Capítulo Dois

Derick Evans:

O dia começava com o sol já alto no céu, lançando uma luz dourada sobre o hospital enquanto eu estacionava o carro no local de sempre. Charles saiu do carro ao meu lado, seu rosto iluminado por um sorriso descontraído que fazia o estresse das próximas horas parecer insignificante. Aquele sorriso, que tinha o poder de transformar as manhãs mais agitadas em algo leve, ainda estava gravado na minha mente desde o momento em que saímos de casa.

Enquanto caminhávamos em direção à entrada, eu não conseguia evitar a sensação de que, apesar da rotina pesada que nos aguardava, algo naquele dia parecia diferente, carregado de uma expectativa sutil, como se algo novo estivesse por vir.

— Então, você acha que pode passar o dia sem causar distrações? — perguntei, olhando para ele de soslaio.

Charles riu, o som ecoando pela entrada ainda silenciosa do hospital. — Eu nunca prometi isso — respondeu com aquele ar provocador que eu já conhecia bem. — Mas vou tentar me comportar, pelo menos até o almoço.

Eu balancei a cabeça, rindo com ele, mas uma parte de mim sabia que, com Charles por perto, o inesperado sempre estava à espreita. E, de alguma forma, era exatamente disso que eu gostava.

Ao entrarmos no hospital, o ambiente mudou. O som dos passos apressados, o burburinho distante das vozes, e o cheiro estéril do lugar nos envolviam, trazendo-nos de volta à realidade. Mas, mesmo ali, cercado pela rotina e pelas obrigações, havia uma parte de mim que ainda estava ancorada no conforto de nossa manhã, na intimidade que compartilhamos antes de sair de casa.

Enquanto eu me dirigia ao meu setor, Charles parou no corredor, observando-me por um breve momento, como se estivesse prestes a dizer algo. Seus olhos encontraram os meus, e naquele segundo, a conexão entre nós parecia pulsar com uma força invisível, uma promessa de que, independentemente do que acontecesse no hospital, nós voltaríamos a nos encontrar no final do dia, da mesma forma que começamos.

— Não se esqueça de me encontrar para o almoço — disse ele com um sorriso cúmplice, e eu acenei em resposta, sentindo aquele calor familiar que só ele conseguia provocar.

Mas, à medida que o dia avançava, uma sensação inquietante começou a crescer dentro de mim, uma intuição de que as próximas horas trariam algo mais do que simples trabalho. E, enquanto me preparava para encarar o dia, uma única pergunta começou a ecoar na minha mente: estaria eu pronto para o que estava por vir?

Olhei ao redor, com o coração batendo acelerado, à procura de qualquer sinal de que alguém estivesse me observando. O hospital, em sua rotina habitual, parecia indiferente à minha presença, e isso me deu a confiança que eu precisava. Não havia olhares atentos, nem seguranças rondando por ali. Apenas o som distante de vozes e o eco dos passos pelos corredores.

Respirei fundo, tentando controlar a ansiedade crescente. Com um movimento rápido, empurrei a porta de emergência, que cedeu com um leve rangido, e me enfiei na área restrita. O ar ali dentro era denso, carregado com o cheiro forte de desinfetante, e a iluminação fluorescente fazia tudo parecer mais frio e impessoal.

Meu coração ainda martelava no peito, mas eu me movia com determinação, consciente de que estava cruzando uma linha perigosa. Não deveria estar ali, e sabia disso, mas algo me empurrava adiante. A adrenalina corria em minhas veias, cada passo ecoando como uma promessa silenciosa de que o que eu estava prestes a fazer mudaria tudo.

A área de emergência estava mais movimentada do que eu esperava. Enfermeiros e médicos passavam rapidamente de um lado para o outro, carregando pranchetas e se movendo com a eficiência fria que vinha com a experiência de salvar vidas diariamente. Eu me esgueirei pelas sombras, mantendo a cabeça baixa e tentando me misturar ao fluxo de pessoas.

Minha mente fervilhava com perguntas, mas o que me mantinha firme era o pensamento de que, se eu conseguisse passar despercebida, encontraria as respostas que tanto precisava.

Na sala, sentado em uma poltrona próxima à janela, um senhor de idade folheava um livro com atenção, as páginas virando lentamente em suas mãos enrugadas. Seu semblante era sereno, como se estivesse imerso no universo daquela leitura, alheio ao movimento frenético do hospital ao seu redor.

Quando me aproximei, ele levantou o olhar do livro, reconhecendo-me imediatamente com um leve sorriso.

— Derick, como está? — sua voz era suave, mas carregava uma familiaridade reconfortante. Era um dos pacientes regulares dali, alguém que eu conhecia há algum tempo.

Retribuí o sorriso, aproximando-me um pouco mais.

