⚜️Apparet verum⚜️
Tradução: A verdade se revela.
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A verdade é ampla, pequena e escondida.
Como uma imagem programada que não pode ser vista.
~ Giuliana Vitoria
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— Você é um deles, pai?
Por um momento nem uma mosca ameaçou fazer algum barulho. O choque no rosto do meu pai e do rebelde nitidamente presentes, não abalou o rebelde — um homem alto e forte de cabelos grisalhos e olhos cor de mel semelhantes ao do rei — que correu até a sacada da varanda se jogando de lá, aterrissando em uma carroça com feno e disparando em direção a penumbra da saída oeste do palácio, deixando eu e meu pai no recinto.
— Juju, minha princesa, abaixe essa espada e vamos conversar. — ele pede com aquele já tão conhecido tom de voz suave e calma.
— Não vou abaixar nada até o senhor me explicar o que aconteceu aqui. — a adrenalina é bombeada forte no meu sangue, mas me obrigo a vestir a minha máscara fria e indiferente. Preciso me manter calma. Preciso da verdade. — O que aconteceu aqui? Quem era aquele homem? Eu exijo a verdade.
Tento conter a tremedeira recente. O que farei se ele for um rebelde? Não posso entregar meu próprio pai a forca. Isso prejudicaria toda a minha família, mamãe ficaria arrasada, Mirela e May nunca conseguiriam bons casamentos sendo filhas de um traidor, Hendrik e Luuk teriam que lidar com o desprezo. Não posso deixar minha família sofrer.
— Tudo bem. — ele respira fundo, se sentando em uma das poltronas — Você sempre soube que era adotada, que era um bebê órfão, encontrado por mim e levado para os cuidados de minha esposa para que fosse nossa filha. Uma meia verdade. Você não era um simples bebê órfão, você é a filha do rei Justino e da rainha Nídia, a legítima herdeira da coroa de Crescite.
"Três anos antes da guerra, ainda como príncipe, Valentino foi com toda a família real para um tempo na bela mansão de campo que possuíam nas margens do rio Flumen, um tempo de tranquilidade antes da correria da coroação do príncipe Saul, irmão mais velho de Valentino. Seria um tempo agradável, para Saul mimar a sua amada esposa — que carregava seu futuro herdeiro no ventre — lady Lia Sterk, filha de uma casa pequena da corte de Verschillende, seria também um tempo para Valentino conhecer sua prometida, lady Carolien Vanberg, filha da casa com maior poderio militar de seu reino, um casamento arranjado.
Porém, não foi o que aconteceu. Eu era apenas um oficial de baixa patente, mas tinha uma grande amizade com o príncipe Saul, uma amizade que era escondida, já que um príncipe e um oficial raso não era gente da mesma estirpe para que andassem juntos, fui designado para a vigilância da área sul na última noite da família na casa. Foi quando eu vi, Valentino e sua prometida saindo pelas portas do fundo seguindo uma silhueta esquia encapuzada. Como em um passe de mágica a mansão começou a pegar fogo, inexplicável. Logo guardas corriam de um lado para o outro, muitos tentavam apagar o fogo que se alastrava rápido e voraz. Com uma brecha conseguir entrar na casa e resgatar a muito custo o príncipe Saul e sua esposa, mas não tive a mesma sorte com o rei e a rainha.
Quando disse que iria levá-los para a segurança do palácio e investigar a causa do incêndio, Saul me interrompeu. Ele sabia a causa do fogo, ele viu a fuga meticulosa de Valentino e Carolien, ele tinha encontrado o diário de estratégias dele e sabia que aquilo era um assassinato e que o desgraçado alegaria um acidente e usurparia o trono.
