se dá ao trabalho de mostrar para eles como ômegas podem ser tão bons quanto alfas. è isso que eu quero provar, vou fazer eles verem isso.
— Por que se importa tanto?
— Como não se importa? Eu quero isso, quero muito que você vá.
— Eu realmente tenho um compromisso, é aniversário do meu amigo, prometi a ele que iria.
— É só um aniversário, depois você manda uma mensagem se desculpando e diz que houve uma emergência. Compre um presente caro e ele vai te perdoar.
Bakugou apenas encarou Midoriya, esperando que o omega se desse conta das coisas que havia falado e se desculpasse voltando ao normal, não com aquela voz esnobe e arrogante, mas a gentileza e até o nervosismo e murmúrios o faziam falta. Mas nada disso aconteceu, Izuko apenas o encarou de volta sem entender a expressão do outro.
— Claro, você não se importa mesmo com aniversários.
— Eu não diria isso, eu só acho que o leilão que eu estou me esforçando para montar vale mais sua atenção. Mas se importa tanto pode ficar um pouco no aniversário e ir pro leilão mais tarde.
— Não, esquece. Eu não vou no aniversário, você tem razão. O leilão vale mais a minha atenção.
Lembra de ter sorrido gentil para o omega que mal sabia naquele tempo, mas aquele leilão seria terrível justamente por conta da presença de Katsuki. Que fez de tudo para poder estragar o evento, foi infantil, mas achava que merecia passar o aniversário de namoro — que só ele lembrava — do jeito que queria. Atormentando os planos de Midoriya.
...
Na advocacia Todoroki, as luzes do andar presidencial nunca se apagavam e naquele dia não era diferente. Shouto tinha a mesa de trabalho repleta de papeladas quando notou o estagiário lhe trazendo mais e não pode evitar de suspirar.
— Senhor Todoroki? Realmente trabalha duro, mas já são 11 da noite. É melhor ir descansar — o alfa de cabelos vermelhos continuava energético mesmo naquele horário.
— Kirishima, o que faz aqui? — o mais novo balançou os braços de um jeito estranho procurando uma resposta um tanto corado
— Bem, me contaram que o senhor Bakugou ficava até tarde e eu não tinha nada pra fazer e além disso sou o assistente dele, então pensei em tentar ajudar — ao terminar de falar ele mal conseguia encarar o outro alfa por vergonha
— E onde está ele?
— Ele não voltou desde o almoço, senhor — os ombros caíram para frente de imediato demonstrando a decepção.
— Que estranho, ele sempre fica até tarde, acho que hoje foi um azar — tentou ignorar o fato de que o alfa ruivo parecia interessado demais em ajudar Katsuki, talvez ele apenas quisesse se mostrar prestativo. — E o que fez até agora?
— Eu ajudei os outros que ficaram até tarde, também arrumei o escritório do senhor Bakugou e coloquei as pastas em ordem alfabética. E a senhorita Yaoyorozu gostou do meu café — ele falou a última parte com muito orgulho.
Todoroki analisou a expressão do mais novo, e concluiu que devia estar muito paranóico para pensar que ele estava com algum interesse em Katsuki, era um estudante que queria ganhar um pouco de dinheiro e experiência, só estava sendo prestativo; além disso, ele era muito bom para aquele loiro com problemas no temperamento, se bem que Izuko era simplesmente a melhor pessoa do mundo e mesmo assim estava com ele.
— Você fez bem, mas agora está tarde, vá para casa descansar.
— Estou me retirando, senhor. Boa noite.
Sozinho, novamente, o alfa se organizou para sair, enquanto pensava no que poderia ter feito Bakugou sair mais cedo do trabalho, esperava que nada de ruim tivesse acontecido com Midoriya, mas um sentimento estranho pesava em seu peito.
...
O médico não fazia ideia de que horas eram, mas podia sentir que logo iria começar a clarear e não havia pregado os olhos, ou ao menos tomado um banho, na verdade, sequer conseguia lembrar a última vez que fora para casa. Todavia, Hitoshi já estava conformado com sua rotina, ser médico tem seus contras, apesar dele amar a profissão. Só pensava em juntar uma boa quantia para abrir sua própria clínica, mas enquanto isso o alfa tinha que trabalhar em um hospital que não ligava muito para os direitos trabalhistas ou humanos.
