Capítulo 8 - A caminho de Recife (Animus)
Eu estava conferindo meus poucos pertences que iria levar em minha longa viajem para a terra de Recife, que até então era desconhecida por mim. Levava comigo algumas frutas, um pouco de água em um cantil de couro, meu machado, um arco, 20 flechas e uma pistola (que havia pego de um homem branco alguns meses atrás). Ah, e claro, a pulseira desse tal de "templário" que guardava em meu bolso desde o dia em que a peguei há 5 anos atrás, quando meu pai, Raoni, fora morto. Desde então tenho treinado arduamente para que um dia eu possa sair da tribo para fazer justiça contra esses "templários".
Aprendi a usar a pistola e também aprendi o idioma dos homens brancos com um membro da tribo que já fora escravo deles por alguns anos. Quando ele me contou sobre seus dias como escravo, tracei mais um objetivo: libertar todos os escravos que eu conseguir. Ninguém merece trabalhar nessas condições apenas porque a cor da pele é diferente.
Aprendi várias coisas a respeito dos homens brancos: pra começar, eles eram chamados de portugueses, mas de um tempo para cá, vieram outros: os holandeses, que estão tentando conquistar o Brasil, mas por enquanto apenas conseguiram a posse de Recife. Um homem chamado Maurício de Nassau está governando e construindo "a cidade dos seus sonhos" (abrindo canais, construindo diques, bibliotecas, etc.). Isso até seria bom, mas não para nós índios, pois quanto mais construções eles fizerem, mais escravos para a mão de obra. Apenas nesse mês, os holandeses já vieram umas 3 vezes para pegar mais gente para ser escravo, pelas minhas contas, eles já pegaram um terço da tribo! Se continuar assim, em três meses... O que será de nós? E é por isso que estou indo para lá: para libertar os escravos, e conseguir pistas dos templários.
Já havia pedido permissão para o cacique da tribo (Tabajara) para sair, o que não foi difícil, já que seu filho foi levado também. Me despedi de Ubirajara e de minha mãe, e comecei minha longa jornada, que provavelmente durará pelo menos 1 semana, isso sem contar com os possíveis caçadores de escravos que eu encontrar no caminho.
Ando o dia todo parando apenas para beber água. Quando anoitece, caço um coelho, e faço uma pequena fogueira para cozinhá-lo. No meio de minha refeição, escuto passos por perto. Me levanto, e vou na direção do som. Não me surpreendo muito quando vejo um grupo de 5 caçadores com mosquetes no ombro. "A procura de escravos, com certeza" penso.
Me escondo atrás de uma árvore grande e saco, silenciosamente, uma flecha de minha aljava. Espero o momento certo para sair de trás dela e atirar na garganta do homem da ponta, que dá um grito rouco, e cai morto no chão. Saco meu machado e corro para cima do segundo, desferindo um golpe em sua nuca, o que provavelmente teria o deixado vivo, mas causado um sério traumatismo craniano, se eu não tivesse dado outro golpe no mesmo lugar, matando-o.
Os outros homens finalmente se recuperam da surpresa e reagem, sacando seus mosquetes e mirando em mim. Rolo para a direita no momento em que atiram bem no lugar onde estava minha cabeça segundos antes. Me levanto agilmente, largando meu machado no chão, e saco minha pistola. Miro no peito do homem da esquerda e puxo o gatilho. O tiro o derruba no chão, mas não o mata.
O outro homem saca sua espada e corre, furioso, para cima de mim. Ele tenta cortar minha garganta, mas eu me abaixo facilmente, fazendo com que ele desfira o golpe inutilmente. Ainda abaixado, golpeio seu joelho, fazendo-o cair cambaleante. Me levanto, e antes que ele possa até mesmo gritar, dou um tiro em sua testa, acabando com qualquer coisa que ele teria tentado.
