Capítulo 41
Como era previsto, o dia da festa na empresa chegou, fazendo-me retornar a realidade arrancando-me do sofá para um dia estressante, enquanto Nora não perde a oportunidade de me tornar uma barbie.
— Essa roupa caiu muito bem em você Rosa. — Nora me analisou com um olhar reluzente.
— Não sei, ela parece mais uma gazela do que uma dama arrumada para uma festa — Oliver disse como se eu fosse um objeto desinteressante.
— Por que você está aqui realmente Oliver? — Indaguei, pois fui severamente ofendida e, como sou dramática, não perdi a oportunidade de retrucar.
Mirei o garoto, estampando no rosto a minha indignação. Ainda mais quando ele apareceu na minha casa hoje pela manhã afirmando que passaria o dia comigo. Sério, não tinha previsto esse acontecimento nem nos meus sonhos mais delirantes. Ainda mais, porque o garoto faz questão de evidenciar a sua insatisfação perante as minhas escolhas, ações, roupas, comida, ou seja, não posso ser eu mesma. O encaro contrariada, me controlando para não o mandar em direção a Mark, que tem a obrigação de suportá-lo, não eu. Porém, contudo, todavia... Não tenho opção, pois ele faz questão de ficar a cada segundo perto de mim, mesmo enchendo o meu juízo com as suas afirmações contrárias a mim.
— Estou satisfazendo a senhora com a minha presença. — Deu um sorriso aberto, trazendo o sentido de me ridicularizar.
Mordi o lábio com força e segurei a vontade de mandá-lo para... Sei que estou pagando pelo erro em falar, com todas as letras, que amo criança.
— Gente são 14hs, sei que vocês têm bastante assuntos em comum, mas o shopping ainda tem bastante lojas para serem visitadas. — Dessa forma, Nora corta o clima nos chamando para a realidade.
Entro na cabine e volto a me trocar, para entrar novamente na saga: a busca pelo vestido perfeito.
Após algumas horas da saga pelo vestido perfeito, ou seja, uma roupa que agradasse a Oliver, pois ele é o único insatisfeito até o momento. Na real, por que estou tentando agradar uma criança? Não estou me vestindo para ele, ao contrário, na verdade é para mim. Quero finalmente poder me olhar no espelho e dizer: Mulher você está poderosa, hoje você não precisa que ninguém exalte a sua beleza, pois você já sabe da realidade. Senhor dai-me sabedoria para suportar o comportamento esquisito de Olive, porque se o senhor me der força certamente irei matá-lo.
— Então!? — Encaro o menino à minha frente esperando-o me denominar dos seus mais variados apelidos "carinhosos".
Deixando em total evidência que eu não deveria dar ouvido a opinião de uma criança, mas sem entender o motivo, acabo por ficar ansiosa esperando a sua observação. Agora estou trajando um vestido azul claro, em um tecido extremamente delicado. Que desce pelo meu corpo como se fosse um modelito de sereia, bem junto ao corpo que abri com leveza em uma fenda abaixo da metade da minha coxa até os pés. Como o tecido é leve o caimento ficou perfeito, ainda mais pelos detalhes sutis em dourado no tecido. Algo simples, diferente e elegante. Trazendo a sofisticação de um coração no busto do vestido longo tomara que caia.
Oliver caminha calmamente até mim, chegando próximo o suficiente para me deixar encabulada com a situação. A sua altura não chega ao meu busto, mas sei que logo ficará tão alto quanto Mark. Ele cruza os braços e me encara, olhando-me diretamente com tamanha profundidade.
— Você está parecendo a minha mãe... não, você me lembra a minha mãe. — Sorri com se a sua afirmação fosse os melhores elogios que ele poderia transmitir a mim.
E pela primeira vez vejo uma iluminação em seu rosto, a ponto dos seus olhos azuis se tornarem tão claros como o oceano. Realmente é uma visão linda de se vê. Não me contive e o abracei, encostando a cabeça dele em meu peito, o apertando tão forte junto a mim, como se eu nunca fosse soltá-lo.
— Obrigada, fico lisonjeada por ser comparada a sua mãe, ela deveria ser uma mulher incrível. — O seu cheiro de lavanda perfumou o meu olfato, com isso a imagem de uma mulher em alegria o abraçando apareceu brevemente em minha vista, mas logo se esvaiu não me dando a oportunidade de decifrar.
— Ela era especial como você. — Sua voz saiu em um sussurro, mesmo assim tive a oportunidade de ouvi-lo.
