Capítulo III - Sr. Westons
— O que achou do livro? — o sr. Westons, senhorio da classe Corvo de Prata, da qual não faço parte, e professor de literatura, pergunta quando lhe entrego o exemplar de couro de Grandes Esperanças.
Estamos na sala de aula, onde cinco fileiras com quatro cadeiras perfeitamente alinhadas umas com as outras, com pergaminhos enrolados em seus interiores, sob a luz obliqua da janela, nos observa.
Estamos sozinhos, como sempre, e talvez isso seja o melhor.
Em muitos lugares, não sei o que fazer. O que sentir. Como... compreender.
Se meu mais profundo desejo era poder estar com os outros rapazes, então esta também é a razão do meu mais profundo medo. Não pelo fato de que, talvez, não me compreendessem, mas sim o de que eu, talvez, nunca os entendesse.
Que laços de ternura se pode criar a partir do estranhamento?
Tento me tranquilizar pensando que não há qualquer razão em particular para que eu seja uma criatura terrível e anormal, mas quando, claramente, te tratam assim, é difícil de se olhar no espelho e não se perder em nuances do que se realmente é.
Até onde outras pessoas podem ditar o que somos?
Isso, talvez, seja um medo ainda maior.
— Uma escrita interessante — respondo engolindo em seco.
E paro.
Nada mais escapa pelos meus lábios e o sr. Weston, com seu olhar sempre tão cirúrgico, me perscruta atentamente, batendo a ponta dos dedos contra sua mesa de mogno e cruzando uma perna na outra, apoiando-se no espaldar da cadeira.
— É só o que tem a dizer?
Sinto meu coração acelerar. As palmas suam.
— Costuma ser mais eufórico sobre os livros, sr. Proofwell, devo admitir que suas reservas me surpreendem.
Mas não sei se ele o diz de forma positiva ou negativa.
— Achei interessante por ser escrito em primeira pessoa — digo, por fim, lutando com os arrepios que correm pela minha nuca. — Ele... ele discorre sobre a resignação ao passado, todo o arrependimento e culpa que carrega, a caminho da sua redenção. Pip é muito crível, senhor.
— Crível a ponto de estabelecer uma semelhança?
Sinto os músculos retesarem. O coração bate ainda mais forte, pois já sei onde ele quer chegar, tal que meus olhos, que nunca, de fato, o observaram, buscam uma fuga ainda mais rapidamente. Vou de sua mesa até os papeis que estão nela, depois o brilho do nome do livro gravado no couro, então parto ao piso de linóleo e chego, enfim, às fivelas prateadas dos sapatos do meu uniforme.
— Sabe, sempre achei interessante a capacidade dos livros de nos refletir — recomeça ele, quando pareço ter perdido a capacidade de formular uma simples sentença. — De espelhar as nossas ambições e pavores em papel e tinta. Só um verdadeiro autor consegue fazer isso.
Pois então, quem escreve as cartas que leio deve ser o mais brilhante deles, penso, mas não posso dizer em voz alta.
Jamais!
Se o sr. Westons sequer sonhe com a possibilidade de eu estar fazendo o que faço, quando todos ainda estão adormecidos, terei de dizer adeus ao privilégio que um ladrão tem.
Meu segredo iria para a luz, e eu enfrentaria as consequências.
Seriam assim tão terríveis? Chego a pensar que sim, mas é puramente algo meu sofrer mais pelas possibilidades do que pelos fatos.
Fisgo a ponta dos dedos com as unhas e torço para que possa logo voltar ao meu dormitório.
— As palavras criam um elo entre autor, personagem e leitor, que podem perpetuar por uma vida, se fundir a ele, e até...
Sem que eu consiga controlar, interrompo-o:
— "Você vai ser parte do meu caráter, parte do pouco que há de bom em mim, e do que há de mal. Mas, ao nos separarmos, eu sempre irei associá-la com o bem, e é assim, com toda a lealdade, que sempre pensarei em você, pois você foi, para mim, mais um alento do que um desalento, e agora deixe que eu sinta toda a minha dor."
Não preciso olhar ao sr. Westons para que sinta a forma como está avaliando cada uma daquelas palavras, com grande familiaridade, a mesma que, agora, provoca-lhe estranheza a meu respeito.
Ele sabe quem sou.
Contudo, ao mesmo tempo, parece não saber.
— De qual página é isso, sr. Proofwell? — pergunta, um tom sério, contido e rouco.
Minha boca seca e mordo os lábios.
— É do sr. Dickens, não é?
Chego a estremecer, sem resposta, tal que também mordo a bochecha.
— Sabe que não poderá usar das palavras de outrem eternamente, não sabe? — Seu tom modifica-se para algo que se assemelha ao cansaço, porém não acredito que seja o caso, pois ainda está cedo, e o vigor matinal é exaltado por cada professor da The Gentleman's Patch.
Por que, então, é o que sinto de sua voz?
Queria não me importar. Queria que ele não se importasse. Afinal, meus sentimentos dizem respeito somente a mim, e como seria diferente?
São perguntas como essa que me atormentam todos os dias, junto aos sons que não posso controlar, as cores que não consigo diminuir o tom, e as batidas em meu peito, as quais, certas vezes, não entendo como disparam tão fortemente.
— Terá de encontrar a própria voz, sr. Proofwell, se quiser fazer a diferença.
Concordo com um meneio do rosto, sem realmente prestar atenção, o mais singelo e breve que posso ser, e sinto alguns fios de meu cabelo castanho caírem sobre os olhos.
— Sugerirei que comecemos com uma análise de Jane Eyre. Talvez possa elucidar o senhor em questões como essa — diz. Sinto um sorriso em sua voz.
Arrisco um breve olhar. Realmente sorri, os lábios colados sutilmente e o peito coberto por um colete marrom, assim como seu sobretudo.
— Pode apanhar na biblioteca, ou gostaria de um exemplar de minha coleção?
Só desejo sair dali, então respondo:
— Irei até a biblioteca.
— Ótimo! — Ele une as mãos em uma palma e entrelaça os dedos no joelho. — Tente ser rápido, sim? Os outros rapazes já estão por despertar.
Despeço-me com aquela frase alongando-se em meus pensamentos, desenrolando-se em uma espiral própria de que, se havia algo que Dickens me ensinou, é que as pessoas são como elas são, e o sr. Weston torna-se a prova viva.
A cada dia, a cada hora, para minha mais profunda tristeza, nada muda.
Nada se altera.
É como se toda a esperança de que um dia eu poderia mudar, e voltar a ter aulas com os outros rapazes, se desfizesse por uma constatação porventura existente: o passado deixa marcas.
E essas marcas são cicatrizes na pele que não se pode esconder.
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