1/1

A GAROTA com rosto de querubim e a velha esguia estavam sentadas em poltronas confortáveis, lado a lado, de frente a mesa do velho. A garota levou um susto quando o velho dirigiu-se a ela.

— Vick?

— Hã? — ela estava com a cabeça distante, talvez nas nuvens, talvez acima delas. Será que a garota estava pensando na maldição da viúva entalada?

— É desta forma que gosta de ser chamada, certo? Vick?

Ela afirmou sem dizer nada, apenas acenando com a cabeça, seus pequenos olhos amendoados aterrorizados.

— Você prestou atenção em tudo o que eu disse?

Outro aceno de cabeça, calada.

Uma ruga de preocupação surgira na testa da velha que estava sentada na poltrona ao lado da garota.

— Pois bem — O velho soltou um suspiro pesado, seus óculos de grau perfeitamente posicionados na ponta do nariz — A senhorita Carmem vai se retirar da sala agora, para que eu e você possamos conversar em particular. Se estiver de acordo vou lhe fazer algumas perguntas. Elas podem parecer invasivas, de qualquer forma, só conseguirei traçar seu quadro psicológico se me respondê-las com total franqueza.

— Não tenho certeza se quero fazer isso.

— Por quê? — interrogou o velho.

— Quem garante que tudo o que eu te dizer não chegará aos ouvidos da minha tia? — a garota fitou a velha que estava sentada ao lado dela.

— Confie em mim, criança — o velho disse, sorrindo — Tudo o que for dito aqui, permanecerá entre a gente — ele garantiu, ardiloso.

Antes da velha esguia se levantar da poltrona, ela fitou a garota de maneira amável, demonstrando entre elas um elo dos mais fortes. Foi nesse instante que o velho cochichou algo curioso no ouvido da velha. É muito provável que a garota não o ouviu, mas eu sim, pois sou capaz de escutar todos os sussurros, até mesmo aqueles que vêm de lugares muito distantes, de outros planos. O velho cochichou: "Vou resolver essa situação, fique em paz, sua pombinha está em boas mãos".

Nesse dia, essa garota (a "pombinha"), fora a última paciente agendada a ser atendida. Estou pensando cá com meus fios e minhas tomadas: Se eu não estiver equivocado (eu raramente erro quando se trata de números), a consulta dessa garota de rosto de querubim tornou-se a 667ª realizada neste recinto. Como eu sei disso? Quem sou eu? Ah! Eu sou aquilo que alguns humanos chamam de "Voz Fantasma", ou, "A Voz Que Não Ouvimos". Existem várias vozes iguais a mim, aprisionadas por ai. No caso eu sou as torres de livros acadêmicos em capa dura, empilhados de forma irregular no chão da sala de consulta do velho. Eu sou a ventilação e a iluminação inadequada, a mobília empoeirada, as rachaduras no forro, o mau cheiro que invade a fresta da porta. Eu sou as teias assustadoras com aranhas medonhas nas paredes mofadas (um mofo verde-musgo, que se parece com obras de arte gótica). Eu sou os duplicadores de tomadas enredados à fiação exposta. Eu sou o piso em taco de madeira, úmido e encardido. Eu sou as migalhas de alimentos e as bitucas de cigarro, espalhadas por todos os cantos. Eu sou este santuário inteiramente arruinado que combina perfeitamente com meu atual proprietário.

Muito prazer, eu sou este casarão.

Os boatos a meu respeito são deploráveis. As crianças me olham receosas, e me observam apenas a distância. No primeiro dia do ano (quando os pequenos se vestem de branco e circulam pelas ruas da cidade com sacolas de supermercado desejando aos moradores "bom princípio de ano novo" em troca de doces) eu sou a única residência da rua a não ser visitada.

Amaldiçoado, macabro e assombrado são algumas características atribuídas a mim pela maioria das crianças que vive nos bairros arredores. Essas crianças nem imaginam, mas todas as vezes que elas dizem tais ofensas parte da pintura da minha parede descasca mais depressa, pois essa é a maneira que nós choramos. Essa é a maneira que as construções de cimento e pedra demonstram tristeza.

Não é culpa do velho (muito menos dos pacientes doentes mentais que aqui frequentam) de eu ter essa fama de casarão mal assombrado. A origem dessa fama começou muito antes, com meus primeiros proprietários, e será a história deles que irei contar a partir de agora.

