capítulo vinte e cinco

só digo uma coisa: se preparem

verão de 2013

dimitri

Eu me lembrava muito bem da primeira vez em que tive que lutar. Nós estávamos protegendo um carregamento contra uma pequena gangue que estava saqueando nossos galpões. Meu pai bolara um plano que consistia em sequestrar um deles e exigir um encontro com o líder em troca do resgate. Mas, nesse encontro, o mataríamos. Eu e meus irmãos, os gêmeos, tínhamos apenas doze anos, e, por isso, estávamos cercados pelos nossos homens, para nossa proteção. Contudo, tínhamos subestimado as habilidades daquela gangue, e eles nos atacaram de surpresa. Eles pareciam estar ganhando, até que mais dos nossos homens chegaram e os mataram. Um por um.

Aquela gangue nunca agiu novamente.

Eu e meus irmãos nunca paramos de lutar. Nosso pai era rígido conosco, sempre foi, e nos treinou para sermos perfeitos. Ele me treinou para ser perfeito — mesmo que eu odiasse. Odiava a maneira como ele me tratava, odiava que ele me enxergasse como um mero sucessor. No entanto, querendo ou não, eu e meus irmãos fomos criados para assumir a máfia Tarasova. Fomos ensinados combate corpo a corpo, e como empunhar armas. Sem contar táticas de guerra, formas de manipulação e extração de informações.

E, mesmo assim, não havia treinamento no mundo todo que pudesse me preparar para aquela fatídica noite.

Havia um sorriso abobado no meu rosto quando desliguei a ligação com Elaine. Eu mal podia esperar para vê-la na manhã seguinte. Para segurá-la em meus braços, sentir seu cheiro, admirar seu sorriso... Era nisso que eu pensava quando deixei o quarto, em busca dos meus irmãos e de Aaron, que foram fazer um lanche da madrugada.

Contudo, quando saí do quarto, a casa estava silenciosa. Silenciosa demais. Normalmente, era possível escutar a voz de Kessie falando e rindo mesmo que ele estivesse a vários andares de distância. Mas não havia nada. Nem vozes, nem passos. Apenas os sons da noite, aqueles advindos dos animais notívagos e da brisa leve que balançava as árvores próximas. Se estivesse ali, meu pai diria que aquilo era algo a se estranhar. Quando se é um mafioso... era o que ele diria o silêncio é muito mais assustador que o barulho do disparo de uma bala.

— Henry? — os chamei, descendo as escadas lentamente. As luzes das lâmpadas na parede piscavam, tornando a atmosfera da nossa mansão mais assustadora do que o normal. — Kessie? Aaron?

Não recebi nenhuma resposta.

A maior parte da casa estava mergulhada na escuridão. Então, segui para o único cômodo em que vi as luzes acesas — a sala de estar menor. Eu podia ver a luminosidade atravessando a fresta da porta, e escutar o crepitar do fogo da lareira acesa, mas, além disso, nada. Estava tão silencioso que cheguei a imaginar que talvez fossem fantasmas ali na sala. Havia apenas uma faca preta no meu bolso, mas não supus que houvesse tanto alarde a pronto de precisar pegá-la. Então, tentando manter minha respiração tão silenciosa quanto o ambiente ao meu redor, eu terminei de descer as escadas e me aproximei da porta.

Foi quando eu escutei.

Once Upon A December, a música tocada repetidamente pela minha professora de dança de salão durante todas as aulas ao longo da vida. A melodia soava distante, lentamente tomando conta dos meus ouvidos. Aquilo não fazia nenhum sentido. Por que raios seja lá quem estivesse na sala de estar menor estaria escutando aquela música? Não poderia ser meus irmãos, eles estavam enjoados dela tanto quanto eu... Mas se não era eles ali... Quem era?

Milhões de perguntas sem resposta martelavam em minha mente quando pus a mão na maçaneta e empurrei a porta.

— Ora, ora, ora... Se não é Dimitri, o favorito dos Tarasova. Estávamos a sua espera.

