‹⟨ 12: Destino e caminhos misteriosos ⟩›

À passos calmos, os dois seguem em silêncio pelo corredor longo iluminado pelas tochas.

A anciã quer que Edward fale primeiro, no momento em que se sentir confortável e seguro com sua presença. Não quer pressiona-lo ou deixá-lo desconfortável, no tempo certo. Tem as mãos juntas enquanto anda, sobre seu ventre em frente ao vestido branco com linhas douradas e manga curta.

Edward range uma unha na outra, engole a saliva. Como começar? Ela não é uma idosa, como pensei. Muito jovem.

—ahn, hã,—limpa a garganta. A elfo ao lado sorri com graça—qual seu nome?

—eu sou Aredhel, prazer.

—prazer... Eu, eu sou Edward—ela acena, sorrindo—eu achei que você fosse um pouco mais velha. Eles falavam de uma anciã e tudo...

—ah, não. Não sou assim. Bom, tenho 570 anos, mas estou longe de ter uma idade aparente assim—ri.

—nossa, eu tenho só 17.

—jura? Se fosse um elfo, teria a idade do Loren.

—sério?—se antena—quantos anos ele tem?

—hm, 80 anos.

—ah, nossa!—se espanta.

—nós fomos a primeira raça a existir, somos a mais antiga. Estamos aqui desde o início de tudo, quando o próprio Ahady criou nosso mundo—param o andar. Aredhel retira uma tocha ao lado, ilumina a parede marrom parecida com geso. Nela, há desenhos antigos e quase  inexistente, gastado pelo tempo—sabe, Edward, os relatos que Loren e suas irmãs me passaram, são muito parecidos com relatos da antiga era de Halla, a era de ouro do nosso mundo. Ahady criou nosso mundo, a essência, uma força primordial de tudo se mostrou em nossas vidas e destino. Há seres sensíveis ao seu poder, e os primeiros heróis existentes foram chamados de Cavaleiros Prateados, seres tão poderosos que eram o pequeno concelho de Halla e todos eram governados pelo mais poderoso entre eles—iluminava as paredes, mostrando a história gravadas nelas. Edward, tinha seus olhos brilhantes e com certo encanto para suas palavras—obviamente, o bem não reinou sozinho. O lado das trevas surgiu traiçoeiro, liderados por um tirano de nome Zarkharon. Com suas manipulações ele dividiu causou um conflito que foi a ruína da família do rei de Halla e líder dos Cavaleiros. Ele aproveitou a fraqueza do concelho, causou a intriga entre Elfos e os homens, derrubou os heróis Prateados e formou seu império liderando os Sombras. Bem e mal, sempre lutaram, não importa os caminhos escolhidos. A era de ouro acabou, Ahady se foi, o império reinou até ser derrubado pelos últimos cavaleiros da época, então todos se foram... Mas o mal não morre, ele aguarda o momento certo para atacar.

—nossa...!

A atenção do menino se concentra num desenho que já viu antes, por esse mesmo lugar, o desenho de um leão glorioso e poderoso. Parece o símbolo desse povo, o símbolo usado pela era de ouro. Essas histórias, encantam o garoto de tantas formas que é impossível seu coração não bater por mais descobrimento sobre este passado que se perdeu no mundo.

—existe... Uma profecia—Aredhel produz sons agudos de seus sapatos enquanto caminha. É seguida pelo garoto enquanto lhe mostra as pinturas—de alguém, alguém nascido com o poder dos Prateados, esse alguém, seria responsável por salvar ou destruir nosso mundo...—fita os olhos azuis do menor—e eu acredito que é você, Edward.

Um arrepio navega pela espinha do garoto. Fica perdido, atônito e sem ter algum ponto fixo pelo qual olhar. Engole a saliva na garganta, molhando os lábios com sua língua e bagunça seus cabelos com as mãos.

—isso... Como isso..? E-eu...—sua respiração se acelera.

