11. Royals

***

Entro no salão de festas tentando fingir normalidade, nada tinha acontecido, nenhum pouco. A caminho do grande salão, eu passei as mãos no cabelo, mas achei melhor ir no banheiro, quando me olhei no espelho, estava bem bagunçada. Mas logo comecei o processo de me reorganizar, arrumar o cabelo e retocar o batom. Até que me olhei no espelho e dei um pequeno sorriso de aprovação.

Ao sair do salão encontrei Stephania que vinha caminhando em minha direção.

- Garota! Ai está você! Estava louca atrás de você, precisa tirar uma foto com o Governador, acha que ele está a sua disposição, menina?

Apenas balancei a cabeça afirmativamente, ao ser conduzida em direção ao governador com Stephania falando algum sermão ao meu lado, encontrei William que vinha entrando no salão e trocamos um olhar que me deixou tímida.

Nos aproximamos do Governador, que muito educadamente apertou a minha mão, falou que contava com uma bela festa americana naquele final de semana e blá blá blá. Eu liguei o piloto automático e apenas dava respostas curtas com um sorriso educado, como fui muito bem treinada. 

Assim que acabou o momento politica, olhei em volta e despistei Stephania indo diretamente para o bar. Assim que cheguei, pedi com urgência para o barman:

- Um Strawberry Vodka Limonade, por favor!

Respiro fundo e escuto a voz debochada ao meu lado:

- Fugindo da sua carrasca?

Me viro e dou de cara com o Espanhol. Esse ainda não tinha apresentado formalmente para vocês, por que ele é o cara mais de bastidores, mais do canto dele. Daniel Hernandez abraçou para si o cargo de ser o Bad Boy da turma, o vilão, como ele mesmo fez questão de se apresentar quando nos conhecemos, durante um dos almoços no Paddock, até hoje me lembro: "Prazer, sou Daniel Hernandez, e você é a novata. Eu corro na Charging Bull...isso, na mesma esquipe que o idiota do Gaillard. Mas é a única coisa que temos em comum, eu assumi abertamente o papel de vilão, já ele prefere fazer o papel de bom moço e aprontar por trás. Idiota!".

Nem preciso dizer que aquele sim foi nosso ponto de conexão, tínhamos a mesma rebeldia e o mesmo incomodo em comum. Na verdade, quase ninguém gostava do Gaillard, enquanto você via várias rodinhas de pilotos trocando ideia, se cumprimentando, ele não tinha isso. Ele andava com uns e outros, mas era pura troca de interesses, não via ali aquela dose divertida de camaradagem.

- Nem me fale. Hoje ela está impossível. - Reviro os olhos.

Assim que o barman trás minha bebida, eu agradeço e dou o primeiro gole mais delicioso de todos.

- Você está com cara de cachorro que urinou na igreja. - Ele joga aquela e dá um gole na cerveja. - Tão principiante, MacAllister.

- Como você... - Começo impressionada.

- Por que eu sei...Eu sinto...E ela sente também...Aquela mulher sente. Eu sei por que somos da mesma laia, se bem que eu sou mais esperto que você, eu talvez seja um vilão de fato, um sem vergonha. Já você ainda tem um pouquinho de merda de escrúpulos. No seu olhar está estampado: Fiz merda! - O homem falava de forma monótona e calma, como se estivesse palestrando sobre a Física Quântica. 

- Eu sei que merda ela fez! - Tyler brota entre nós dois pedindo bebida para o atendente.

- Ah não, MacAllister! Você escondeu tão mal que até o estagiário sabe! Assim você envergonha a classe. - O espanhol revira os olhos em desgosto.

Tyler se vira para ele me ignorando.

- Olha para o salto dela! - O rapaz fala todo empolgado.

O espanhol se estica por trás do garoto olhando para o meu salto.

- É amarelo...E o que tenho que ver lá? - Fala o homem entediado, como se falasse com uma criança.

