‹⟨ 9: A maldição de um príncipe ⟩›

Engole a única saliva em sua boca. Sua garganta sobe e desce, suas mãos, contra sua vontade, tremem. Ela sente medo e se condena por isso. Não quer sentir isso. Máscara sua postura, torcendo para a figura de seu pai não perceba a falsa impressão de coragem.

—você demorou pra vir. O jantar esfriou. Sua mãe fez com tanto carinho e você, sua ingrata vagabunda, não deu valor!—ri, com os dentes amarelos destacados no escuro-senta-manda autoritário.

—eu n-não...

—SENTA!!

Yen obedece, ficando na cadeira da ponta oposta. Ela tem a cabeça baixa, com as mãos entre as coxas. "Onde está aquela coragem?" ela se pergunta. O homem ri.

—olha pra você. Acha que vai conseguir? Acha que vai ser uma grande feiticeira como Ayo? Hahaha!—cospe na sua direção—você é uma puta sem coleira! Hahahahah! Uma nada! Vai ser empregadinha do palácio!

—chega, não sou obrigada a isso.

Se levanta, enquanto a figura ri sem parar. Se vira, abrindo a porta de entrada. Do outro lado, a fecha. Vê somente a porta solta de pé, com uma escuridão sem fim e o piso úmido. Distante, tem uma menina que aparenta ter sete anos. Ela está sozinha em uma cama, com vela no balcão ao lado. Surge seu pai, bêbado e drogado. Com os olhos vermelhos e trêmulo. Yen se aproxima, num desespero.

—sua pirralha inútil. Não sabe nem pegar água do poço direito.

—foi sem querer, papai!

—ah, é? Eu vou te ensinar uma lição. Puta que nem você deve ser maltratada!—o homem começa a puxar sua cinta, estralando antes de usar.

—não! Não! Não!—Yen grita assistindo aquela memória trancada. Se vira, correndo, fugindo para longe—eu quero sair daqui! Me tira daqui!

Seu pé é agarrado e ela caí batendo a cabeça. Se vira. Uma figura escura e esquelética, com grandes chifres quebrados, como galhos secos, dentes pontudos, olhos fundo cheio de escuridão, se levanta do chão.

—vem com o papai! Hhhahahahah!!!

Yen se irrita. O medo agora é levado, dando lugar a raiva e revolta. Ela tenta chutar o monstro, mas ele continua a subir pelo seu corpo. Agarra os braços da garota enquanto ela se debate. Abre a enorme mandíbula, liberando sua língua totalmente preta. Com o rosto virado, Yen morde os dentes de ódio.

Um brilho púrpura surge no fundo de sua orbe. Ela se vira, raivosa e cuspindo sua fúria. A garotinha com medo, não está mais ali.

—sai... DAQUI!!!—grita.

Uma explosão ocorre junto de seu grito. O monstro é obliterado. Toda a visão começa a ser destruída pelo poder de Yen, despedaçando tudo. Com a cor púrpura de característica. Enquanto ela se descontrola, do lado de fora, Ayo tenta conter a poder.

—aaaahh!! SAIAM DAQUI!! TODAS VOCÊS!!—as alunas correm para os corredores.

Yen está liberando seu poder, de olhos fechados, no mundo real e nem se dar conta disso. Ayo parece não ter força o suficiente. Na sala, chegam Yesken, Balter e Girdwalfd. Eles correm lançando seus poderes com o objetivo de conter o descontrole da garota.

Os olhos de Yen se abrem, com o intenso brilho púrpura.

—BALTER! PRECISA POR ELA PRA DORMIR!!—Ayo grita.

O poder da garota arrasta os quatro feiticeiros, que dão tudo de si para não ceder.

—PRECISO ABRIR CAMINHO!!

Balter então bate suas mãos, um escudo invisível surge. Começa a avançar na direção da garota, com dificuldades e a passos lentos.

—RÁPIDO, HOMEM!!—Girdwalfd grita, rangendo os dentes.

O vento projetado é maior que o de uma tempestade. O poder se transforma, em uma explosão roxa que ataca os feiticeiros, com vida própria ou, por vontade de Yen.

—NÃO VAMOS AGUENTAR POR MUITO TEMPO!!—Yesken grita também.

Balter alcança Yen, ficando em sua frente. Ele se assusta com o rosto da garota, que parece se descascar com o feixes roxos. Rapidamente ele toca a testa de Yen. A menina apaga e caí. Os feiticeiros caem juntos esgotados. Recuperam o fôlego e as forças.