Quase caí para trás, em total espanto, quando avistei a cena acontecendo naquela sala. Imóvel como a morte, senti meu coração acelerar, bombeando não apenas sangue fervente em ódio para todo meu corpo, mas medo. Puro medo. Medo este que ficou expresso em meus olhos arregalados, afinal, aquela era a especialidade dele. Do Comerciante de Almas.

— Não! — escutei Kessie gritar, o pavor e as lágrimas em seus olhos partindo meu coração em milhões de pedacinhos repletos de fúria e medo. Mas o homem atrás dela a segurou mais firmemente, com um braço ao redor do seu pescoço, e o outro apontando uma arma para sua cabeça; ela mal conseguia se mover.

Minha família toda estava na sala de estar menor. Kessie, Henry, meu pai, minha madrasta e Aaron, todos eles presos aos braços de homens fortes e armados, que apontavam revólveres para suas cabeças. Homens do Comerciante de Almas, eu sabia. Dava para perceber apenas pelas cicatrizes perto dos olhos que todos eles possuíam. Havia outro homem, porém, que não segurava ninguém. Era o braço direito do Comerciante de Almas, um homem albino que tinha uma tatuagem de serpente atravessando toda sua testa, e, por isso, era chamado de Víbora Branca. Eu não sabia o seu nome verdadeiro.

— Que bom que se juntou a nossa festinha, Dimitri. — prosseguiu a Víbora Branca, se aproximando da vitrola da minha madrasta, de onde saía aquela música, para elevar o volume. Se pudesse, jogaria aquele toca-discos na cabeça do homem. Permaneci impassível, seguindo-o com o olhar. Um olhar mortífero.

— Até onde eu sei, para ser uma festa todos tem que estar se divertindo. — rosnei. — E eu não acredito que nenhum deles esteja gostando de ter uma arma na cabeça.

— São apenas medidas preventivas. — ele deu de ombros, um sorriso malicioso despontando dos seus lábios. Respirei fundo, tentando controlar a minha vontade de arrancar aquele sorriso com as minhas próprias mãos.

— Diga logo o que quer conosco antes que demos um jeito de explodir seus miolos! — gritou Henry, mas aquilo só o fez levar um soco na barriga. Aaron, Kessie e minha madrasta arfaram de preocupação. Olhei para o meu pai. Seu rosto não expressava nenhum pingo de emoção, tão gélido e calculista quanto o meu. Aparentemente tão tem como fugir do ditado tal pai, tão filho, pensei.

— Não acho que você esteja em posição de fazer ameaças. — zombou a Víbora Branca.

— Vamos ouvir o que cavalheiro tem a dizer. — falou meu pai, uma ordem silenciosa para que nos calássemos. Eu não obecederia.

— Ouvir?!

Henry. — eu e minha madrasta dissemos em simultâneo, em tom de aviso. Quando meu irmão olhou nos meus olhos, ele soube. Eu tinha um plano. Secretamente, eu havia mandado um alerta com o meu celular para nossos homens, e, por isso, precisava ganhar tempo. Ganhar tempo até eles chegarem.

— O que faz aqui, Víbora? Cansou de comer os insetos do leste? — falei, fingindo desinteresse, enquanto me dirigia à mesa de bebidas para me servir com um copo de uísque.

Ele me mandou aqui para dar uma palavrinha com a ralé do oeste. — foi o que ele respondeu. — Lembrar-lhes quem tem a maior e mais poderosa máfia do país.

Soltei uma risada amarga.

— Isso era para me assustar? O que vocês têm tirando esses apelidos assustadores que vocês colocam uns nos outros?

— Bem, eu tenho dez homens meus lá embaixo mantendo todos os seus funcionários como reféns. Isso é suficiente para assustá-lo, pequeno príncipe Tarasova?

Engoli seco.

— Como conseguiu chegar até aqui? — indaguei. — Não me diga que você ultrapassou todas as nossas medidas de seguranças na cidade apenas fazendo essa cara de mau. Por favor, Víbora, trabalhe nisso. Até uma criança faz uma cara de mau melhor que essa.

O homem gargalhou.