—nunca foi visto alguém com um poder como o seu, desde o final da era.

—então, meu-us sonhos são por causa disso?

—eu acredito que sim—ela respira fundo, pressionando os lábios—eu posso te ajudar a entende-los. Posso te guiar para entender o seu verdeiro destino. Você aceita a minha ajuda?—estende sua mão com linhas brilhosas douradas.

Uma reação mágica, um brilho ondulado e dourado dança na palma da anciã. Os olhos dela se iluminam pela mesma cor, mas muito claro, quase se misturando com o branco do resto dos olhos. Edward estende sua mão, com sua palma levantando a mesma reação mágica, mas de cor azulada fraca e branca. O garoto se encontra concentrado e automático. O branco dos olhos fica preto, como uma tinta, e suas orbes, ficam da cor de um raio branco azul fraco, com o centro preto. Os dois se fitam enquanto encostam suas mãos.

Mexe seus dedos e testa as juntas de seu braço. Uma essência púrpura navega pelos seus dedos, logo se apaga. Com o braço posto de volta ao seu lugar (depois de muita dor), Yen se levanta, caminhando pelo campo florado e movimentado pela brisa fresca do ar.

Caminha pelo campo florido, chegando em um pequeno lago ao lado de uma grande rocha. Com uma concha formada pelas suas mãos, lava o rosto molhando levemente seus cabelos castanhos. A brisa fica mais gelada pela umidade em sua face. Olha para seu reflexo na água. Retira seu casaco, por não sentir mais frio. O portal a deve ter mandado para outra parte de Halla, onde a primavera reina.

Olha seu reflexo de novo. Avista uma figura careca refletida, que lança uma adaga. Baixa sua cabeça, fugindo da lâmina mortal. Encara o homem que caminha logo atrás a passos firmes e carregando uma espada na mão direita.

Ele crava a espada na terra, depois lança o braço para frente, arremessando pedras da terra. Yen estende as mãos, criando um escudo púrpura, bloqueado e aguentando toda a pressão do ataque.

—ah!

Yen bate os pulsos, uma aura rocha surge em seus braços. Gira seu corpo, lançando a água do lago que imita a forma de uma serpente gigante com olhos púrpuras. O monstro corre na direção do feiticeiro. Abre sua boca com quatro presas grandes, o engolindo por inteiro. Yen ergue seu braço, subindo a criatura em uma grande esfera de água, que afoga o cobrinha. Ela move seus dedos, com a cor púrpura navegando por eles. Seus olhos brilham intensamente.

Em um último ato de desespero, o feiticeiro usa seu poder, criando uma cor verde e bate contra a água, a congelando e explodindo em uma fumaça branca e gélida. Ela tampa a visão da feiticeira.

Yen fica atenta, acendendo suas mãos em um poder roxo mortal. Morde os dentes, impaciente.

Cobrinha surge em cima da grande pedra ao lado, de olhos esverdeados. Lança uma rajada de poder, a qual atinge o chão ao lado de Yen, a lançando para o lado. Ele pula, caindo em cima dela. Ela tenta fugir, mas é arrastada, chuta o rosto do homem mas suas pernas são presas. O homem forma uma espada, e quando está prestes a cravar no corpo da mulher, Yen bate a palma da mão esquerda no chão, criando um portal por onde ela cai, levando consigo o feiticeiro inimigo.

Ela cai em um céu escuro e tomado por uma tempestade, despencando no ar enquanto é molhada pela chuva. Os trovões são agressivos e os raios impacientes, cortando o céu e atingindo o oceano escuro abaixo. Yen olha pra cima enquanto cai em queda livre. O cobrinha continua em seu pé. Ela lança uma rajada púrpura, um raio de poder contínuo mas o inimigo faz o mesmo com seu poder esverdeado. Os dois competem em quem vai ceder primeiro, enquanto giram no ar agressivo e sem trégua. A distância entre eles diminui, ele ataca Yen. Ela o chuta, o acertando com os dois pés. Agarra o calcanhar dela, subindo pelo seu corpo. Uma chama laranja surge na mão da mulher. Ela esmaga contra o rosto do outro, que começa a gritar pela dor.

—AAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!

Segura seus dois braços, a esticando. Yen sente dificuldade em manifestar seu poder.

—você morre aqui, sua puta!—diz em meio ao vento dificultoso.

—te garanto que hoje não é o dia!

Seus dedos se esticam, soltando faíscas elétricas. O céu ruge, criando um raio poderoso. A luz agressiva percorre as nuvens, cortando entre elas antes de cair atraído por Yen. Ele atinge os dois feiticeiros, lançando ambos para lados opostos.

Distantes e em uma vantagem, Yen aproveita a distração pela recuperação do outro, então invoca mais um relâmpago, que ela segura. Carrega com as duas mãos, alimentando mais o poder, criando um ataque mais potencial e totalmente mortal. Lança contra o outro. O raio corta seu peito, o atravessando por completo e por consequência, queimando sua pele o deixando em carne viva. Ele continua em queda livre, mas desta vez, sem vida alguma.

Yen volta a olhar para baixo. Usa as gotas da chuva para formar um novo portal oval no seu caminho. Passa por ele em uma velocidade alta. É arremessada para o outro lado, rolando por uma areia molhada e salgada.

—au!

Com o rosto nos grãos de areia, ela se levanta, se encontrando em uma praia. Recupera o fôlego. Adrenalina em seu corpo foi tanta, que ela nem percebeu uma adaga cravada em sua lateral.

—merda.

Segura o cabo. Conta até três mentalmente antes de puxar e a dor bater em sua porta. Rasga a saia do vestido, tira a parte de cima e amarra o trapo o mais apertado que consegue, em volta de si contra o ferimento. Não consegue usar seu poder de cura toda hora, é um feitiço muito desgastante que pode vir a ser mortal. Vestida de novo, olha para os lados, suspirando. Não faz a mínima ideia de onde está. Morde o lábio inferior. Arranca agressiva o colar de seu pescoço que ganhou em Horizon. Encara por alguns segundos, o metralhando com seu ódio e fúria. O arremessa na areia, virando as costas e seguindo pelo caminho, agora, pelo seu próprio caminho.

Edward abre seus olhos, o brilho branco de seus olhos se apagam, voltando ao natural. Um vento fino e leve bate em seu rosto, movendo pequenos grãos de areias do deserto branco. Levanta o olhar, enxergando a arvore brilhante e azul, com a água natural em seu pé. Encara o céu estrelado, que parece mais vivo do que nunca no mundo normal. O céu no alto, está escuro, mas em suas extremidades um roxo púrpuras bonito e gracioso se estaciona.

Um ponto de brilho se desgruda da bela árvore, flutuando e rodopiando ao redor de Edward. Ele ergue a mão, tentando tocar, estendendo os dedos, mas o pequeno brilho voa em disparada para o sul de suas costas. Edward rapidamente se levanta partindo em uma corrida atrás dele. Se deixa guiar, subindo uma duna, afundando os pés nas areias claras do lugar. Em cima do topo, avista uma figura coberta por um pano abaixo, com um espada nas costas.

—o quê?—o garoto questiona o pequeno brilho.

O ponto de luz parte na direção da figura misteriosa. Edward o segue ainda com ponto de interrogação na mente. Desce a duna, correndo estabanado na direção do homem. Com a aproximação, o reconhece de seus outros sonhos. Fica a pouca distância do mais alto, com o ponto de luz azul entre eles.

—você...

