Capítulo 05 - Polaroides de lembranças.
Tenham uma boa leitura. 💜
#ConchasRosas
Minha situação é péssima.
Não preciso de muito tempo para chegar a esse pensamento, alguns momentos antes, quando Hoseok assumiu o papel de galinha mãe e sacudiu meu corpo até que minha cabeça doesse 一 um pouco mais do que já estava doendo 一, já tinha tomando consciência do meu estado deplorável, mas tudo pareceu piorar ao entrar no banheiro e dar de cara com um rosto vermelho como um camarão no espelho. O meu rosto vermelho como um camarão.
一 Taehyung? Certeza que está tudo bem? 一 Hoseok pergunta do outro lado da porta, a voz um pouco abafada pela madeira.
Só estou preso em outro tempo e com o rosto e corpo queimado, Hoseok. Mas tudo está bem sim. É o que eu penso em responder, deixando a língu a dentro da boca para não soltar algo que possa fazer o Jung se preocupar.
Depois que recebi a mensagem de Yoongi, o choque atingiu meu corpo como uma bola de demolição. Por minutos, fiquei paralisado, olhando para o telefone e piscando como se aquilo fosse afastar a ilusão que tinha sido inserido.
Fiquei tanto tempo nesse estado que Hoseok, de maneira afobada, agarrou meus ombros e sacudiu meu corpo até que eu finalmente olhasse para ele, e no fim, vomitasse no tapete dos avós de Jimin.
Isso o preocupou três vezes mais.
一 Tenho, Hobie. 一 O apelido embola na língua, como uma bala de açúcar que se desfaz lentamente. Fazia um longo tempo desde a última vez que tinha o pronunciado. 一 Só preciso de um banho.
E de três analgésicos. Principalmente de três analgésicos.
Hoseok faz um barulho com a garganta, como se concordasse com o que tinha dito, e sai do cômodo, deixando apenas o barulho da porta fechando como prova da sua presença. Não perco muito tempo encarando meu rosto queimado depois disso, preocupado demais em ligar o chuveiro e buscar alguma clareza nos acontecimentos recentes embaixo d'água.
A sensação de ardor parece prestes a descolar a pele dos músculos quando os primeiros jatos frios entram em contato com a derme, fazendo com que chiados doloridos saiam dos meus lábios ressecados até que tudo esfrie consideravelmente para que pudesse ser tocado. Com a barra de sabão em mãos, faço espuma suficiente para cobrir todas as áreas queimadas sem grande esforço e esfrego as partes mais intactas, tirando toda a areia e o sal que ainda poderiam existir na derme. Ali, embaixo da água, posso lembrar de pequenos detalhes da noite anterior, como o escorregão nas pedras da praia e o quase afogamento, seguido da dor repentina na nuca.
Ninguém tinha visto meu corpo sumindo na água, então, quem teria o tirando de lá?
Enquanto lavo as camadas de espuma, o primeiro sinal de uma quase clareza acontece: e se eu estiver morto? E tudo não passa de um modo de "não sei quem" confortar minha pobre alma no limbo entre a vida e morte? Seria um ótimo modo de conforto para alguém nos seus últimos momentos de vida. Certo?
Mas essa hipótese parece tão inconcebível que a descarto no momento seguinte, rindo de mim mesmo por pensar em algo assim. Com a toalha felpuda em mãos, seco cuidadosamente a pele sensível depois de eliminar todo o sabão e fechar o registro, maquinando qualquer ideia sobre como raios tinha ido parar nessa situação.
一 Toma, bebe isso. 一 Hoseok reaparece na porta, esticando uma garrafa pequena em minha direção.
Seguro a toalha em frente ao corpo, assustado com a aparição repentina do meu amigo no cômodo. Quando ele tinha chegado?
一 É apenas água, beba 一 ele insiste e empurra a garrafa na minha direção. 一 Sua pele está péssima, Taehyung.