- Está sujo de areia. Igual um sapato de um certo inglês. Ah! E os dois sumiram juntos ao mesmo tempo. E ai vem a melhor parte, algum tempo antes o Inglês estava surtando querendo saber do carinha que chegou de braços dados com ela. - O garoto explica fazendo Hernandez balançar a cabeça realmente impressionado.

- Mandou bem, baixinho. Bate aqui! - O homem assim que fala, ergue a mão e eles trocam um hi5.

- Ei! Estou aqui! - Balanço os braços tentando chamar atenção.

Hernandez afasta Tyler como se ele estivesse atrapalhando a conversa por estar no meio.

- Mulher, o que você fez para o nosso Inglesinho, sua Demônia? Você não percebe que está bagunçando a ordem natural das coisas. Você começou a bagunçar o Senhor Certinho, uma peça chave do nosso ecossistema. - Ele aponta o dedo pra mim. - Se eu tiver que virar o bom moço por sua causa, aviso logo que tá ferrada.

***

Eu cheguei a pista abraçada a minha mãe, enquanto meu irmão e meu pai iam caminhando na frente. Era maravilhoso aqueles dias com toda a família reunida. Eles curtindo o universo novo para mim, juntos comigo. Era tão bom. Minha mãe tinha voltado da festa falando o quanto tinha ficado encantada com tudo, só lamentou o fato de ter ficado ocupada a noite toda, e assumo que isso fez com que eu me sentisse um pouco culpada.

Mas sempre que tinha um tempo livre, eu estava com eles, curtindo as palavras sábias do meu pai, o carinho da minha irmã e até a implicância do meu irmão.

- Bem, vou ter que me arrumar para a corrida, vocês podem ir para o camarote oficial. Amo vocês. - Falo toda emotiva, era a primeira vez que eles iam me ver correr na Formula 1.

- Boa sorte, minha filha. Confie no seu potencial. - Falou meu pai todo confiante, enquanto me abraçava.

- Boa sorte, minha filha. Que Deus te proteja. - Minha mãe falou toda emotiva, me abraçando também.

- Boa sorte, irmãzinha. Não envergonhe a América. - Meu irmão dá um murrinho no meu ombro, falando do seu jeito idiota.

Me afasto deles, seguindo para o prédio da equipe, cumprimentando um ao outro que cruzava. Eu sempre tentava ser a simpatia em pessoa, era mais forte do que eu. Ser a garota rebelde, não é sinônimo de ser mal humorada e chata.

Entrei no Motorhome da equipe, uma forma delicada de chamar aquela enorme estrutura que sempre me impressionava, passei por todos, peguei um café na bancada de apoio para bebidas, e segui até a minha sala privativa, na escada encontro com a Stephania.

- MacAllister, reunião com a equipe de comunicação em 10 minutos. Não se atrase!

- Sim, Senhora! - Bato continência para ela que revira os olhos.

- Bom dia Takeshi! Pronto para hoje? - Cumprimento meu companheiro de equipe ao cruzar com ele no corredor, já vestindo seu uniforme. O japonês era sempre pontual.

- Bom dia! Indo para a minha preparação pré-corrida. Não se atrase para a reunião de comunicação. - Ele me adverte.

- Não vou me atrasar, pode ter certeza. - Abro um sorriso.

Entro na sala pequena, largo minha bolsa grande de academia sobre o banco, tiro o casaco de couro, depois sento no mesmo banco que havia largado a bolsa e começo a tirar as botas, depois fico em pé para tirar a calça jeans e a camiseta branca, estou só de calcinha e sutiã. Quando percebo um movimento rápido atrás de mim que me assusta.

- Jesus! - Instintivamente levo as mãos cobrindo o que podia do corpo.

- Você não tranca a porta quando está se trancando? - William me pergunta olhando surpreso.

- Por que estava com pressa. - Respondo como se fosse a coisa mais obvia.

- Eu também. Estou praticamente foragido. - Ele se aproxima, levando a mão até a minha nuca me puxando para um beijo rápido. - Assim como combinamos, eu já achei a oportunidade perfeita de conversarmos com calma. Depois da corrida, te encontro no estacionamento.