Por Saul ele se apresentaria como sobrevivente, mas temia por Lia. Ela estava bem próximo de ter o bebê e se Valentino era capaz de matar os próprios progenitores, obviamente não teria remorso nenhum de assassinar a mulher que carrega a semente com direito ao trono. Então, os ajudei a fugir, levei eles até a floresta Akaîuara nós domínios de Crescite, uma floresta tão densa seria capaz de manter ambos a salvo. Para um príncipe, Saul sabia se virar muito bem com uma tenda e uma floresta extensa.
Um mês depois o ocorrido, após uma grande encenação de luto, aquela criatura nefasta que hoje chamamos de rei assumiu o trono de Salis. Com uma aliança consolidada com a casa Vanberg e conseguintemente bom negócios com Verschillende e os outros reinos de Naladod, o poder se fixou em mãos sombrias. Saul pediu que me infiltrasse no séquito do rei, ganhasse sua confiança, para assim mantê-lo informado da situação e encontrasse aliados.
Poucas casas confiavam em Valentino, foi fácil conquistar apoio dos desgostosos com o novo monarca. Vários nobres tiveram suas cabeças pedidas em uma bandeja de ouro por Valentino e eu não perdi a oportunidade, fingi a morte de muitos deles, levando os para o refúgio de Saul. Assim surgiu o comando rebelde e eu me tornei o coronel condecorado do rei, o homem de sua mais alta confiança para aconselhar, mas também fazer o trabalho sujo.
Mas Valentino não se conformou apenas com o roubo da coroa do irmão, ele era ambicioso, ele queria mais, então começou a sua busca infame pelo domínio completo do continente".
Os aperitivos e o vinho do baile começa a pesar em meu estômago, tenho a sensação que a qualquer momento toda essa revelação, a verdade mascarada com toda essa podridão de maldade e ambição, irá me fazer vomitar. Como ele pode ser tão cruel e sem escrúpulos? Que tipo de rei é esse? Pior, como fui ludibriada ao ponto de achar que seria honroso servir a esse tirano?
— Ele atacou primeiro Crescite. — meu pai continua — No meio da noite, você tinha pouco mais de quatro meses de vida. O ataque foi brutal, mais uma vez ele usou da causa inexplicável de um incêndio, para invadir a cidade no meio do caos de um incêndio na ala norte do castelo.
"O rei Justino foi para a linha de frente da batalha, enquanto um pelotão corria para tentar conter o fogo, a linha de frente resistiu bravamente, porém com uma perda considerável de homens, incluindo o próprio rei que morreu segurando os portões. A rainha assim que escutou os soldados berrando a notícia da morte do rei, te entregou para sua dama de companhia, lady Lúcia Lacus, segunda filha da casa mais influente do reino e a pessoa que hoje você chama de mãe".
Cada palavra é um golpe desferido contra mim, golpes esses que não tenho nem tipo de defesa. A minha vida é um emaranhado de mentiras, que me deixam atordoada e enojada de uma só vez.
— Fui enviado para matar você e sua mãe biológica. — essas palavras me acertam com força, tanta força que preciso me sentar para não cair com minhas pernas trêmulas — Quando eu cheguei, a rainha já havia juntado um pelotão e partido para a linha de frente, tentando conter os invasores, assumindo o posto do marido e se sacrificando para que você tivesse uma chance, nem que fosse uma chance quase inexistente.
"Quando entrei nos túneis secretos do palácio, vi uma jovem nos seus vinte e dois anos de idade, segurando um bebê embrulhado em mantas, com lágrimas correndo pelo rosto angelical. Era a mulher mais linda que já tinha visto em toda minha vida.
Assim que percebeu minha presença, puxou uma adaga do corpete do vestido, pronta para morrer protegendo você. Eu disse que iria ajudar, iria tirar vocês duas de lá, salvas. Ela não acreditou muito, mas que opção ela tinha? Um soldado de Salis que em vez de matar, presta ajuda. Era sua única opção.