Faço uma careta, como se eu não soubesse exatamente a situação atual do meu rosto.
一 Você acha? Poxa, pensei que poderia lançar tendência com esse tipo de bronzeado 一 ironizo, ajeitando a toalha no lugar que deveria estar e passando por ele até chegar ao quarto.
Hoseok dá uma risadinha sem vergonha, mas não faz nenhum outro comentário acerca da minha pele, apenas anda até a cama e joga o corpo nela. Dou uma olhada a mais no cômodo, mal parecia que o precioso tapete dos Park havia sido uma vítima do meu jantar, ou que todo o caos de minutos atrás tinha acontecido.
一 Não se preocupe, tirei o tapete e o escondi nos fundos, mais tarde a gente lava com ajuda do Seokjin. 一 Hoseok balança as pernas, erguendo uma das mãos com um sinal de joinha.
Vou até uma das bolsas jogadas no quarto, abrindo exatamente a que tinha roupas e jogando as peças para fora.
一 E quando você pediu ajuda do Jin?
一 Não pedi, mas sei que ele vai ajudar 一 o comentário sai cheio de convicção. 一 Até porque o Ji não ficaria puto com a gente pelo tapete sujo, mas a avó do Jimin sim, e ele ficaria chateado até tudo isso sobrar para o namoradinho Seokjin.
Solto uma risada enquanto visto a roupa, aproveitando que Hoseok parecia muito encantado com o teto branco invés da minha cara de camarão. Claro que Seokjin iria ajudar, ninguém 一 inclusive ele 一 sabia lidar com um Jimin chateado, batendo os pés pela casa e com a personalidade azeda.
Ele era terrível com esse humor.
Apesar da ardência da pele contra o tecido, não hesito em passar a camisa de algodão pela cabeça e braços, endireitando o tecido no corpo sob reclamações mansas. Hoseok continua deitado, encarando o teto como se o calor tivesse sugado sua inesgotável energia, e eu o observo cuidadosamente.
Nos meus melhores sonhos, todos os acontecimentos que ocorreram no verão de cinco anos atrás não tinham acontecido. Hoseok ainda mantinha contato conosco, ia à nossas reuniões e fazia piadas inteligentes na mesma medida que Seokjin ainda era o pai do grupo e que Yoongi estava vivo, nos arrastando para as praias de Jeju e Busan em qualquer oportunidade. Mas eram sonhos, os mais dourados e brilhantes, mas sonhos que a cada ano pareciam mais raros e distantes.
一 Li em algum lugar que pessoas com insolação precisam beber muita água, por que você não está bebendo? 一 questiona acusatório, permanecendo na mesma posição.
Endireito a coluna, procurando a garrafa com os olhos para vê-la no outro lado do cômodo. Vou até lá, sabendo que Hoseok não iria sossegar até que todos os quase trezentos ml tivessem sumido da embalagem colorida.
一 Estou indo, estou indo. 一 Rendido, agarro a garrafa e tiro a tampa, dando pequenos goles. 一 Quanto tempo fiquei apagado?
一 Pouco mais de trinta minutos 一 responde Hobi, sentando na cama e balançando os pés descalços. 一 Trouxemos você assim que apagou na praia, pensamos em te colocar na água fria para te acordar mas ficamos com receio de piorar a situação, então só refrescamos o cômodo.
Concordo com a cabeça, ainda dando pequenos goles na água. Quero perguntar onde estão os outros, quero saber como aquele cenário antigo e tão longínquo tinha retornado para mim, para nós. Mas não digo nada, convencido de que a alucinação pós-morte poderia ser rompida a qualquer momento.
一 Obrigado 一 murmurei baixinho, fechando a garrafa que ainda estava pela metade.
Hoseok acena com a cabeça e abre a boca, contudo o barulho no andar de baixo impede qualquer um de nós de falar algo. As risadas e vozes preenchem toda a casa, fazendo meu coração afundar com saudades no peito.
一 Vamos, eles chegaram.