Então depois beija meus lábios de forma intensa, quente, as mãos dele percorrendo meu corpo, mas era urgente, com pressa, então ele me larga, abre a porta, olha para um lado e outro, depois sai, fechando a porta atrás de si.

"Que merda foi essa?"

Foi tudo que consegui pensar enquanto minha mente confusa tentava coordenar tudo que aconteceu rapidamente. Naquele momento veio a voz do Hernandez na minha cabeça: "Mulher, o que você fez para o nosso Inglesinho, sua Demônia?". Sentei no banco, ainda abismada. O mundo só poderia estar virando do avesso.

***

Simone de Beauvoir diz que o acaso tem sempre a última palavra e Robert Burns dizia que o problema de fazer planos é que o destino vem e destrói até o melhor deles. Diante de tudo que vivi, acredito que de fato ambos tenham razão, não podemos acreditar no futuro se ele é construído no presente, e este pode destruir planos e acabar com esperanças. Então devemos abraçar o agora, vencer a batalha diária com ele, sobreviver a cada desafio, para então viver o futuro quando ele enfim chegar.

O mesmo valia para as pistas. Você pode ter o melhor carro, a melhor estratégia, a melhor posição, ter a pista na sua mente, ter tudo perfeito para garantir um possível pódio. Até que vem um filha da puta retardatário lá da casa do caralho e joga seu carro para fora por pura incompetência. Juro que queria matar aquele Russo idiota!

Eu quando senti o solavanco forte e meu carro indo direto para enorme caixa de brita azul, amaldiçoei na hora o arrombado que tinha feito aquela proeza:

- Filho de uma puta arrombado! - Soltei sem dó e piedade.

- Cuidado com a boca MacAllister! - Frank vem no meu ouvido puxando a orelha.

- Cuidado com a boca é o mínimo que posso ter agora, quando a minha vontade é arrancar as bolas do imbecil que fez isso comigo. Quero saber quem foi o idiota que teve a capacidade de me bater por trás. - Esbravejei furiosa. Frank ficou em silêncio. - Não vem com esse silêncio para esperar eu me acalmar e dizer quem é o autor da palhaçada.

Estava com sangue nos olhos, o filho de uma puta me tirou perto do final da corrida, do terceiro lugar. Retardatário idiota. Ele quer que eu abra caminho, eu vou abrir e nem digo como pra ele. Saio do carro, deixando o volante lá dentro, atravesso a pista correndo, pulo a mureta, assim que estava no espaço fora da pista, caminhando para o box, tiro o capacete, jogo dentro dele a balaclava. Eu não sei se o calor que sinto é do uniforme ou da raiva, mas certamente da raiva, por que nem a brisa conseguia dar aquela sensação de resfriamento quando bate do suor.

Ao longe escuto pelos sistemas de som do Autódromo a suite número 1 da ópera Carmen, chamada de Les Toreadors, ou Marcha dos Toreadores, ela sempre toca enquanto os pilotos fazem a volta de comemoração.

"Merda! Filho de uma puta!"

Era tudo que vinha na minha cabeça, passo pelo Pit Lane e estão todos se aglomerando para receber o campeão, ao olhar para o telão atrás do pódio vejo seu o vencedor foi o Fraser. Sinto um leve sorriso surgir no rosto, mas logo o ódio e a sede de vingança voltam para mim, ao saber que ia ganhar a merda do meu terceiro lugar em casa.

Ao entrar no box, todos me olhavam apreensivos, Frank se aproxima me encarando.

- Se acalma MacAllister! - O tom do meu chefe não cabia discussão.

- Como me pede calma? Era para estar no pódio agora! Junto com eles! Em casa! Que merda!

- Sei que é uma merda isso, sei que é ruim pra caralho por que você estava quase lá, mas vai ter Austin.

- Poxa Frank! Estava nas minhas mãos! - A minha voz denuncia que a barreira havia se quebrado.

Sinto os olhos cheios d'água, baixo a cabeça sentindo as lágrimas. O homem mais velho me abraça como um verdadeiro pai e fala de forma consoladora.

