Capítulo 15
Vila de Pescadores.
Tempo transcorrido após o primeiro contato: 5 dias.
A noite chega. Dalmas e James seguem por uma trilha que serpenteia entre os rochedos da praia. Além da lua cheia, suas únicas fontes de luz são as duas lanternas à pilha que cada um porta.
- Dalmas, você se importa de me dizer para onde estamos indo? Escalar rochedos à noite, com apenas um braço, não é exatamente o meu passatempo favorito.
- Já estamos chegando, James. É logo atrás daquele pico.
- O que é logo atrás daquele pico?
- James "Bullet" Dickinson - Dalmas abre os braços, após chegar ao topo da rocha, como que dando boas vindas ao seu colega -,lhe apresento a Necrópole!
Ao chegar ao topo da trilha, James avista um golfo com não mais do que quatro quilômetros de comprimento. Em sua praia de areias úmidas e compactas estão acesas diversas fogueiras, dos mais diversos tamanhos. De fogueiras acesas em barris velhos de metal, a fogueiras de três metros de altura, montadas a partir de restos de barcos velhos e esquecidos na praia. Ao redor delas, dezenas de piratas e mercenários de todos os cantos e clãs da costa se reúnem, aguardando por seu líder.
O que mais chama a atenção do irlandês, porém, não é o que está na praia. Ao longo de todo o golfo, dezenas de navios abandonados e encalhados apodrecem em meio às águas rasas da baía. De pequenas lanchas à grandes cargueiros, as carcaças enferrujadas formam uma visão mórbida e decadente, fazendo jus ao nome da enseada.
- Você sequestrou todos esses navios? - James começa a trilhar o caminho até a praia, logo atrás de Dalmas.
- Não seja ridículo. Tem mais de cem carcaças nessa praia. - O Leão da Noite inicia a descida, pelo outro lado da trilha, apontando ao seu colega o trajeto com menos dificuldades. - Aqui é o local aonde todos os piratas vêm desovar seus navios roubados e dividir sua pilhagem.
- Impressionante. Agora eu já vi de tudo. Um outlet do submundo da pirataria!
A descida até a praia é fácil, e em questão de minutos, a dupla já se mistura em meio aos clãs de piratas e mercenários.
- Está vendo aquele navio, o azul? - Dalmas aponta em direção aos restos de um velho petroleiro.
Bullet acena positivamente com a cabeça.
- É para lá que vamos.
Enquanto cruzam a praia, a dupla pode sentir que todos os olhares recaem sobre Dalmas e, principalmente, sobre o terrorista bombardeiro. A maioria dos piratas ali só tinha ouvido falar do porte do Leão da Noite. Hoje, suas expectativas eram correspondidas.
Ao chegarem em frente ao navio, James percebe que uma passarela de madeira fora construída da praia até um rasgo no casco do gigante, que leva ao seu interior.
- "A CAVERNA"? - Na lateral do petroleiro, a inscrição, pintada com tinta spray sobre o antigo nome da embarcação, se destaca em uma cor verde limão fluorescente.
- Isso mesmo. Cada clã ou grupo de piratas tem autonomia para saquear qualquer navio que ache que valha a pena. Seja em águas nacionais ou internacionais. E, mesmo não havendo nenhuma máfia, ou família que administre ou coordene as nossas ações, a alguns anos viemos tentando nos organizar, afim de evitarmos alguns conflitos e facilitar a negociação das mercadorias. O local escolhido para a realização dos nossos encontros é aqui, na Caverna.
No interior da velha embarcação, em um dos antigos tanques de armazenagem de petróleo, foi instalada uma mesa de dez lugares, algumas cadeiras e um sofá. Tudo isso sobre uma plataforma de aço inclinada, para compensar o declive do navio.
Ao todo, são sete líderes piratas, cada um com um acompanhante ou seu segundo em comando. Ao notarem a chegada de Dalmas, o último a comparecer, todos se dirigem para os seus lugares à mesa.
- Então é verdade o que ouvi. Dalmas escapou de Atlantis. Achei que era impossível escapar daquela plataforma. - Um homem beirando os quarenta anos, vestindo uma boina militar surrada vermelha, uma regata preta, uma calça cargo camuflada e com um coldre atravessado no peito é o primeiro a se pronunciar. Ele mastiga a ponta de um charuto e porta muitas joias e correntes ao redor do pescoço e pulsos. Seu nome é Samir Akran.
- Já me falaram até que a prisão é patrulhada por um submarino nuclear. - O segundo homem é baixo, de cabeça pequena, com cabelos negros e lisos caindo sobre os olhos. Usa roupas claras e largas e, nos pés, usa uma sandália de couro simples. Sobre seus lábios, cultiva um pequeno bigode ralo. Seu forte sotaque o entrega como um filipino ou indonésio.
- Tudo isso e mais um pouco, senhores. - Dalmas se ergue de sua cadeira. - Vocês não acreditariam no que eu tive que fazer para conseguir estar hoje aqui com vocês.
- Ei, guarde suas aventuras românticas para você mesmo! - O mercenário, junto de todos os outros presentes ri da piada de Akran, o pirata franco-argelino.
- Senhores, - vendo que a algazarra não teria fim, Dalmas ergue seu tom de voz, o necessário para que todos se calem. - vamos falar de negócios.