Hoseok sai da cama, passa por mim e desce até o andar de baixo. Espero por longos segundos no quarto, ouvindo a voz do meu amigo se juntar aos demais, até que a coragem move minhas pernas em direção a eles.
Não posso deixar de continuar observando meus amigos, assim como tinha feito com Hoseok há poucos minutos, na soleira da cozinha.Todos estão amontoados na mesa de jantar dos avós de Jimin, que contém apenas seis lugares e mais implicância que qualquer cozinheira aguentaria; nenhum deles pareceu notar minha chegada, até que Seokjin, anteriormente muito concentrado em tirar a embalagem protetora da comida, ergue os olhos castanhos escuros até minha figura avermelhada na porta.
一 Finalmente, Taehyung! 一 ele exclama, andando até mim e colocando a mão na minha testa. 一 Ficamos preocupados, quase consideramos te levar diretamente para o hospital.
Seokjin parece satisfeito com minha temperatura, porque apenas retira a mão da testa e empurra gentilmente meu corpo para perto da mesa.
一 Isso é, você apagou do nada 一 Jimin diz quando paro do seu lado na mesa, no lugar cedido por Seokjin indiretamente.
一 Não tinha a intenção de assustar vocês, desculpem-me, deve ter sido a minha pressão.
Jogo a primeira desculpa que surge na minha mente. Mesmo que seja um sonho, preocupar meus amigos não é do meu gosto.
一 Foi insolação, Tete 一 Yoongi corrige, servindo o próprio prato com algo que não consigo ver.
Não há tremedeiras, desmaios ou comoções dessa vez. Yoongi está sentado na ilha da cozinha, com os cabelos verdes secos e bagunçados, como se tivessem secando ao vento desordenado da estrada, e as bochechas rubras pela exposição ao sol.
Meu coração tropeça ligeiramente.
一 E esse teimoso ainda fica no sol, mesmo que não vá para a água. Claro que o resultado vai ser uma insolação 一 ralha Momo ao lado da cadeira de Jimin. 一 Depois ainda não quer ter a pele queimada
Solto uma risadinha com o comentário de Momo, sentindo a nostalgia de todos os nossos momentos de antes juntos.
一 Compramos sua comida favorita 一 Sunha conta, sentada na cadeira da frente e ergue uma das embalagens da mesa. 一 Ideia do nosso queridíssimo Yoongi.
Pelo canto dos olhos posso ver Yoongi ficar levemente vermelho.
一 Acho que posso ficar mal-acostumado assim 一 murmuro, o que fazem todos rirem. 一 Onde está Namjoon?
Pergunto, genuinamente interessado no paradeiro do Kim. Em outra situação, ele teria sido o primeiro a ir ao meu encontro.
一 Foi chamar o Jungkook 一 Seokjin responde, pegando um dos pratos e colocando em minha frente. 一 Mas aparentemente eles estão com planos melhores do que comer com a gente.
A cozinha está mais quente que o normal, talvez seja pelas minhas queimaduras na pele ou apenas o fim de tarde chegando, mas ninguém além de mim parece muito incomodado com a temperatura. Seokjin, que tinha mudado de lugar para a cadeira à minha direita, coloca a garrafa de algo 一 a qual eu não consigo ler 一 na mesa e serve em seis copos, não nove, mas sim seis.
一 E eu? 一 questiono, olhando diretamente para o mais velho. Não ter um copo para Namjoon e Jungkook era compreensível, mas não ter um para mim já era irracional.
Seokjin dá risada e busca outra garrafa na geladeira, mas essa sendo menor e igual a que Hoseok tinha me entregado no quarto.
一 Você bebe água, Tae. 一 Ele coloca o objeto do meu lado. 一 Passou muito tempo no sol e depois passou um tempo apagado, você precisa de água por hoje.
Ergo as sobrancelhas, pronto para protestar contra a ideia absurda de Jin. Nem no meu conforto pós-morte poderia ficar bêbado?
