Capítulo Oito

Derick Evans:

Terminei meus afazeres e me preparei para bater meu crachá, encerrando mais um dia de trabalho. Estava prestes a sair, quando me lembrei que o Charles ainda estava em reunião. Como não queria ir embora sem me despedir dele, decidi esperar na recepção. Fiquei por lá, conversando com as meninas, ajudando com alguma coisa aqui e ali, tentando passar o tempo sem pensar muito.

No entanto, ao virar o corredor e me aproximar da recepção, senti meu estômago revirar. Ali, sentados, estavam duas figuras que eu reconheceria em qualquer lugar, mesmo depois de tanto tempo. Meu queixo caiu involuntariamente, e meu coração disparou. Não precisava de mais do que um segundo para perceber quem eram.

Meus pais. Eles ainda estavam ali, sentados, como se o tempo não tivesse passado. Como se o peso dos anos e da distância entre nós não significasse nada. O silêncio que me envolveu foi sufocante, e por um momento, o som das vozes ao redor pareceu se dissipar, deixando apenas a dura realidade diante de mim.

Eu não sabia o que fazer. Parte de mim queria virar e sair correndo, fingir que não os havia visto. Mas outra parte, mais forte, me ancorou no lugar. Fiquei ali, parado, tentando organizar os pensamentos enquanto o inevitável se aproximava. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria que lidar com eles.

Respirei fundo e, contra todas as minhas expectativas, comecei a caminhar em direção a eles. Não sabia o que iria dizer, mas algo dentro de mim havia mudado. Talvez fosse hora de enfrentar essa dor que carregava por tanto tempo.

Enquanto me aproximava, eles me notaram. O olhar surpreso de minha mãe se encontrou com o meu, e meu pai, mais reservado, apenas observava em silêncio. A tensão era palpável, e a distância entre nós, mesmo que apenas física, parecia enorme.

— Então, ainda estão aqui... — murmurei, minha voz vacilando um pouco, mas firme o suficiente para quebrar o silêncio.

Era o início de algo que eu ainda não sabia como terminaria, mas naquele momento, senti que já havia dado o primeiro passo. E isso, por agora, era o suficiente.

O silêncio entre nós era quase palpável. Cada passo que dei em direção a eles parecia pesar mais do que o anterior. Meus pensamentos estavam um caos, mas havia algo dentro de mim que me impulsionava para frente, mesmo com a confusão e a dor latejando no fundo da mente.

Minha mãe foi a primeira a falar. Sua voz era baixa, como se hesitasse entre a preocupação e a tentativa de se reconectar.

— Derick... — disse ela, levantando-se lentamente da cadeira. — Nós só queríamos... conversar.

Olhei para ela, tentando não deixar a onda de emoções me afogar. Por tanto tempo, eu havia imaginado esse momento, ensaiando cada palavra que diria, cada acusação que faria. Mas agora, vendo-a diante de mim, parecia que todas as palavras ensaiadas haviam se dissipado, deixando apenas o vazio da incerteza.

Meu pai permaneceu sentado, seu olhar fixo em mim, mas sem a mesma abertura da minha mãe. Sempre fora assim: ele, distante, escondendo seus sentimentos atrás de uma fachada de rigidez. Isso só tornava tudo ainda mais difícil.

— Conversar? — minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, mas não tentei suavizar. — Depois de três anos, vocês aparecem e querem conversar?

Minha mãe baixou os olhos por um instante, como se as palavras a tivessem atingido com força. Ela sempre soube que isso seria difícil, mas talvez não estivesse preparada para a intensidade do que eu sentia.

— Derick... — ela tentou de novo, sua voz trêmula agora. — Nós cometemos erros. Sabemos disso. Mas estamos aqui para tentar consertar as coisas.

Soltei uma risada amarga, incapaz de conter o turbilhão de sentimentos que explodia dentro de mim.

— Consertar? — repeti, incrédulo. — Vocês me abandonaram! — minha voz estava mais alta agora, e eu sabia que outras pessoas na recepção poderiam ouvir, mas naquele momento não importava. — Me acusaram de algo que eu nunca fiz e me deixaram sozinho. E agora acham que podem simplesmente aparecer e consertar tudo?

Minha mãe deu um passo em minha direção, mas eu levantei a mão, gesticulando para que ela parasse. Não estava pronto para qualquer tipo de proximidade emocional. Não ainda.

— Derick, nós estávamos com medo... — ela começou a dizer, com lágrimas se formando em seus olhos. — Acreditamos nas coisas erradas. Fomos manipulados. Achamos que estávamos fazendo o que era certo, mas estávamos cegos. Agora entendemos o quanto erramos...