A figura vira os pés, ficando de frente para o jovem garoto. A figura encapuzada sobe suas mãos com luvas pretas até o capuz, o puxa revelando seus cabelos um pouco volumosos, com algumas mechas vermelhas na nuca. O que mais chama atenção de Edward são os olhos amarelos que brilham na noite, como de algum lobo. A fisionomia parece de alguém entre os 25 e 30 anos, mas o ar que transmite é de alguém muito mais velho e maduro. Seu colar com a figura de um lobo reflete o brilho do ponto azul. O vento movimenta os cabelos de ambos, enquanto se encaram, frente a frente. A respiração de Edward fica leve, subindo e descendo o peito e ombros. Seus lábios tremem e o coração se acelera. Sua mente é invadida por uma familiaridade, alguém que conhece, alguém que transmite segurança.

—encontre Castiel de Yosoda, ele é o seu destino.

A figura diz sob as sombras e o brilho azul ao lado reage. Seus olhos se encaram por algum tempo, antes de tudo se apagar e ficar preto.

Edward volta para o corredor com Aredhel, as mãos desfazem o contato. Os olhos de ambos se apagam.

—você enxergou? Enxergou seu destino?

—sim... Quem... é Castiel de Yosoda?—encara as orbes da elfo.

Segue pela estrada de terra pedrosa, carregando sua bolsa de couro preta nas costas, segurando a alça pela mão esquerda. Chega até a ponte de pedra parando os passos quando avista Morgana e um grande grupo de soldados, na entrada do antigo castelo. Ela veste uma armadura prateada, com uma coroa dourada e capa vermelha. Os soldados acendem suas tochas pelo início da noite iminente. Castiel suspira, expremendo o punho direito. Deixa sua bolsa encostada em um canto perto do pequeno muro. De dentro, retira sua espada de Katilun. Volta pro centro, enquanto os soldados sacam suas espadas igualmente. Morgana desce se seu cavalo branco, caminhando na direção do caçador, que vai na sua direção também. No meio da ponte do antigo castelo da família real, eles se encontram, frente a frente.

—já está partindo para a violência? Sabia que não ia desistir, com o que Irene me disse—diz ao outro.

—e o que ela disse?

—huh, me disse para confiar em você—fica em silêncio por segundos—...—seca os lábios com a mão—sabe, em algum lugar, acho que sempre soube que aquele monstro é meu sobrinho. Talvez por isso nunca consegui decretar morte certa...

—o sentimento é uma marca que sempre vai ficar.

—isso vai dar certo? Pode ser sincero—diz com insegurança.

Castiel dá dois passos mais pra frente, ficando mais próximo.

—eu não sei—balança a cabeça enquanto responde.

—o meu...—busca palavras, mas parecem estar presas em sua língua, sendo difícil e áspero para pronúncia-las—... O meu sobrinho—brilha os olhos com lágrimas—voltará ao normal?

—ele vai precisar de cuidados. Ele viveu como um animal. Ele só conhece a raiva e a fome.

A outra engole seco, baixando a cabeça. Castiel passa o olhar entre a rainha e os soldados atrás. Suspira. Caminha até sua bolsa, guarda sua espada, em resposta, os soldados baixam suas guardas. De dentro, ele tira um pingente, com a figura de um lobo branco com os olhos vermelhos de um rubi. Encara em sua palma por segundos, suspirando consigo, soltando o ar áspero pela boca, com ar sendo visto pelo frio da noite. Ergue o cenho, com a decisão já tomada. Da passos de volta até a rainha. Estende o pingente. Ela retira suas luvas, segurando com os dedos nús.

—o que é isso?

—é pro príncipe. Se eu conseguir, é um presente.

—acha que não vai sobreviver.

—não é a primeira vez que tento salvar alguém que é visto como um monstro.

—o que houve com a pessoa?

—ela morreu.

Morgana encara por segundos, com uma lágrima fujona escapando pelo canto do olho esquerdo. Ergue o olhar, encarando cachoeira ao lado.

