Capítulo VIII - Cartografia
Quando abro os olhos na manhã seguinte, e encaro a penumbra do meu quarto, o qual nunca realmente mantenho tão iluminado quanto deveria, já que os raios de sol, ainda que pálidos em um céu ainda mais cinzento, sempre encontram uma maneira de alcançar meu olhar e o machucar ainda mais, noto o frasco de cristal, fechado por rolha e o lacre do internato gravado a fogo, e sei que o sr. Herbert já passou por ali e não me acordou.
Não é trabalho do enfermeiro despertar um jovem para seus compromissos.
Os compromissos têm de ser importantes o bastante, à honra do cavalheiro, para que eles o despertem a tempo de serem cumpridos!
Sei sobre tudo isso, e espero que não sofra uma reprimenda.
Aprecio a penumbra por mais um tempo. As cores, por alguma razão que desconheço, sempre me atingem de forma mais intensa, assim como percebo os toques de uma maneira quase insuportável e cada som reverbera pelos meus ossos como se desafiassem sua força de me manter em pé.
Mas eu sempre preciso seguir em frente, e se os momentos de escuridão me ajudam, então não vejo problema em abraçar as sombras. Especialmente quando os pensamentos sobre um jovem chamado Jonathan Barclay ainda permeiam meu subconsciente, arranhando-o como um cilindro de cera em um fonógrafo.
Havia sido, a noite passada, tão real quanto a lembrança que tenho dela?
Se o fosse, pouco realmente importava, pois enquanto coloco meu traje, perfeitamente passado com um tijolo quente enrolado em um pano, uma frase de Dickens me acomete:
— Não há nada mais forte ou seguro, em uma emergência da vida, do que a mais simples verdade — recito, respirando fundo, ajeitando os botões do colete e alinhando as lapelas do sobretudo depois de tomar o tônico matinal e devolver o cristal à cabeceira.
Passo o lenço pelo meu pescoço e penso no jovem Barclay. Engomo as golas e sinto-as tocar meu maxilar, como o fiz ao dele enquanto corrigia a etiqueta de seu traje.
Não sabia que ocasião o esperava, tampouco o que pensava sobre mim — surpreendeu-me mais do que o esperado que, na verdade, já tivesse ouvido a meu respeito —, mas não podia deixá-lo desalinhado.
A The Gentleman's Patch se orgulha de sua excelência, e eu também.
Então... por que, ao olhar no espelho, sinto-me tão incompleto? Cada detalhe está em seu lugar, exatamente como deveria o ser, e ainda assim, há um vazio em tudo.
Uma falha.
Um defeito.
— Um broche... — sibilo, finalmente conclusivo.
Meus olhos correm para o pequeno baú onde escondo as cartas que roubei — e onde, a partir daquela madrugada, havia o broche de um cervo e sua grande galhada, imponente, belo e delicado.
Poderia vesti-lo. Poderia perfurar sutilmente a lapela da casaca e encaixá-lo com a agulha, até mesmo espetando a ponta de meu dedo para saber se tudo era real.
Mas isso seria um delator de meus atos da noite anterior. Não poderia permitir que descobrissem e, se o colocasse, estaria classificando-me como um cervo de bronze sem realmente pertencer a essa classe.
"Não lhe deram um broche quando chegou?"
A voz dele ressoa perfeitamente em minha cabeça, tal que um arrepio corre minha nuca, como se as palavras tivessem sido sussurradas ao pé do ouvido.
A The Gentleman's Patch se divide em três, conforme as alas do prédio principal, cada qual com seu senhorio: o Cervo de Bronze, o Corvo de Prata e o Lobo de Ouro.
Sei que meu dormitório está logo acima do banheiro comunal dos Corvos de Prata, pois notei a ave encravada no arco da entrada quando corri para me banhar, contudo, não tenho um broche, como o do sr. Westons, que me permita realmente usufruir dali.
Nenhuma das classes deve invadir a ala da outra.
Nenhuma das classes poderá questionar a ordem de um professor.
Nenhuma das classes terá Levi Proofwell.
Meus ombros caem em um suspiro. A última colocação não era uma regra descrita nos códigos de conduta do internato, mas era o que parecia acontecer.
Mais do que nunca, estou disposto a questionar a falta de um broche. A falta de um lugar... para chamar de meu.
Ainda que, sim, o incidente de anos atrás tenha sido uma catástrofe sob a perspectiva dos bons costumes entre cavalheiros, mesmo anterior a ele eu nunca havia recebido uma classificação.
Como se chama aquele que vaga por aí sem nunca encontrar o seu lugar?
