4. Hell on Heels

Nesse mundo da velocidade, envolve muito dinheiro, muito glamour, muitos acordos. Percebi que tudo que tem essa combinação se torna um tanque de tubarões, onde você tem que nadar, fingir que está tudo bem, sorrir, acenar com as mãos e tentar parecer que sabe onde está nadando. Por mais que você não conheça e nem veja todas as regras do jogo, tem que fingir que sabe para não virar a refeição no final do dia.

***

Estava dormindo, aproveitando a folga daquele dia, calmamente, em baixo dos cobertores macios e fofinhos, a cortina da suíte do hotel toda fechada, quando de repente ouço uma comoção além da porta da suíte, parecia invadir a antessala como uma verdadeira tsunami, tentei ignorar fortemente aqueles ruídos, só devia ser a camareira, tinha que ser ela.

Mas o barulho da porta do meu quarto irrompendo violentamente deixando bem claro que não era um pesadelo.

— MACALLISTER! DE PÉ AGORA!

A voz imperiosa da Stephania só deixou isso mais claro, então tentei me defender.

— Stephania, hoje é a minha folga.

Gemi em reclamação, cobrindo minha cabeça com o cobertor que foi removido fortemente.

— Você está justamente de folga da pista por que precisa se arrumar para a apresentação de hoje a noite. Já são 11 horas da manhã. Vamos! Vamos! Você parece a esposa do Shrek. Minha equipe terá um trabalhão.

Sentei na cama esfregando o rosto com as mãos. Então olhei para ela sonolenta, como a mulher podia estar tão bonita e arrumada aquela hora da manhã de um sábado? É inverno, pelo amor de Deus, está frio e gostoso para curtir a cama.

— Preciso me arrumar toda? Vou usar macacão! – Tentei argumentar, mas a expressão de choque dela mostrou que meu argumento não deu certo e ainda falei absurdo.

— Acha que vai usar macacão a festa toda?...Acorda MacAllister, você só vai usar aquele macacão — fez uma expressão de desdém — enquanto apresenta o carro, depois você vai vestir um belo, feminino e dramático Oscar de La Renta. Sabe o trabalho que me deu conseguir o vestido dele? Tive que praticamente vender minha alma ao diabo! Poucos estão dispostos a vender um vestido do homem. Depois que ele morreu foi elevado ao status de Picasso da moda! 

A empolgação dela não me atingiu, ao contrário, suspirei derrotada por aquilo, eu gostava de correr, não deste tal de acorrenta.

— Duvido que você tenha colocado o Hashida nesta situação.

— Minha querida, aquele rapaz tem o espírito oriental, ele é maravilhoso, tanto que minha equipe já está cuidando dele sem nenhuma reclamação. Se bem que além da disciplina e temperança típica dos orientais, devo dizer que ele já está acostumado, sabe como as coisas funcionam, diferente de você, que precisa ser — Ela então me olha de cima abaixo — domesticada, aculturada, trabalhada, me sinto praticamente um Pigmalião. Mas o que posso fazer? — Ela olhou para o meu pé e então continuou em tom horrorizado. — Dio, isso parece uma pata de cavalo, era para eu ter trazido um ferreiro para cuidar disso, como consegue guiar aquele carro com essas ferraduras?

Eu ia dar uma resposta atravessada, por que ela não mentia, os tênis, as sapatilhas e a rotina acabava com os pés. Então me levantei da cama usando só calcinha e camiseta, caminhando até o banheiro sem deixar de ouvir outra reclamação horrorizada dela.

— Ainda bem que escolhi um vestido de mangas compridas, está garota parece o Schwarzenegger com esses braços musculosos. Não demore.

Saiu batendo a porta atrás de si, e comecei ouvir ela a latir ordens do lado de fora. Revirei os olhos ao pensar: "Alguém já disse para ela que é impossível não ter braços musculosos quando sua obrigação é segurar um carro a 300 km/h. Vaca!"

