Capítulo um

Dez anos atrás.

Fuja.

É o que tenho repetido desde que vi os corpos dos meus pais estirados pela rua.

Estou sozinha. Não sei onde os meus familiares estão, e muito menos os meus amigos da escola.

Desde que as máquinas se viraram contra os humanos, tenho tentado sobreviver. Era mais fácil quando o papai e a mamãe estavam comigo. Eu sabia que não estava sozinha, me sentia completamente segura com os dois.

Aperto os meus punhos com toda a minha força para conter a minha raiva, isso é culpa deles. É culpa dos adultos idiotas. Sou obrigada a pagar pelos erros dos mais velhos.

Antes do lançamento da 0001MKP¹ éramos felizes. Bem, quase felizes.

Os meus pais não tinham tempo para ficarem comigo, eles trabalhavam o dia todo, mas não é como se pudéssemos ficar o dia inteiro juntos já que eu passava a maior parte do tempo estudando. Precisava ser boa o suficiente para deixá-los satisfeitos. Eu queria que meus pais sentissem orgulho de mim.

Bem, se tudo fosse flores, eu já teria um lindo jardim. Não precisaria lutar para sobreviver.

Olhei para os lados e vi um tipo de comércio, aparentemente um mercado. Era aqui que meu vizinho trabalhava e, se não me engano, sempre o via com o uniforme desse estabelecimento. Esperava que ainda tivesse comida, já que estava com fome.

Já que estava com fome: afinal, passei os últimos dias chorando e preciso me alimentar o quanto antes.

Quando a minha mãe brigava comigo e me colocava de castigo, torcia para ser mais velha e ficar livre. Mas, o que é a liberdade?

Sempre achei que ser livre era poder faltar aula e dormir até mais tarde, atualmente o meu ponto de vista mudou. Acredito que tenha sido pela conquista dessa liderança regida por robôs.

Caminhei cuidadosamente até o estabelecimento e entrei já que estava aberto, a escuridão predominava o ambiente, morria de medo do escuro.

Meu coração estava ficando ainda mais acelerado Segurei firme a barra da minha blusa e tentei controlar a minha respiração para não fazer barulho enquanto andava pelos corredores.

Não posso ser pega, não posso ser pega, não posso ser pega em hipótese alguma!

Queria muito a minha luminária agora. Lembro-me que sempre dormia com a luz mais fraca acesa. Meus olhos se embaçaram e não me contive. Quando pisquei, senti lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas.

Eu só queria a minha vida de antes!

Voltei à realidade quando escutei um barulho estranho. Se antes o meu coração estava batendo acelerado, agora estava saindo pela boca. Minhas mãos não paravam de tremer. Senti um arrepio percorrer minha coluna e se findar na minha nuca.

Precisava sair daqui urgentemente. Obriguei o meu corpo a se movimentar, mas ele não me obedecia. Isso estava me deixando completamente apavorada. Preciso sair daqui!

Senti alguém puxando o meu braço e, pelo susto, acabei gritando. Consequentemente, foi uma péssima ideia.

O ambiente começou a ficar mais barulhento, se tornando caótico. A pessoa que me puxava estava correndo para fora da loja e só depois que saímos para rua, consegui ver que era um homem. Entretanto, minha atenção se voltou para aquilo do qual estávamos correndo.

Diferente dos robôs que estavam capturando as pessoas, esse era diferente. O porte físico era maior do que eu esperava, se assemelhando com o de um urso.

- Anda, garota! - o homem que estava me puxando gritou - Se continuar correndo desse jeito vai morrer.

- Você tá me puxando! - Ele parou de correr quando a coisa pulou na nossa frente.

O ser de aparência semelhante a de um humano, robusto, alto, e extremamente ágil pegou o estranho que estava comigo pelo pescoço, fechei os meus olhos para não ver o que aconteceria em poucos segundos.

Estava tão desesperada que algo fosse acontecer que me perdi em meio aos meus pensamentos. Mas nada aconteceu.

- Você é bem medrosa. - Abri os olhos e pude ver o platinado com clareza.

Ele estava com roupas bem batidas e rasgadas, consegui ver os arranhões e algumas cicatrizes na parte visível do seu rosto, já que metade estava coberta por uma máscara. Um odor terrível preenchia minhas narinas, parecia óleo queimado.

Ele matou essa coisa? Como destrói o indestrutível?

- C-como você fez isso?

- Basta você acertar o coração de um andróide - explicou.

- Andróide? - Fiquei confusa - Pensei que eram todos robôs.

- Apesar de serem parecidos, as diferenças são sutis. - Ele se virou e começou a andar novamente.

Eu não queria ter que ficar sozinha, andei rápido para tentar acompanhá-lo.

- Não te ensinaram a não se aproximar de estranhos? - retrucou sem paciência quando percebeu a minha ilustre presença o acompanhando.

- As pessoas que me ensinaram já estão mortas, então não faz tanta diferença em pleno apocalipse da era tecnológica. - Dei de ombros.

- Deveria seguir o conselho dos que já se foram.

- Qual é o seu nome? - perguntei para mudar de assunto, porém, como ele não me respondeu, decidi começar as apresentações, talvez ele tenha coragem e se apresente depois - Eu me chamo Sakura, Sakura Haruno. Tenho nove anos, e as minhas cores preferidas são rosa e verde, elas me lembram flo...

- Você não vai calar a boca? - Cortou a minha fala com o seu tom de voz alterado.

Meus olhos se encheram de lágrimas e comecei a chorar pela segunda vez do dia; para completar o combo, a minha barriga roncou.

- Merda - murmurou, pegando a minha mão e me levando para outro lugar. - Não precisa chorar.

Ele pegou algo de dentro da sua mochila e me entregou um pacote de bolacha.

- Come, foi o único que eu consegui pegar.

Eu iria recusar, mas estava faminta. Peguei o pacote de bolacha e comecei a comer, isso fez com que eu parasse de chorar.

O único som audível foi da minha mastigação. A cidade estava estranhamente quieta, algo que não via há muito tempo.

Ainda conseguia lembrar com clareza de como as ruas eram movimentadas. O trânsito fazia uma fila imensa, e papai sempre falava muitos palavrões.

- Me chamo Kakashi - Quebrou o silêncio.

- Prazer, Kakashi - Ofereci um sorriso gentil.

- Coma logo, não podemos ficar aqui por muito tempo. - Desviou o olhar.

- Uhum - concordei.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top