一 É melhor a garrafa de um litro, Seok. 一 A voz surge perto da porta, arrancando olhares para si.
Jungkook está no portal da cozinha, segurando uma sacola verde em uma das mãos tatuadas e vestindo uma camiseta estampada 一 que posso jurar ter sido presente de Namjoon 一 com os ursinhos carinhosos; o cabelo descolorido e o corpo colado ao Namjoon logo ao seu lado.
一 Vocês não esperaram a gente 一 acusa o Kim, entrando mais no cômodo na companhia do namorado.
一 Demoraram demais, íamos morrer de fome.
Jimin dramatiza, colocando a mão no próprio estômago e fazendo uma careta que deveria ser de dor.
一 Toma vergonha, Jimin. Você comeu alguns petiscos na rua.
Jungkook é quem expõe o loiro, passando por Yoongi e deixando a sacola verde em cima da bancada. Há apenas uma cadeira vazia na mesa de jantar, disponível entre Momo e Sunha, esta que Namjoon ocupa sem pensar muito e começa se servir. Jungkook senta com Yoongi e Hoseok.
O resto da tarde é apenas a confusão familiar que sempre esteve presente nos nossos momentos. Todos, exatamente todos, fazem-me comer e beber bastante água, sem contar na preocupação excessiva sobre como eu me sentia.
Só consegui os convencer de que estava bem quando meu estômago parecia um aquário de tanta água ingerida.
一 Tem certeza de que você está bem?
Momo está sentada na ponta da mesa, com as mãos na cintura e uma roupa totalmente diferente da que vestia quando acordei.
一 Tenho, vocês podem ir. 一 Seco as mãos no pano de prato com desenhos de pato e olho pra ela.
Depois do almoço tardio, todos tinham planos para o começo daquela noite, como Seokjin e Jimin, os quais iriam para uma casa noturna próxima, ou Namjoon, que passaria a noite com Jungkook na casa vizinha. Os outros iriam para uma festa 一 que eles chamam carinhosamente de reunião 一 na praia, marcada por Kim Yugyeom, o garoto bonitinho do curso de medicina veterinária, mas eu apenas gostaria de passar os últimos segundos daquele sonho na mais completa paz.
一 Certo, mas qualquer coisa ligue para o Namjoom ou para mim, escutou? 一 Ela sai da mesa, ajeitando o vestido e então sorri. 一 Boa noite, Tae. Não se esqueça de beber água.
E assim ela sai da cozinha. Não demora muito até que escuto os outros saírem também, desejando uma boa noite pra mim e fazendo as mesmas recomendações que escutei a tarde inteira.
Guardo o resto da bebida que eles tomaram na geladeira e deixo a cozinha para trás, elaborando qualquer coisa que pudesse dar um sinal de coerência aos últimos momentos que vivi.
Apesar de toda a loucura, a teoria sobre o sonho no pós-morte era a melhor até agora - e a única que cruzou minha mente desde que acordei. Sempre dizem que sua vida passa por seus olhos antes da morte, mas talvez não do jeito que imaginamos, e sim apenas recriando um momento especial com seus entes queridos.
Estou quase no corredor dos quartos quando escuto passos atrás de mim e minhas pernas congelam no lugar. Seria a dona morte vindo terminar logo o expediente?
一 Por que você está andando tão rápido dentro de casa, Tete? 一 Min Yoongi pergunta atrás de mim, os lábios entreabertos para respirar melhor e um brilho na lateral da testa.
Ele estava correndo?
一 Não ando rápido, você que está cansado 一 brinco, olhando-o por cima do meu ombro direito. 一 Aconteceu algo? Vocês não iam sair?
一 E eles saíram, apenas eu voltei. 一 Ele muda o peso de uma perna para outra e ergue a sacola verde que antes estava nas mãos de Jungkook. 一 Lembrei que precisava te dar isso.