Desejei poder sorrir para mim mesmo, mas não tinha como reconfortar-me com questionamento tão irreverente, ainda mais por colocar em xeque a noite passada.
Se Jonathan Barclay encontrou seu lugar entre os Cervos, por que optaria por retirar seu nome da correspondência?
Barnaby havia tirado a própria vida, e exclusivamente por esse motivo seu nome foi retirado...
Se bem que não era a primeira vez que eu percebia que um novo nome havia aparecido no lugar do anterior. Em retrospecto, percebo que eu apenas nunca me importei. Teriam todos eles escolhido deixar o internato?
Não parecia algo plausível, considerando que tínhamos a melhor educação para a sociedade inglesa.
— Sr. Waterworth — chamo ao tutor de cartografia, naquela manhã, vendo a figura roliça em uma casaca esverdeada, calvo e com um monóculo pendurado do bolso do peito, voltando-se para mim.
— Sim, sr. Proofwell?
— Para onde Jonathan Barclay foi?
Se eu acreditava que o silêncio não poderia se aprofundar, estava redondamente enganado, pois ele nos envolve em um novo nível de desconforto que me faz baixar os olhos novamente para o livro de mapas da Inglaterra.
Finjo que seus condados são mais interessantes do que a resposta que o sr. Waterworth pode ter por uma mera cordialidade.
— Devo admitir que não esperava por esta pergunta, sr. Proofwell — lamenta sem trejeitos, mantendo as mãos enfurnadas nos bolsos ainda que seu olhar pese sobre mim.
Sinto que, por detrás de tal frase, ele também confessa que tampouco está preparado para responder ao que questiono.
— O senhor conhecia o jovem Barclay?
Engulo em seco. Não posso deixar que minha bruta honestidade derrube a máscara de uma pergunta feita por pura conveniência, e não profundo interesse.
— Não chegaria a dizer que o conheci — respondo, erguendo meu rosto o máximo que consigo, o olhar repousando sobre seus lábios.
Nós nos encaramos, por um momento, não com qualquer demonstração de raiva, mas avaliando a razão para um questionamento como aquele.
Sinto que o professor, de alguma forma, testa minhas intenções.
— Pergunto apenas por ter visto que seu nome não está mais no mural de correspondências — acrescento, pois sinto que ele precisará de mais para dar alguma credibilidade ao que desejo saber.
Dois passos o aproximam de sua mesa, porém ainda está confortavelmente longe da minha, onde a cartografia já estava esquecida.
— E o que estava fazendo lá, sr. Proofwell?
Meu rosto queima. Agito os cílios. Pinço os dedos, mais uma vez. Sei que, em algum momento, isso os irá machucar de tamanha forma que teria de dissipar a sensação sufocante dentro de mim de alguma forma menos destrutiva.
— Sempre vou para lá — respondo.
— É mesmo? — parece interessado.
— Sim.
— Mas os outros alunos...
— Eles nunca me veem, o faço antes que tenham despertado.
— Ah, bom, então... — Pigarreia, depois apanha seu monóculo e o guarda no bolso, como se só agora percebesse que estava pendendo de maneira nada elegante. — Neste caso, saiba que o jovem Barclay voltou para casa.
Franzo o cenho.
— Para casa?
— De fato.
— Mas estamos em casa — rebato com um leve inclinar do rosto na direção dos mapas, como se entre tantas rotas eu encontrasse "casa" datilografado.
— Bem, receio que este seja o seu caso — frisa e isso dói. — Aqui, cada jovem tem suas peculiaridades próprias. Jonathan Barclay voltou para a propriedade de sua família, pois foi a decisão que seu pai, lorde Shrewsbury, tomou.
— Lorde Shrewsbury? — repito, a ponta da língua umedecendo os lábios enquanto meus olhos perscrutam o mapa e encontram a região de mesmo nome. — Professor, está a dizer que...
— Sim, meu rapaz, o jovem Barclay era o filho do conde.
E nada teria tirado minha atenção do desenho do condado, a não ser pela maneira com que o sr. Waterworth escolheu conjugar seu verbo.
— Era? — questiono, as sobrancelhas subindo. — Professor, se pode deixar de ser o filho de alguém?
Talvez... a resposta estivesse dentro de meu próprio coração, considerando como cheguei até aquele lugar...
Mas meu passado não era algo que eu carregaria no peito diante questões que me despertavam maior curiosidade, na mesma medida que proporcionavam ao sr. Waterworth tamanho incômodo que seu pigarrear se tornou constante, o rosto avermelhado e a voz seca.