—eu e Vister tentamos resistir, tentei me afastar... Mas não consegui—Castiel escuta suas palavras—e agora, eu carrego o fruto dessa relação—pousa sua mão em seu ventre—é meu filho, só meu, depois que Vister fez...—suspira—o amor, tem seus brilhos, mas também lança muitas sombras. Eu o invejo. Você vive, e nunca sente nada por ninguém.

Os olhos amarelos o encaram, indo para o lado e depois voltando para a rainha. Castiel controla sua respiração e não diz nada, apenas caminha até sua bolsa a segurando em suas costas.

O grupo de soldados se aproxima, levando o cavalo da rainha. Ela monta no animal.

—boa sorte, caçador.

O grupo passa por Castiel, levando a iluminação das tochas, deixando o caçador só. Encara o chão, com sua mente vagando pelas memórias ignoradas... Suspira. Levanta o queixo, encarando a lua que está próxima de atingir seu auge.

No quarto de Abdala, Vister acorda, com um grande machucado no rosto. Amarrado no pé da cama, ele olha o recinto, começa a se agitar, batendo as pernas e pedindo para ser liberto. Castiel adentra o quarto, passando com sua armadura de couro exposta, com a espada reluzente nas costas. Ele atravessa o local, ficando em frente a um balcão do quarto abandonado. Ele termina de fazer seu último elixir, espremendo a última erva.

—ei, ei, ei! O que eu tô fazendo aqui?! Me tira daqui!—Castiel não responde—por favor! Eu te imploro! Caçador, isso é loucura!

O caçador caminha até a janela, ficando de costas encanado a lua próxima de seu topo.

—preciso que me diga como eu quebro a maldição.

—o quê? Não! Eu não...

—então, aguarde e conte para ele quando chegar—o rosto do caçador coberto pelas sombras encara por cima do ombro.

—eu não queria, eu apenas queria que ela nos deixasse em paz! Eu amo a Morgana...—encara Castiel, misturado em raiva e medo—me tire daqui, é uma ordem!

—me diz como eu quebro a maldição.

Vister bate a cabeça contra a cama, como uma criança birrenta. Lambe os lábios os pressionado, perto de morder até sangrar.

—A bruxa, a mulher pra quem eu pedi, estava fugindo de Horizon, disse que eu precisava cortar a garganta de um bode branco na lua cheia, e beber seu sangue e apenas recitar palavras, até o primeiro raio de sol. Apenas isso que ela me disse!

—quais eram as palavras?

—eu não lembro...

Castiel o encara, se aproximando dele, ficando na sua altura decaída.

—e-eram, eram em uma língua antiga, dos antigos cavaleiros. Eram assim:—engole o choro, parando as lágrimas—la suerta de caliko, invadie ckon krvam em kull eiét ntwi varvio. En quiso morte, yai croço brainar—encara as orbes amarelas.

Castiel recita as palavras em sua mente, analisando cada letra e sílaba. Busca na biblioteca de sua cabeça, conhecimentos antigos, de quanto foi obrigado na adolescência a estudar sobre diversas línguas de Halla, inclusive, a língua dos Prateados antigos. Entende as palavras e o significado do texto. Rapidamente se levanta, correndo apressado até o balcão, agarrando seu elixir.

—o que?! O que foi?! Eu já te contei tudo! Me tira daqui, eu posso te ajudar!!—o caçador retira a rolha do vidro com os dentes, derramando o líquido garganta abaixo.

—ao menos que consiga fazer o terceiro olho de um Ukar encarar o primeiro raio de sol, não pode me ajudar com nada!

As veias de seus olhos saltam, brilhando amarelo com os olhos assumindo características de lobo, um lobo negro. Vister encara o nada, percebendo o plano do caçador.

—vai lutar com ele até o amanhecer...

Na cripta abaixo do castelo, a lápide da princesa falecida é aberta, raspando o mármore rochoso, com garras pontudas de dedos tortos se espreitando pelas frestas. Um grito, grosso, forte e abafado ecoa, navegando pelos corredores do castelo por um eco. O grito parece um som de dor e desespero, faminto e animalesco, mas misturado com um ser humano, alguém preso em uma jaula buscando por libertação.