—ah, temos que agradecer por ela não ser adulta ainda...—Yesken comenta sem fôlego e fraco.

Ayo respira, cansada, fechando os olhos. Suspira.

Yen desperta no susto em sua cama. Ayo agarra seus ombros.

—calma! Calma! Tudo bem agora!—a menina parece se acalmar, relaxando os ombros e diminuindo a respiração agitada—não precisa mais ter medo-Ayo é encarada.

—eu não estava com medo... Não naquele momento. Era raiva, ódio... O mais puro....

—você enfrentou e despertou um imenso poder, um poder além de qualquer um nesse lugar. Você tem ideia disso?

—mas o que adianta se não conseguir controlar?

—por isso estou. Você vê Irene, ela não se deixa ser comandada pelas emoções ou sentimentos, não é como nós.

—nós?

—mulheres como nós, Yen. Somos sentimentais, muito, mas, somos fortes, poderosas. É assim que você será, quando conseguir usar todo esse poder.

—como pode ter tanta certeza?

—eu vejo—Ayo se levanta, ficando pé—a partir de agora, reconheça quem você é. Yen de Wester, carregue esse nome com orgulho—Yen sorri—vamos. Temos a lição que irá definir sua força e de todas as outras.

Do lado de fora do palácio, o grupo de alunas acompanha Ayo. Entre todas elas, as que mais se destacaram até hoje, foram Irene e Yen entre as 7. O grupo acompanha a professora em uma intensa e forte tempestada que atingiu os arredores de Horizon. Elas levam consigo caixas de porcelana, delicadas, lindas e rosadas. Ayo sobe em uma grande pedra, puxando seu vestido para não enroscar. O vento leva suas tranças e ela precisa gritar para ser ouvida.

—hoje, definirá se são fortes mesmo!!—todas têm olhares atentos—prendam um relâmpago nessas caixas!

—isso é impossível!—uma aluna alega.

—NÃO!—Ayo diz em tom firme e ríspido—isso é magia—encara todas.

Ayo desce da pedra, dando lugar a aluna que sobe. A garota ergue a caixa aberta para o céu. As nuvens tremem e rosnam liberando suas gotas. Um relâmpago é atraído e atinge a caixa. A garota fecha a tampa, aparentemente conseguindo. Ela sorri, enquanto Ayo observa sem emoção.

De repente, a caixa explode em seu rosto, lançando seu corpo contra uma árvore. Ela chora com a deformação causada pelos estilhaços.

—próxima.

Agora, todas estão assustadas e apreensivas. São todas uma desastre, não conseguindo a tarefa. Irene, por outro lado, consegue, guardando o relâmpago na caixa delicada e frágil. Ela comemora, descendo da pedra. Mais alguns desastres de alunas, Ayo já estava esperando. Sempre há desastres.

A última é Yen. Ergue a caixa, com o vendo abalando as árvores menos ela. O céu anuncia a chegada do seu poder. Um brilho nas nuvens surge ao mesmo momento que um reflexo púrpura emerge dos olhos da garota. O relâmpago caí e logo é preso com facilidade na caixa frágil. Yen espera... Depois de alguns segundos, ela comemora com um sorriso para Ayo, que apenas acena.

Yen se espreita escondida pelas paredes da sala, se escondendo entre os cantos escuros. Observa Ayo trocar palavras com as 5 garotas que fracassaram. É impossível identificar quais são essas palavras, apenas que as meninas estão de cabeças baixas e escutam tudo. Todas parecem concordar com o que Ayo diz. A mesma se afasta, ergue suas mãos. Dos peitos das garotas, um brilho é arrancado, indo para as mãos de Ayo. Ela os lanças para o piso do palácio, que rapidamente absorve para si. Yen olha para as meninas, elas não estão mais ali, apenas seus vestidos vazios no chão e sem as donas.

—pode sair daí, porquinha.

Abre e fecha a boca. Foi pega no pulo. Saí das sombras, se aproximando se Ayo.

—o que aconteceu com elas?-pergunta.

—elas eram fracas, mas a essência está em todos. Horizon é pura magia, magia de muitos. E o poder da essência, não pode andar perdido pelo mundo.

—elas estão bem?—Ayo se vira.

—elas estão ótimas—se abaixa, recolhendo as roupas largadas. Entrega algumas para os braços de Yen—vamos. Nossas aulas ainda não acabaram.