— Olá, senhor Gonçalves — cumprimentei-o, inclinando-me levemente em respeito. — Veio fazer o restante dos seus exames? Espero que esteja tudo bem, especialmente pela sua netinha, que com certeza quer ver o avô firme e forte no aniversário dela.

O rosto dele se iluminou ao ouvir isso, e seus olhos brilharam com aquele amor incondicional que só os avós têm pelos netos.

— Ah, sim, a pequena Clara... — ele suspirou com um sorriso nostálgico. — Está ansiosa, sabe? Sempre fala que o vovô é o "herói" dela. Preciso estar bem para vê-la soprar aquelas velinhas no fim de semana. Não posso decepcioná-la.

Eu senti um calor reconfortante no peito ao ouvir suas palavras. Havia algo de especial naquele vínculo, e, mesmo em meio à correria e ao caos do hospital, momentos como aquele lembravam-me do quanto cada vida ali tinha um peso imensurável.

— Tenho certeza de que vai estar lá, senhor Gonçalves — disse, tentando transmitir a confiança que ele tanto precisava. — Estamos cuidando bem de você.

Ele fechou o livro com cuidado, deixando-o no colo, e me olhou com gratidão.

— Agradeço de verdade, Derick. Vocês aqui fazem muito mais do que imaginam.

Depois de trocar algumas palavras com o senhor Gonçalves , afastei-me, sentindo aquele misto de satisfação e responsabilidade que o trabalho de enfermagem trazia. O sorriso dele, o brilho nos olhos ao falar da neta, tudo aquilo me lembrava por que eu estava ali. Mas não havia muito tempo para reflexão; o fluxo constante de pacientes exigia minha total atenção.

Saí da sala e caminhei rapidamente pelos corredores movimentados, minha mente já focada nas próximas tarefas. A ala de emergência estava lotada como sempre. O monitoramento dos sinais vitais, a administração de medicamentos e o apoio emocional para os pacientes e suas famílias eram parte da rotina, mas nunca deixavam de ser desafiadores. Eu precisava ser rápido e eficiente, mas também atencioso e humano, uma linha tênue que todos nós, enfermeiros, tínhamos que dominar.

Chegando ao posto de enfermagem, peguei a prancheta com os novos relatórios. O primeiro nome que apareceu era o da Sra. Martinez, uma paciente que estava internada devido a complicações respiratórias. Revisei suas últimas análises, certificando-me de que tudo estava em ordem antes de me dirigir ao quarto.

Ao entrar no quarto dela, fui recebido por um silêncio interrompido apenas pelo leve som do monitor cardíaco. A Sra. Martinez, uma mulher idosa de olhar cansado, estava recostada contra os travesseiros, os tubos de oxigênio em torno do nariz. Seus olhos se abriram levemente quando percebeu minha presença.

— Bom dia, Sra. Martinez — disse, aproximando-me da cama com um sorriso suave. — Como está se sentindo hoje?

Ela tentou sorrir, mas o esforço parecia grande demais. — Melhor... Acho que hoje consigo respirar um pouco melhor — respondeu com a voz fraca, mas determinada.

Chequei o monitor ao lado da cama e observei os números que piscavam na tela. Havia uma leve melhora, e isso já era algo que me deu alívio.

— Fico feliz em ouvir isso. Seus sinais estão um pouco mais estáveis hoje — falei, enquanto ajustava o fluxo de oxigênio. — Vou fazer algumas verificações rápidas, e depois a gente conversa, está bem?

Ela assentiu com a cabeça, e eu continuei o trabalho, medindo a pressão, verificando a frequência cardíaca e ajustando a medicação conforme indicado pelos médicos. Enquanto fazia isso, conversava com ela sobre assuntos triviais — o clima, os programas de TV que ela gostava — tentando aliviar um pouco o peso que os dias no hospital traziam.

Depois de terminar o procedimento, anotei as informações na prancheta e me despedi com um toque gentil em seu braço.

— Qualquer coisa, me chame. Estarei por perto o dia todo, ok?

Ela sorriu mais uma vez, dessa vez com mais firmeza. Havia algo especial nesses momentos em que eu conseguia fazer alguém se sentir um pouco mais humano, um pouco menos doente.

Saindo do quarto da Sra. Martinez, o dia seguia implacável. Meu próximo paciente era um adolescente com uma fratura complicada, seguido por uma mãe em trabalho de parto prematuro. O hospital era um mundo próprio, onde as emoções oscilavam entre a esperança e o desespero a cada esquina. E, no meio de tudo isso, meu trabalho era garantir que cada pessoa recebesse o cuidado de que precisava.

À medida que a manhã avançava, passei por mais pacientes, correndo de um lado para o outro, verificando resultados, ajustando tratamentos, e tentando ser um ponto de apoio para aqueles que precisavam de mais do que apenas cuidados físicos.