— Na verdade, eu tive uma pequena ajudinha. Aposto que você vai adorar saber quem foi, mas agora, temos outros assuntos a tratar. — dito isso, ele se voltou para o meu pai e falou com um sorriso: — Ajoelhe-se.

Meu coração errou as batidas. Não, não, não... Não podia ser. Tentei não transparecer meu medo quando troquei olhares com o meu pai, mas foi quase impossível. Aquele era o ritual de passagem da máfia para outra pessoa. Normalmente acontecia de pai para filho; o pai se ajoelhava diante do filho como uma maneira simbólica de passar seu poder para ele. Mas se a Víbora Branca conseguisse que meu pai se ajoelhasse, e depois o matasse... Ficaríamos vulneráveis o suficiente para sermos atacados e dominados. Estaríamos sem nosso líder, e nenhuma outra máfia ajudaria um homem que se ajoelhou. Ele estava aqui pela nossa máfia, percebi. Era isso que ele viera fazer.

— Você não pode fazer isso! — berrou Kessie, choramingando.

— Ah. Eu posso sim. — disse a Víbora, caminhando até ficar cara a cara com o meu pai. — Ajoelhe-se, Andreas.

— Nunca. — cuspiu meu pai.

Ajoelhe-se. Eu não vou repetir.

— Vai ter que me matar primeiro.

— Mas aí perderia a graça... — a Víbora sorriu de forma maligna, e meu corpo todo entrou em alerta quando ele colocou a mão na própria arma presa em sua cintura. — Quem sabe ver um dos seus filhos se ajoelhando não te incentive a fazer o mesmo...

Foi tudo rápido demais. Mas eu sabia que nunca me esqueceria dos gritos — ou melhor, dos urros — de Henry quando a Víbora apontou a arma para a sua perna esquerda e disparou cinco vezes ali. Aqueles gritos de dor e desespero, o sangue que jorrou para todo o lado, a forma como Kessie, Aaron e minha madrasta tentaram se libertar para ajudá-lo... Aquela cena assombraria meus pesadelos pelo resto da minha vida.

Não! — berrei, minha voz exprimindo puro ódio enquanto eu corri para acudir meu irmão. Mas dois homens me seguraram, cada um agarrando um braço meu, no tempo que aquele que apontava uma arma para a cabeça de Henry o puxou para cima, fazendo-o se ajoelhar mesmo que uma de suas pernas estivesse totalmente ferida e ensanguentada.

— Seu monstro! — gritou Aaron, e minha irmã chorava. Eu nunca tinha sentido tanto ódio em minha vida; odiava cada segundo daquilo e me odiava ainda mais por estar tão indefeso, incapaz de salvá-los.

— Se quer machucar alguém, machuque a mim! — exclamei, cuspindo as palavras com uma fúria gélida. — Eu sou o sucessor, o favorito! Machuque a mim, mas deixe a minha família fora disso!

— Que heróico. — a Víbora riu. — Talvez eu deva aceitar essa oferta...

Não. — interrompeu meu pai, olhando para mim. — Você não irá machucar mais ninguém, porque eu vou me ajoelhar.

— Não, pai! Não faça isso! — implorou Kessie. Seu gêmeo ainda berrava e chorava, mergulhado em puro sofrimento. — Apenas nos deixe em paz!

— Ajoelhe-se. — ordenou o braço direito do Comerciante de Almas mais uma vez, e, dessa vez, meu pai obedeceu. Tentei me soltar dos homens que seguravam meus braços, mas foi em vão.

Contudo, de repente, as portas se abriram revelando ninguém mais ninguém menos que meu irmão mais velho. Cabelos longos e escuros, covinhas no queixo e postura presunçosa. Aquele era Nikolai.

— Nikolai, vá! — tentei impedir que ele entrasse no cômodo. Eu não fazia ideia do que ele estava fazendo ali, já que ele morava em Miami há anos, mas, talvez, conseguisse fugir, buscar ajuda...

Porém, Nikolai apenas me lançou um olhar triste, e depois olhou para a Víbora.

— Você prometeu que não os machucaria.

