Capítulo 37
Como se nada fosse normal na minha vida entediante, mais uma vez me encontro aqui presa no elevador com o ser mais angustiante da face da terra. O senhor ninguém, aquele que detestei, e aparentemente tem como robe favorito atazanar a minha pessoa.
— Senhora mentira.
— Senhor ninguém. — Nos cumprimentamos como duas crianças retardadas.
Ao que tudo indica, Mark desconversou, como se não estivéssemos em nenhum relacionamento. Algo que desconfiasse que fosse verdade e, está seria a sua resposta definitiva, mas como a burra aqui ama se enganar, ficou por isso mesmo.
Como sou uma burra desiludida, uma tremenda otária, que suponho está caída de amores pelo chefe. Como isso não poderia se tornar mais clichê, ainda tenho que ouvir certos comentários para completar a minha desgraça, maravilha Rosa, a sua vida amorosa está como sempre foi, um lindo nada.
— Sabe que estamos parecendo duas crianças? — Perguntei me encostando no espelho do elevador, fazendo com que o senhor ninguém fizesse a mesma coisa ao meu lado.
Em contraponto aos físicos esportivos que vemos nos livros de romance, o senhor ao meu lado não tem nada equivalente ao padrão de beleza dos príncipes encantados. Com seu corpo corpulento, com algumas gordurinhas mal distribuídas, o famoso rechonchudo. O seu aspecto físico e aparência são normais, ele certamente nunca seria chamado de bonito pelas donzelas que acham que estão em um conto de fadas. No entanto, feio não é um adjetivo que o corresponde, o caracterizando como normal. Olho para o homem por cima do ombro já que este tem alguns poucos centímetros a mais da minha altura.
— Sei, mas gosto disso. Poucas vezes me divirto nessa empresa. — comentou batendo suavemente a sua cabeça contra o espelho.
— Se você fosse mulher seria uma ótima amiga. — Sem querer deixei escapar o que estava pensando.
— Isso quer dizer que sendo homem não posso ser o seu amigo. — Não o encarei, mas senti a sua mirada invasiva direcionada a minha pessoa.
— Sim, conheço o seu tipo, e pode ter certeza de que a sua "beleza" não me atrai. — Fiz aspas entre os dedos, para dar mais evidência à palavra.
— Digo o mesmo, a sua personalidade não me atrai, em acordo também deve espantar qualquer pretendente. — Um sorriso final como o gato de botas saiu dos seus lábios.
Não respondi, ignorando esse ser por completo, mesmo que estejamos agindo como duas crianças retardadas. Penso torcendo para o próximo andar que seria o meu ponto de partida chegasse logo.
— Você é esquisita.
Partindo do pressuposto não caracterizado pela minha pessoa, ele soltou essa frase. Mantendo-me por alguns segundos inertes em pensamentos, como se uma pequena brisa soprasse sobre mim, me levando a um lugar que pensei que estivesse adormecido em minha memória.
— Tia, isso aconteceu de verdade? — perguntei sem entender a história que minha tia acabara de contar.
— Claro, posso estar com as lembranças um pouco apagadas, mas não sou louca.
— Mesmo a senhora estando em um asilo?
— Calada menina, minha casa é um repouso para pessoas idosas. Bom, agora imagine a cena, foi no início do verão de 19xx, tudo estava calmo. Até que seu pai decidiu procurar novas oportunidades, pois o emprego na cidade que vivíamos não estava fácil. Com esse pensamento ele partiu levando os sonhos da sua mãe com ele...
Enquanto ela falava pude imaginar a cena, já que a tia contava tudo com tanta devoção como se uma história de amor trágica fosse linda e maravilhosa. Algo que suponho que ela sempre sonhou, dado ao fato de nunca ter se casado, e apenas ajudou a sua irmã caçula com os filhos, um perfeito resumo da sua vida. Em meio a esses pensamentos, consigo sentir as emoções protagonizadas pelos meus pais naquele aeroporto:
... ...
— Por que você não diz que me ama? — falei transbordando em lágrimas, como se os meus sentimentos não fossem o suficiente para as suas ambições.