- Esse jogo é uma merda! Não só as suas cartas que contam, as dos outros também, menina! Infelizmente! Agora vai lavar o rosto, mostrar a mulher foda que você é na frente daquele bando de jornalistas.

Ele me afasta o suficiente para me olhar nos olhos, fazer um aceno e eu acenar de volta. Caminho até a porta onde Stephania me esperava do lado, quando vou passar por ela, a moça me dá um sorriso acolhedor e compreensivo.

- Vamos menina! Vamos mostrar que você é maior que tudo isso! Que não é um idiota que vai te parar.

Abro um pequeno sorriso agradecido para ela.

***

Dei bastante tempo para que a maioria das pessoas fossem embora, meus pais ficaram um bom tempo me consolando, me dando apoio moral. Mas tiveram que ir mais cedo, pois tinham um voo de volta para casa, minha família tinha uma vida normal, com obrigações na segunda-feira. Eu dei uma desculpa que não os acompanharia por que tinha outros compromissos.

Já para Simon disse que precisava de uns dias sozinha em Londres, quieta em meu canto no apartamento que a equipe tinha reservado para mim. Ele por sua vez disse que ia conversar com alguns anunciantes, procurar alguns contratos de publicidade para mim com marcas Americanas e depois chegaria na Europa, ao final da sua maratona nos encontraríamos no GP de Emilia-Romagna.

Toda essa manobra ajudaria um pouco na minha fuga. Assumo que sentia como se tivessem borboletas no meu estomago. Lembrava de quando era adolescente. Para meus pais eu estava na escola e para a escola eu estava em casa doente. Lá se repetia a mesma estratégia, só que com participantes diferente. Era só cruzar os dedos para ninguém da minha família, Simon ou da Force One me procure no meu apartamento da empresa.

Coloquei meu boné e meu óculos, ainda precisava passar no hotel para pegar a minha mala, fingindo cara de paisagem. Mas acredito que tudo daria certo.

***

Ao chegar no estacionamento, passei o olho por todos os carros, até que um piscou o farol no horizonte. Caminhei até ele, olhando em volta. Era um Audi escuro, do tipo sedan, daqueles tipicamente usados por seguranças de escolta. Ao entrar no carro, o encontrei com boné e óculos escuros, um sorriso de canto de lábios.

- Pronta para fugir de toda essa loucura? - Ele pergunta com um sorrisinho.

- Ainda temos que passar no hotel para pegar as minhas malas. Você não me avisou com antece... - Explicava.

Ele segura a minha mão e ergue a mão, sinalizando que vai falar algo.

- O garoto me ajudou. - Seu sorriso se amplia de forma travessa.

- Ah não! - Minha voz era de puro choque. - Aquele moleque não pegou nas minhas calcinhas pra guardar na mala.

Ele deu uma gargalha de cair a cabeça para trás, algo que nunca imaginei ver William fazer.

- Prefiro não ter essa imagem na minha mente. Mas imaginando a bagunça que deveria estar seu quarto, o garoto subiu ainda mais no meu conceito. - Ele fala com certa admiração.

- Certamente deve ter comprado ele com algo muito bom, por que ele é um vendido. - Respiro fundo, olhando para além da janela, enquanto o homem dava a partida e saia lentamente do estacionamento tomando cuidado para não chamar atenção.

***

NOTA DA AUTORA:

Entenderam agora por que dividi em 2 capítulos?

E mesmo assim ficaram imensos, agora vejo que poderia dividir em 3. Mas vamos deixar essa semana, para pensar em como será essa fuga e final de semana que vem tem mais.

Essa história e outra que estou escrevendo "It's My World" tem me ajudado a atravessar um período meio caótico da minha vida. Por isso são histórias escritas com muito carinho, com cada detalhe escolhido e pesquisado com todo cuidado.

Já sabem que só vou revisar lá no final, por que se revisar agora, eu corto metade da história.

Cada capítulo é inspirado em uma música, por que acho que daria um ótimo ritmo a narrativa, não perca a playlist que tem lá no Spotify: https://goo.gl/o8UCa1

Beijinhos!

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