— Trouxe café — anunciou o jovem loiro que vestia um jaleco branco entrando na sala do médico com duas canecas na mão — Como foi a cirurgia?
— Qual? Só hoje eu fiz três, na verdade ontem, Já passa da meia-noite. E obrigada pelo café, Ojiro.
— Céus! Se continuar trabalhando assim não vai durar, Hitoshi! Você sabe que é um humano, certo? Ou por acaso acha que é um robô?
Se jogou na cama que havia no pequeno quarto do hospital destinado ao descanso dos profissionais e tomou o café que ganhou do amigo de trabalho, Ojiro. Hitoshi definitivamente tinha coisas demais em sua mente, mas agradecia o fato de ter seu amigo por perto. Ojiro era alguém muito calmo e sensato, além de parecer sempre em seu modo psiquiatra, não se importava com a personalidade apática de Shinsou ou de como ele era anti social.
— Tenho minhas dúvidas — o alfa comenta bem humorado, mas o amigo não acompanha e por isso acha melhor mudar de assunto — Tenho um paciente de manhã e se o exame dele der negativo não sei bem qual tratamento seguir.
— Explique melhor.
— Um ômega que é casado, aparentemente não têm relações sexuais com ninguém, mas apresenta fortes sinais de gravidez. Casamento em crise, eu sei que é lógico dizer adultério, mas... não parece ser esse tipo de pessoa.
— Se baseia apenas no feromônio do marido? Talvez o aroma do alfa seja fraco por natureza, ou talvez um amante esteja usando algum suplementos para diminuir o aroma e passar despercebido.
— Uma amiga dele jurou que ele fica em casa sempre, o marido tem um aroma forte, era como se ele estivesse ali, parece ser ciumento, não creio que iria deixar uma traição passar despercebida.
— Histórico médico? — Então só havia outra possibilidade, ambos os médicos estavam cientes disso, mas esperavam a reação do outro.
— Deve imaginar quão difícil é ter alguma coisa escrita no formulário de um omega de elite como ele. E o genro da família Bakugou. — Hitoshi disse, não estava revelando realmente a identidade do paciente e era uma informação necessária, foi o que disse a si mesmo. Se considerava um profissional ético.
Perdido em pensamentos, não notou a expressão do amigo de surpresa, óbvio, qualquer um ficaria em ouvir o nome da poderosa família. Mesmo um simples genro parecia importante. Informações pessoais não ficariam expostas em fichas médicas de fácil acesso, a elite não era tão simples assim. Tinha certeza que se houvesse algo, estaria com o médico da família, um particular e bem pago.
— Você sabe alguma coisa sobre a vida da família Bakugou? — Ojiro perguntou terminando de tomar seu café.
— Não, eles são tão famosos assim?
— Sim, ou talvez eu assista reality shows demais, de qualquer jeito, a matriarca da família agora, Mitsuki, gosta muito das câmeras, e teve uma época que o genro apareceu junto frequentemente em programas do tipo. Midoriya Izuko era um Ás da elite omega.
— Ele não... parece ser assim. — Hitoshi pensou nas sardas que cobriam as bochechas dele e como seu sorriso era gentil, não parecia alguém acostumado em lidar com o ninho de cobras que era a elite.
— Tenho uma aposta, mas posso estar louco — ele recebeu um olhar do amigo que dizia "você é louco".
— Prossiga.
— Eu sei que ele é casado há muito tempo, e sabe o que ricos precisam? De herdeiros.
— Mas Izuko não tem filhos com o marido — lembrou Hitoshi.
— Sinto que tem algo errado nisso. É fácil imaginar o cenário, a pressão para ter um filho, mas então uma crise no casamento... Faça um ultrassom, se não houver bebê, mande Midoriya pra minha sala.
— Gravidez psicológica? — Não é como se Hitoshi não tivesse pensado na possibilidade, mas pelo jeito que o amigo falava, era como se tivesse certeza que o ômega acabaria em sua sala.
— Posso estar totalmente errado e isso tudo ser resultado da cafeína.
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Notas da autora: depois de dois milhões de anos estou de volta, sem planos de postar o próximo, mas muuuito grata pelos comentários e carinho de vocês. Desculpem não ser algo frequente, mas eu gosto de escrever e não quero que isso se torne uma obrigação, além disso, a vida já tá corrida demais pra esquentar a cabeça com a única coisa que me faz relaxar. Obrigada pelos votos e comentários.
Até a próxima!
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