Todos me admiravam antes de me transformarem em vilão. Fui construído há muito tempo pelo primeiro médico veterinário que chegou nesta cidade, Dr. Detlev Zonta. Eu fui o primeiro casarão, o primeiro sobrado, o primeiro grande monumento de cimento e pedra desse bairro hoje velho e esquecido. Bons tempos àqueles. Dr. Detlev era um homem tão honesto. Tão querido. Ele operou muitos animais na edícula construída no meu terraço e ali também sacrificou muitos. Os espíritos de alguns desses animais sacrificados estão presos comigo desde aquela época. Eles circulam dentro de mim à noite, seus olhos selvagens na escuridão sussurram múrmuros de dor, pois se sentem ligados a mim. Que judiação de ver esses animais gemerem durante a noite. Todavia, não são os espíritos dos bichos sacrificados há tanto tempo aqui que fizeram minhas paredes descascarem de desgosto.

Dr. Detlev faleceu no auge da vida, nem pai o pobre havia sido. Foi a madame (viúva do falecido) que cuidou de mim após a morte dele. E cuidou muito mal, diga-se de passagem, pois se existe alguém culpado pelas crianças de hoje me olharem de maneira torta, esse alguém é ela.

Jocasta Aparecida Zonta. Era esse seu nome. Abastada de amargura e soberba, ela jamais se esforçou em fazer a boa vizinhança. Em suma, era uma mulher rabugenta, solitária e enfermiça e devido as frágeis condições de saúde precisou contratar uma enfermeira diarista para passar parte do dia ao lado dela. A tal enfermeira contratada era uma menina-moça, e embora ela demonstrasse facilidade e destreza de uma profissional experiente, eu notava, em seus olhos de coruja, a presença de uma loucura até então adormecida.

Em um piscar de olhos, Jocasta tornou-se inteiramente dependente da jovem enfermeira, necessitando de seu auxílio para se locomover sem riscos por todos os cômodos. São muito cômodos aqui. Dezenove ao todo.

A morte cada vez mais próxima de si não fez com que o coração da viúva abrandasse. Quem sofria com esse excesso de ingratidão era a enfermeira diarista, talvez a maior vítima dos maus tratos e das chacotas de Jocasta. Certo dia, a enfermeira cansou e decidiu se vingar.

Durante as primeiras horas de uma manhã chuvosa, a enfermeira auxiliou Jocasta chegar até o banheiro para que pudesse aliviar as tensões. A madame começou sofrer mal-estar no momento em que defecava e suplicou por socorro. A diarista, que estava na sala, sentada no sofá, lixando as unhas, decidiu não socorrê-la e deixou a viúva gritando no banheiro, entalada no vaso sanitário. Minutos depois, a diarista foi embora, e levou consigo todas as joias da patroa. Dias após o ocorrido, o odor pútrido e fecal dos ambientes incomodou a vizinhança, e então a guarda municipal foi acionada. Jocasta foi encontrada morta, seu cadáver entalado no vaso sanitário. Ninguém (com exceção de mim e da enfermeira com olhos de coruja) sabe exatamente como procedeu tal tragédia.

Hoje, quando vejo minhas paredes horrivelmente descascadas, tenho vontade de desmoronar. Antes do velho, eu tive outros proprietários. Foi nesse intervalo de tempo que começaram a espalhar os boatos de que eu era um casarão mal-assombrado. Assim como o espírito dos animais sacrificados por Dr. Detlev, o espírito de Jocasta também permaneceu aprisionado aqui. À noite, sua alma-penada circula sussurrando gemidos de dor, assim como as dos animais, exalando um fedor fecal pelos cômodos. Alguns proprietários (os mais sensitivos) chegaram a vê-la, e então partiram daqui, amedrontados, espalhando deploráveis boatos, sujando a minha imagem. Às vezes, Jocasta emerge do vaso sanitário e perambula à luz do dia, entretanto, isso só acontece quando ela sente a presença da enfermeira que provocou sua morte, pois, de tempo em tempo, a enfermeira aparece por aqui, visto que, ela é uma das pacientes mais antigas do velho. Se eu não estiver equivocado (eu raramente erro quando se trata de números), a última consulta da enfermeira com olhos de coruja foi a 666ª realizada neste recinto.

O espírito da madame que morreu entalada no vaso sanitário busca sua vingança, e, durante a noite, ela divaga sobre meu chão gélido sussurrando um único nome.

"Consuelo".


-------- † † † -------


@Jorge_Aguilar é paulista, tem 28 anos, estudou Design de Produto e tem como hobby favorito a escrita. Em 2017, fundou o clube para escritores "Mentes Literárias" e desde então vem recrutando nomes promissores para juntar-se a trupe.  A ficção adolescente "O Antidepressivo Amoroso Perfeito" marcou a estréia do autor na plataforma Wattpad.



Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top