— Mas sempre disse que te amava — disse como se essas palavras não fossem argumentos jogados ao vento.
— Não... foram apenas palavras... você nunca demostrou que me amava. Senão não estaria partindo. — Meu tom de voz soou em lamento já entendendo o meu triste destino.
— Não diga isso. Você sabe que precisamos. — Seus braços me acalentaram em um abraço apertado, como se fosse me despedaçar por dentro.
Esse era o meu pensamento, seria mais um adeus, um até logo que nunca voltaria. Como minha família imaginou, como fui burra. Lutei contra eles com toda a minha força em prol de um amor duradouro para terminar sozinha com duas crianças. Esse seria o meu fim, por ser tão burra e ingênua.
— Eu sempre estarei aqui para você, e se um dia... — Não o deixei concluir a frase o cortando com um beijo nos lábios.
Era duro demais admitir que esse poderia ser o nosso adeus. Tinha que encarar a realidade, ele precisava lutar por um dia melhor para mim e as suas filhas. Mas não sei se isso seria realmente necessário, poxa! Não temos como sobreviver dessa forma. Pense, ele está a caminho de outro país para conseguir um emprego e sustentar a nossa família. Uma família que meus pais lutaram de todas as formas para não se formar. Uma família que tive que me rebelar para ter, e faria tudo novamente, mesmo que isso custasse os melhores dias da minha vida.
— Assim que desembarcar farei a ligação. — Seus olhos brilharão em animação, enquanto ele depositava mais um beijo em meus lábios, acariciava a minha barriga e beijava a testa de nossa filha no carrinho.
— Estarei ansiosa aguardando. — Sorrir animada, vendo-o partir para mais uma jornada... de sobrevivência.
Mas para infortúnio meu mais tarde tive a certeza de que essa seria a última vez que o veria com vida. Para assim começar o meu latente inferno e como a desgraça não foi suficiente, eu me tornaria uma pessoa completamente diferente.
Mesmo em meio aos desesperos, infortúnios da vida, nunca esquecerei o que um adeus não dito pode causar.
Eu só queria fingir que você não foi embora, porque meu mundo ainda continua girando sem você nele e infelizmente preciso seguir mesmo que você não esteja presente.
... ...
Parei quando minha tia terminou de narrar a história trágica de amor da mamãe.
— Rosa, ao mesmo tempo que o amor pode ser lindo e maravilhoso ele pode se tornar sombrio e devastador. Nunca me arrependo de não ter me apaixonado a ponto de ter o interesse em me casar com alguém. Na verdade, agradeço por isso, pois pude ajudar a minha irmã com as suas filhas, e não me arrependo dessa escolha. Sabe, Fiona nem sempre foi essa mulher como vemos agora, um dia ela estava cheia de luz e esperança, mas aos poucos tudo se transformou em escuridão e amargura. Os nossos pais não aceitaram o relacionamento da sua mãe com o seu pai, então eles resolveram deserdá-la por ela insistir em casar-se com o amor da sua vida. Quando seu pai foi embora e acabou morrendo naquele acidente trágico, ela nunca mais foi a mesma. Pois a partir daquele dia ela pôde ver a verdadeira face dos nossos pais, quando eles não a aceitaram de volta mesmo estando grávida de você e com Camélia nos braços, após isso ela teve que se casar com o primeiro homem disponível que encontrou. E quando meus pais morreram pouco tempo depois, herdei a nossa pequena herança e ajudei a minha irmã cuidar de você e suas irmãs. Por isso não me arrependo, todo mundo pode falar o que for de Fiona, mas ninguém nunca irá dizer que ela não deu o seu melhor para cuidar de vocês mesmo em meio aos seus defeitos, que são muitos, bastantes na verdade.
Ainda em choque saio do elevador sem escutar o que o senhor Ninguém acabara de falar. Com fortes emoções em meu coração, sinto que essa constatação sobre a minha mãe foi de fundamental importância para mim. Pois agora tenho a ciência que ela não foi a melhor mãe do mundo, na verdade não foi uma boa mãe, mas foi o melhor que ela conseguiu ser, mesmo com todos os seus traumas e inseguranças.
