Parte 1.

Ela pisou nas folhas, esmagando-as. Seus pés não sentiram o impacto, muito menos os pequenos arranhados que naquela pele macia se instauraram. Mas seu coração sentiu tudo.

Ela sabia de toda a história agora. Sabia de tudo.

Agora ela tinha consciência até mesmo do dia em que Petyr despencou dos céus. Ela sabia como ele tinha manchado o emaranhado de nuvens branquinhas com seus cabelos cor de fogo, e mais ainda, sabia como ele tinha boiado na superfície das águas turvas que deixavam toda Tempestade submersa no período de cheia. Sabia que o menino boiou milagrosamente até o fim da madrugada, parecendo aguardar que toda a água evaporasse, assim como acontecia todo ano. Petyr parecia saber de tudo, mesmo não sendo de lá. Mesmo tendo vindo de um lugar bem distante. Ele parecia ter vivido em Tempestade desde seu nascimento. E talvez ele pertencesse mesmo a aquele lugar.

Os habitantes de Tempestade se autodenominavam Culuns. Com os dois pares de brânquias no pescoço e a cor esverdeada, eles eram bem diferentes. Ela nunca havia tido contato com um povo tão estranho como aqueles, mas também, ela nunca havia tido contato com nenhum povo além de seu próprio, os Alfies.

Os Alfies eram bem diferentes dos Culuns. Não apenas em aparência, mas em comportamento.

Quando Petyr, um ser estranho, despencou dos céus em plena madrugada de transição entre as estações, sobrevivendo em meio as águas escuras por mais tempo que uma criança deveria, com seus olhos esverdeados brilhando; brilhando mais do que o normal, eles o acolheram. Eles acreditaram que Petyr era algum tipo de milagre. Um presente da deusa Mãe. E por isso eles não o mataram, eles não o torturaram, não buscaram por respostas. Eles apenas o amaram. O amaram mais do que qualquer Alfie seria capaz de amar em mil anos. Eles fizeram de Petyr um deles. Eles o criaram.

Até que ele completasse vinte estiagens e ela finalmente chegasse lá.

Ela havia despencado do céu do mesmo jeito que ele o havia feito. Manchando os céus com seus mesmos cabelos cor de fogo, e despencado em meio as águas, ciente de que devia nadar até a superfície, e aguentar até que amanhecesse. Ela sabia o que estava fazendo, afinal. Não era uma criança como Petyr na primeira vez que havia chegado ali.

Ela tinha instruções claras. E pretendia fazer de tudo para segui-las.

Foi então que amanheceu, e ela pôde presenciar o amanhecer da estiagem. Ela pôde ver com seus próprios olhos a água aos poucos descer de nível. E ela aguardou ali, decidida, até que a água evaporou por completo, deixando todas as casas a vista.

E o dia se passou. E ela se escondeu. Assim que todos começaram a sair de suas casas e viverem suas vidas, ela se escondeu. Em um poço qualquer, aguardando que a noite se instaurasse mais uma vez. Esperando para fazer o que lhe fora designado.

Ela lembrava de ter olhado para o céu aquela noite, quando esta finalmente chegou, e de ter visto a estrela amarela que era seu caminho de volta para casa.

Mas quando ela saiu do poço, reuniu o que era preciso de Tempestade e enviou para os Alfies. A estrela sumiu. Parecendo evaporar na frente de seus próprios olhos. Ela não acreditou no que viu.

Eles a tinham dispensado. A tinham deixado para trás. Afinal, por que diabos uma prisioneira Alfiana teria direito de voltar para sua cela? Era mais fácil simplesmente larga-la em um planeta desconhecido. Era mais fácil despeja-la, como um lixo qualquer, naquele lugar esverdeado.

Então nasceu o dia, e ela se escondeu novamente no poço. Mas era claro que ela não conseguiria se esconder por muito tempo. E era mais claro ainda que quando amanhecesse, os Culuns descobririam o que ela tinha feito.