— Eu prometi que não machucaria um fio da cabeça deles. — sorrindo, a Víbora arrancou um fio de cabelo do meu pai, e delicadamente o posicionou sobre a mesa. — Prontinho, o cabelo está seguro. Agora, segurem ele também. — dito isso, outros homens vieram agarrar meu irmão mais velho.

— Você mentiu para mim! — rugiu ele.

— E você realmente achou que pudesse confiar em mim?

— Nikolai...? — murmurou Kessie, lágrimas escorrendo pela sua face. Ela percebera... Percebera o que eu também tinha percebido. Eu e meu irmão nunca nos demos bem, e, ainda assim, não pude impedir meu coração de se partir em vários pedaços. Traídos. Fomos traídos. Nikolai nos traíra. Estava trabalhando com o Comerciante de Almas e com a Víbora Branca.

— Não olhem assim para mim. — resmungou Nikolai, cabisbaixo. — Você — ele olhou para o nosso pai — me desprezou a vida toda! Eu sou o primogênito, mas você nunca sequer me tratou como seu filho! E eu pensei que talvez, se conquistasse a máfia, mesmo que com ajuda dos nossos maiores inimigos... Talvez você me respeitasse.

— Menino tolo! — esbravejou meu pai.

— Guardem esse draminha de "meu pai nunca me deu atenção" para mais tarde. — interrompeu o braço direito do Comerciante de Almas. — Quero acabar logo com isso, está começando a me entediar.

Naquele exato momento, escutamos um raio soar do lado de fora. Uma tempestade terrível se aproximava... E não apenas lá fora.

Não pude fazer nada quando a Víbora Branca tirou uma faca do bolso, afiada e reluzente, e puxou o braço do meu pai para esticá-lo. Quando me dei conta, a arma já estava cortando a pele do meu pai onde estava a tatuagem de punhal que simbolizava nossa máfia. Meu pai urrou de dor, e eu quase senti como se aquela faca estivesse em mim. Foi uma mistura de gritos, choro, sangue e dor até o homem tirar a tatuagem por completo, deixando no lugar um grande buraco vermelho e ensanguentado, aquela a carne viva que latejava em seu braço me deixando enjoado. Ajoelhado e sem a sua marca; aquele era a pior humilhação que um mafioso poderia passar.

— Diga que temos permissão para usar da força para tomar a máfia Tarasova, ou eu mato sua filha. — disse a Víbora apontando uma arma para Kessie. Era isso. Se nosso pai dissesse que sim... O Comerciante de Almas nos caçaria até ter o que sempre queria: a máfia do oeste; e nenhum outro mafioso poderia interferir. Seria apenas nós contra eles.

— Não! — eu tentei interferir, meu coração batendo tão rápido que parecia estar mais alto que o som da música saindo da vitrola. — Mate a mim! Aponte essa maldita arma para mim e me mate!

— Nenhum dos dois vai morrer porque eu darei permissão para que venha atrás da máfia Tarasova. — meu pai mal terminara de falar quando escutei mais um disparo.

E, tão rapidamente quanto a luz, a bala saiu da arma da Víbora e atravessou o peito do meu pai.

— Não! — eu bradei, usando toda a força que tinha para me desvincilhar dos homens que me agarravam e correr na direção do meu pai. Me ajoelhei diante dele, minhas mãos trêmulas fazendo pressão em sua ferida enquanto meu rosto ficava vermelho de raiva e angústia e meus olhos se enchiam de lágrimas. — Não ouse me deixar assim, pai! Preciso que seja meu pai pelo menos uma vez na merda da sua vida fique comigo!

— Cuide da nossa família, Dimitri... — murmurou ele, seu rosto perdendo a cor ao passo que a vida deixava seu corpo. Respirei fundo tentando controlar o choro quando sua mão ensanguentada segurou o meu rosto. — Não vou me desculpar por tudo que fiz, porque isso te preparou para esse momento. — ele cuspiu sangue. — O momento em que a máfia Tarasova se tornaria sua responsabilidade. Cuide dos nossos. — repetiu, colocando a minha mão em seu bolso. Arregalei os olhos ao perceber que tinha uma arma ali. — E seja impiedoso com o resto.

