Capítulo 42
Deveria ter aprendido desde cedo que nem tudo acontece como planejamos, às vezes o destino tem os seus métodos de nos ensinar uma lição. Onde será que ouvi essa frase? Certamente, foi em algum dos meus livros, mesmo assim, essas palavras não deixam de ter um fundo de verdade.
— Nora, preciso falar com Alda. Sabe onde ela está? Desde a nossa briga ela não voltou mais para casa, e dessa vez precisamos colocar alguns pontos no "I", antes que vire uma bola de neve — disse ao telefone.
Mesmo os dias se passando como correnteza em meio a ventania, não me contenho e pergunto sobre Alda a Nora. Não a vi após a nossa última conversa. E parece que a sua ação não foi das mais receptivas.
Sinto uma dor no peito ao pensar que uma amizade tão linda terminou dessa forma, mas não posso aceitar isso. Nora me ajudou quando mais precisei, e não será agora que deixarei uma discussão estragar com a nossa amizade. Esse é o problema de muitas pessoas se deixam ser levadas por uma pequena tempestade e não dão valor aos bons momentos da vida, tirando conclusões precipitadas. Preciso avaliar as minhas decisões antes de tomar a conclusão de um parâmetro.
Por isso, resolvi encerrar logo esse assunto e solucionar o prejuízo já instalado na nossa amizade, antes que ultrapasse o necessário.
— Espere ela te procurar, sei que as duas precisam estar de cabeça fria para voltar a conversar. — Pude ouvir o grito de alguém em relação a ambulância e supus que Nora deveria se encontrar no plantão do hospital.
— Não é tão fácil assim, há alguns dias estive no banco, e bom... — Tento não acrescentar o acontecimento desastroso da minha vida, graças ao mico que o homem da agência me fez passar. — Simplesmente não acredito que Alda me enganou em relação a dívida do hospital. Como fui burra por não ter checado isso antes.
— O banco. — Sua voz soou como se estivesse recordando de algo. — Não sei nem o que dizer.
— Pois é, também me encontro sem palavras. Não acredito que ela escondeu isso de nós duas. — Sinto-me ressentida, mesmo assim tento me manter calma.
— Não acredito que ela escondeu isso de nós duas... — A voz de Nora soou estranha, até para ela. Como se estivesse guardando algo para si que não poderia ser revelado.
Segredos, mais segredos, esse é o resumo dos meus dias atuais, quando esse labirinto irá se findar?
— Tem algo que queira me contar? — Um temor se apossou do meu coração.
Nora também não está metida nessa mentira? Claro que não, as duas não poderiam destroçar o meu coração desta forma. Elas sabem o quão frágil emocionalmente sou, isso iria me destruir por completo, ao descobrir que as duas pessoas que tenho como preciosas na minha vida estavam me escondendo algo.
— Não... espero que você consiga solucionar o problema. Rosa preciso ir, está uma zona aqui no hospital. — Tentou desconversar, mas estou acostumada com essas evasivas dela.
— Espere, sobre o livro... — Tentei começar, mas de repente fui cortada.
— O que tem o livro?
— Lembra que você tinha falado que cada impressão do livro era um modelo único? Bom, alguns dias atrás constatei a veracidade das suas palavras. Ao que tudo indica o livro parece ter algum indício místico.
— Sério, Rosa? Tentei te falar o tempo todo, mas só agora você acredita — disse em um tom convicto de certeza, como se o imaginário pudesse se misturar com a realidade.
— Hei! Pensei que você iria me fazer parar de pensar nessas ideias estranhas, não me apoiar.
Quando cogitei a possibilidade de falar sobre algo místico com Nora para ela me trazer a realidade? Como se isso fosse possível. Realmente, ser normal não faz parte da personalidade dela.
— Olhe, você veio falar sobre isso comigo porque sabe que sou louca, se preferir a voz da razão fale com Alda. — Constatou a mais pura verdade. — Vê se pode, eu sou a amiga doida, é claro que vou aconselhar para aquilo mais improvável. O pior que existe é esse tipo de pessoa que tenta fazer você ser uma pessoa que não é... Isso não existe. Quando você teve os pensamentos suicidas de seduzir o namorado da boxeadora, eu ajudei? É claro, eu sou a amiga sem juízo que te ajuda a cometer loucuras insanas. Meus pais falam que meus melhores amigos deveriam ser uma vodca e um nariz de palhaço, e não tiro a razão deles. A vida precisa ser divertida e para ser hilária você precisa descer a ladeira em um skate com salto agulha, segundo o meu livro favorito da vida. Por isso vale ressaltar, uma amiga é como primor...