Por um breve segundo olhei para Nora que estava nos observando, ela sorriu e assentiu contente. Constatando que hoje não foi um dia somente de compras, mas que eu sairia do shopping não apenas com o vestido mais lindo que encontrei, e sim, com um novo amigo para toda a vida.
***
— Qual o sentimento de festa para você Rosa? — Nora me encarou, enquanto me maquiava.
— Diversão. — Respondi sem demora, constando a minha certeza dita.
— Então, espero que aproveite muito bem, pois você está de arrasar.
Sorriu travessa, encarando o meu reflexo no espelho. Definitivamente, nunca me achei tão bonita como agora. Graças a maquiagem de Nora, minha pele pálida deu lugar a uma aparência mais bronzeada. Meu corpo está perfeitamente desenhado com o vestido que escolhemos mais cedo. Tanto que nem se pode notar as pequenas gordurinhas que soltam do meu abdome, consequência da minha dieta nada saudável. Calcei um salto nude de bico fino, contemplando o resultado.
— Tenho que dizer, você deveria desistir de ser enfermeira.
Nora sempre teve grande talento para moda e maquiagem, pena que nunca foi tão bem aproveitado. Mas sendo sincera, a sua verdadeira paixão é cuidar das pessoas. Acho que ela morreria se não tivesse alcançado esse sonho.
— Nem pensar, não trocaria os meus pacientes por nada no mundo. Ainda mais, por ter conhecido as minhas melhores amigas por causa dessa área — disse me abraçando de lado, enquanto nós duas nos encaramos no espelho.
— Claro, Alda... — Minha voz soou fraca, mas tenho certeza de que Nora ouviu.
— Vocês têm que se entenderem, pensei que essa briga iria levar apenas alguns poucos dias, porém já passou do limite.
Tenho a ciência do quão difícil pode ser para Nora viver nessa encruzilhada toda. A palavra loucura sempre esteve presente no seu vocabulário, mas agora ela nem sequer pode dar o luxo a esse lado. Deve se manter centrada, para não acabar desequilibrando nem eu ou Alda. Tanto que até o momento não contei sobre a questão do banco a ela, mas quem sabe outra hora, quando nós estivermos com a cabeça fria.
— É complicado...
— Sei disso. Olhe — chamou a minha atenção fazendo-me olhar para ela —, imagino o quão difícil está sendo para você perdoar Alda, mas tente. Ao menos agora tente medir na balança se ela te feriu mais vezes do que te abraçou, isso também deve ser levado em conta. — Suspirou. Nesse momento, posso imaginar que Nora não está falando somente de mim e Alda. — Pessoas cometem erros, é natural. Não somos perfeitos, no entanto, todos os dias tentamos dar o nosso melhor. Todos vão errar, mas o que te torna diferente é a sua reação perante esses erros.
— Creio que o delegado Megalas pensaria da mesma forma. — Sorrir lembrando desse assunto "delicado" para ela.
— Você sabe que estou interessada em outra pessoa, esse ser já sumiu da minha mente. — Me soltou e caminhou até a cama.
— Por causa do moribundo do hospital? — Me encarou irritadiça, porém sorrir com a sua reação. — Pare de drama, se fosse para vocês terem uma coisa já teria acontecido, e realmente conheço você, se tivesse realmente interessada no pai solteiro do hospital já teria tomado alguma atitude. Vejo o seu corpo clama pelos beijos vorazes do senhor Megalas, admita. — Rir não me contendo.
— Você não existe Rosa. — Sorriu arrumando um travesseiro em mim. — Não esqueça que não sou a única enrolada, por que não toma uma atitude e confessa os seus sentimentos ao seu chefe e afirma que não quer ficar mais no campo da "amizade colorida"?
O meu sorriso murchou no mesmo instante, realmente é algo pendente na minha vida. Quando Mark veio buscar Oliver mais cedo, falou que me esperava na festa com aquele tom característico dele. Me derreti no automático, tenho certeza de que ele já percebeu o meu interesse, mas por que não fala? Será que sou apenas um brinquedo, afinal de contas, na realidade o chefe nunca se casa com a secretaria. Onde fui meter o meu coração, pois tenho certeza de que ele verá a marreta o despedaçando por completo por causa dessa confusão.
— É complicado... — Sussurrei.
Não quero ser rechaçada, prefiro continuar na dúvida e feliz, do que na certeza e chorando. Será que estou certa ao pensar assim?