Assim, meu pai sussurrou as últimas palavras em meu ouvido — uma informação que ninguém mais poderia escutar — e sua cabeça caiu para trás. Morto. Andreas Tarasova estava morto.

E agora a máfia tinha um novo líder.

Não havia nada além de pura chama queimando em brasa de cólera e rancor em meus olhos quando ergui a arma ensanguentada que estava na cintura do meu pai e atirei na cabeça dos homens que prendiam meus irmãos. As balas da minha arma acabaram, mas os que restaram ficaram atordoados por tempo suficiente para Kessie e Nikolai revidarem, começando a combatê-los. Aaron e minha madrasta, sem saberem lutar, correram para acudir Henry, jogado no chão e ainda gemendo de dor.

Ao mesmo tempo, eu me pus de pé, batendo com o cotovelo no seu braço para desarmar a Víbora. Ele calmbaleeou para trás, irritado, e tentou alcançar o rádio comunicador em seu bolso, provavelmente para avisar aos seus homens no andar de baixo que matassem nossos funcionários. Não deixei isso acontecer, e o segurei pelo pescoço, empurrando-o contra a parede. Com o impacto, o quadro da nossa família caiu no chão, o vidro se espatifando em incontáveis pedacinhos, no tempo em que o seu rádio voou para longe e quebrou ao aterrissar.

Ainda com as mãos em seu pescoço, comecei a chutá-lo com o meu joelho, sem dó nem piedade. Entretando, o braço direito do Comerciante de Almas era resistente, e colocou as mãos em meus ombros para inverter as posições. Sons de luta tomaram conta da sala de estar menor, misturando-se à música que ainda tocava na vitrola — música esta que voltaria para me aterrorizar meus pesadelos, junto com lembranças daquele caos infernal.

Em algum momento, a Víbora Branca conseguiu golpear a lateral do corpo com um chute, um pouco abaixo do fim da minha caixa torácica, o que me fez perder o equilíbrio e me deixar sem ar por alguns instantes. Vendo que, mesmo estando em menor número, nós estávamos ganhando a luta, aquele homem agiu como o covarde que era, puxou Aaron pelo colarinho e fugiu com o loiro, levando-o como refém.

— Não! — Henry tentou protestar, mas estava fraco demais.

— Vou trazê-lo de volta. — falei, sério, indo atrás do braço direito do Comerciante de Almas.

Como nossos homens já estavam cercando todas as saídas, para fugir da minha ira, a Víbora não teve outra escolha a não ser subir. O persegui pelas escadas, enquanto ele corria e corria para cima, sem nunca parar. Quando chegamos no telhado, escutei o homem xingar, percebendo que estava encurralado, sem saída. O ar frio da noite beijou a minha pele, me fazendo estremecer, mas o frio era a última das minhas preocupações. Nesse meio tempo, uma tempestade se aproximava, e os raios e trovões ficavam cada vez mais frequentes, enquanto que o vento violentamente balançava meus cabelos.

— Se você der mais um passo, eu jogo esse pintinho amarelinho daqui! — berrou ele, ao mesmo tempo que trovão estorou num estrondo. Olhei para a baixo. Uma queda do topo da nossa mansão seria morte certa.

Mas, para minha surpresa, foi Aaron deu uma cotovelada no tórax do homem, fazendo-o cambalear para trás. Aproveitei aquele momento de fraqueza para disparar em sua direção, afastando-o do loiro e começando mais um combate corpo a corpo. Raios e trovões soavam por perto a cada golpe que dávamos um no outro, e eu ainda tinha que me concentrar para não cair do telhado.

— Marque minhas palavras, pequeno príncipe... — grunhiu a Víbora Branca, em tom de deboche. Naquele momento, nós dois segurávamos nas mãos um do outro, nos empurrando. Quem perdesse o equilíbrio ou fraquejasse primeiro estava fadado a morrer na queda do telhado. — Os Tarasova cairão...

— Mas você vai cair primeiro!

Não fui eu quem disse aquilo. Não. Foi Aaron.

— Aaron, não! — antes que eu pudesse impedi-lo, o loiro já estava correndo para cima da Víbora, agarrando-o e o empurrando junto com ele para fora do telhado. — Não!