Eu senti as palavras dela, mas ao mesmo tempo, cada justificativa parecia tão distante da dor real que eu tinha vivido. Como poderia uma explicação apagar anos de abandono?

Olhei para o meu pai, que ainda não havia dito uma palavra. Ele se levantou lentamente, finalmente participando da conversa.

— Derick, sua mãe está certa — disse ele, sua voz firme, mas com um toque de vulnerabilidade que eu raramente havia visto. — Não temos desculpas. Sabemos o que fizemos e não estamos aqui para pedir perdão como se isso fosse suficiente. Queremos uma chance de mostrar que podemos ser melhores... para você.

Fiquei ali, parado, sem saber o que dizer. Por tanto tempo, eu carreguei essa mágoa, essa raiva, e agora que eles estavam diante de mim, não era tão simples quanto eu havia imaginado. As feridas ainda estavam abertas, mas ver o arrependimento nos olhos deles fazia algo dentro de mim hesitar.

— Eu não sei se posso perdoar vocês... — admiti, minha voz baixa e carregada de dor. — Não agora. Talvez nunca.

Minha mãe soltou um soluço baixo, mas assentiu, aceitando minhas palavras.

— Não estamos pedindo que perdoe agora — ela disse, a voz embargada. — Só queremos uma chance de tentar. Se você nos permitir isso.

O silêncio voltou a cair sobre nós. Eu respirei fundo, tentando entender o que fazer com tudo aquilo. Não era fácil. Nada disso era.

— Eu... — comecei, mas as palavras me escaparam. — Eu preciso de tempo. Não posso dar uma resposta agora.

Meu pai assentiu, e minha mãe enxugou discretamente as lágrimas.

— Claro — meu pai disse calmamente. — Nós estaremos esperando, Derick. O tempo que você precisar.

Dei um pequeno aceno de cabeça, sentindo o peso do momento, mas também sabendo que, por enquanto, aquilo era tudo o que eu podia oferecer.

Enquanto eles se afastavam, eu fiquei ali parado, olhando para a porta. Ainda havia muito que processar, mas, de algum modo, aquele primeiro passo tinha sido dado.

E, talvez, isso já fosse um começo.

******************************

Alguns minutos depois, Charles apareceu descendo as escadas, com aquele sorriso suave no rosto que sempre me acalmava. Ele se aproximou silenciosamente, percebendo que algo havia acontecido, mas sem fazer perguntas. Quando chegou perto, deu-me um beijinho no rosto, um gesto simples, mas carregado de carinho e compreensão.

Eu suspirei, sentindo o calor do gesto suavizar um pouco da tensão que ainda me envolvia. Ele não precisava dizer nada para eu saber que estava ali, do meu lado, como sempre esteve. A presença dele, silenciosa e reconfortante, era exatamente o que eu precisava naquele momento.

— Tudo bem? — ele perguntou, a voz baixa e gentil, com aquela preocupação sincera que só ele conseguia demonstrar sem ser invasivo.

Eu dei um pequeno sorriso, um misto de exaustão e alívio.

— Tive uma... conversa com meus pais — respondi, ainda processando tudo. — Não foi fácil, mas acho que foi um começo.

Charles assentiu, sem pressionar por mais detalhes. Ele sempre soube quando me dar espaço e quando ficar ao meu lado. E, naquele momento, sua companhia silenciosa era o suficiente para me fazer sentir que, de alguma forma, tudo ficaria bem.

— Quer ir para casa? — ele perguntou, acariciando levemente meu braço.

Assenti, sentindo que, depois de tudo, estar com ele em um ambiente familiar seria o que eu precisava para finalmente relaxar. E com isso, nos viramos para sair, deixando para trás aquele capítulo inacabado, mas com a sensação de que, eventualmente, eu encontraria uma maneira de escrever o final certo.

Entramos no café, o ar quente nos acolhendo enquanto o aroma de grãos recém-moídos preenchia o ambiente. Charles ainda segurava minha mão, o toque dele agora tão familiar, mas ainda capaz de causar aquele arrepio leve que me fazia sorrir por dentro. Escolhemos uma mesa no canto, perto da janela, onde as luzes suaves da rua dançavam em reflexos contra o vidro.

— O que você vai querer? — ele perguntou, a voz calma, os olhos fixos em mim de um jeito que fazia parecer que o resto do mundo não existia.

— Acho que um cappuccino vai bem — respondi, relaxando na cadeira. A tensão do dia, que antes parecia esmagadora, estava se dissipando com cada minuto que passávamos juntos.

