Capítulo Sete
Derick Evans:
Olhei para os exames que a enfermeira-chefe me entregou com mãos trêmulas. A folha estava dobrada com precisão, mas a sensação de urgência pulsava no papel. Eu sabia que o senhor Gonçalves estava contando com esses resultados, e a gravidade da situação pesava sobre mim enquanto caminhava rapidamente em direção ao consultório do Dr. Diogo.
Quando cheguei à porta, bati com suavidade, tentando controlar a ansiedade que começava a crescer. Cada segundo de espera parecia uma eternidade.
— Pode entrar — a voz calma e autoritária do Dr. Diogo soou do outro lado.
— Doutor, aqui estão os exames — falei, tentando manter a voz firme enquanto entregava o envelope. Meu coração batia acelerado, e por mais que tentasse disfarçar, minha inquietação transparecia. Ele assentiu, pegando o envelope com uma expressão indecifrável.
O silêncio que se seguiu foi quase sufocante. O som do papel sendo retirado do envelope ecoou pelo consultório, como um prelúdio para algo inevitável. O olhar atento do Dr. Diogo vagou sobre os números e gráficos, sua expressão inicialmente neutra, mas logo um vinco surgiu entre suas sobrancelhas. Era sutil, mas suficiente para acender uma faísca de preocupação dentro de mim.
Senti o peso no estômago aumentar enquanto ele examinava os resultados mais a fundo. A sala, que antes parecia apenas um espaço comum de consultas, agora estava carregada de tensão. Podia ver o pensamento rápido nos olhos dele, cada número sendo processado, cada valor analisado.
Finalmente, ele ergueu os olhos para mim, sua expressão mais grave do que antes. Ele suspirou, o som carregado de uma preocupação que ele tentava suavizar.
— O senhor Gonçalves... não conseguiu controlar o colesterol. Está elevado, mais do que deveria estar. Não é alarmante, mas precisamos agir rápido para evitar complicações.
Minha mente ecoava as palavras "evitar complicações". Eu sabia o quanto o senhor Gonçalves se esforçava, o quão determinada sua família estava em ajudá-lo a melhorar. Mesmo assim, o fato de que o esforço não havia sido suficiente era um golpe silencioso, mas devastador.
— O que devemos fazer agora? — perguntei, tentando não deixar o nervosismo transparecer, mas meu tom denunciava minha preocupação.
— Vamos ajustar a medicação e reforçar a dieta. Precisamos ser mais rigorosos. — Ele disse isso com uma seriedade que fez meu coração pesar. Eu sabia que haveria muito mais a ser feito, que essa batalha contra o colesterol era apenas uma parte da luta maior pela saúde do senhor Gonçalves.
Enquanto saía do consultório, com o som distante das instruções do Dr. Diogo ainda ecoando em meus ouvidos, me permiti uma breve pausa. A responsabilidade e a fragilidade daquela situação pesavam sobre mim de uma maneira que não consegui controlar. Sabia que aqueles exames eram mais do que apenas números em uma folha de papel – eles representavam a vida de alguém, um futuro que ainda estava em jogo.
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O Dr. Diogo reuniu a família do senhor Gonçalves na sala de consultas, seu semblante sério revelando a gravidade da situação. Quando ele explicou o resultado dos exames, mencionando que o colesterol estava perigosamente alto, o ambiente ficou pesado, e o silêncio que se seguiu foi rapidamente quebrado pela esposa do senhor Gonçalves.
Ela o olhou com uma expressão que misturava decepção e acusação, o olhar afiado como uma faca.
— Eu sabia que você estava exagerando na fritura — disse ela, a voz carregada de incredulidade. — Mas como isso é possível? Você está seguindo a dieta que o doutor passou! — Havia uma mistura de frustração e desespero em seu tom. Ela cruzou os braços, como se esperasse uma explicação convincente.
O senhor Gonçalves, tentando aliviar a tensão crescente na sala, abriu um sorriso ligeiramente culpado, mas com um toque de travessura nos olhos.
— Bem... eu meio que usava nossa netinha como desculpa — confessou ele, soltando uma risada baixa e hesitante. — Todas as vezes que ela vinha nos visitar, fazia nosso filho cozinhar aquelas batatinhas fritas que ela tanto gosta. Como eu podia resistir? Ela sempre faz um charme, e, claro, eu acabava comendo mais do que devia.
A esposa o encarou, perplexa e sem palavras por um momento, antes de balançar a cabeça em um misto de exasperação e carinho.
— Então, é isso? Você estava quebrando a dieta por causa da nossa neta? — disse ela, a seriedade da situação começando a se dissolver em algo mais leve. — Ah, Gonçalves... — Ela suspirou, ainda frustrada, mas com um brilho de afeto nos olhos, sabendo que o marido sempre tinha um jeito de quebrar as regras com charme.