Vister é paralisado ao escutar isso, nem percebe quando Castiel sumiu, desaparecendo do quarto.

—não me deixa aqui! Por favor! Vai deixar um homem morrer assim?!

Você não é um homem.

Passos ocos de cascos de bode batem contra o piso, subindo escadas nas duas pernas tortas. Eles param, o vento frio e assombroso se faz presente pelas janelas de vidros quebrados e grades enferrujadas, caindo aos pedaços. As cortinas velhas e rasgadas se movem induzidas por ele.

De repente, um peso cai no tecido da cama, atrás das costas de Vister. Estalos de dentes são emitidos enquanto grunhidos acompanham os sons macabros. O focinho alongado, com o nariz de uma mistura de cachorro e cavalo chega até o ouvido direito do príncipe. Abre sua boca, com quatro dentes compridos, em cima e em baixo, com o resto sendo de tamanhos médios, mas todos igualmente pontudos, afiados e serrados, além de carregar um cavanhaque de pelos esticado, lembrando um bode. Vister chora, rezando para ser salvo, para um milagre acontecer e ele ser livrado da morte certa. A língua esticada e pontuda se ondula, emitindo a fumaça do bafo quente da criatura, com um som estalado e forte. A criatura desaparece.

Vister fica sem entender, olhando para os lados, procurando a criatura. O silêncio o conforta, por presumir que o monstro foi tocado pelas suas orações e desistiu de mata-lo.

Ukar pousa sobre seus cascos na frente dele, com suas garras de quatro dedos se cravando no estômago de Vister. Seus braços musculosos de pele enrugadas se abrem, abrindo o estômago e as costelas do príncipe, em um estalo forte e alto, como uma tranca de cadeado. Litros e litros de sangue são expelidos juntos de suas tripas. O monstro retira um dos órgãos que mais o agrada, levado consigo como um lanche para comer no caminho.

Os passos de cascos descendo o corredor do quarto abandonado ecoam. Termina de devorar o coração que levou de sua última vítima, limpando os lábios com a língua, mas manchando o chão com pingos de sangue que escorrem pelas suas garras. A lua cheia brilha atrás de si, iluminando e destacando o monstro. Ele grita, erguendo o focinho, emite um grito que parece um búfalo, urso e tigre, misturando tudo em um só. Um grito absurdamente alto e forte. Fica em duas patas, ficando contra a luz do corpo celeste, com os chifres tortos de bode se destacando. A grande criatuda, de 2 metros e 90 baixa a cabeça, encontrando Castiel no pé da escada, de punhos serrados, encarando o monstro, com os olhos de lobo brilhantes no escuro. Esses, por sua vez, encaram um terceiro olho branco na testa do monstro, sendo totalmente ao contrário em cor dos olhos pretos normais. O monstro grita para o caçador.

Castiel retira de seu cinto dois fios metálicos, com pesos redondos em cada ponta. Começa a gira-los, chamando a curiosidade do Ukar. Joga na direção da criatura, prendendo seus pés e braços junto ao tronco. O monstro cai em agonia, pela queimadura que o metal Katilun causa a sua pele. Em uma adrenalina pelo escape, ele se solta arrebentando os arames. As garras se esticam enquanto o monstro se apoia nas quatros patas. Corre, pulando na parede, pro chão, descendo em velocidade alta e salta, na direção de Castiel.

—merda.

Pragueja antes do monstro cair sobre ele. Castiel segura suas garras superiores, enquanto o monstro tenta morder seu rosto ferozmente e babão. Castiel coloca seu pé contra a cintura do Ukar, e então, o joga pra trás, o fazendo atravessar uma parede de pedras. O caçador logo fica de pé, esperando por mais um ataque.