Yoongi ergue a sacola mais um pouco, chegando-a à altura do próprio rosto e a empurrando em minha direção. Giro o corpo até ficar de frente com o mentolado, realmente interessado e curioso no que a versão sonho do Min tinha preparado.
一 São babosas, dizem que são ótimas para queimaduras 一 explica assim que pego a sacola. 一 Pedi ao Jungkook, já que senhor Jeon tem uma coleção delas.
A sacola estava cheia das folhas da planta citada por Yoongi, tantas que não consigo contar por mais de meio minuto sem me perder na aparência gordinha e larga das folhas.
O sorriso tímido cresce nos meus lábios.
一 Obrigada, Hyung. 一 Yoongi acena com a cabeça, como se não fosse nada, então eu fecho a sacola. 一 Irei fazer bom proveito.
Yoongi volta a acenar. Parados ali, nenhum de nós realmente faz menção a sair para outro cômodo, apenas nos encaramos com sorrisos suaves enfeitando nossos rostos, como se aquele segundo fosse eterno.
一 Sabe como usar? 一 nego com a cabeça e ele continua. 一 Posso ajudar caso queira.
Claro, eu realmente teria que pesquisar para saber como se usa isso.
Ele ri de forma adorável, evidenciando os dentinhos pequenos e franzindo o nariz. Fico encantado olhando a cena, escutando a risada e deixando que isso perpetue no meu coração como nunca antes. Se essa era apenas uma realidade criada para as pessoas no limbo entre a vida e a morte, eu ao menos gostaria de levar aquele som comigo.
Yoongi agarra a minha mão depois do que parece uma eternidade, tirando meus pensamentos do lugar e bagunçando meus batimentos cardíacos como uma maquina com defeito. Descemos até a sala sem falar nada e ele some ao entrar na cozinha, voltando poucos minutos depois com uma faca e um prato.
一 Vai comer algo logo agora? Sabe, você poderia ter comido sem pressa antes de entregar a babosa.
Apoiando o prato em uma das pernas, ele senta na mesinha de centro à minha frente e nega com a cabeça com um ar de diversão pairando na feição. Ele não responde, mas pega a sacola do meu lado e abre, tirando de lá a folha larga da planta.
- Não, Tete. O prato e a faca é pra cortar a babosa.
Cortar?
Fico curioso o suficiente para ficar quieto, observando as mãos de Yoongi trabalhar na tarefa de cortar a folha gordinha com a faca de pão. Assim que a folha é dividida no meio, o interior pegajoso e transparente é exposto, o que me faz lembrar vagamente da mucose de um sapo.
- Agora, é só pegar um dos cubinhos e passar com cuidado nas queimaduras.
Encaro os cubinhos transparentes que ele arrumou cuidadosamente no prato. A capa verde e protetora da folha tinha sido tirada, agora, ela apenas parecia um doce exótico e bonitinho.
Estico uma das mãos até o primeiro cubinho, a superfície geladinha e escorregadia entra em contato com os dedos e assim que faço menção em aproximar a planta da queimadura mais acessível, o cubinho pula dos meus dedos para o chão.
Yoongi ri.
- Eles são escorregadios, parecem pequenas lesmas - constato o óbvio, pegando outro cubinho.
Mas assim como o primeiro, ele também escapa dos meus dedos antes de encostar na pele.
O terceiro, o quarto e o quinto acontecem a mesma coisa. Todos têm um destino em comum: o chão dos avós de Jimin.
Yoongi gargalha toda vez que escuta o som mínimo e grudento da planta batendo no chão, mas eu estou chateado e prestes a desistir de usar a planta quando ele para, respirando fundo e coloca o prato na mesa.
- Não fique chateado, Tete - A voz sai rouquinha, quase cansada de tantas risadas em poucos minutos. - Vamos, desfaz o bico. Vou passar em você.