Mesmo com a leveza do momento, o peso da situação não foi perdido. Havia muito a fazer para garantir que ele seguisse as recomendações e que a saúde dele voltasse ao controle.
— Não é alarmante, mas é importante que você se controle para que seu estado não piore — disse o Dr. Diogo, com um tom calmo, mas firme, enquanto olhava diretamente para o senhor Gonçalves. Eu assenti em silêncio, sentindo o peso da responsabilidade se instalar no ar.
— Quero que no próximo exame, daqui a dois meses, vejamos resultados melhores do que esses — continuou ele, com um olhar de expectativa. A sala permaneceu em silêncio por um momento, enquanto todos absorviam a seriedade da situação.
A esposa do senhor Gonçalves, com uma expressão determinada, interrompeu o silêncio.
— Vou ficar de olho nele, doutor — disse ela, com um leve tom de reprovação que logo se suavizou em um gesto de carinho ao pousar a mão no ombro do marido.
O senhor Gonçalves soltou um suspiro, meio resignado, meio brincalhão, sabendo que agora teria que enfrentar não apenas as recomendações médicas, mas também a vigilância implacável de sua esposa. O sorriso tímido que ele esboçou indicava que, apesar do desafio, ele sabia que teria o apoio necessário — mesmo que isso significasse ter menos batatas fritas no prato.
O Dr. Diogo olhou para ambos com um leve sorriso de compreensão.
— Isso é o mais importante. Com a sua ajuda, tenho certeza de que ele vai conseguir.
— Derick, me ajuda, por favor! — O senhor Gonçalves disse, exagerando no tom dramático, com uma mão no peito, como se estivesse prestes a desmaiar. Sua expressão era uma mistura de humor e súplica, uma tentativa óbvia de escapar da supervisão rigorosa de sua esposa.
Não pude evitar uma risadinha ao ver sua atuação. Ele sempre tinha um jeito de tentar transformar situações difíceis em algo mais leve.
— Sinto muito, mas essa é a sua saúde, senhor Gonçalves — respondi, tentando manter um tom sério, mas não conseguindo esconder o sorriso. — Acho que vai ter que lidar com isso sozinho desta vez.
Ele revirou os olhos de maneira teatral, como se estivesse prestes a enfrentar o maior dos sacrifícios, enquanto sua esposa balançava a cabeça, já acostumada com os artifícios do marido.
— Vocês vão acabar me matando de tanto me controlar... — murmurou ele, brincando, mas com um brilho divertido nos olhos, sabendo que, no fundo, estava cercado de pessoas que se importavam com ele.
Acompanhei o senhor Gonçalves e sua esposa até a saída do consultório, enquanto eles se despediam do Dr. Diogo. A conversa havia desviado para um assunto mais leve, girando em torno da festa de aniversário da neta deles, que aconteceria no final de semana.
— Ele não vai comer nada naquela festa — disse a esposa, com um tom sério, mas com um brilho brincalhão nos olhos. — E se eu pegar ele comendo alguma coisa, vou bater na cabeça dele com uma cadeira.
Soltei uma risada, contagiado pelo bom humor dela. Era impossível não se divertir com o jeito enérgico e carinhoso com que ela tratava o marido, sempre mantendo o equilíbrio entre o cuidado e a brincadeira.
Enquanto os observava sair, não pude evitar um sorriso. Entre todos os pacientes que já ajudei desde que comecei a trabalhar aqui, esses dois são, sem dúvida, os meus favoritos. Toda vez que eles vêm ao consultório, trazem uma leveza que ilumina o dia. Há algo na maneira como eles lidam com os desafios — sempre juntos, sempre com humor — que me faz admirar a força e o amor que compartilham.
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Voltei para os meus afazeres, organizando os materiais e checando alguns relatórios. Estava concentrado quando, de repente, Débora apareceu correndo atrás de mim, com tanta pressa que quase esbarrou em mim, me fazendo quase derrubar o equipamento que estava segurando.
— Ei, cuidado! — exclamei, segurando o objeto no último segundo. Meu coração deu um salto, e não pude evitar uma risada nervosa enquanto olhava para ela, que estava claramente agitada.
— Desculpa, mas precisava te encontrar rápido! — disse ela, tentando recuperar o fôlego, mas com uma expressão que misturava urgência e um toque de empolgação. Eu podia ver que algo importante havia acontecido, e imediatamente minha curiosidade foi despertada.
— Do jeito que você está, deve ser algo bem sério — falei, estalando a língua, tentando quebrar a tensão que estava se formando.
Débora me olhou com aqueles olhos arregalados que sempre indicavam que algo complicado estava por vir.
— Sabe aquela mulher que veio aqui dias atrás pra falar com você? — ela perguntou, e no mesmo instante senti meu corpo congelar. Uma onda de desconforto me atravessou. — Ela está na recepção do hospital, com um homem muito bem vestido, assim como ela.
Meus pensamentos correram em círculos, e as palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse realmente processá-las.