Um trovão soou quando escutei o barulho ensurdecedor do impacto de um corpo contra o chão. Aaron... Aaron se jogara do telhado para me salvar. E levara a Víbora junto.

— Dimitri... — eu mal tive tempo para raciocinar quando outra pessoa subiu no telhado. Nikolai. Seguido por Kessie.

Você. — rosnei para ele, meu sangue fervendo de raiva. Eu nem o reconhecia mais. Não, aquele não era meu irmão. Aquele era um... — Traidor! — mais raios e trovões. — Você nos traiu! Traiu seu próprio sangue! Como pode ser tão egoísta?!

— Eu não queria... Eu não sabia...

Não dei a ele tempo de se explicar e logo avancei em cima dele, socando-o. Tudo aquilo era culpa dele. O Comerciante de Almas e a Víbora Branca conseguiram entrar na nossa parte do país, na nossa casa, por culpa dele. Ele nos entregara por uma mágoa infantil e tola. E agora, se nosso pai e Aaron estavam mortos, era sua culpa.

Mas também era minha. Por não ter conseguido salvá-los. Por não ter sido o suficiente para salvá-los. Talvez, se eu tivesse passado menos tempo brigando com meu pai, e mais tempo escutando-o...

— Você nos traiu! — avancei com uma faca contra seu pescoço, mas foi Kessie quem me impediu:

— Dimitri, não. Pelo nosso pai.

— Você tem sorte de carregar nosso sangue na porcaria de suas veias. — o empurrei, cuspindo as palavras em sua face. Nem eu mesmo me reconhecia, a ira em meu rosto, em minha voz. — Tudo isso é sua culpa, sabia?!

— Eu sei, está bem! Você acha que eu não sei?! Dá um tempo, Dimitri! Eu não queria que nada disso acontecesse!

— Mas aconteceu! — berrei, na lata. — E eu sou o herdeiro direto do papai, e eu digo que você está banido dessa casa! Saia e nunca mais volte, está me ouvindo?! Eu não quero ver sua cara nojenta nunca mais!

Dimitri!

O aviso de Kessie não foi por causa do que eu dissera. Não, ela chamara meu nome porque vira quando a Víbora Branca retornou ao telhado, arrastando-se como uma verdadeira cobra. Era por isso que eu só escutara um corpo caindo... Porque a Víbora tinha sobrevivido. Então, o ódio tomou conta de mim. Me cegou. Por completo.

Não escutei nada quando avancei para cima dele. Ignorei os avisos de Kessie dizendo que ele poderia ser útil, ignorei os trovões e raios e a chuva torrencial que começou a cair em minha pele e ignorei a maldita música que não saía da minha cabeça. Me concentrei em socá-lo, e em socá-lo apenas. O matei com as minhas próprias mãos, golpeando seu rosto sem parar por nenhum segundo. Continuei socando depois que ele morreu, e continuei socando mesmo que seu rosto já estivesse totalmente transfigurado, não passando de uma poça confusa de sangue.

Minutos depois, eu me levantei. Coberto de sangue. E gritei. Gritei para o horizonte até perder o fôlego, até minha garganta estar totalmente dolorida e arranhada, até meu peito arder.

— Dimitri! — Kessie me chamou, preocupada. — Dimitri, o que faremos agora?

Engoli seco antes de responder por cima do ombro.

— Contra-atacar. — falei, simplesmente. Então, eu vi o pavor nos olhos da minha irmã quanto continuei: — Nós estamos em guerra.

Aquela mesma noite, Kessie e eu, além de vários de nossos homens, embarcamos no nosso avião particular para Miami, já tendo um plano de contra-ataque. Minha madrasta ficou para cuidar de Henry, pois as balas em sua perna não eram a única ferida que ele teria que lidar. Nikolai, por outro lado... sumiu, banido por mim.

Mas antes de começar aquela guerra de fato, eu precisava lidar com um assunto inacabado. Elaine. Eu precisava lidar com Elaine.