— Quer um pouco d'água, professor? — ofereço.
— É muito gentil, mas desnecessário — dispensa, mordaz. — Assim como essas perguntas, meu rapaz. Ao que me recordo, esta é uma aula de cartografia. Ande, analise...
— Não foi minha intenção ofendê-lo — interponho, os ombros baixando. — Só...
Só queria entender por qual razão Jonathan chorava antes de tirar seu nome. A razão de ali estar, entre a madrugada...
Quiçá não quisesse ir embora, e a decisão de seu pai, o grande conde de Shrewsbury, o entristecesse de tamanha forma que apenas as lágrimas ofereciam algum consolo.
— Não ofendeu — garantiu, ainda que eu não acreditasse completamente nisso. — O fato, sr. Proofwell, é que me preocupa que tenha passado diante as missivas. Não é o local mais próximo da ala de seu dormitório.
— Bem, mas... como eu ali não passaria, se desejava ver se havia alguma missiva a receber?
Deu de ombros, refestelando-se em sua própria cadeira, que rangeu ao receber todo o seu peso
— Ali é o centro desta construção, sr. Proofwell, justamente o refeitório comunal se encontra à vista. Isso aumenta as chances de ser notado, ainda que reforce que o faça antes que todos estejam de pé, fato este que, sendo franco, também me preocupa. Um jovem cavalheiro precisa de suas noites de descanso. — Sinto-o me observar. — Pelas suas olheiras, creio que seja um fator que ande descumprindo.
Controlo minha expressão da melhor forma que posso. Mantenho os lábios apertados, os olhos sem olhar a nada, ainda que fitasse na direção da bainha das calças do sr. Waterworth, e sustento um momento de quietude.
— Por que é tão perigoso que me vejam, professor? — murmuro, sabendo que caminho cada vez mais adentro do desconforto que eu mesmo causava.
— Não é que seja perigoso, meu rapaz — começa ele num tom mais gentil. — É apenas... para proteger a integridade de um legítimo cavalheiro.
— Se há um risco à integridade de alguém, então certamente se faz perigoso — rebato em um silvo de ar.
O Sr. Waterworth não havia sido ingênuo de acreditar que eu não o questionaria, mas nem por isso seu rosto deixa de desenhar-se em uma careta tristonha, os lábios para baixo.
Eu o estou decepcionando? Sempre é difícil de ler os sentimentos dos outros, tal que decido arriscar:
— Eu... sou um problema, professor? — O termo que Barclay usou a noite passada reaparece através da minha voz: — Sou um incidente?
— Oh, não, não, meu rapaz, você talvez seja o melhor de todos, aqui! — Seu tom não parece mentiroso. — Justamente por isso que o mantemos protegido.
Aquilo me atinge como uma brisa inesperada. Em todo esse tempo, recluso, nunca me coloquei sob a perspectiva de que, talvez, o perigo se voltasse para mim.
— É por isso que nunca recebi um broche? — decido ser mais ousado e mordo a língua.
Minhas palmas suam, as unhas fincam na pele, e eu sinto a carne quase se cortar tamanha força que inflijo antes que ele responda:
— Seria um desejo seu recebê-lo?
— Não é o que todos querem? — sinto meu rosto inexpressivo, ainda que tudo se expresse dentro de mim. — Se este lugar se divide em três classes, por que não estou em nenhuma delas? Não há por que me proteger de um broche, não é?
— E por que isso seria tão importante?
Mordo o lábio inferior e baixo os olhos.
— Acho que... — respiro fundo — um símbolo como este te faz pertencer a algo. Sabe, sr. Waterworth, é difícil não me sentir sozinho quando caminho como um fantasma agourento de Dickens, por entre os corredores, há tantos anos.
Há um momento de silêncio diante sua deliberação.
— Irei considerar o pedido. Falarei com o diretor — decide, diplomático. — Voltemos à cartografia, sim?
Mas não importa mais o que ele diga...
— É claro... — aquiesço, pois meu desejo para com aquele mapa se torna mais profundo.
Encontro onde estamos: Lake District, próximos ao lago Windermere.
E encontro o condado de Shrewsbury, onde Jonathan agora está.
Meus olhos enxergam o mapa, mas a mente os embaça diante a imaginação que, em uma simples folha de papel, Jonathan Barclay poderia ter caminhado pela madrugada desde o lago até as terras de sua família. Na verdade, traço sua rota com as pontas dos dedos e não levo nem cinco segundos.
Quem dera os trajetos de uma vida fossem assim tão fáceis.
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