- Negócios? O que você teria para negociar conosco, Dalmas? Até onde sei você perdeu todos os seus homens em sua última abordagem. - Akran finalmente resolve acender o seu charuto babado e mastigado. - Talvez você queira nos contratar para sequestrarmos um navio para você. É isso? - O mercenário volta a encostar-se a sua cadeira com seu charuto entre os dedos.
- Akran, você só fala besteira. - O sorriso nos lábios do argelino logo é desfeito. - Preciso sim de vocês e seus homens para realizar um aporte, mas não irei pagá-los. Irei liderá-los.
- Você, Dalmas, vai liderar? A todos nós? - O semblante do pirata argelino começa a fechar, demonstrando claramente o que ele acha dos planos de seu colega.
- Sim. - O Leão da Noite se mantém firme e inexpressivo.
Uma explosão de gargalhadas e gritos toma conta da Caverna. Todos os líderes mercenários presentem riem freneticamente, inclusive esmurrando a mesa.
- Todos juntos temos mais de duzentos homens. - Akran tenta controlar sua risada. - Se importa em nos dizer por que deveríamos seguir um homem que, de exército, conta apenas com um deficiente? - Ele aponta para James, posicionado em pé, logo atrás da cadeira de seu colega.
Subitamente a mesa de reuniões é atravessada por um tentáculo retrátil, que parte em direção a Samir. Lascas de madeira voam para todos os lados. Os líderes mercenários se assustam e se jogam para trás em suas cadeiras. Eles sacam as suas armas e apontam para aquela coisa que estraçalhou a mesa e varou o olho de Akran.
O pirata franco-argelino permanece imóvel enquanto seu sangue escorre através do tentáculo e inunda a mesa. Apesar da dor, o pirata sente que a ponta daquilo que perfurou o seu olho está muito próxima de seu cérebro, por isso ele tenta ficar estável.
Com a mesma velocidade que atacou, Dalmas retrai a nova extensão de seu corpo, arrancando o globo ocular de seu rival. Um jato escarlate é expelido pelo buraco deixado pelo olho, cobrindo Abayomi de sangue, o único pirata nigeriano do grupo e que sentava à frente de Akran.
O urro estrondoso de dor chega aos ouvidos dos mercenários mais próximos na praia de Necrópole, que instintivamente param o que estavam fazendo e se voltam em direção à Caverna.
Samir Akran está de joelhos, com a coluna curvada. Sua cabeça é segurada pelas mãos. Por entre os dedos, seu sangue continua a escorrer.
- Agora você também é um deficiente, Akran. - Dalmas se ergue imponente de sua cadeira. Todos apontam suas armas para a cabeça do somali.
- Atirem nele! Matem o desgraçado! - Samir tenta convencer os seus colegas que matem o Leão da Noite. Entretanto todos se entre olham desconfiados, ainda tentando processar o que acabaram de testemunhar.
- Me diga James, o que é mais forte, o aço naval ou o balístico?
- O aço balístico, Dalmas. - Bullet não parece entender o significado daquela pergunta e tampouco sabe qual a resposta seria a correta, mas na atual conjuntura, esperando não ser fuzilado pelos outros mercenários, ele não acha que exista uma resposta errada àquela pergunta.
Com um sorriso malicioso, Dalmas encosta a ponta de seu dedo na arma de Samir Akran, que permanece sobre a mesa. Imediatamente o alienígena inicia o seu processo de transmutação e duplicação das propriedades do material, alterando o seu DNA para combinar com a estrutura atômica do aço. Suas células sofrem uma mutação e através da osmose, absorvem a força e a resistência do composto, finalizando a fusão entre homem, metal e alienígena.
Dessa vez, após analisar e mensurar o nível de ameaça, o alienígena conclui que não precisará de todo o seu poder de fogo e, tampouco de seu exoesqueleto. Com isso, a massa metal orgânica com origem no aço da arma apenas recobre todas as células do corpo do somali com uma fina camada metálica, sem modificar sua fisiologia, apenas deixando-o com uma pele de aço maleável cinza cobalto e reluzente.
Todos os líderes piratas e seus guardas costas abrem fogo contra Dalmas que, com apenas um movimento de seu tentáculo, arremessa a pesada mesa de madeira maciça contra os atiradores. Ela sobe e passa por cima dos alvos, que se jogam ao chão para se esquivarem do ataque, indo se arrebentar contra as chapas de metal corroídas da Caverna.
Os projéteis atingem Dalmas no peito, cabeça e abdômen, sem lhe causar qualquer dano. Algumas balas ainda ricocheteiam em sua pele metálica e se perdem no interior do cargueiro.
Rapidamente todo o armamento em uso, - pistolas semi automáticas em sua maioria -, se descarregam e o único som audível no interior do navio é o click dos gatilhos das armas desmuniciadas e os cartuchos de balas que ainda caem girando no piso.
- Entenderam agora como pretendo liderá-los? Dalmas para no meio do grupo aterrorizado de piratas. - Preparem seus homens e seus barcos. Porque nos próximos dias, iremos encher nossos bolsos!
- Vocês agora são homens do Leão da Noite! - Bullet, mais confiante após testemunhar o feito de seu colega grita empolgado, entendendo agora o que havia acontecido na plataforma e como a dupla sobrevivera à fuga da prisão.
- Não, James. O Leão da Noite morreu naquelaplataforma. Quem vive hoje é Berserker, o Terror dos Mares.
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