— Está falando da minha mãe... e esse homem deve ser meu pai — respondi, colocando o equipamento no lugar, tentando controlar a maré de emoções que começava a se agitar dentro de mim. A memória do que aconteceu três anos atrás invadiu minha mente, trazendo de volta a dor do abandono e a injustiça das acusações que fizeram contra mim.
Suspirei, sentindo o peso da situação.
— Eles querem que eu peça perdão? Perdão pelo que fizeram comigo? — uma risada amarga escapou dos meus lábios. — Depois de me abandonarem e me acusarem de algo que nunca fiz?
Débora me observava, sem saber ao certo como responder, mas com uma preocupação genuína no olhar. Eu sabia que ela queria dizer algo para me confortar, mas naquele momento, não havia muito que palavras pudessem fazer.
— Eu não vou voltar a ser o filho obediente que eles querem — murmurei, mais para mim mesmo do que para ela, enquanto o tumulto dentro de mim aumentava.
— Sei que é isso que eles querem — suspirei, sentindo o peso dessas palavras crescer dentro de mim. — Mas, ao mesmo tempo, está me fazendo um mal terrível só de pensar nisso. É como se cada vez que tento processar o que aconteceu, tudo o que eles fizeram voltasse à tona, me esmagando de novo.
Meu peito estava apertado, e eu podia sentir a tensão subindo pela minha garganta. Não era só o abandono ou as acusações... era o sentimento de traição. Minha própria família, as pessoas que deveriam estar do meu lado, me viraram as costas quando mais precisei. E agora, depois de tanto tempo, esperam que eu simplesmente aceite e peça perdão?
— Não sei se consigo lidar com isso — admiti, minha voz mais baixa, quase trêmula. — Pensar em confrontá-los ou tentar resolver as coisas... está me consumindo.
Débora me olhava com uma mistura de empatia e preocupação, e, por um momento, seu silêncio foi mais reconfortante do que qualquer palavra que pudesse dizer. Eu sabia que ela entendia a profundidade da dor que eu carregava, e, de alguma forma, isso aliviava um pouco a carga.
— Você não precisa fazer nada que não se sinta pronto pra fazer — disse ela suavemente, colocando a mão no meu ombro. — Não agora. Não até você se sentir preparado, se é que algum dia vai estar.
Assenti, apreciando o apoio dela, mas a confusão ainda rodava em minha mente. Talvez eu nunca estivesse pronto. Talvez algumas feridas fossem profundas demais para cicatrizar com o tempo.
Olhei para Débora, sentindo uma mistura de alívio e frustração. Parte de mim queria encerrar essa história de uma vez por todas, confrontar meus pais e colocar um ponto final nesse capítulo doloroso da minha vida. Mas a outra parte, a mais vulnerável, ainda não estava pronta para encarar aquele turbilhão de emoções e memórias.
— Eu sei... — murmurei, desviando o olhar para o chão, tentando organizar os pensamentos. — Mas é difícil. Parte de mim quer ir lá e dizer tudo o que está preso aqui dentro, sabe? Dizer que não merecia o que fizeram. Mas a outra parte... não sei se consigo enfrentar isso agora. Talvez nunca consiga.
Débora assentiu, me dando o espaço que eu precisava para falar sem interrupções. Eu respirava fundo, tentando aliviar a pressão no peito.
— Talvez eu precise de mais tempo — continuei, minhas mãos inquietas, mexendo com os instrumentos à minha volta, como se isso pudesse dissipar o desconforto. — Talvez nunca consiga perdoar de verdade, ou aceitar que eles esperem isso de mim. Mas, por agora, só pensar em tudo isso me deixa doente.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas de alguma forma reconfortante. Débora sabia quando não pressionar, e eu agradecia isso nela. Ela me deu um sorriso encorajador, aquele tipo de sorriso que dizia que ela estava ali, ao meu lado, independentemente da minha decisão.
— Você não precisa decidir nada hoje — disse ela, suave, mas firme. — Quando você estiver pronto, saberá o que fazer. E quando esse momento chegar, estarei por perto, qualquer que seja sua escolha.
Eu a olhei, sentindo uma onda de gratidão, e assenti lentamente. Talvez ela estivesse certa. Talvez eu não precisasse de uma resposta agora. O que importava é que eu não estava sozinho.
Com uma última troca de olhares, Débora se afastou, me deixando com meus pensamentos. Soltei um longo suspiro e olhei para o corredor que levava à recepção. Meus pais estavam lá, esperando por algo que eu não tinha certeza se poderia dar. Talvez, no fundo, eles não tivessem mudado; talvez ainda fossem as mesmas pessoas que me feriram tanto. Mas, por enquanto, eu não precisava enfrentá-los.
Caminhei em direção ao meu próximo afazer, sabendo que aquele capítulo da minha vida ainda não estava fechado, mas também entendendo que, por hoje, não precisava estar.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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