— Nora ainda estou aqui, você está falando sozinha de novo — comentei bocejando já com sono, por causa de mais uma loucura de Nora.
— Desculpe, estou há quatro horas cuidando dos idosos em casos extremos e como todos estão entubados, não tive ninguém para conversar esse tempo todo. Você foi a única pessoa que meu deu à luz nesse dia. — Com esse questionamento pude imaginar o olhar de cachorrinho solitário que ela fez nesse momento. — Sinceramente, não consigo entender como tem pessoas que conseguem viver caladas, sem falar com nenhum ser vivo, nem mesmo um objeto. Isso sim é loucura, depois me chamam de desequilibrada, sempre aqueles que falam demais são os loucos. As pessoas não percebem que esse tipo de pessoa são as mais leais, como um cachorro. Falando sério Rosa, você não acha que pareço um pastor alemão. Olhe até balanço o rabinho quando saímos para fazer absolutamente nada. Isso sim é...
— Nora, você entrou no delírio outra vez. — A cortei rapidamente.
— Desculpe, ahm! — Exasperou do outro lado da linha. — Não aguento mais essa vida, sou uma pessoa extrovertida e espontânea, preciso falar para sobreviver. Pena que ninguém me entende, até minha chefe me mandou para esse trabalho que segundo ela, os meus colegas de plantão precisavam de folga. Como se eu fosse uma mala sem alça. Falando nisso, aconteceu a mesma coisa no dia que fui cuidar de você, ela pensou que você estava em coma, e isso significaria que o descanso dela estava garantido. Mas aí você acordou e ela me deixou definitivamente como sua enfermeira, isso não é maravilhoso Rosa?
Nesse momento até as palavras fugiram dos meus lábios, ao ver Nora comentando de forma tão empolgada e maravilhada sobre o assunto, algo que anteriormente tinha pavor só de encontrá-la pelo corredor do hospital. Como as coisas são estranhas.
— Você sabe como ninguém mudar o rumo da conversa. Até mais Nora. — Sorrir e encerrei a ligação.
Suspirei ainda inquieta, sério! Não aguento mais esse bocado de assunto na minha mente. É esse livro idiota que tenho a certeza da inutilidade, é Alda e os seus segredos, são as preocupações do trabalho. Por outro lado, é a minha família que não tenho a mínima vontade de encontrá-los, assim como a minha insegurança que estou tendo em relação a Mark. Definitivamente, minha vida não poderia ser uma maior bagunça, fora as lembranças que estou tendo constantemente sobre o meu passado, algo que está bagunçando ainda mais a minha vida.
Camélia, o que você quer de mim com todas essas indagações?
— Quero que você compreenda Rosa, não precisa ser igual aos outros para ter sucesso. Você é mais do que um rostinho bonito, isso não te faz real. Um marido não te torna feliz, uma casa não te faz realizada, uma carreira dos sonhos não te torna especial, filhos não são apenas para o teu deleite. Isso são coisas complementares, você precisa se sentir bem antes de alcançar esses desejos. Você não é feliz por ter essas coisas, quem te torna especial é ser vo-cê. entendeu? Não estou subestimando estes detalhes que você quer alcançar, quero apenas dizer que antes de tê-los você já era alegre sem eles. Não baseie a sua vida nessa ânsia de querer mais e mais, sempre mais. Isso só trará frustração.
Camélia, esse tempo todo você queria que eu fosse eu mesma, mas não entendi, hoje compreendo. Estranhamente, mesmo não tendo o emprego dos sonhos, trabalhando em uma biblioteca como sempre sonhei e estudei, estou contente. Sem ter um marido nem filhos, me encontro satisfeita, pois tê-los não me fará feliz, se eu estiver amarga por dentro como estava, insatisfeita com tudo ao meu redor. Porém, se eu estiver verdadeiramente radiante eles serão apenas um complemento na minha felicidade. É isso que quero, preciso!