Tirei vocês duas em segurança e de forma sigilosa. Lembro como se fosse ontem, ela agarrada a você e a adaga como se a vida dependesse das duas, enquanto saiamos por passagens secretas em uma carroça, ela deu um breve cochilo apoiando a cabeça em meu ombro, quando fui tentar ajeitar sua cabeça para que não tivesse dor no pescoço, ela acordou sobressaltada. Fui agraciado com um tapa na cara que quase me fez cair da carroça.
Mantive vocês escondidas em um casebre abandonado por três semanas, não tínhamos como sair da cidade sem chamar atenção do enorme exército que comemorava a vitória e a conquista de um reino. Quando os soldados começaram a ser alocados em casas que antes pertenciam a famílias poderosas do reino, fui coincidentemente colocado na propriedade que pertencia a casa Lacus e convocado para assumir o comando das tropas que ficariam no reino para manter os crescitianos nas redias curtas do seu novo soberano.
Dei a opção de levar você e a lady para a base rebelde ou poderia tirá-las de dentro do cidade para que fossem para onde achar melhor. Mas por algum motivo sua mãe sentiu segurança em mim, entendeu que por trás da máscara de assassino cruel e pau mandado de um louco, eu era um jovem que queria um mundo de paz e justiça como os deuses queriam que fossem desde do início.
Ela mudou o nome para Luciana, fingimos que tínhamos nos casados a poucos meses e que você era um bebê órfão adotado pelo coração bondoso de minha esposa. O fingimento acabou quando você tinha um ano de idade, ela finalmente cedeu aos meus encantos. Então os anos passaram e fui convocado para Salis para assumir o cargo como general do rei pelos meus serviços na derrota e invasão de Crescite e Percus.
E daí em diante você sabe como tudo se seguiu. Continuei como espião rebelde e formei uma família perfeita a cima de qualquer suspeita."
— Quando pretendia me deixar a par de toda a situação? — é a única coisa que consigo pensar no momento, uma leve dor de cabeça começa a aparecer na minha têmpora direita.
— Hoje, depois de retirar você e seus irmãos do baile, mas você se adiantou e deu uma bela surra no capitão. — ele diz com uma risada anasalada.
— Deveriam rever os pré requisitos para ser capitão de uma base rebelde, a técnica dele é péssima. — digo dando de ombros.
Ele ri da minha fala, mas ainda está tenso, dá para ver pela sua postura.
— Escuta minha filha. — ele se aproxima devagar da poltrona onde estou sentada, com a pior postura do mundo e a lâmina do Vincent recostada na lateral da poltrona - Eu e sua mãe escondemos essa história toda para te manter a salvo daquele tirano, você entende, meu amor?
— eu entendo — digo passando as mãos pelas transas bagunçadas — Só estou meio desnorteada com tudo.
Uma sombra na porta foi o bastante para nos deixar alertas. Levada pela emoção comecei uma espécies de interrogatório em um território ofensivo.
Ótimo. Sou da realeza, o rei conquistador de todo o continente me quer — tecnicamente — morta, meu pai é um rebelde fazendo uma revelação sobre meu passado caótico em um quarto de hóspedes no palácio do vulgo homem que me quer morta. Que bela confusão.
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Com toda a algazarra criada pelos rebeldes, as informações correm mais rápidas do que em tempo normal. Oito guardas foram mortos, o rebelde que capturei fugiu, as famílias reais estão a salvo.
Com passos largos saímos do palácio em direção a nossa casa, observando se a espiões ou se alguém escutou algo que não deveria. Nas ruas o fluxo de pessoas em pânico ou guardas a caça de algum fugitivo.
Assim que abrimos a porta da entrada dois corpos colidem com meu corpo me arrancando o ar dos pulmões — minha mãe e Lola — me envolvendo em um abraço de urso.
— Você está bem?
— Está ferida?
— Te atacaram?
As duas alternam nas perguntas, enquanto me reviram em busca de hematomas e me apertam aliviadas.
