° Capítulo 12 °


É um fato que todos têm sua forma de compensar um dia ruim, lendo um livro, ouvindo jazz, Bastet também tinha o seu, não muito usual, mas compensaria. Correr, era uma prática que ela descobrira nos últimos anos

Assim correndo em alguns quarteirões ela observava sua vizinha molhando as plantas excessivamente, uma mãe levando seus filhos para escola, a parte inicial do dia era uma boa forma de dispersar coisas. Enquanto seus músculos contraiam e comprimiam ela seguiu em passos rápidos até a última casa, da senhora Emmy, finalizando sua volta e retornando para casa.

Enquanto os airpods transmitiam uma música leve, ela chegou na residência desfazendo o rabo de cabelo com os fios lisos que cobriam seu ombro. Esperava encontrar Azila, assim que abriu a porta principal, sua serva sempre exibia um sorriso acompanhado de um café ao leite, mas o que vislumbrou não era o de sempre.

Azila espremia o avental com as duas mãos, os olhos fitando o piso de madeira, a felina ergueu a sobrancelha questionando. Contudo, o que recebeu foi um silêncio temeroso.

— Ora, Azila — ela disse, impaciente. — Fale de uma vez.

A mais jovem aquiesceu rapidamente, soltando o avental para apontar em direção à sala.

— A-a senhora, tem visita.

Bastet suspirou exaurida por tamanha enrolação para anunciar alguém, porém assim que andou para sala seus olhos não deixaram de vislumbrar o motivo. O pequeno corte na altura do queixo marcava a pele escura de sua serva, aquilo fora doloroso.

Com passos firmes ela avançou mirando na primeira coisa que encontrou. Sua mão acertou em cheio o rosto do visitante com fúria, o soco fez o homem, de altura mediana, cambalear levemente.

— Nunca ouse tocar nos meus servos — ela vociferou. — Quem é você?

Mesmo surpreso ele se recompôs massageando o rosto que estava rubro, aquilo ficaria roxo por alguns dias se não fosse pela regeneração aceleradas dos deuses e ele era um.

Tinha algo familiar nos olhos azuis e mechas onduladas castanhas, mas Bastet não recordava de tê-lo visto em algum momento de sua imortalidade.

— Senhorita Cat, posso chamá-la assim certo? — ele estendeu a mão em cumprimento, o qual ela não fez questão em apertar. — Não era assim que eu havia formulado nos conhecer.

— Ainda não respondeu minha pergunta — ela retomou impaciente, uma parte de si ainda queria matá-lo e queimar o corpo.

Ele suspirou com a insistência da felina, mas logo sorriu cruzando os braços nas costas, os olhos claros insinuavam seu divertimento.

— Peço desculpas pela sua humana, um sangue tão conservado daria um bom vinho.

Ele, Bastet mirou o deus que aparentava 40 anos, o maldito alargou mais o sorriso ao perceber a expressão de ódio e surpresa dela. Não havia captado o aroma de imediato pela raiva que havia inebriado seus sentidos.

Vinho.

Sangue.

— Dionísio.

— Devo dizer não pretendia vê-la nessas circunstâncias.

Bastet mal ligara para o que ele havia dito, avançou o encurralando contra o piso limpo, sua mão pressionava a garganta o deus, que não tentou revidar. Dionísio conhecido pelo deus do vinho e libido, um apreciador de festas segundos os rumores que ouviu.

— O livro — ela falou, afrouxando sua mão para ele dizer. — Onde está?

— Não é assim que começamos, senhorita Cat. — ele retrucou com dificuldade, mas ainda não revidando.

— Não há nada para começar e sim para por um fim.

Sua íris verticais cintilavam de ódio, o maldito vinha brincando com sua família, pondo pessoas que ela apreciava em riscos, ela não daria misericórdia.

— Você me desapontou, eu esperava que tivesse entendido todos os sinais — ele ainda aparentava se sentir confortável.

Se Bastet estava furiosa ela conseguiu ultrapassar o limite, tornou a estrangular o deus mas não ao ponto de matá-lo, por mais que ansiasse.

— O livro, eu o quero se você não me dar faço expelir sua maldita língua fora.

— Isso seria uma perda irreparável — ele fingiu se importar. — Irá sentir muita falta de sua mortal, Malu sabe ser uma boa companhia admito.