— Viu, a resposta não é tão fácil quando nós estamos na situação.
Com a resposta de Nora o assunto morreu nesse instante, terminei de me arrumar e partir para a festa em um salão, mas semelhante a uma boate. Que no dia presente está fechado para a festa dos funcionários da organização.
***
Caminho calmamente pela festa movimentada, totalmente retraída devo acrescentar, com toda a certeza não conheço 90% das pessoas presentes. Olho ao redor para ver se encontro algum rosto conhecido, a fim de me entrosar com o público, porém não tenho sucesso.
Algum tempo depois deixo a minha timidez me consumir e me escondo em um canto qualquer do lugar, perto de uma janela de vidro que dá uma visão desfocada do jardim. Algo que me encanta por completo, trazendo a vontade de conhecê-lo.
— Nunca imaginei que uma pessoa como você ficasse tão desnorteada na multidão.
Olho para trás reconhecendo a voz, o senhor Ninguém se encontra em um terno um pouco alinhado ao corpo, mesmo com sua protuberância corporal ele pode ser considerado um cara formoso, dependo do gosto da pretendente. Seus olhos castanhos me observam atentamente, certamente para não perder nenhuma reação minha que seja possível tirar proveito para provocação.
— Parece que hoje alguém tirou as vestes de sapo e tentou se transformar em um príncipe. — O mirei dando um sorriso de lado, contente pela minha resposta.
— Não tentei Cinderela, alcancei o êxito, é diferente. — Seu sorriso foi largo, ao que parece o meu comentário lhe agradou.
— Nunca disse que era a Cinderela. — Respondi a altura, gostando desse jogo de rato, pelo que me lembre não falava assim com alguém já fazia tempo.
— Pois tenha certeza, hoje pegarei o seu sapatinho de cristal.
Caiu na gargalhada. Se fosse no tempo do meu desespero para arranjar alguém teria a certeza que ele estaria flertando comigo, mas agora, após todo o conhecimento que tenho desse ser, das várias conversas que tivemos no elevador e tombos em pleno corredor do escritório. Tenho a certeza de que esse é mais um dos seus truques para me deixar à vontade, nunca me achei uma pessoa super tímida, mas tem situações que essa atitude me pega de jeito.
Continuamos a conversar animosidades, até alguns senhores do seu departamento pedir a sua ajuda com algumas pendências em relação a ouvidoria o levando para longe de mim. E mais uma vez me encontro aqui sozinha, compreendendo que deveria tentar conhecer melhor as pessoas de onde trabalho, ou terminarei ficando sozinha em todas as festas que ocorrerem no futuro. Nessa hora me lembro do que falei para o senhor Ninguém alguns dias atrás, e certamente agora sinto o que ele passa, sozinho. Mesmo sem entender o motivo desse acontecimento, porque ele é um cara muito legal, quando não faz comentários insanos, fora isso dá para conviver, além de ser muito divertido. Falando nisso, deveria perguntar o nome verdadeiro dele algum dia.
Com esses pensamentos caminho tranquilamente em direção ao jardim local, me deliciando com as rosas, margaridas, entre outras variedades de flores, me encantando completamente. Não sei de onde veio o meu amor pelas flores, mas de uma certeza tenho, isso deve ter sido influência da mamãe. Ela ama tanto esses seres formosos, com aromas magníficos que colou o nome de cada filha as flores que ela mais gostava. Sinto uma dor no peito ao imaginar uma mãe tão dura como ela, mas certamente ela nos amou, ao seu modo. Pelo menos nisso tenho fé.
— Os seus pensamentos florescem como o aroma das rosas.
Tomo um susto ao ouvir uma voz rouca no meu cangote, rapidamente viro-me esbaforida me deparando com um Mark sorridente me encarando.
— Quando você ficou tão cafona? — O encarei minimizando os olhos em uma careta.
— Não sei, acho que isso é reflexo da sua personalidade passada para mim. — Sorriu.
— Idiota — Dei um tapa em seu ombro, fazendo uma falsa careta irritadiça.
Ele faz beicinho, então coloca a mão em minha cabeça e gentilmente alisou meu cabelo. Seu sorriso é enigmático, e me mira diretamente com um olhar magnético. Seus dedos lentamente caem do meu cabelo, e começa a acariciar a minha bochecha com o polegar direito.
— Você está linda.
Seu olhar me encanta, mas ao mesmo tempo me prende em um feitiço. Onde não tenho pretensão em soltar a respiração que estou prendendo, como se em algum instante fosse morrer por não sentir o seu toque.