As duas vão embora, deixando o local. Yen, apenas segue sua tutora. Afinal, ela se tornou um exemplo para a mesma. Mas, não um exemplo a ser seguido, talvez, mas, alguém para ser superado. A ambição corre pelas veias de Yen. A garota não quer ser mais uma, ela que ser a feiticeira de Halla e ela já está caminho que o destino escreveu.

Edward segue sentado em frente a um lago, um pequeno lago, com flores de diferentes cores no gramado verde e vivo. Há duas árvores em sua volta, fazendo uma fresca e aconchegante sombra. São altas e bonitas. A brisa leve bate em seu rosto.

O garoto, com as pernas cruzadas, se isola de tudo, querendo ficar só... Seus olhos estão vermelhos igual seu nariz, consequências da onda de choro que enfrentou. Ainda há algumas lágrimas, que escorrem pela sua bochecha corada. Encara o horizonte do mundo de elfos escondidos.

Ao longe, no campo verde aberto, entre as árvores que se movem com a brisa, está o estranho garoto que salvou Edward. Ele encara, admirando talvez, o garoto de cabelos brancos. De braços cruzados, o de cabelos pretos suspira. Seu peito sobe e desce com a camisa cinza de manga comprida costurada pela sua irmã. Uma mão feminina o toca no ombro, ele dá um pulo por consequência de um susto.

—ah, meu deus! Você me assustou!—põe a mão no peito.

A mulher sorri, ficando ao lado dele.

—você anda muito assustado, Loren—sorri. Mantém as mãos em frente ao seu ventre—como ele está?-os dois agora observam Edward.

—ah, eu não sei. Desde que eu contei o ocorrido, ele não saiu dali.

—quanto tempo ele ficou ali?

—duas horas...—encara sua irmã mais velha—estou com pena dele... Queria ajudar.

—ah, Loren, me orgulho do seu coração bom, mas eu acho que nisso, ele tem que se resolver sozinho-sorri pousando a mão no ombro do irmão—mas um apoio, um ombro pra chorar, é sempre bem vindo—o garoto mais alto que a irmã, troca olhares com ela, antes de voltar sua atenção para Edward—vá até lá. Você é um desconhecido, mas é o mais conhecido daqui.

Loren suspira. Desfaz seus braços cruzados e parte na direção do outro garoto. Sua irmã fica para trás, observando. Loren atravessa o campo, com o sol aquecendo sua pele. Sobe a lomba, que em cima está Edward. Chega ao seu lado e se senta, de pernas cruzadas igualmente. Presiona os lábios, coçando a cabeça, criando coragem para falar. Enfim encara a face tristonha do outro. O coração do maior se aperta com a dor do menor.

—hã, tudo bem?—pergunta inseguro. Recebe o olhar do outro—olha, eu sei que a gente nem se conhece, mas se precisar de um ombro pra chorar, eu não me...

É impedido de falar quando recebe um abraço, um abraço desesperado e triste, sem forças ou vontade, apenas desespero. O garoto chora em seu peito. Loren só consegue passar os braços pelas costas do mais novo, enfim, lhe dando um ombro para chorar.

Castiel tem uma coberta cobrindo suas genitálias e pernas, assim como os parceiros de cama se cobrem junto também. Glória fica deitada sob o peito do caçador enquanto Martin sob a barriga marcada. Castiel está totalmente aliviado e vazio.

—nem acredito que fodemos com um caçador—Glória comenta com um tom de vitória.

Ela faz desenhos circulares no peito de Castiel. Ele já está acostumado a ouvir isso, de homens, mulheres e outros tipos de seres também.

—sim—Martin acompanha, com a mão sobre o membro do outro, por cima da coberta—a Vanessa vai ver agora, aquela vadia. Não vai ser a única que deu pra um caçador—os dois riem. Castiel levanta uma sombrancelha, tirando os braços de traz da cabeça.

—"a única?" outro caçador passou por aqui?—questiona. Os dois trocam olhares antes de responder.

—hã, sim. Semana retrasada. Ele transou com a Vanessa e...

—não, não quero saber disso—interrompe Glória—o que ele estava fazendo aqui? Vocês sabem?

—bom, ele foi contratado pela rainha para matar uma besta da noite, mas desapareceu com a grana.

Castiel se levanta prontamente, saindo das cobertas.

—onde você vai? Podemos ter mais dessa noite—diz Martin, se espreguiçando na cama, como um gato manhoso.