Continuo com o bico nos lábios, mesmo que não tivesse o percebido lá, mas não dura muito até que ele pega o primeiro cubinho com destreza - a qual invejei secretamente - e leva até a parte exposta do meu braço queimado. A primeira sensação é de alívio imediato, quase posso agradecer aos céus por ter criado tal planta.
Yoongi faz tudo calmamente, deslizando o cubo pela derme queimada em uma concentração genuína e sem piscar, preenchendo as partes avermelhadas como se fossem um desenho sendo pintado. A cena dura por longos minutos, até que ele para e ergue os olhos gateados em minha direção.
- Tete? - ele chama, o corpo inclinado para frente mesmo com ele sentado na mesinha.
Respondo com um simples "hum?", distraído demais para responder algo melhor.
- Acabei nos braços, agora, tira a camisa - dita, afastando-se para pegar mais um cubinho da planta.
Engasgo de repente, a distração deixando meu corpo como se nunca tivesse ali.
- Tirar a camisa?
- É... - Yoongi concorda incerto. - Não tem queimaduras no peito? É apenas nos braços?
Ah, queimaduras.
- Tenho sim, claro.
Retiro a camisa com todo o cuidado que meu susto anterior permite, colocando-a no sofá de cor creme. Yoongi está com um cubinho novo entre os dedos e se inclina em minha direção, concentrado como há alguns minutos. Meu coração bate de forma insistente contra minha caixa torácica e acredito que se Yoongi pressionar o cubo com só mais um pouco de força, será capaz de sentir meu coração dançando merengue.
É apenas um sonho, Taehyung. Apenas um sonho.
O Yoongi está morto e você muito possivelmente também, não seja bobo.
É o que eu digo para mim mesmo, acalmando aos poucos meu coração ansioso por Min Yoongi, concentrado em sua tarefa e ajoelhado na minha frente.
- É melhor passar um creme hidratante no rosto também, Tete. Não aconselho passar a babosa porque pode irritar a pele do rosto - ele aconselha, totalmente alheio ao meu coração que agora parecia um tambor. - Jungkook deve ter algo com babosa na composição para o rosto, você quer?
Ele ergue o olhar para mim, ainda ajoelhado e muito perto para que meu cérebro possa formular uma resposta coerente. Pelo reflexo da televisão, consigo ver minhas bochechas queimando como se tivesse acabado de sair do sol.
- Uhum, vai ser ótimo.
Não sei o que vai ser ótimo, mas ele sorri e isso parece uma resposta boa o bastante para a pergunta anterior. Yoongi não demora muito mais que o necessário na tarefa - infelizmente ou felizmente -, e só consigo voltar a respirar com normalidade quando ele volta a sentar na mesinha.
- Talvez não dê para você dormir agora, um grande talvez - comenta distraído, olhando para as partes que ele passou a maldita planta.
Meu tronco está brilhante e escorregadio, melecado demais para que a ideia de encostar em outra superfície pareça boa.
- Não é como se eu fosse conseguir dormir. - Suspiro, encostando no sofá. Posso ver o ponto de interrogação no rosto do Min. - Com as queimaduras, elas doem. Não ia conseguir dormir mesmo.
- Vamos assistir um filme então, Tete - sugere ele, mas sem esperar realmente uma resposta.
O filme escolhido depois de dez minutos no clássico "você decide" é Little Forest, um longa metragem que conta a história Hyewoon, uma mulher que volta para a cidade natal a fim de curar suas feridas com a ajuda dos amigos. Não sei exatamente quem acabou escolhendo o título, mas sinto como se fossem uma indireta, um tanto pessoal, do universo para mim.
A única coisa que soa na sala é a voz dos atores, Min está concentrado no filme, sentado entre o espaço do sofá e da mesinha de centro, enquanto eu permaneço deitado no sofá da maneira que o tronco não encoste no estofado.
- Hyung, isso tá coçando - reclamo por alto, uma das minhas mãos esmagando a bochecha e fazendo a voz sair engraçada.
- Porque está secando, não se preocupe, mas se persistir muito é só tomar um banho para tirar.