Ela não conseguiu passar mais de um uma hora no poço antes de ser descoberta por um Culun estressado, que a puxou pelos cabelos até uma sala maior, que agora ela sabia que se tratava da sala do governante Tempestariano, que parecia mais estressado que o outro.

A menina se lembra até hoje da cara que ele fez ao olhar para seus olhos. E depois para seus cabelos. E depois para seus olhos de novo.

Ele estava em choque.

Ela até tentou entender o que havia feito, já que não sabia que podia usar seus poderes ali, mas então percebeu que não havia feito nada.

Ele a olhava assim por causa de Petyr. Era claro que eles não sabiam que Petyr era um Alfiano. Eles não sabiam que existiam mais como ele.

Foi ai que tudo parou de fazer sentido para aquele povo esverdeado.

E foi ai também que Petyr foi chamado.

Quando ele adentrou a sala, parecendo mais confuso do que qualquer outra pessoa, ela prendeu a respiração.

Naquela época ela não sabia que tinha um outro Alfiano em Tempestade, Petyr muito menos.

"O que diabos é você? " Ela se lembra de tê-lo ouvido perguntar exatamente isso, com um sotaque típico de Tempestade, usando o dialeto local. E ela se lembra de ter entendido cada palavra, assim como entenderia qualquer idioma, de qualquer região. Os Alfies nasciam com isso gravado em seu DNA.

"Ela roubou todos os tesouros de Tempestade, Petyr". O homem esverdeado se pronunciou, fazendo com que Petyr arregalasse os olhos.

"Isso significa que a deusa vai nos castigar? " O esverdeado assentiu com a cabeça.

Ela não acreditou na hora que esse era o motivo de todo aquele pânico. A deusa ia castiga-los porque alguns tesouros sumiram? Era patético. Não existia uma deusa.

"Por que você roubou os tesouros? " Petyr perguntou, com aquele sotaque irritante de Culuns. Ela não respondeu.

"Ela não deve entender nosso dialeto. " Apontou, muito erroneamente, o esverdeado. Petyr concordou, mas ao mesmo tempo, não pareceu convencido.

Ela teve uma ideia.

"Eu quero falar com o ruivo a sós. " Disse, firme, em seu próprio dialeto. Petyr arqueou as sobrancelhas, confuso. Como ele tinha entendido o que aquela estranha tinha dito? Ele não poderia. Mas havia entendido. "Traduza para ele, Petyr. Eu sei que você entendeu. " E foi o que ele fez, desconfiado, dispensando o homem verde e ficando finalmente a sós com ela.

"Como eu entendo o que fala? " Petyr perguntou, mais uma vez no dialeto dos Culuns.

"Nós sabemos todos os dialetos. " Petyr se assustou ao ouvi-la falar com o sotaque de Tempestade.

"Então você entendeu o que dizíamos antes? " Perguntou, raivoso. "O que diabos é você? "

"Eu sou Lilar. Prazer em conhece-lo, Alfiano esmeralda. "

"Do que você me chamou? "

"Alfiano esmeralda. " Repetiu, sem cerimonias. "É raro encontrar algum da sua raça que ainda exista. "

"Minha raça? " Lilar sorriu.

"Você não sabe mesmo? "

"Não sei do que? " Ela resolveu fazer um teste.

Talvez seus poderes funcionassem ali.

E eles funcionaram. Aliás, era óbvio que funcionariam. Agora ela sabia que tinha sido por meio deles que Petyr havia sobrevivido a sua queda.

Lilar conseguiu ler o que Petyr pensava no momento exato em que encarou seus olhos esverdeados com essa intenção. Era isso que os Ametistas podiam fazer. E ela queria que Petyr descobrisse o que os Emeralda podiam fazer.

"Petyr. Você nunca tentou usar seus poderes? " Perguntou, recebendo a resposta antes mesmo que ele a pronunciasse. "Que poderes? "

Então ela o explicou o que ele podia fazer. Os Esmeralda eram muito poderosos. Muito mais que qualquer outro. Por isso haviam sido extintos. Por isso Petyr havia sido mandado para Tempestade. Agora ela sabia que havia sido para sua proteção.