Quando me olhei no espelho, depois de pronta, estava parecendo bem bonita com o vestido azul escuro de renda grossa, que deixava um pouco armado e dava a ilusão de transparência pelos espaços deixados pelas tramas do tecido. Meu cabelo descia em cachos bem definidos, a maquiagem em tons de azul, além de combinar com o vestido, também combinaria com o macacão da equipe, já que ambos eram da mesma cor.

Eu tinha que dar o braço a torcer, Stephania sabia fazer bem o seu trabalho, tudo bem que ela exagerou um pouco, perguntei até por que ela havia me depilado, e ela disse que isso faria eu me sentir mais feminina, assim como as unhas das mãos e os dos pés vermelha. Ah! Devido a pressão, eu tenho que desconta-las em algum lugar, logo eu acabo roendo as unhas, nem preciso dizer que a Rainha de Copas quase mandou cortar minha cabeça quando viu as minhas mãos. Ela parecia estar prestes a ter um AVC.

Depois de passar pela inspeção dela, então olhou para mim e disse:

— Vai postar alguma foto?

— Sim. Vou, por que?

— Eu faço a foto para você.

Eu entreguei o celular, ela me ajudou a escolher a melhor pose. Começou a digitar freneticamente e então entregou me celular. Quando eu olhei na tela, ela havia postado a foto com um texto insipido e cuidadoso.

— Ei! Você não...

— Devia sim, sou a Diretora de Comunicação e Marketing daqui. Enquanto você não conhecer as regras, eu tomarei cuidado para que acidentalmente não quebre alguma regra é estrague meu minucioso trabalho. Agora vamos e pare de reclamar como um bebe chorão!

Eu a segui, assim que cheguei no lobby do hotel, encontrei o Hashida totalmente arrumado, smoking perfeito. Me aproximei dele e falei baixinho para que Stephania não escutasse.

— Por que você ficou só com a equipe da Rainha de Copas e eu fiquei com ela em pessoa?

— Rainha de Copas? — Me olhou confuso e apontei com um maneio de cabeça para a Stephania. — Ahhhh! Ela. — Ele deu de ombros. — Acho que deve ser os inúmeros detalhes que envolvem o visual de uma mulher e também por ser a sua primeira vez.

— Ah sim! Isso com toda certeza, ela passou o dia todo me dizendo como deveria me comportar, me senti como uma noiva no dia do casamento com a mãe dizendo o tempo todo como é foder na noite de núpcias. — Ele lança um olhar espantado para mim, percebendo como era o rapaz, me apressei em consertar. — Eu sei, detalhes demais.

— Você sempre fala tão apressado assim? Tão rápido? — Dou de ombros como se dissesse "fazer o que?" — Interessante, rápida na pista e nas palavras. Vai ser bem divertido ver você discutindo com os caras.

— Como assim?

— Deixa pra lá. Nada.

— Takeshi!

— Pensei que já tinha percebido depois do que houve com o Will. É só tocar o carro errado e... — Ele faz o gesto como se algo explodisse, quase uma bomba atômica.

— Ah!

Compreendi o recado no momento que Stephania praticamente nos empurrou em carros diferentes, dali pra frente tudo pareceu um borrão, o tapete vermelho, os fotógrafos, os milhares de flashes. Era tudo tão atordoante, das categorias que eu vim não tinham todo aquele Circo, era tudo muito mais modesto. Mas ali estava eu, vestida no meu macacão, sentada na asa do carro, enquanto Takeshi estava em pé ao meu lado, e ao som de batidas pesadas, girávamos em um grande palco, até parar e as luzes se acenderem apresentando o carro. Um vídeo já havia apresentado os pilotos, então só restava receber os aplausos de quem estava ali.

Agora estava sentada, na cadeira do camarim, respirando fundo, me recompondo, dentro daquele vestido novamente, me preparava para enfrentar aquele batalhão de desconhecidos. Se fosse em uma boate, com a minha galera, depois de beber alguns crantinis, ia ser tudo muito mais fácil, mas apenas champanhe e com moderação estava liberado para mim, e eu sendo o centro das atenções.