Suspiro fundo e caminho em direção a minha mesa de trabalho, e como motivo para apagar a lembrança que acabara de ter tento focar somente no trabalho. Com esse objetivo, a primeira coisa que faço é abrir o e-mail para identificar as tarefas cruciais de hoje, evidenciando uma mensagem de Mark, como primeiro aviso do dia.
Bom dia,
Como percebi hoje que tenho uma rosa vermelha em meu jardim, resolvi colhê-la para um jantar hoje muito especial. Por isso conto muito com a presença desta rosa tão cheirosa, que tenha o prazer de sentir o seu perfume por várias noites possíveis.
Com os comprimentos,
Sr. Mark Ortega.
Depois desse e-mail, não poderia estar mais extasiada e feliz. — Por que esse idiota fez isso? Agora dará mais motivos a ela para se fantasiar como uma princesa apaixonada. — Sim, consciência intrometida, agora até mesmo você não pode negar que ele está dando sugestivas indagações de algo mais. E não posso esperar para conhecer.
Com um sorriso estampado no rosto me comparando ao gato de Alice no país das maravilhas, anotei o endereço do nosso encontro hoje à noite. Com evidente animação entrando em oposição ao dia angustiante que passei. Ignorando as lembranças em relação à mãe, tive o restante dos mais animadores dias possíveis, ansiando pela surpresa que me aguardará a noite.
***
— Rosa, você está encantadora — disse Nora enquanto me encara extasiada.
Olho o meu reflexo no espelho grande constatando a evidência de Nora. Meu sorriso está radiante, algo que me deixa ainda mais bela, além das minhas bochechas estarem em um corado natural revelando a minha animação enlouquecedora. Os meus olhos estão brilhantes e estranhamente, hoje meus cabelos estão domados em um coque com a parte de trás solta em cachos grossos e volumosos. Mesmo a minha pele sendo incrivelmente pálida de certo modo combinou com o vestido vermelho tubinho que estou trajando, em um pano simples justo ao corpo, sem ser vulgar, tendo o comprimento até um palmo abaixo do joelho, tendo como adorno um colar de pérola falsa no pescoço fazendo pá com o brinco. O salto social preto dá uma sofisticação tamanha a combinação que estou usando, evidenciando que roupas baratas se forem usadas corretamente podem dar um banho em vários modelitos de grife.
— Olhe, se Mark não te pedir em casamento hoje pode ter certeza de que ele é gay — disse Nora em pura animação.
— Pare besta, mesmo que seja difícil admitir, já que amo fantasiar, ainda nem estamos juntos de verdade, por isso temos bastante tempo — falei saindo rapidamente de casa, sem esperar por uma resposta sua.
Já no restaurante indicado, o garçom me direciona a uma mesa que de longe posso ver Mark bastante elegante sem estar trajando uma roupa formal, com seu primo ao seu lado na mesa, suponho pelo que me lembre do vídeo desastroso naquele dia. Trazendo em mim a memória que é o mesmo homem que trombei no corredor do escritório a algumas semanas, certamente se alguém os visse junto nunca diriam que são parentes, não se parecem em nada. No outro lado da mesa está uma mulher com um sorriso radiante, e por incrível que pareça uma tensão se apodera do meu corpo, pois lembro com exatidão do seu perfil quando a vi abraçada junto a Mark no primeiro dia em que estive na sua casa.
Mantenho as minhas observações contidas, sendo influenciada pela atmosfera calma do local, em um ambiente aberto com bastante vegetação trazendo uma paz encantadora. Mesmo a iluminação harmonizando para o tom amarelo, a graça selvagem do local não enfraquece, fazendo se assemelhar como se estivéssemos em um restaurante em plena floresta à luz da lua.
O garçom puxa a cadeira para que eu me acomode ao lado da mulher e em frente a Mark, que me encara sorrindo sussurrando a palavra "linda" direcionada a minha pessoa, para que somente eu o ouvisse. Sorri timidamente colocando meu olhar sobre a mesa, que está milimetricamente decorada com vinhos apostos.