— Isso é apenas para me ver feliz? — Com pretensão de ver a sua reação, deixo essas palavras saírem dos meus lábios em um sussurro.
Sorriu. — Não é uma mentira, qualquer pessoal nessa festa pode constar que você está bela.
Meu coração para em uma batida e aos poucos começa a acelerar em um toque frenético, como se uma bateria acabasse de ser instalada em meu peito. Neste momento não sinto mais os pés, é como se tudo ao nosso redor estivesse desaparecido, existindo apenas nós.
A atmosfera está totalmente diferente de um minuto atrás e não posso deixar de encará-lo com profundidade, sem saber o que fazer nessa situação. Eu não posso deixar de sentir minhas bochechas quentes em vergonha, pois tenho a certeza de que nesse momento ele descobriu que estou totalmente apaixonada por ele.
Esse contato simples, porém, faz o meu coração disparar. Há algo sobre o seu maneirismo que está me deixando muito consciente do seu toque. Trazendo-me uma sensação nova e diferente.
E sem esperar sinto gotas de chuva molhar o meu rosto, para depois descer por todo o meu corpo. Nesse momento algo me desperta e tento afastá-lo de mim.
— É melhor entrarmos, você não quer que ninguém nos veja aqui. — Tentei me afastar, mas este não permitiu.
— Não estou nenhum pouco me importando. — Suas palavras foram sérias e firmes.
Tento outro movimento para retroceder, ainda sem compreender o que ele quis dizer com as entrelinhas da frase anterior, mas Mark rapidamente interrompe o meu movimento, pressionando-se mais perto de mim. Eu ofego, de repente ciente do calor do seu corpo. Mesmo por baixo das roupas encharcadas pela chuva de açoite, ele irradia uma luxúria tão aconchegante.
O encaro com determinação, esperando um eu te amo de sua parte, mas vacilo ao ver o vazio em seus olhos. A chuva escorre pela sua pele, fazendo parecer que há lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Ele coloca a cabeça no meu ombro. O tenho tão perto que posso sentir os seus batimentos cardíacos reverberando pelo meu corpo.
— Rosa... não posso perder você. Por favor, não deixe isso acontecer.
As suas palavras são em súplica me deixando completamente sem sentido e anestesiada, tanto que não consigo dizer nenhuma palavra.
Lentamente, seus dedos caem dos meus pulsos. Ele levanta a cabeça ligeiramente, mas sua voz não é nada além de um sussurro.
— Meu maior desejo, era que tudo fosse diferente. Queria tanto conhecê-la em outras circunstâncias. Em uma época em que eu não estivesse tão obcecado. Me perdoe! — Seus dedos percorrem pelo meu rosto em cada palavra.
Nem a chuva consegue disfarçar as suas lágrimas, pegando-me completamente de surpresa. Deixando-me confusa com tais indagações.
— Não entendo... — Em meio a chuva consigo pronunciar estas ditas, mesmo em total confusão.
Ele volta a se aproximar de mim, mas agora com um novo propósito, ainda sem responder o meu questionamento anterior.
Nosso beijo começa pequeno e hesitante, logo fica mais profundo e ousado. A sensação da chuva na minha pele desaparece completamente, enquanto me concentro na sensação dos seus lábios contra os meus. Por um breve segundo pude senti-lo, mas logo essa sensação se dissipa, ao vê-lo se afastando de mim.
— Estranho, pude jurar que você era uma bruxa e tinha acabado de me colocar um feitiço.
Ainda um pouco confusa sorriu com o seu comentário, tendo a nítida certeza que essa aparência tranquila é apenas uma fachada. O encaro tendo certeza de que ele esconde segredos que não tenho a certeza se quero descobri-los. Meus olhos pesam só em pensar. Ainda mais pelas suas falas anteriores, isso com certeza é problemático.
— Vamos, vou levá-la para casa. Acho que nenhum de nós tem o desejo de voltar para a festa molhados desse jeito. — Assenti com a cabeça, sem expressar a confusão dos meus pensamentos.
Nem sempre os que aparentam sem príncipes são os verdadeiros encantados, deveria ter aprendido isso desde a vez que o conheci naquela nevasca. Pena que só percebi tarde demais.
ACHEI ESSE CAPÍTULO TÃO LEVE E DIVERTIDO, ESPERO QUE TAMBÉM TENHAM GOSTADO. ATÉ AMANHÃ.
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