—não—Castiel começa a de vestir—eu tenho mais coisas pra fazer agora—enfim, com toda a sua roupa e armadura.

Saí do quarto descendo os andares, chegando no bar onde está Darla. Lhe paga e então saí.

—volte sempre!

Caçadores não desaparecem sem fazer seu trabalho. Se aproxima de Destiny, onde a amiga o olha com suspeitas.

—não me julgue.

Logo Darla surge se aproximando, limpando as mãos em um pano de prato velho, o deixando sobre seu ombro em seguida.

—algum problema?

—eu preciso ver uma coisa—diz com o olhar para o horizonte—pode cuidar dela pra mim, por um tempo?—vira o olhar.

—claro!-sorri, com as mãos na cintura—100 crons.

—hum—resmunga.

—é o meu preço—levanta as mãos para o alto.

—tá—lhe entrega as moedas, que tem sua nova dona pulando de alegria.

—eu volto logo, amiga.

Retira sua bolsa da cela, a colocando nas costas. Logo, segue o caminho para o castelo.

Depois de um tempo na caminhada, chega aos portões da muralha que cerca o castelo. Os soldados cruzam suas lanças impedindo a passagem.

—eu quero ver a rainha.

—quem é você, cão?—pergunta um dos homens. Castiel suspira com os olhos pra cima.

—sou Castiel de Yosoda, o caçador. Soube que a rainha está tendo problemas com pragas—os soldados trocam olhares.

Uma sala com uma mesa retangular enorme, com várias cadeiras de madeira antiga. Há dois soldados na porta, o vigiando. Castiel sente cheiro de covardia deles de longe. Só com um lançar de uma pedra, seria o suficiente para fazê-los correr, isso é certeza.

A sala é sem vida, mas há uma grande refeição posta e com certeza isso não é pra fazer uma boa recepção para ele. Aguarda sem seu pano, expondo seu rosto e só com sua armadura (grande parte de couro preto, pois é mais fácil da movimentação) e sua única espada nas costas.

Há somente uma janela com grades, por onde um céu cinza com nuvens que cobrem a luz do sol é visto.

As portas de abrem.

Dali, uma rainha confiante e bela caminha acompanhada de dois oficiais e um homem com aparência de 30 anos, junto de uma mulher de cabelos ondulados, todos desconhecidos para Castiel. A rainha, com uma tiara na cabeça e um belo vestido passa pelo caçador. Enfim se senta na cadeira no início da mesa e ao seu lado, a mulher fica na sua direita, de pé e o homem, com trajes elegantes e jeitoso, senta na mesa também, ele começa a se servir de uma refeição.

—então—a voz firme da mulher saí—a que devo dessa oportunidade de ter mais um caçador em meu castelo?—Castiel sente um ar ácido na fala. Molha os lábios com a língua.

—eu sou Castiel—deixa sua voz rouca sair—e vim aqui para oferecer meus serviços—a mulher ri.

—Castiel, não é? Já ouvi falar de você. "O Lobo Negro", "o meta nojento", "um assassino." Vários adjetivos para sua pessoa—ele permanece em silêncio neutro. A rainha tem sua mão no queixo antes de falar—diga-me, Castiel: por que eu aceitaria seus serviços? Sendo que seu colega, desapareceu, ou melhor, fugiu com todos os 2 mil crons que lhe paguei

—porque, minha rainha—lança um leve sorriso de canto que logo se desfaz—eu vou cobrar um terço do pagamento e não peço adiantado, só depois de ter feito o serviço. E claro, aceito também um pedido de desculpas—o tom é cirúrgico e sério.

Os olhos da rainha serram e depois, encaram o homem sentado na mesa. Esse, por sua vez, parece não conseguir encarar aquelas orbes, fugindo de qualquer contato vizual com a rainha. Ele engole a comida presa na garganta. Castiel apensas observa.

—não—fita caçador—irei lidar com isso da minha forma e não vai ser com mais um charlatão-Castiel nada fala, apenas escuta a voz agressiva da rainha—senhores!—dois oficiais abrem as portas—arrumem uma companhia que irá acompanhar este cavaleiro até a fronteira

—sim, rainha Morgana.

Os dois oficiais então se aproximam do caçador, o levando para fora. A mulher de cabelos ondulados dá um último olhar curioso para ele.