Ando até meu machado, e me abaixo para pegá-lo, mas antes mesmo de tocá-lo, sou interrompido por uma voz atrás de mim que diz:
- O que diabos você planeja? - Me viro assustado. meus olhos procuram freneticamente quem dissera aquilo. Não encontro nada além dos 4 homens mortos e do sobrevivente, que estava encostado em uma árvore, com a mão no peito, na falha tentativa de estancar o sangue, que jorrava como uma cachoeira. Foi ele quem dissera aquilo?
- Não é da sua conta. - Respondo. Encarando o sobrevivente.
- Como não? Você matou o meu grupo sem nem hesitar. Claramente você tem motivos. Digo, bons motivos. Não é qualquer um que consegue derrotar um grupo de 5 soldados bem treinados sozinho... Principalmente alguém de raça inferior. - Ele respirava com dificuldade. Com certeza estava à beira da morte. Não faria sentido contar para ele meus planos, mesmo porque ele já estaria morto antes mesmo de eu terminar de contá-los. Mas acho que ele tem o direito de morrer com sua última pergunta respondida. Mesmo que ele tenha me chamado de inferior.
- Vou para Recife - Resumo.
- Hahahaha. E depois o que? Ser capturado e trabalhar como escravo? Ótimo plano. Seria mais fácil deixar que nós o capturemos. Fala sério, você tem pele de escravo, roupa de escravo, e jeito de escravo. Se você espera chegar lá, fazer o que quer que você queira, e sair vivo.. Volte para a sua tribo e viva a sua vidinha miserável que ainda lhe resta. - Ele foi interrompido por um aceso de tosse. - De qualquer maneira você vai morrer, ou virar escravo assim que chegar l... - Ele teve mais um acesso de tosse. Cuspiu um pouco de sangue, e articulou algumas palavras, porém, nenhum som saiu de sua boca. Segundos depois, sua cabeça tombou para o lado. Alguns segundos se passaram, mas ele não mexeu mais nenhum músculo. Então parece que ele finalmente morreu.
Ando até ele é coloco meu dedo em sua garganta, confirmando minhas suspeitas. Volto para minha pequena fogueira e termino minha refeição. Enquanto como, fico pensando no que o homem disse: "- Você tem pele de escravo, roupa de escravo". Por mais que eu não queira admitir, ele está certo. Não há como esconder minha cor. Por mais habilidoso que eu seja, nunca conseguiria derrotar todos os holandeses que olhassem para a minha roupa. Ao menos que....
Me levanto e vou até o homem que matei com a flecha. Observo-o atentamente, e percebo que ele mais ou menos do meu tamanho, tanto no físico, quanto na altura. Também vejo que o sangue de seu ferimento não caíra em suas roupas. "Perfeito" penso. Arrasto o homem até uma árvore e troco de roupa com ele.
Sua roupa escondia perfeitamente minha pele. Era simples, com capuz e sobretudo preto, com botões brancos. Havia também um par de luvas pretas e um cinto.
Revisto os outros homens, a procura de munição, ou de qualquer outra coisa que seja útil para mim. Acabo pegando um saco de pólvora, uma espada (embora eu tenha manejado uma dessas apenas algumas vezes, acho que me sairia bem em uma luta com ela), e um pouco do que os homens brancos chamam de dinheiro. Não sei muito sobre esses objetos, mas sei que sem eles, não poderia dormir em algum lugar além das ruas.
Após revistar os homens guardo todos os meus novos pertences em minha pequena sacola de viajem, e preparo um travesseiro de folhas, dormindo ali mesmo, no chão, com o calor da fogueira.
Quando acordo, o sol ainda não havia nascido, mas estava claro o bastante para eu conseguir ver o caminho da floresta que parecia não ter fim. Que estava forrado com folhas secas de outono.
Como algumas frutas, e assim que os primeiros raios da luz do sol se infiltram pelas grossas folhas das árvores, continuo minha jornada, rumo à cidade de Recife, com a energia renovada para enfrentar o que vier pela frente.
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