Como se mais um peso caísse sobre si a deusa o olhou assombrada, ela queria ter ouvido errado, queria que não passasse de uma provocação dele, mas Dionísio se mantinha calma e sorrindo. Aquele desgraçado estava tomando atitudes podres no ponto de vista da felina.

Bastet não presumira como ele chegara a ter Malu em suas mãos, contudo fora pior decisão que ele tomou.

— Você vai me dá a porra do livro e a garota, seu olimpiano de merda!

Com a mão esquerda ela acertou mais um tapa nele ainda estrangulado sua garganta, o desejo de matá-lo ali mesmo a consumia por quase completo.

— Seus desejos não são atendidos facilmente, senhorita — Dionísio retrucou, empurrando ela contra o sofá. — Fique onde está, não quero machucar seu gracioso rosto.

— Você vem à minha casa toca na minha serva, rouba o que é meu e acha que pode ordenar algo? — ela se aproximou novamente.

Dionísio levantou-se, ergueu a mão para tocar o rosto delicado da felina, mas só recebeu uma maior distância, sua presença não era bem vinda. Não deixou se abalar, passou por ela e seguiu para a porta da frente, como se houvesse encerrado por ali.

A deusa foi mais rápida e se pôs contra a porta, não era ele que ditava as regras.

— Você não vai sair até me devolver o que é meu.

— Se você quer ela viva saia da porta, não é assim que negociamos — ele falou, pela primeira vez sério. — Conversaremos quando estiver mais calma.

Seus pés queriam continuar ali, era tão injusto como sempre chantagens formavam uma moeda de troca. Obrigando ela a jogar com traiçoeiros, no fim ela se afastou com amargura.

— Estou compreendo porque Hades se apaixonou por você.


Era difícil ter um pensamento lógico enquanto descia o lance de escadas, seus pés deslizavam com rapidez adentrando na escuridão. Tochas na parede auxiliaram sua direção quando entrou no território, talvez funcionasse, era o que ela ansiava.

Não sabia bem por qual motivo ela viera logo atrás dele, mas precisava ouvir algo dele, o único deus que talvez conhecia Dionísio o suficiente. O ex-sogro, pai de Perséfone, Bastet sentia que vivia num mundo emaranhado de ironia, lá estava novamente ela em meio de confusões com olimpianos, mesmo que uma dia soubera que essa ameaça de perigo chegaria.

Os anos que antecederam havia sido calmos e bons, seu sobrinho crescia em segurança, Malu seguia progredindo. Malu, sua pequena humana deveria estar assustada, o que causou mais repulsa que a felina já sentia do deus do vinho, os pais de sua mortal deviam estar preocupados com o sumiço repentino da filha única. Seria mais uma coisa que faria Dionísio sofrer por ter interferido.

Não fez cerimônia ao empurrar as duas portas altas, ela entrou de supetão tirando alguns arquejos de servos que não ousaram impedi-la. Bastet subiu os degraus do hall da fortaleza dele, seus olhos não deixaram de notar a entrada que levaria onde esteve noites anteriores, fazia alguns dias que não o vira desde então.

Bastet sempre fora definitiva em suas decisões, era isso que acreditava, não voltava atrás e a aceitava suas escolhas feitas, devia ser fácil, ela sempre ponderava. Olhar ele novamente não seguia sua regra agora, seu cabelo escuro junto com o terno preto rotineiro contrastava uma melancolia e ela não precisava que ele virasse para observar isso.

Ele ainda fitava o submundo da janela imensa quando a felina se aproximou ficando do seu lado, sua diferença de altura se destacava mais enquanto ela usava ainda o tênis ao invés de saltos.

— Você faz jus ao que é — Hades disse, virando-se para ela. — Uma gata arisca.

Esperava ver alguns indício de seu humor ácido, mas o que ela reparou foram palavras sinceras.

Não imaginava que ele tocasse no assunto que sucedera naquele quarto, esperava que, assim como ela, guardaria aquilo como apenas lembranças vagas que não aconteceriam novamente. Contudo ali estava ele contornando todas as portas que ela impôs sobre isso.

— Fui prática — ela deu de ombros. — Não havia nada para esclarecer.

Hades assentiu com escárnio, os olhos amarelados permaneciam sobre ela com afinco, ele procurava uma justificava decente. Desviou dela e sentou-se em uma das cadeiras vazias, o deus do submundo não aparentava estar num bom dia, teria que se esforçar um pouco mais para tirar o que ela queria.

— Você decidiu, eu não, Bastet.