Concordo vagamente, voltando minha atenção para o filme. Não demora mais que poucos minutos para que meus olhos - pesando como toneladas - comecem a se fechar de forma desordenada e lenta, como se o efeito de algum sonífero começasse a atingir o corpo.
E como uma piada de mau gosto após dizer que não conseguiria dormir, o sono sorrateiramente embala minha consciência como uma mãe nina sua criança, sendo gentil e insistente, ao som da voz de Kim Taeri ao fundo.
• • • 🐚 • • •
O céu está inteiramente preenchido por estrelas quando acordo, creio eu, no meio da noite e no quarto de hóspedes de antes. Sento na cama, a sonolência embaçando meus pensamentos de como tinha ido parar no quarto e se o sonho do pós-morte ainda era o mesmo de quando dormi no começo da noite.
- Isso é pior que qualquer ressaca - murmuro, os olhos tão inchados que não consigo ver muita coisa no quarto.
Como uma cena ensaiada, faço os mesmos movimentos de quando acordei pela primeira vez no quarto de hóspedes, procurando o telefone anteriormente jogado no colchão, mas diferente da última vez, o aparelho está colocado de forma cuidadosa na cômoda de madeira junto com uma blusa - a minha blusa de algodão.
Ah, ainda era o mesmo sonho...
Penso, arrastando meu corpo para fora da cama até a cômoda com o telefone. A sola dos meus pés batem contra o chão fresco, evidenciando a falta do antigo tapete ali, e esbarram na bolsa esquecida rente a cama, essa que tomba e esparrama o conteúdo de dentro pelo chão lustroso. Suspiro, completamente frustrado.
Desatento até em sonhos? Isso já era demais para mim.
Vou até o interruptor perto da porta, acendendo a luz do quarto para que não esbarrasse em mais nada. O cômodo continua do mesmo jeito que mais cedo, salvo pelas coisas jogadas no chão e os lençóis bagunçados na cama. Quando finalmente consigo chegar ao meu telefone, a tela acende e os algarismos piscam na tela.
Ainda eram 21:30h da noite.
Aparentemente, tinha "dormido" por menos de duas horas consecutivas.
Bloqueio o telefone, jogando-o no colchão e ajoelho no chão para catar o conteúdo desconhecido da bolsa. Há cadernos pequenos, lápis e outros artigos de papelaria espalhados, também acho uma bolsinha menor com remédios para dormir e o chaveiro de tartaruga pendurado na chave do meu carro, os dois últimos itens estavam comigo na viagem à Busan, para a reunião de aniversário da Sunha.
Engatinho um pouco mais para frente, a fim de alcançar a bolsa carteiro, mesmo que o sentimento de estranheza esteja se apoderando do meu peito. Se esses objetos estão aqui, comigo, isso só poderia mostrar que a teoria do o sonho pós-morte era mais que válida para explicar todos os detalhes estranhos, não é?
Quando abro a bolsa para colocar as coisas lá dentro, congelo imediatamente.
A caixa com as polaroides estava ali, um pouco mais ao fundo da bolsa, úmida e com a tampa de cabeça para baixo, mas tão firme quanto a que encontrei no quarto em Daegu há poucas horas.
Como a bendita caixa tinha parado no sonho de pós-morte e ainda úmida?
- Alguém lá em cima está de brincadeira comigo - resmungo sozinho, sentado nos meus pés para então trazer a caixa para fora da bolsa.
Assim como da primeira vez, ainda em Daegu, a primeira foto que encontro é de Yoongi e o cabelo menta, seguida das fotos de Momo e Jimin no pier, Sunha, Namjoom e todo resto. Mas quando encontro a foto de Jungkook e Yoongi em um estúdio de tatuagem, posso ver o quarto girar lentamente.