Ouvi batidas na porta e respondi com um educado "pode entrar", então o homem alto, abriu ela com um sorriso educado, quando olhei pelo espelho, o reconheci das revistas e jornais, fiquei logo de pé, me virando para o homem diante de mim. Ele era alto, barba por fazer, por volta dos 40, usando um smoking certamente feito sob medida.

— Senhor Townsend! Muito prazer em conhece-lo!

Sei que estava me comportando como uma fã, mas afinal, o cara era meu ídolo, se aposentou a 3 anos atrás da Formula 1, chocando a todos, para montar sua própria equipe. O cara começou a correr na categoria, no auge da Era Schumacher, ele correu entre os grandes, depois da saída do alemão, Ronald Townsend venceu três campeonatos mundiais, até que inesperadamente, chocando a todos, anunciou sua aposentadoria e montou sua própria equipe.

— Pode me chamar de Ron. — Ele ergueu a mão dispensando a formalidade, até que pegou a mão que havia estendido para cumprimentá-lo e beijou como um nobre cavaleiro inglês o faria, não era em vão que recebeu o título de Sir da própria Rainha da Inglaterra. — Prazer em conhece-la, Alexandra. Desculpe-me não estar na assinatura do contrato, mas estava preso em Abu Dhabi, ainda tratando de assuntos da temporada anterior e a transferência do André para a Red Horse.

— Eu deveria falar que lamento, por pura educação, mas não farei isso, pois estarei sendo hipócrita, por que graças a saída dele, eu estou aqui.

— E fico feliz em estar escrevendo a história com você, por que algo me diz que teremos a primeira mulher que terminará essa temporada entre os 6 melhores.

— Eu estou me esforçando muito, Senhor.

— Soube que é dedicada, Frank tem falado muito bem de você. Que é uma fera indomável nas pistas. — Ele deu umas batidinhas na minha mão. — Agora que a burocracia está diminuindo poderei ir até a Silverstone assistir como se sai.

— Seria uma honra, Senhor.

— Já disse, Ron. E não quero que Takeshi me escute por causa do seu tempo de equipe, mas você é minha estrela. Sinto isso no ar. Sempre que um piloto começava, eu sabia só de olhar para ele se ia longe ou não....Você tem aquele toque especial, aquele de quem vai longe. Saiba que eu e Frank tivemos um bom duelo com os acionistas, tivemos que provar que você era mais do que uma estratégia de marketing, que era um prodígio.

Oi? Sir Ronald Townsend me chamou de prodígio? É isso?

Gravem esse momento pra mim, por favor.

— Muito obrigada, Sen...digo, Ron.

— Foi um prazer conhece-la, aproveite a noite, nos veremos em breve. Você está muito bonita, Alexandra.

Ele beijou meu rosto, enquanto eu falava um tímido, "tchau" e ele se retirava do meu camarim com aquela força poderosa. Nem preciso dizer que o resto da noite foi irrelevante, que só lembrava do que tinha escutado do meu ídolo, ele disse que eu era um prodígio, isso meus queridos, um prodígio. Eu estava nas nuvens, nem precisei fingir sorriso, por que ele não saiu mais do meu rosto. Ele beijou meu rosto, me tratou de igual pra igual, como uma estrela, como se estivesse no mesmo patamar que ele. Essa noite já valeu a pena, será daquelas que deito na cama com um sorriso bobo até dormir. Com toda certeza. 

***

NOTA DA AUTORA:

Uma nova história começando, como cada capítulo é inspirado em uma música, por que acho que daria um ótimo ritmo a narrativa, não perca a playlist que tem lá no Spotify: https://goo.gl/o8UCa1

Acompanhe também as notícias, spoilers, elencos, papo direto da mente da autora no meu twitter: https://goo.gl/BSX5sy

Quem não ficaria babando como a Alexandra? Eu ficaria também!

Beijinhos!

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