Capítulo Dez
Charles Griffin:
Sentia a impaciência crescer dentro de mim, como um fogo lento e irritante, enquanto meus dedos batiam repetidamente sobre a mesa, um reflexo involuntário da frustração que me consumia. O som abafado da ponta do indicador contra a madeira era quase reconfortante, uma distração da conversa interminável que eu já mal prestava atenção. Um dos funcionários do departamento financeiro continuava falando, sua voz monótona ecoando no fundo da minha mente, enquanto ele explicava com uma calma irritante como o orçamento estava "muito bem até o presente momento". Suas palavras soavam distantes, quase desconectadas da realidade que eu estava vivendo naquele instante. Cada frase prolongava o inevitável, e minha paciência, já desgastada, estava prestes a se esgotar. Eu só queria que ele chegasse logo ao ponto, mas parecia que ele estava determinado a testar meus limites, sem perceber o turbilhão de emoções que eu lutava para manter sob controle.
Quando a reunião finalmente terminou, voltei para minha sala, sentindo o alívio de estar longe das intermináveis discussões sobre números e relatórios. Antes de me sentar, decidi passar no refeitório e peguei alguns salgadinhos e um suco para beliscar. No exato momento em que me acomodava, meu celular vibrou com uma vídeo-chamada. Olhei para a tela e sorri ao ver que era Carlos, meu filho.
— Oi, Carlos! — Cumprimentei, enquanto ajustava o celular. — Não deveria estar de folga hoje? Pensei que era no hospital.
Carlos era o responsável pelo hospital da nossa sede em Atlanta, e eu sabia o quanto ele levava seu trabalho a sério.
— Pai, eu estou de folga — ele respondeu, com aquele jeito descontraído, estalando a língua como costumava fazer quando pensava em algo. — Mas decidi passar no hospital para resolver umas coisinhas na minha sala. O Alex está com as crianças no parque, então aproveitei para ver como está ficando a decoração do hospital. Eles vão passar o dia fora, o Alex prometeu.
Eu sabia o quanto meu filho amava o namorado, Alex, que não só era pai da minha netinha linda, Verônica, mas também do pequeno Cameron, o enteado do Carlos. Ainda assim, não conseguia evitar manter um olhar vigilante em relação a Alex, sempre pelo bem do meu filho e das crianças.
Carlos me observou por um momento antes de sorrir, como se pudesse ler meus pensamentos.
— Estou vendo essa sua expressão, pai. — Ele riu, com um brilho divertido nos olhos. — Já conversamos sobre isso antes. Eu e o Alex nos acertamos faz tempo. Você podia, por favor, parar de tratá-lo como se fosse um inimigo?
Suspirei, sabendo que ele tinha razão, mas ainda assim senti aquela necessidade de proteger meu filho, mesmo que fosse desnecessária.
— Ele só fez três coisas certas pra mim: a Verônica, o Cameron, e perceber o quão incrível você é. — Respondi, com um sorriso que tentei disfarçar, mas Carlos riu do outro lado da tela, claramente se divertindo com minha teimosia.
— Eu te amo, pai — ele disse, ainda rindo. — Mas você precisa confiar mais nele. Ele me faz feliz.
Sorri de volta, meu coração aquecido pela alegria genuína do meu filho. No fundo, eu sabia que Alex era bom para ele, mas pai é pai, e é difícil não ser superprotetor.
— Eu sei que ele te faz feliz — respondi com um meio sorriso. — Mas só vou perdoá-lo completamente se ele me der mais um netinho fofo.
Carlos revirou os olhos, claramente já esperando minha resposta.
— Pai, eu já te disse, não estamos planejando ter mais filhos. A Verônica e o Cameron são mais do que suficientes, e, além disso, o Alex fez uma cirurgia, lembra?
Eu suspirei, ainda insistindo.
— Então adotem! — respondi sem hesitar.
Carlos soltou uma risada breve, mas logo me olhou com aquela expressão que só ele sabia fazer quando ia me provocar.
— Se você está tão interessado em cuidar de crianças, por que não adota você? Ou melhor ainda, por que não conversa com o Derick sobre ele engravidar? — Ele brincou, cruzando os braços, a provocação clara em seu tom. — Seria ótimo ter um irmãozinho mais novo. Claro, além do Vinícius e do Patrick, que já são como meus irmãos mais novos, mas estou falando de um de sangue.
Eu ri, balançando a cabeça. Era típico do Carlos virar a situação a meu favor, e, de algum modo, eu sempre acabava sorrindo.
— Ah, filho, sempre me dando trabalho, não é? — falei, ainda rindo. — Mas vou pensar no que você disse.
Carlos riu também, a conexão entre nós era sempre leve, cheia de humor e afeto. Mesmo nas provocações, havia uma camada profunda de carinho que sempre nos mantinha próximos, apesar das nossas pequenas divergências.
De repente, ouvi um grito inesperado vindo do outro lado da linha. Carlos imediatamente se levantou para ver o que estava acontecendo, e logo em seguida, ele começou a rir. Virou a tela do celular para me mostrar a cena: Alex tinha aparecido atrás dele, com Verônica e Cameron segurando suas mãos de cada lado, todos rindo. O mais divertido era a tinta azul escorrendo do cabelo de Alex, manchando seus ombros e a jaqueta, como se ele tivesse acabado de sair de uma guerra de pintura.
— Com essa cena, acho que posso dizer que ele está oficialmente perdoado — falei, soltando uma gargalhada que ecoou pela sala.
Carlos, segurando o riso, olhou para Alex com uma expressão divertida.
— O que está acontecendo aqui? Como você sabia que eu estava aqui? — ele perguntou, tentando manter a compostura, mas era evidente que ele estava a um passo de cair na risada.