Charles fez o pedido e, em pouco tempo, estávamos de volta à mesa, nossas xícaras quentes entre nós. Ele me observava, o olhar tranquilo, mas cheio de algo mais — uma intensidade que sempre esteve ali, mas que parecia se aprofundar naquele momento.

— Você tem ideia de como eu amo esses momentos com você? — ele disse de repente, a voz baixa, como se estivesse confessando um segredo. — Cada segundo ao seu lado é como se o mundo desacelerasse, como se tudo ficasse mais fácil.

Eu sorri, sentindo meu coração acelerar um pouco. Era sempre assim com Charles — ele sabia exatamente como me fazer sentir visto, como se cada gesto, cada palavra, tivesse um peso especial entre nós.

— Eu sinto o mesmo, sabe? — murmurei, desviando o olhar por um momento, tentando organizar os sentimentos que estavam borbulhando dentro de mim. — Você tem essa capacidade de me acalmar, de fazer o mundo parecer menos caótico.

Ele estendeu a mão sobre a mesa, entrelaçando nossos dedos. O calor do toque dele era reconfortante, como se dissesse que, não importava o que viesse, nós estaríamos bem.

— Lembra quando nos conhecemos? — ele perguntou, um sorriso brincalhão surgindo em seus lábios. — Eu estava tão nervoso, mas tentava parecer confiante... Você, por outro lado, parecia que estava no controle de tudo.

Soltei uma risada leve, lembrando daquele dia. — Controle de tudo? Eu estava um completo desastre por dentro. Mas você... — fiz uma pausa, olhando para ele com um carinho profundo. — Você me fez sentir que eu podia relaxar. Desde o começo, foi assim.

Ele sorriu, inclinando-se um pouco para a frente, seus olhos fixos nos meus. Havia algo nos olhos dele que sempre me prendia, como se pudesse ver além do que eu mostrava para o mundo.

— E você continua me surpreendendo todos os dias — disse ele, com uma sinceridade que me fez corar levemente. — Hoje, vendo você enfrentar seus pais, mesmo sem ter todas as respostas, eu fiquei mais orgulhoso de você do que nunca.

Meu peito se aqueceu com aquelas palavras, e antes que eu pudesse pensar demais, me inclinei sobre a mesa e o beijei. Foi um beijo suave, mas carregado de significados — de amor, de apoio, de tudo o que estávamos construindo juntos. Quando nos afastamos, o sorriso dele espelhava o meu, e eu sabia que aquele era um momento que eu guardaria para sempre.

— Vamos para casa? — ele perguntou, com a voz suave, mas com um brilho nos olhos que indicava que a noite ainda tinha mais para nos oferecer.

Assenti, sentindo uma onda de tranquilidade e felicidade me envolver. Pagamos o café e saímos, de mãos dadas, em direção ao carro.

A viagem de volta foi tranquila, com a cidade passando lentamente pelas janelas, mas meus pensamentos estavam presos no homem ao meu lado. Cada pequeno gesto dele, desde a maneira como sua mão segurava a minha até o jeito que ele olhava para mim com tanto carinho, me fazia sentir que, finalmente, eu tinha encontrado um lugar onde podia ser eu mesmo — onde, apesar das dificuldades e das dores do passado, havia alguém que estava disposto a enfrentar tudo ao meu lado.

Chegamos em casa e, ao entrarmos, Charles me puxou para mais perto, seus braços envolvendo minha cintura. O toque dele era firme, seguro, mas também delicado, como se ele soubesse exatamente o que eu precisava.

— Sabe, Derick — ele murmurou, os lábios roçando meu ouvido — eu acho que a parte mais importante de qualquer batalha é ter alguém ao seu lado. E eu vou estar aqui, em todas elas.

Eu o olhei, sentindo uma onda de emoção me tomar. Ele sempre sabia como colocar as coisas em perspectiva, como me fazer ver que, independentemente de quão sombrias as coisas pudessem parecer, nós estaríamos juntos.

— Eu não conseguiria fazer isso sem você — admiti, minha voz baixa, mas cheia de sinceridade.

Ele sorriu, me puxando para mais perto, nossos corpos se encaixando perfeitamente.

— Você nunca vai precisar — disse ele antes de me beijar, profundo e cheio de amor. O beijo foi mais do que um gesto de afeto, foi uma promessa silenciosa de que, não importa o que acontecesse, nós sempre encontraríamos o caminho de volta um para o outro.

E assim, ali, nos braços dele, senti que o capítulo estava finalmente completo. Não o da minha vida com meus pais, mas o capítulo de entender que, apesar de tudo, eu tinha alguém ao meu lado com quem podia enfrentar qualquer tempestade.

E, naquele momento, isso era tudo o que importava.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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