Lilar achou então que Petyr seria seu caminho de volta para casa. Bom, ao menos ela achou que seria fácil assim. Que ela contaria sobre seus poderes e que ele rapidamente decidiria ajudá-la. Mas com certeza foi bem ao contrário que tudo aconteceu.

Petyr não acreditou nela. Chamou-a de maluca. Amaldiçoou-a, e depois saiu da sala. Lilar não conseguiu ler seus pensamentos depois disso. Mas ela havia lido antes. E sabia que ele voltaria.

E foi o que aconteceu, na manhã seguinte.

Lilar estava presa em uma cela, assim como estaria se estivesse novamente em casa, quando Petyr chegou para visita-la. Ele não precisou dizer nada para ela saber que ele tinha tentado usar seus poderes na noite anterior. E que ele havia conseguido.

"A deusa vai nos castigar por termos perdido a Pedra. " Lilar se assustou. Ela não havia roubado pedra alguma, apenas os tesouros. "Sim. Você roubou a Pedra da Tempestade. Estava junto com os tesouros. " Petyr respondeu, lendo seus pensamentos.

Apenas os Esmeraldas mais treinados podiam fazer isso. Mas era claro que Petyr era o mais treinado de todos eles. Afinal, ela era o último.

Lilar odiou-o por ler sua mente.

"Não existe deusa alguma. Não seja idiota. "

Então ela leu a mente de Petyr e viu o que aconteceria caso a pedra sumisse.

Tempestade seria destruída.

Que bom que a deusa não existia.

Foi então que o primeiro trovão chamou a atenção de todos. A grande quantidade de luz que cortou os céus, desceu pelo mesmo caminho que Lilar e Petyr tinham passado. Atingindo um lugar descampado no horizonte.

Esse foi o primeiro sinal.

Depois veio a chuva.

A chuva que não devia de forma alguma estar caindo naquela época.

Estavam na estiagem. Não devia chover. Mas chovia. E relampeava com a maior violência que era possível.

"Isso é por causa da pedra. " Petyr apontou.

Lilar negou com a cabeça. Não era por causa da pedra. Os Alfies não queriam a pedra. Queriam os tesouros. Apenas isso. E ela tinha dado a eles apenas isso.

E foi depois desse pensamento que a deusa pareceu querer provar a existência da pedra para ela, fazendo com que o céu alaranjado de Tempestade fosse tingido de vermelho, um vermelho sangue, que adiantava a próxima chuva que viria.

Choveu sangue, ou melhor, caíram do céu gotas avermelhadas e viscosas, durante uma noite inteira.

Quando amanheceu o dia, todas as casas estavam mergulhadas em poças vermelhas. Muitas casas não estavam preparadas para isso, e despencaram. Alguns Culuns morreram após essa chuva. E Lilar pôde presenciar tudo de sua pequena janela dentro da cela.

Os Culuns estavam em pânico, Petyr mais ainda. Ele sentia que precisava fazer algo. Ele sentia que tinha que salvar aquele local que o havia acolhido tão bem. E ele sentia que não conseguiria fazer isso sem a ajuda de Lilar, que havia causado tudo isso.

Naquele mesmo dia Petyr enfrentou as chuvas até chegar no porão em que Lilar estava presa. Não precisando dizer nenhuma palavra antes que a outra se pronunciasse.

"Digamos que talvez essa deusa exista..." Lilar começou. "Há alguma forma de impedi-la de destruir Tempestade? " Petyr assentiu.

"É só você nos devolver a pedra. "

"Isso será impossível. " E era mesmo. Ela não tinha como pegar essa pedra de volta. Não se ela estivesse mesmo em meio ao tesouro que ela mandou para casa. Os Alfies nunca devolveriam.

"Talvez tenha uma outra forma de salvarmos Tempestade. " Petyr soltou, sem delongas. "Talvez a deusa possa ser morta. " Lilar encarou-o, sem dizer nada. Não precisava, Petyr já havia lido sua mente. "Me ajude que eu a mando de volta para sua casa. " Lilar sorriu.

"Feito. Por onde começamos? "

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