— Eu estou bem, nenhum ataque rebelde pode ser comparado desse sufocamento duplo de vocês. — digo de forma sôfrega ao tempo em que me largam e vão fazer a mesma inspeção no meu pai.
— Ficamos assustados quando vimos que você não estava conosco. — Luuk diz me abraçando — A mãe quase arrancou os cabelos.
— Eu disse que você sabia se virar, mas elas estava uma pilha de nervos. — Hendrik completa, se juntando ao abraço.
Mirela e May se juntam depois, ainda trêmulas pelo susto. Ficamos ali por longos minutos até que nossa mãe dispensa todos os empregados para que fiquem com suas próprias famílias e como se fossemos crianças assustadas nos manda para nossos devidos quartos para descansar.
Minha mente ainda está uma bagunça com tudo isso, a única coisa que tenho certeza é que família é família, não importa quem eu sou ou quem deixei de ser. A curiosidade que suprimir por anos, acreditando ser um bebê qualquer, volta de uma forma diferente. Como meus pais biológicos eram? Com quem me pareço? O que pensariam de mim se estivessem vivos? Eu ainda seria eu se tivesse eles aqui e uma criação palaciana?
Cansada e atordoada, me arrasto até meu quarto. Assim que abro a porta sou surpreendida por mais um abraço esmagador de dois corpos, dessa vez Vincent e Giselly.
— Juju, eu estava com tanto medo, foi aterrorizante, me pegaram como refém. — Giselly diz chorosa, ainda no vestido do baile, agora sem as anáguas, lágrimas ensopando a gola do meu vestido e cabelos desgrenhados.
Giselly tem um trauma antigo. Quando tinha treze anos, foi feita refém por rebeldes, que a deixaram em um quarto escuro e pequeno por três dias. Para outra pessoa depois de resgatada tudo poderia passar, mas para a jovem princesa claustrofóbica foi como despedaçar o que já estava quebrado. E me dói não só por ver mina amiga passar por isso, mas saber que eu sou a causa para isso. Foi culpa minha.
— Está tudo bem agora. A quanto tempo estão aqui? — pergunto meio tensa. Os últimos acontecimentos estão me deixando meio paranóica. E se minha mãe falou algo no momento de desespero? Que os deuses me ajudem.
— Cinco minutos, Gigi estava prestes até um ataque de nervos, achei que seria bom sair um pouco daquele caos. — Vincent fala. Sua aparência também está decadente, uma atadura se destaca em seu antebraço direito.
— O que houve? — pergunto preocupada.
— Fui resgatar Giselly e o desgraçado, aquele que você capturou, mesmo machucado me acertou. Mas estou bem. — ele afirma.
Concordo com um aceno, os puxando para minha cama, para que possamos deitar juntos.
Ali, desfrutando da companhia deles e confortando um ao outro, me prendo em meu próprio mundo. Como eles reagiriam se soubessem quem eu sou de verdade? A amizade séria a mesma? De toda forma, não adianta pensar nisso, essa história não pode vir átona. Não faço ideia do que vou fazer depois disso tudo, com certeza não serei mais a mesma, mas me permito pensar nisso amanhã. Amanhã eu irei pensar e decidir que rumo minha vida irá tomar.
— Será que essa cama aguenta mais um? — John aparece na janela.
— Se já aguentou uma noite depravada entre você e Judith, com certeza aguenta quatro corpos emaranhados. — Vincent responde na maior ousadia, a sorte desse paspalho é que meus braços estão ocupados acomodando Giselly em um abraço acolhedor.
John se joga na cama, passando as pernas por cima de Vincent e ficamos ali um emaranhado de pernas e braços, piadas maliciosas sendo lançadas a qualquer um. Agora sim, os quatro cavalheiros contra o mundo, como tem que ser e como eu espero que possa ser daqui até a eternidade.
Não importa que a minha verdade seja pequena e escondida, quero manter isso, não importa o que acontecer.
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