Meu pai estava certo. Estúpido... Eu fora tão estúpido de pensar que poderia me livrar da máfia e viver uma vida normal e tranquila ao lado da mulher por quem estava apaixonado. Viver em Miami com ela... Agora aquilo não passava de sonhos tolos do jovem que eu um dia fui. Mas, depois daquela noite... eu era o líder da máfia no meio de uma guerra. E não poderia correr o risco de colocá-la em perigo. Precisava encerrar as coisas, de uma vez por todas.

Eu não tive uma escolha quando nasci na máfia. Mas Elaine... Ela tinha uma vida pela frente, longe de tudo aquilo. Ela precisava viver. E não seria comigo.

A maior parte de Miami era território do Comerciante de Almas. Por isso, tivemos que pousar na nossa pista de pouso particular e para ir até Elaine precisei me disfarçar com um moletom com capuz cobrindo minha cabeça e óculos escuros tão pretos quanto meus cabelos. Assim, fui sozinho até o aeroporto onde ela deveria estar, me esperando.

Logo a avistei. Sentada numa das cadeiras do aeroporto, absolutamente linda, como sempre. Brilhando na luz da manhã. Os cabelos levemente ondulados pendendo por seus ombros, e um sorriso ansioso despontando de seus lábios. Me esperando...

Não podia usar meu telefone sem correr o risco de ser rastreado, então usei algumas das moedas do meu bolso para ligar para ela usando um telefone público ali mesmo, dentro do aeroporto. Não soube dizer se o fato daquele telefone me possibilitar uma vista de Elaine era bom ou ruim. Sem mais nem menos, respirei fundo e digitei seu número, observando-a quando seu celular tocou e ela o colocou na orelha para atender.

— Alô? — disse ela, timidamente. Tive que me segurar para não desabar ao ouvir sua voz. Tudo que eu queria era correr para os seus braços, chorar no seu ombro...

— Olá, Lis. — falei, tristemente e meu coração se partiu quando vi ela sorrir.

— Dimitri? É você? — indagou ela, radiante e olhando para todos os lados para ver se me encontrava. — Eu estou te esperando aqui, onde você está?

Suspirei antes de responder.

— Eu não irei para Miami, Elaine.

— O quê? — ela franziu as sobrancelhas, seu sorriso pouco a pouco desaparecendo. Nada poderia doer mais do que saber que eu era o motivo do seu sorriso se esvair; sendo que tudo que eu queria era fazê-la sorrir. — Por quê?

— Eu não posso.

— Mas... — ela engoliu seco, fitando o chão, confusa e triste. — Você prometeu que estaria aqui. Algo aconteceu? Você vai adiar a viagem?

— Não. — afirmei, convicto. — Eu não irei para Miami, nem hoje, nem nunca.

— O quê?

— Não me procure mais, Elaine. — nenhuma frase doeu tanto no meu coração quanto aquela. — E também não tente me ligar, porque não irei responder. — eu iria trocar de telefone de qualquer maneira. — Apenas prometa... — suspirei, tentando conter as lágrimas. — Prometa para mim que irá se cuidar.

— Dimitri, eu não estou entendendo...

— Prometa. — a interrompi, pela primeira vez falando sério com ela em todos os três meses em que nos conhecíamos.

— Eu prometo, mas...

Encerrei a chamada antes que ela pudesse terminar. Ainda fiquei parado, alguns segundos, vendo as lágrimas silenciosas escorrerem pela face de Elaine enquanto ela olhava para a tela escura do celular, mergulhada em confusão.

Então, me virei e fui embora sem olhar para trás.

não sei nem o que falar

emoções demais nesse capítulo vou passar mal (🎶piro a sua mente com meu corpo sensual🎶)

okok calma. vamos processar isso juntos.

esse tal de víbora branca (que agr tá mortinho, ainda bem) foi enviado pra casa dos tarasova. o andreas e o aaron ficaram com dios, assim como a perna do henry. guerra?? término de dimitri e elaine??

e o nikolai TRAIU ELES??? olivia rodrigo veja isso!!!!!

o que vcs acharam?? tem alguma teoria?

beijoss e até mais emoções no próximo capítulo

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