Por uma estrada de terra, cercada pelas árvores escuras da noite, Castiel é acompanhado por dois soldados em seus cavalos. Pelo frio que a noite faz, Castiel veste seu manto enquanto anda sem olhar para trás. A neblina está ficando forte e tampando a visão, só o silêncio da mata acompanhado do vento que balança as árvores mórbidas. Castiel encara os lados, com os olhos serrados e cautelosos. Está quieto demais...

O corpo dos soldados amolece, perdendo forças e equilíbrio. Seus olhos fecham e seus corpos despencam dos cavalos. O único de pé ali se vira rapidamente, retirando sua espada das costas. A segura com as duas mãos, erguendo horizontalmente. Suas orbes amarelas procuram qualquer movimento.

—caçador.

Ouve uma voz que parece vir de muitos lugares, sobrepostas umas sobre as outras. Em meio a neblina, uma figura feminina encapuzada aparece. Se aproxima arrastando sua capa, que cobre o vestido azulado como o mar. Castiel firma os dedos sobre o cabo. A figura retira seu capuz, revelando ser a mulher de cabelos ondulados da corte da rainha Morgana.

—você é uma bruxa da floresta agora?

—feiticeira—corrige.

—bruxa—insiste. A mulher suspira.

—eu sou Irene, uma feiticeira enviada por Horizon para a corte.

—e o que quer? A rainha fez um teatro só para depois mandar sua bruxinha vir me buscar e pagar para matar seu monstro?—baixa a espada—isso já é clichê.

—nada de clichês. Meu dinheiro, minha palavra. E não quero que você mate o monstro, quero que me ajude a salva-lo.

Yen leva o pincel até seus lábios. O move sobre sua carne, os pintando com o vermelho vivo.

—hum—se analisa no espelho de seu quarto.

Passa o polegar pela sua bochecha esquerda, ela ganha uma cor corada, nada muito exagerada, bem sutil na verdade. Faz o mesmo com a outra bochecha. Passa levemente sua mão sobre os olhos, e uma sombra natural e marcada, brilhante, surge. De sua pele, é apagada qualquer imperfeição aparente quando ela passa a mão. Sua sombrancelha está feita, seus cílios bastantes chamativos e longos. Pega uma gargantilha do balcão e leva para seu pescoço.

—deixe que eu ajude.

Ayo surge de surpresa, assustando levemente Yen. Ela prende a gargantilha na mais nova. Finalmente, está toda pronta. Com um belo vestido cinza, com detalhes pretos, uma manga curta, que deixa seus ombros expostos, além de valorizar o decote. É assim que ela gosta de se ver. Linda, perfeita e livre por sua própria vontade. Ela cresceu, não mais uma menina de 14 anos, agora é uma mulher por inteiro. Passa as mãos sobre os dedos e então, suas unhas pontudas e compridas são pintadas por um preto brilhoso. Seus olhos púrpuras se apagam, deixando o castanho natural voltar.

—está perfeita, Yen.

A tutora comenta atrás, com as mãos juntas. A mais nova sorri.

—eu sei. Essa noite, será perfeita.

—tenho certeza. Todos os aprendizes estarão lá depois da iniciação. Os reis e rainhas logo mais vão chegar para o baile, vindos de seus reinos.

—menos o do leste, aposto.

—é—suspira—como sabe, nossos enviados não são bem vindos em Elden.

—huh.

—mas, outra coisa que queria dizer...—Ayo toma cuidado em suas palavras, pois sabe o jeito que Yen é—é que você não vai para Tamarã.

—o quê?—se vira, exaltando sua voz.

—o Pilar não concordou. Em vez disso, você vai para Darkvin.

—ah!—levanta a cabeça, cobrindo os dentes com o lábio inferior—eu não vou mesmo! Não em um lugar onde o rei fará de sua feiticeira sua escrava sexual. Sabe muito bem que aquele velho tem o tesão de um búfalo e o coice de um cavalo para com as mulheres.

—eu sei o que você queria, Yen. Mas analisei e percebi que essa seria a melhor escolha para você—mantém o tom calmo e controlado.

—não foi isso—se aproxima—o Pilar subjugou você, não foi? É. A poderosa Ayo, foi rebaixada—a outra suspira.

—Girdwalfd revelou seu surto daquela vez. Isso fez o pilar mandar você para um lugar onde sua instabilidade, se acontecer algo semelhante de novo, será cortada pelo pescoço, pelo próprio rei. Adivinha o resto.