— Pai, acho que vou precisar desligar agora. — Carlos disse, com um sorriso ainda maior. — Depois te ligo, prometo!
Antes de encerrar a chamada, pude ver Alex tentando limpar a tinta, enquanto Verônica e Cameron riam como se fosse a coisa mais divertida do mundo. A imagem ficou comigo, e eu não consegui segurar o riso por mais um tempo depois da ligação terminar.
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Enquanto terminava o salgadinho e dava um gole no suco, me preparei para encarar o restante do meu dia de trabalho. Havia consultas para fazer e uma pilha de papelada para organizar, mas meus pensamentos continuavam a vagar, agora fixados em Derick. Será que ele gostaria de ter um filho comigo? Eu sabia que, no fundo, desejava construir uma família ao lado dele, casar e compartilhar uma vida juntos. Mas, ao mesmo tempo, não queria forçá-lo a nada. Não seria justo pressioná-lo por algo tão importante se ele não estivesse pronto ou não desejasse o mesmo.
Enquanto revisava os prontuários, minha mente continuava a debater o assunto. Derick sempre foi uma pessoa carinhosa e dedicada, e já falamos sobre o futuro algumas vezes. Mas filhos... isso era algo grande. Eu queria que ele compartilhasse desse sonho comigo, mas a última coisa que eu queria era que ele sentisse qualquer tipo de pressão. Nosso relacionamento era baseado em respeito e compreensão, e isso era algo que eu não podia comprometer.
Suspirei, guardando esses pensamentos para um momento mais oportuno. Talvez, quando a hora certa chegasse, eu e Derick pudéssemos ter essa conversa de coração aberto. Por enquanto, me concentrei no que tinha diante de mim — meus pacientes precisavam da minha atenção, e as decisões sobre o futuro podiam esperar um pouco mais.
Quando terminei tudo, encontrei Derick no corredor, lutando para carregar um monte de equipamentos. Não pensei duas vezes antes de ir até ele para ajudar.
— Oi — falamos ao mesmo tempo, e ambos sorrimos com a sincronia.
— Como foi a reunião? — ele perguntou enquanto caminhávamos lado a lado.
— Boa — respondi, tentando deixar de lado o peso do trabalho enquanto nos dirigíamos juntos.
Derick parecia pensativo, e após alguns passos em silêncio, ele soltou uma notícia que me pegou de surpresa.
— Almocei com meu tio hoje — ele começou, sua voz carregada de um tom mais sério. — Ele descobriu o motivo pelo qual meus pais querem tanto fazer contato comigo ou com ele agora... Eles estão à beira da falência.
Parei por um instante, surpreso com a revelação. Derick continuou, o olhar distante enquanto explicava.
— As ações da empresa deles estão em um estado péssimo, é um verdadeiro desastre. A única coisa que ainda mantém a empresa de pé é a parte que meu avô deixou para o meu tio e para mim. E agora, eles querem que a gente dê permissão para vender essa parte.
Eu sabia o quanto a relação de Derick com os pais era complicada, e essa nova reviravolta só tornava tudo mais delicado. Ele tinha aquele tom de frustração na voz, uma mistura de mágoa e desapontamento, como se, depois de tanto tempo afastado, tudo se resumisse a interesses financeiros.
— E o que você acha disso? — perguntei suavemente, tentando entender como ele estava processando tudo.
Derick suspirou, olhando para o chão por um momento, como se estivesse pesando cada palavra.
— Eu não sei... Parte de mim sente que essa é só mais uma tentativa deles de me usar, como sempre fizeram. Mas outra parte pensa que, se não ajudarmos, a empresa que meu avô construiu vai desmoronar. E isso, de certa forma, também é parte de mim, parte da nossa história. Só não sei se estou pronto para entregar tudo assim... por causa deles.
Eu podia sentir o conflito dentro dele, e tudo que queria naquele momento era oferecer o apoio que ele precisava. Segurei sua mão, apertando de leve.
— Qualquer que seja sua decisão, estou com você, Derick. Não importa o que aconteça.
Enquanto caminhávamos lado a lado, a leveza do momento tomou conta de nós. A risada de Derick ainda ecoava suavemente enquanto ele ajeitava os equipamentos que carregava, e eu não conseguia tirar o sorriso do rosto. Era nos pequenos gestos e conversas descontraídas que eu sentia o quanto éramos um time, sempre prontos para apoiar um ao outro, mesmo nos momentos mais difíceis.
— Obrigado por estar sempre comigo, mesmo quando tudo parece um caos — ele disse, com um tom mais suave, o olhar sincero me encarando.
— Sempre estarei, Derick. Não importa o que aconteça, vamos enfrentar tudo juntos — respondi, apertando sua mão mais uma vez enquanto o acompanhava.
Chegamos até a sala onde ele precisava deixar os equipamentos, e antes que ele pudesse entrar, virei-me para ele com um sorriso travesso.
— Agora, além de todo esse caos familiar, o que você acha de a gente planejar algo mais tranquilo para o final de semana? — sugeri. — Quem sabe um jantar e, quem sabe, uma conversa sobre o futuro, sem pressões?
Derick me olhou por um instante, e o sorriso dele suavizou, como se aquele convite fosse tudo o que ele precisava naquele momento.
— Isso soa perfeito. Um pouco de paz e planejamento para o nosso futuro é exatamente o que eu estava pensando.
Nos despedimos com um rápido beijo, e enquanto ele entrava na sala, senti que, apesar de todas as dificuldades, estávamos no caminho certo. Não importava o que o futuro trouxesse, desde que estivéssemos juntos, enfrentaríamos qualquer desafio.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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