A criatura o pega de surpresa, batendo com uma cabeçada, usando os chifres e crânio duro, fazendo Castiel ser lançado contra a parede.

—ahrg!

O monstro o agarra por trás, pelos ombros, o joga para outro lado, o fazendo rolar pelo chão antes de se equilibrar de pé. O monstro corre num bote nas quatro patas. Castiel aproxima as mãos, criando uma esfera de poder quase invisível e a joga na direção do Ukar, o fazendo ser lançado para muito longe, ficando atordoado na queda. Até a manhã.

A parede de pedra cai pela passagem do corpo do Ukar. O monstro se levanta, se curvando em um som agressivo. Ele avança, Castiel desvia, o batendo contra a parede do corredor cinza. A criatura se levanta, tentando acertar golpes no outro. Caçador, por sua vez, desvia aplicando socos nas laterais do corpo do monstro, o que faz ele gritar de raiva. Acerta um tapa em Castiel, que se não tivesse se defendido com os braços, teria tido seu rosto arrancado, mas, foi jogado contra a parede. Se apoia nela, lançando o braço esquerdo pra frente, com o poder invisível atingindo a criatura e a fazendo bater contra as paredes e o teto, caindo bem afastado dele.

O caçador caminha em passos pesados e punhos fechados. O monstro se levanta com mais raiva e disposição em matar. Seus golpes acertam o ar graças aos desvios de Castiel. Retira sua espada das costas, trocando o cabo pela lâmina. Desvia de mais ataques e bate contra o Ukar, acertando suas costas e laterias do corpo.

Um tapa em sua mão joga a espada para o fim do corredor. Seu peito é agarrado, suas costas são batidas contra a parede depois contra outra, rachando o concreto, sem seguida, é arremessado contra o teto, ferindo o corpo e batendo o rosto, em seguida volta pro chão, sentido o impacto. Ukar sobe em cima de Castiel, abre sua enorme boca. O segura pelo pescoço, o joga para perto do fim do corredor.

—ahrg!

Encontra sua espada. Estica as mãos mas logo tem que se preocupar com o monstro que pula sobre ele. Segura suas garras enquanto o outro tenta morde-lo. Dá uma cabeçada em uma oportunidade certeira. Desfaz a posição, ficando por cima. Começa a socar o rosto da criatura, segura seus chifres e bate a cabeça dele contra o chão, começando a rachar. O monstro desvia do próximo soco, que quebra o piso. Castiel logo segura as duas garras, enquanto o monstro se debate embaixo. Sua mão assume um brilho branco azulado, e com sua força bate contra o rosto do monstro. Acontece uma explosão de energia, fazendo o chão ceder. Eles caem no piso abaixo, mais um soco poderoso, mais um chão que cede a força do golpe. Eles despencam em um amontoado de destroços que os acompanharam, ficando inconscientes.

Em alguns minutos, Castiel desperta, se deparando com o sumiço da criatura. Percebe sua testa sangrando. Se levanta, se deparando na cripta da família real. Usa sua magia para trancar a portas quebradas, criando uma tranca.

Caminha em passos lentos, buscando sinal do monstro. De repente ele pula do teto, fazendo o rosto de Castiel bater contra o chão. Sente o gosto metálico vermelho. Suas pernas são puxadas e é jogado contra um pilar, batendo o peito e girando no ar antes de cair no chão.

—ahhrg!

O monstro tenta fugir, mas é impedido pela magia que o tranca. O dia já irá nascer, iluminará as janelas e frestas. Só mais um pouco.

O punho direito de Castiel é envolvido por magia, aumentando sua força. O monstro volta correndo em quatro patas e é recebido por um grande golpe de direta que o lança para longe, destruindo um pilar com suas costas.