O tom acusatório fez ela comprimir o punho, não queria entrar naquele mérito novamente, sentir coisas que prometera guardar tão profundamente que a levaria a verdades irrefutáveis. Ela não estava ali para isso, suas crianças eram importante.

— Preciso de algo, apenas isso — ela foi direta. — O templo de Dionísio, onde fica?

O deus não deixou de arquear as sobrancelhas grossas em surpresa, mas não por muito tempo. Hades maneou a cabeça mensurando algo na mente, a felina ainda aguardava impaciente de braços cruzados.

— Não vou permitir que você faça besteira, esqueça isso.

Ela estava por um fio novamente, como uma chuva torrencial a deusa sentiu a beira de expelir sua raiva, como ele ousava sugerir aquilo. Sua família, Malu, ela faria qualquer coisa para mantê-los em segurança.

Espalmou suas mãos sobre a madeira polida da mesa com violência, ele não estava entendendo a gravidade das coisas.

— Esquecer? — ela cuspiu a palavra. — Ele está com o livro, com Malu não peça para esquecer coisa alguma!

Sua voz aguda ecoou no lugar, mas Hades não recuou com a fúria dela, ele ainda mantinha o olhar sério. Ele não diria, Bastet suspirou frustrada, por que raios pelo menos uma vez na eternidade ele não poderia ajudá-la? Uma parte de si se achava ingênua por isso.

— Irei descobrir de qualquer jeito — Se afastou, mas a mão firme do deus a impediu de sair.

Hades a olhava visivelmente irritado, os lábios desejáveis estavam comprimidos em uma linha. Ele se aproximou puxando o pulso dela consigo, sua respiração batendo no rosto da deusa.

— Pare de ser altruísta uma vez na vida, porra!

— Isso é amor! — ela exclamou sem pensar. — Coisa que você desconhece.

— Amor — ele retrucou com amargura. — Amar alguém por malditos anos e e ouvi-lá dizer isso.

— Você...

— Vá para casa com seu mortal — Hades falou, com notável repulsa. — Cuidarei de Dionísio e para não vê-la morta por sua teimosia.

Os olhos semicerrados estavam o mirando com ira, se ele presumiu que a felina iria acatar suas ordens  seguiria para casa e aguardar seus comandos estava erroneamente enganado.

Bastet permanecia com as mãos na cintura, a calça de corrida e o tênis não aparentavam ser apropriados para a ocasião. Mas não era uma de suas preocupações no momento.

— Não decida nada por mim — ela silabou sem falhas.

Hades não pestanejou de antemão, porém a irritação nas íris amareladas não expressavam incerteza, ele não estava satisfeito. O deus do submundo avançou sobre ela sem aviso prévio, o corpo esculpido da felina foi erguido sobre o ombro dele, com surpresa e raiva ela se remexeu tentando em vão se livrar do aperto forte e em sua cintura.

— Quieta! — ele exclamou, desferindo um tapa na sua bunda forte o suficiente para ecoar no local.

— Seu filho da puta! — a deusa retrucou, sentindo a dor se espalhar. — Me ponha no chão, Hades.

Contudo ele mal sequer a ouviu, ainda a carregando enquanto seguia para fora da sua fortaleza, Baset apenas queria descer e voltar para busca de sua mortal e o livro, não estava ali para as infantilidades de Hades.

Seus punhos cerrados despejavam soco no deus de pele clara numa tentativa de liberta-se, nada estava de acordo o que planeja, Hades estava se intrometendo novamente e aquilo era sinônimo de consequências desconfortáveis, sua mente adorava fazê-la lembrar o quanto perderia com a presença dele.

Em súbito de raiva ela golpeou com mais força, se ainda era possível, contudo Hades nem pestanejou em soltá-la, sentindo cada golpe e ela sabia o quanto aquilo doeu, mesmo assim ele não expressando nada.

— Hades, odeio! Odeio! Odeio — ela proferiu, com um misto de raiva e choro.

As lágrimas banharam seu rosto antes que ela se desse conta, os soluços entre a respiração preencheram o portal quando ele percorreu os dedos nos símbolos. Bastet não se importara ou não percebera entorpecida com a dor que se abrira no seu peito, todos os anos que transcorreram haviam acumulado todas as vezes que ansiava gritar e destruir tudo ao redor, comprimir qualquer expressão de emoção era um álibi que ela usava, mas até quando?

Hoje havia sido seu estopim.

— Pode me amaldiçoar do Saara ao Tártaro se desejar, mas vou permanecer amando você.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top