Como se já não fosse o suficiente chego ao trabalho três horas atrasada, graças a minha conversa com Nora mais cedo. Apresso-me em subir o elevador com a gestora do Rh ao meu lado, a caminho da sala de reunião da gerência para uma reunião que não sei se ainda está acontecendo. Não sei os pensamentos das outras pessoas, mas falar sobre o setor financeiro de uma empresa é muito chato, a parte boa é o lucro, mas para chegar na seção do venha mais e me faça feliz, é necessário passar pela receita, gasto, resultado, impostos, inoperantes, mercado financeiro, entre outros fatores também relacionados ao contábeis.
— Como está o seu relacionamento com Mark? — A mulher ao meu lado pergunta de repente, assim que ficamos sozinhas no elevador.
— Relacionamento, que relacionamento? — Me faço de desentendida, enquanto olho para todos os cantos do elevador, menos para ela.
Não é necessário que ela saiba que não estou propriamente nos relacionando, ainda mais quando Mark não deixa isso claro entre nós.
Na verdade, nem sei se eu e Mark estamos em algum relacionamento, a única certeza do que temos é o nosso rolo de carretel que a cada dia se transforma em uma bola de gato, bem embaraçada por sinal. Apesar da nossa aproximação ainda continuamos distantes na mesma proporção. Não sinto algo firme da parte dele, é como se o nosso castelo estivesse edificado sobre a areia e a qualquer momento uma onda gigante poderia vir e nos abater. A afirmação é essa, eu e Mark estamos enrolados, e isso não é nada bom.
A ponto do desespero, o elevador abre no décimo terceiro andar para uma pessoa entrar e como sou bastante esperta, saio apressadamente confabulando em agonia que mais tarde conversávamos. Traduzindo: vou correr de você até não ter mais jeito. Assim que coloco o meu pé no andar vejo o senhor ninguém se aproximando da minha localização. E como sou uma pessoa muito madura me escondo em uma sala de reunião, soltando todo ar do pulmão que não sabia que estava prendendo. Com a única dúvida na minha mente: por que me escondi do Sr. Ninguém? Se não temos nenhuma rixa ou algo parecido, apenas um relacionamento de cão e gato entre colegas de trabalho.
Enquanto aguardo alguns minutos, já que me encontro no atraso de algumas horas, por isso alguns minutinhos perdidos não terão relevância. Me agacho embaixo da mesa, por quê? Sou azarada e certamente alguém me descobriria se ficasse em pé perto da porta, dessa forma para passar o tempo pego um esmalte na minha bolsa e começo a pintar a unha. Não fiquem espantados, se fossem vocês e estivessem se escondendo de interrogatórios também teriam a mesma reação? Pois, tenho certeza que alguns funcionários viram eu e o meu chefe saindo completamente molhados da festa e ainda de mãos dadas, para completar a desgraça. Como passei o restante dos dias fugindo de todo mundo, hoje não seria diferente.
Quando estou na mão esquerda após pintar a direita, ouço alguns barulhos de pessoas entrando na sala. No seguinte momento paro de pintar e enrijeço o meu corpo, em uma postura firme e encolhida, pois o que faltava agora é ser descoberta neste estado: pintando a unha embaixo da mesa, como uma criminosa. O que pensariam de mim? Boa coisa não será, no mínimo me denominaram a doida do esmalte vermelho.
— O que faz aqui?
Um pouco de alívio percorre o meu corpo quando escuto a voz de Mark fazendo essa pergunta, com essa ação saio debaixo da mesa imaginando que ele me avistou, mas para a minha surpresa essa pergunta não é direcionada a minha pessoa, por isso assim que ouço a voz de Alda me encolhi mais ainda embaixo da mesa de madeira.
— Você ainda me faz essa pergunta? Precisamos acertar algumas coisas.
E para desespero meu, não imaginei que esse dia seria denominado o pior dia da minha vida. Nunca senti tanta raiva, ao qual estava prestes a sentir naquele instante. Como se as desgraças que já aconteceram na minha vida não fossem o suficiente.
O ÚLTIMO DIA DA MARATONA CHEGOU, ESPERO QUE TENHAM GOSTADO. AGORA FALTAM POUQUÍSSIMOS CAPÍTULOS PARA O FINAL, ATÉ...
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