O som do galo chega os ouvidos do caçador, anunciando o nascer do sol. Ukar escuta também, corre desesperado de volta a sua cripta. Castiel se apressa em correr, com sua pele toda suja e suor misturado com o sangue de seu rosto. Os dois competem em uma corrida desesperadora, indo para o túmulo de Abdala. Os dois pulam, se lançando na direção da lápide, com Castiel lançando seu poder invisível contra o Ukar, que é arremessado para longe. O caçador caí dentro do túmulo, usando a magia de seu poder para explodir o túmulo, mas logo ele recebe um grande tapa que o faz bater sua cabeça contra um pilar. Tudo fica turvo e sem foco. O monstro começa a gritar em raiva e desespero, tentando encontrar alguma forma de fugir, mas logo a luz do sol passa por uma janela, por impulso, Ukar encara o primeiro raio de sol que atinge seu terceiro olho branco, o que é instantâneo para sua queda em um grito de agonia e dor, acompanhado por estalos de ossos e se contorce, com suas próprias garras arrancando sua pele liberando uma gosma pegajosa e sangrenta. Ele ergue seu cenho, soltando um grito tão alto, mas tão alto, que com certeza pôde ser ouvido por toda Montór.

O galo termina seu quarto e último canto, anunciando o início de uma manhã ensolarada.

Suas mãos femininas mergulham um pano cinza na água, puxando de volta e torcendo, deixando úmido o suficiente para limpar os machucados de Castiel. Esmaga ervas e plantas, fazendo novos curativos. O corpo inconsciente do caçador está agitado, se remexendo e falando sussurros de um nome que se repete e repete em seus lábios sem parar.

—ssshhh, calma, calma—Irene concluí a limpeza e os curativos.

Castiel abre os olhos, levantando rapidamente seu torso nú e liso, em um gemido animalesco e dificultoso. Seus cabelos estão úmidos, igualmente a pele, pelo suor de seu corpo. Irene se vira, deixando de lado a tijela e se sentando na cama em frente ao caçador.

—você finalmente acordou. Que bom—sorri—você se recupera rápido. A picada de escorpião também já se curou.

—ah—sente seu corpo ranger com dor—o príncipe, ele...

—ele vai ficar bem. Foi enviado para Overtack no norte. Eles vão ajudá-lo.

—ah—balança a cabeça—eu quero meu dinheiro—põe os pés pra fora da cama—e eu preciso das minhas coisas também. Tenho que pegar a minha égua.

—sua vida se resume a isso? Dinheiro e monstros?

—é o bastante pra mim—encara a mulher—não sou um herói.

—você foi um hoje—ela joga algo. Castiel agarra, sendo seu pingente que entregou para a rainha—por que quis ajudar?

O caçador encara aquilo em sua mão, por alguns segundos. Fecha o punho levantando o olhar para a feiticeira.

—me ajuda a ter uma boa noite de sono.

—todos nós. Vister terá uma estátua erguida no meio da cidade, em homenagem ao seu sacrifício para matar o Uk.

—hum—resmunga—eu só quero meu dinheiro.

—quem é Edward?

Castiel é pescado, com um fantasma. Encara a mulher, como se tivesse sido assustado por algo. É rápido em disfarçar e espantar as lembranças que atingem sua mente.

—não é ninguém.

Procura sua camisa preta e a encontra no balcão ao lado da cama. A bate antes de abrir para vesti-la.

—você não parava de dizer esse nome enquanto dormia.

Castiel para o que está fazendo e encara novamente a mulher, bufando.

—já disse que não é ninguém!—altera um pouco a voz. Irene levanta as mãos em rendição.

O outro veste sua camisa, com os cabelos pretos e perto na nuca vermelhos bagunçados.

—eu vejo o que há dentro de você, Castiel—o outro levanta o olhar—você nega o que o destino preparou para você. Você não acredita e luta contra ele. Seu destino é muito mais que isso, você precisa aceita-lo. A essência tem seus caminhos misteriosos, mas quando você enxergar o todo, verá a verdade. Pare de negar isso e vá até ele, porque ele pode estar precisando de você.

[...]

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