Perto do fim da manhã, parei por um momento no posto de enfermagem, respirando fundo e apoiando as mãos no balcão. O trabalho era exaustivo, mas saber que eu fazia a diferença, mesmo que pequena, tornava tudo isso suportável — e, em muitos dias, até recompensador.

Minha mente, no entanto, ainda voltava à breve conversa com o senhor Gonçalves mais cedo. Pensar nele, em sua neta esperando ansiosa pelo aniversário, e na forma como ele segurava aquele livro me dava um sentimento estranho de conexão. Todos ali tinham histórias, vidas além das paredes do hospital, e eu estava, de certa forma, tocando cada uma delas.

**********************

No horário de almoço, o hospital estava no seu ritmo usual — movimentado e um pouco caótico. Eu mal havia terminado de verificar meu último paciente quando senti meu estômago roncar, lembrando-me de que já passava da hora de comer algo. A lanchonete do hospital parecia o único refúgio possível naquele momento, um pequeno oásis em meio à correria do dia.

Caminhei até lá, o som dos meus passos ecoando pelos corredores, e ao chegar, encontrei Charles já me esperando. Ele estava encostado no balcão, com aquele sorriso fácil que fazia o caos ao nosso redor desaparecer por um instante. Mesmo em meio a tantas coisas acontecendo, só de vê-lo ali, relaxado e com os olhos fixos em mim, algo dentro de mim se acalmou.

— Achei que você ia me deixar almoçando sozinho hoje — brincou ele, endireitando-se quando me aproximei. Seu tom era leve, mas o brilho em seus olhos sempre entregava que ele gostava da minha companhia mais do que as palavras simples poderiam sugerir.

— Eu nunca faria isso com você — respondi, rindo enquanto me aproximava. — Mas não vou mentir, quase fiquei preso na rotina.

Ele riu também e me puxou levemente pelo braço, guiando-me até uma mesa num canto mais afastado da lanchonete, onde poderíamos conversar sem ser interrompidos. A química entre nós sempre foi fácil, natural, como se estivéssemos sintonizados no mesmo ritmo, mesmo quando o trabalho tentava nos consumir.

Assim que nos sentamos, Charles se inclinou um pouco para frente, observando-me com aquele olhar atento, que às vezes me fazia sentir como se eu fosse o único no mundo para ele.

— E então, como está seu dia? — perguntou, sua voz suave, mas cheia de interesse genuíno. Ele sempre fazia questão de perguntar, mesmo sabendo que a rotina hospitalar era intensa.

— Bem puxado, pra ser honesto — confessei, apoiando os cotovelos na mesa e esfregando os olhos cansados. — Mas agora que estou aqui com você, sinto que posso respirar um pouco.

Ele sorriu de lado, aquele sorriso que sempre me desarmava.

— Bem, esse é o meu objetivo, fazer você esquecer por alguns minutos. — Ele brincou, mas havia uma verdade naquelas palavras que me fez sentir um calor interno.

Pegamos nossos pedidos e, enquanto eu mordia meu sanduíche, percebi Charles me observando de maneira discreta, como se quisesse absorver o momento. Mesmo na simplicidade de um almoço na lanchonete do hospital, havia uma intimidade tranquila entre nós, como se só a presença um do outro fosse suficiente para recarregar as energias.

— Sabe — ele começou, jogando o guardanapo de lado e se inclinando mais para perto —, eu estava pensando... a gente devia tirar uns dias para nós. Só nós dois, longe de tudo isso.

Meu coração deu um leve salto. A ideia de escapar da rotina hospitalar e passar alguns dias com Charles, sem pressa, soava como o paraíso. Ele sempre soube como me tirar da pressão do dia a dia, e só o pensamento de estar em algum lugar com ele, sem o peso das responsabilidades, já me fez sentir mais leve.

— Eu adoraria — respondi, sorrindo, e o brilho no olhar dele ficou mais intenso, como se já estivesse imaginando tudo.

Ele segurou minha mão sobre a mesa, os dedos entrelaçando-se aos meus de forma natural, e o toque simples carregava um mundo de promessas. — Vamos fazer isso acontecer então — disse ele, sua voz um sussurro entre nós dois. — Você merece uma pausa, e eu... eu quero passar esse tempo com você.

Minha respiração ficou um pouco mais curta, e por um momento, o hospital, as responsabilidades, tudo desapareceu. Só existíamos nós dois, ali, naquela mesa, com a conexão que tínhamos cultivado crescendo a cada gesto, cada olhar.

— Com você, qualquer lugar seria perfeito — murmurei, sem nem me dar conta de que estava dizendo isso em voz alta, mas ao ver o sorriso suave nos lábios de Charles, soube que ele sentia o mesmo.

O resto do almoço passou rápido demais, como sempre acontece quando estou com ele. Mas quando voltamos ao trabalho, senti que, mesmo em meio à loucura do hospital, havia algo em mim mais calmo, mais centrado — graças a Charles.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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