Jungkook, que tinha o braço direito sendo preenchendo pela tinta preta, sorria em direção à câmera, os dentes de coelho a mostra em um sorriso de quem aprontou; Yoongi estava sentado ao seu lado e com os cabelos descoloridos, ele exibia de maneira tímida um pequeno ponto de pele protegida por plástico filme. A frase "why so serious" ganhando destaque na pele pálida através da fotografia.
A data, escrita com uma caneta preta, parecia ter sido feita em tinta neon naquele momento.
25 de junho de 2018, Daegu.
De repente, a mesma vontade de vomitar de mais cedo parece, chacoalhando meu corpo pior do que na primeira vez. Engatinho desajeitado, até o telefone com a foto em mãos, desbloqueando a tela com pressa e meus dedos quase ultrapassando o vidro.
12 de junho de 2018.
Arquejo como se uma cinta comprimisse meus pulmões violentamente. Eram exatos treze dias no futuro, mas como poderia existir registro de algo que ainda não aconteceu? Eu realmente não entendi.
Com os dedos trêmulos, espalho o resto das fotos pelo chão e verifico as datas. Abril, maio, junho, julho e de todos os meses até a data de hoje estavam corretos, não existia rasuras, não existia nada colado por cima ou marcado para mostrar que foram modificadas, apenas pequenos lembretes na parte traseira, datas e alguns adesivos sortidos de Pokémons.
Uma foto com uma estrela colada chama minha atenção naquele emaranhado. Yoongi segura uma medalha escura, de aparência antiga, enquanto todos nós tínhamos o corpo pressionando uns aos outros para caber no enquadramento, tudo como um grande abraço que Hoseok acabou no chão. A data estava ali, escrita em tinta preta, mas que agora ganhava vida e dançava em minha mente.
Aquela foto tinha sido tirada dois dias antes do acidente.
E então, como uma pedra atingindo minha cabeça, minha mente clareou.
Tudo tinha sido real!
Min Yoongi morreu e quase cinco anos tinham se passado desde então, e eu, de uma forma estranha, tinha voltado cinco anos no passado, para quando ele ainda estava vivo.
O passado em que a morte de Yoongi ainda não tinha afetado todos ao seu redor como o efeito colateral de uma explosão.
Meu tronco nu vacila para a frente, fraco e ansioso. Apoio a mão no chão coberto pelas fotos. Inspiro com força.
Para tranquilizar minha mente, começo a listar de forma silenciosa o que tinha entendido até aquele momento.
1. Eu realmente tinha me afogado na praia de Busan;
2. Acordei ainda em Busan, no quarto de hóspedes da casa dos parentes de Jimin, mas estranhamente o ano era 2018;
3. Estive com Min Yoongi o dia inteiro, inclusive desmaiei na praia ao vê-lo;
4. Seokjin e Jungkook ainda eram uns grudes com seus pares;
5. Min cuidou das minhas queimaduras;
6. Encontrei fotos antigas que não aconteceram ainda, assim, descobri que estou há cinco anos no passado;
7. Não era um sonho;
8. Yoongi está vivo e talvez no andar de baixo, cochilando.
Então, não consigo suportar mais que dois minutos para levantar, tropeçando nos móveis, e ir até o banheiro, depositando todo o meu almoço na privada.
Pelo menos não tinha sido em outro tapete.
🐚
Opa, tudo em cima? Como foi o carnaval de vocês? A volta às aulas? Espero que tenham se divertindo nesse feriado.
Face e on the street estão vindo para fazer história, ansiosos? Eu particularmente estou contando os dias até o lançamento dos solos dos meus bebês (e ignorando ativamente qualquer assunto sobre o alistamento) enquanto babo no Taehyung em Jinny's kitchen, ele está um amor nesse programa.
Enfim, o que acharam do capítulo de hoje? Teorias do que aconteceu? Ou de como aconteceu? A ficha do Taehyung ainda não caiu, talvez precise ser arrancada hehehe
Por hoje é só, galera. Bebam água porque o calor não está de brincadeira e não esqueçam do votinho maroto no capítulo. Até o próximo mês!
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