A garota morde os lábios tão forte, mas tão forte, que sente o gosto metálico em sua boca. Seus punhos estão serrados e Ayo sente a raiva da outra, a fúria, a revolta. Os olhos dela chegam por um momento, a ficarem púrpuras. Então, ela suspira, fecha os olhos e volta para o controle.

—ok—diz—se é assim que você quer.

Usando sua magia, como Yen aprendeu, ligada a Essência (assim como tudo nesse mundo), Ayo desaparece do quarto.

Quando isso acontece, a raiva volta para o coração de Yen. Serra seus punhos, mordendo os dentes. Seu corpo treme, seus olhos são cegos pelo ódio. Suas orbes tomam a cor púrpura de volta. As velas começam a falhar com seu fogo, o lustre acima do quarto começa a balançar. O quarto todo parece sofrer pela força sobrenatural do ódio da mulher. Então... O espelho do balcão trinca, se rachando por um corte. Todo o quarto volta para seu natural. Os olhos de Yen voltam para seu castanho de nascença.

Isso, não vai ficar assim...

—há exatos seis anos, cavaleiros começaram desaparecer ao redor do castelo acima da cidade, depois, cidadãos de toda Montór—Castiel acompanha Irene pelo corredor de uma estrutura antiga e subterrânea, onde a mesma montou um recinto, onde deixa suas poções, elixir, ingredientes e tudo que lhe for útil—os oficiais da rainha Morgana logo perceberam que a besta vinha da cripta, onde a irmã do meio da rainha, Abdala, tá enterrada. Havia rumores que ela tinha um amante as escondidas.

—estava grávida?

—se estivesse, o bebê seria o herdeiro, já que Morgana nem o mais novo, Vister, tiveram casamentos.

—aquele que estava com vocês?

—sim. A família fugiu do castelo e a rainha tenta acabar com o monstro, mas sem sucesso, e o povo já está incitando revoltas. Depois que o rei de Darkvin foi deposto, o Pilar não podia deixar o mesmo acontecer aqui.

—karonts são aberrações, não existe cura.

—ainda bem que não é um Karont.


Castiel serra os olhos.

—3 mil crons se me dizer o que matou esses homens.

Seguiu Irene por um corredor de pedra antiga e amarelada, iluminado por tochas. Adentraram em uma sala escura, com velas sendo a única luz presente. Várias espécies de banheiras retangulares de argila, com corpos banhados no gelo, com aparência pálidas e mórbidas. Castiel troca olhares com a feiticeira. Caminha com seu manto cobrindo os ombros, a passos lentos e cuidadosos, com um olhar analítico para cada homem morto ali.

Um dos mortos chama sua atenção. O último na linha reta. Um homem barbado, cabelos curtos e topete, mas sua boca está aberta e sem a língua. Há um cordão em seu pescoço. Os dedos vestidos das luvas de couros de Castiel, couro preto como os pelos de um lobo negro, pousam sobre o cordão, desenhado e seguindo o caminho onde há um encontro, o lugar onde um medalhão fica. Castiel sabe muito bem que medalhão é esse. O desenho entalhado no metal de Katilun, um lobo raivoso e expondo suas presas. Da casa do Lobo.

Puxa o colar, fechando seu punho em frente a sua face, de olhos fechados, mordendo o lábio inferior. Se vira, encantando Irene com os olhos amarelos, olhos os quais faz a feiticeira tremer.

—você quis esconder que a besta derrotou um caçador. Deixou pensarem que havia fugido com o dinheiro—se vira para o corpo.

Suas mãos penetram as pedras de gelo, se aprofundando e procurando o corpo do caçador morto. Acha um buraco em sua barriga. Adentra com suas mãos, puchando e fuçando as entranhas do cadáver. Irene faz uma cara de nojo, devido aos sons estranhos e viscosos que isso provoca.

—ele está sem o coração, pulmão e a língua—trás suas mãos de volta—só uma criatura come tão especificamente: Ukar.

—Ukars são lendas.

—são muito raros—diz encarando a mulher atrás de si—um Ukar só é criado através de uma maldição.

Os olhos de Irene se perdem, um estalo em sua mente ocorre. Engole sua saliva.

—queriam Abdala morta.

—mhum. Mas a maldição não parou na Abdala, o filho dela se tornou um monstro.

—filho?!—exclama com a surpresa.

—Ukars são machos—Castiel encara o corpo do irmão morto. Solta um suspiro—o Ukar é o príncipe.

[...]

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