● Capítulo 03 ●

O olhar curioso da humana não passou despercebido, mesmo atenta ao seu trabalho a velha senhora não deixou de notar a deusa.

— A senhorita vai participar do concurso de fantasias? — indagou a senhora, sem aguentar a curiosidade.

— Sim — assentiu Bastet, mentindo mas não deixou de sorrir.

Era óbvio que suas roupas seria ponto de atenção, enquanto os descendentes asiáticos optavam por vestimentas dos seus ancestrais, a deusa continou com seus vestido bege esvoaçante, que deliniava seu corpo sem ser vulgar, além de seus cabelos pretos como a noite.

A mulher voltou sua atenção para a preparação do zong zi, uma das comidas tradicionais da China a qual Bastet não era tão adepta, preferindo os sabores do Egito antigo. No entanto, com a atual insistência de Hades a fez ceder, o mesmo entrou no meio da multidão atrás de alguma iguaria, segundo ele.

— Aqui está  — a senhora pôs o prato na mesa, o zong zi em forma atípica de triângulo, exalando um aroma agradável.

Sem perder tempo a deusa levou a boca a comida, o sabor apetitoso foi aprovado, não pode negar que a mulher sabia preparar com êxito. Desta forma, Bastet seguiu comendo todos que fora posto no prato fazendo a velha anciã sorrir com entusiasmo.

— É perfeito — admitiu depois de terminar.

— Não é um dos alimentos que deuses egípcios estão acostumados, não  — a mulher comentou.

Bastet poderia ter se assustado com a constatação de uma humana saber que ela era um deusa, porém se limitou a sorrir. Hades poderia da total veracidade que os outros deuses não se incomodariam com eles em seu festival, mas Bastet nunca teve certeza disso, deuses podem ser territorialistas.

— Não — ela retrucou, fitando os olhos puxados da mulher, que até então aparentou ser inofensiva. — Mas aprovo que realmente são bons.

— Bai She Zhuan também aprova, um deus grego com uma egípcia, Bastet de Bubastis

— Bai She Zhuan, a cobra branca, que boas vindas mais mórbida — interveio Hades, surgindo da multidão.

— Não é como se você merecesse algo exuberante — retorquiu a deusa com calma.

Bastet apenas observou os dois, um deus grego temido no mundo dos mortais, os quais a todo fato evitavam ele, do outro lado a deusa que persistiu a seu amor por um humano, indo além do possível. Não conteve sua expectativa para o que seguiria adiante.

— Bem.. — divagou Hades, após sentar do lado de Bastet. — Um reencontro merece uma boa bebida não acha.

As feições da velha anciã remetiam ao pensamento da deusa, com um leve aceno ela seguiu para dentro da tenda, voltando logo em seguida com uma garrafa com aspecto que subtendia seus anos. Sem muitas palavras, ela serviu os dois, o líquido verde mal encheu o copo, no entanto a mesma não aparentou se importar.

A felina estudou a bebida meticulosamente, não ia acreditar na pouca empatia que teve com a deusa asiática, Rá sempre a lembrava que boas trocas de palavra não era sinal de confiança.

— É uma bebida comum — falou Bai She Zhuan, observando o olhar atento. — Xiaoqing a fez.

— Sua irmã, a cobra verde — interveio Hades, depois de alguns goles. — Não é muito afável com os humanos.

— Diga logo o que quer, olimpiano — retrucou a deusa, sem rodeios.

— A ajudei no passado, está na hora de retribuir o favor — Hades foi direto, Bastet não negou seu interesse em saber qual favor era esse.

Amizades, ou encontros entres deuses distintos era um evento atípico, os mesmos se evitavam ao máximo. Dessa forma, alguns se achavam superiores que os outros com sua soberba e ego inflados, nesse mundo dos deuses, humanos não passam de simples animalzinhos.

— E o que você prentende? —  indagou.

— Quero que procure uma deusa… melhor a vigie — declarou o deus do submundo.

Tanto Bastet como Bai She Zhuan demonstraram surpresa em seus rostos, Hades não procurava um simples assunto, aquilo ia por todos os envolvidos em risco, mas o deus não pareceu afetado.

— Ora… não diga que está em pânico — disse com escárnio. — O que eu peço é bem menor do que fiz por você.

A felina olhou para a cobra branca aguardando sua resposta, a tensão se instalou pelos segundos de silêncio. No ponto de vista de Bastet, foi a noite mais tumultuada desde as pragas do Egito, a mesma se encostou no banco, alternando o olhar entre os dois.

— Certo — Bai She Zhuan respondeu, convencida que não tinha muitas escolhas.

Como em um brinde de comemoração, Hades ergueu o copo com que restou da bebida.

A árvore centenária não havia nada de incomum, os galhos ramificados ainda continham folhas, o tronco avantajado que durou por forte longos anos. Mas a essência de poder que emanva a tornava singular. Dedos longos percorreram pelos símbolos inusitados, em nenhuma língua que humanos ou seus antepassados soubessem. Hades deixou de olhar para encarar a deusa.

— Pergunte de uma vez — ele disse, desembaraçou os fios negros.

— Como sabe das minhas indagações? — ela inquiriu com o olhar curioso.

— Levei você até Bai She Zhuan, pelas minhas próprias ambições — ele falou. — É normal que você tenha perguntas.

— Qual foi sua ação de caridade para ela? — retrucou sem evitar, a curiosidade a cobria.

Os lábios do deus do submundo abriu em um sorriso sarcástico acompanhado de uma risada humorada. Bastet ponderou qual era a graça na sua pergunta, deuses faziam caridade certo?

Diferente dos demais, a felina evitava propagar seu ódio, mesmo ambos, mortais e imortais tendo seus pecados.

— Eu não chamaria de caridade, foi uma troca bem feita.

— Ofereceu ajuda pensando em como ela ia retribuir no futuro — Bastet sussurrou para si mesma.

— Lembre-se… Tudo comigo tem um preço.

Ela fitou os olhos amarelados que a olhava de volta, Hades poderia pregar medo e destruição no submundo, era temido com veemência. Contudo, nada disso a amendrotava, aquele na sua frente só era mais um homem comum com é  claro a imortalidade como aliada. A deusa sorriu com seus pensamentos.

— Devo cobrar-lo então pela horas que passei com você.

— Vejo que não está com raiva, por ter a usado como pretexto, sua empatia com Bai She Zhuan foi útil —  ele ponderou, seu olhos continuava sobre o rosto delicado dela.

— Tive uma refeição digna.. e estava prestes a ver um confronto entre deuses — Bastet sorriu novamente. — Agitou minha noite.

Sem mais nenhuma palavra ela tocou nos símbolos cravados na velha árvore, os mesmos misteriosamente ganharam um tom dourado indicando a abertura de um portal. Antes de seguir, Bastet olhou uma última vez para Hades que deu um leve aceno em despedida, a deusa retribuiu e passou pela árvore, não surgindo do outro lado, mas sim em seu lugar natal. Os símbolos voltaram a cor opaca de sempre.

I'M BACK, GUYS...

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