— Rosa, acho que você não conhece a bela mulher ao seu lado, é Mole minha irmã mais velha. — Ele sorri me apresentando.
Finalmente conheço a mãe de Rosa Branca, porcaria! Agora vou passar o restante da noite querendo saber o motivo por ela não criar a criança. Mesmo que isso não seja da minha conta quero muito saber. — Rosa, se acalme! Você não pode ser invasiva, lembre-se que Mark não gosta disso.
Olho para a mulher que me estende a mão em comprimento. E nesse momento um certo constrangimento me atinge, pois não vejo motivo para um meu suposto ciúme na primeira noite que a vi, ainda mais por ser algo sem significado, já que na época conhecia Mark fazia pouco tempo, então não haveria motivo para o meu suposto ciúme em relação a ele. Em meio a esses pensamentos sem motivo, indagados pela minha cabecinha pensante, a mulher fala:
— É um prazer conhecê-la, o meu irmão comentou muito sobre você — disse sorrindo em um comprimento gentil.
— Espero que tenha sido coisas boas — comentei tentando aliviar a vergonha que só a minha pessoa sente, graças aos meus pensamentos passados.
— Eu que o diga, as conversas foram muito reveladoras. — O primo de Mark instigou entrando na conversa.
Não sei vocês, mas nesse momento fiquei em dúvida onde esconderia a cara, na toalha da mesa ou com a primeira bandeja que visse, tampando por completo o meu rosto dos seus olhares. Maldita hora que fui aparecer de lingerie por trás de Mark, enquanto este estava com o notebook ligado falando com alguém.
— Então, me conte mais não conheço muito a família de Mark. — Tentei desconversar, voltando ao assunto com Mole enquanto pude vislumbrar o primo de Mark dando um sorriso com a boca fechada como se não estivesse abalado em ser ignorado.
— Não tenho muito o que falar, tenho dois filhos que são os amores da minha vida, e só. — A sua fala foi suave e divertida, mas ela deu um corte na conversa como se não quisesse falar sobre outro assunto.
Mesmo sem saber se nesses dois filhos está incluída Rosa Branca, preferi continuar a conversa normalmente, sem perguntas invasivas.
— Então, vamos fazer os pedidos.
Mark encerrou o diálogo, e durante o restante da noite não tocamos mais no assunto família. Coincidentemente, o jantar foi ótimo e prazeroso. Descobrir que Colin o primo de Mark pode ser muito sério, e às vezes esboçar pequenos sorrisos sem mostrar os dentes, mesmo estes sendo muito bonitos. Mas não levei a mal, já que parece ser algo da personalidade dele, e nem por isso ele deixa de ser simpático e agradável ao falar, quando não quer me provocar lembrando da visão da minha pessoa na viagem. Por outro lado, Mole mostrou ser bastante sorridente, algo que aproveitei bastante desfrutando da sua companhia.
— Rosa foi bom revela. — Cumprimentou Colin com um abraço discreto se afastando rapidamente.
— Na verdade, foi um prazer conhecê-lo. — Sorri o mirando já afastada.
— Acho que já posso me sentir mais íntimo de você devido ao fato... — Foi cortado por um tapa no ombro despejado por Mark.
— Sem gracinhas Colin, nunca mais você verá Rosa com lingerie.
— Não estava falando disso. — Murmurou Colin se retirando parecendo contrariado, enquanto me encontrava perdida sem saber o que acabara de se passar. Devido ao fato de Colin falar as palavras anteriores com um semblante sério, sem demonstrar qualquer tipo de malícia.
— Não tente entender esses meninos, sempre foram assim cheios de segredinhos. E Colin sempre teve a fama de poucas palavras, mas quando fala acaba não medindo muito as suas palavras. — Mole me abraçou sussurrando em meu ouvido, e logo após se dirigiu ao carro de Colin.
— Há algo que eu precise saber entre você e seu primo? — Comentei quando o carro de Colin já havia partido e me encontrava com Mark parada em frente ao restaurante.
— Não, por quê? — Me mirou chegando bem perto de mim.
— Não sei, a reação de vocês agora a pouco fora muito estranha.
— Não se preocupe, agimos sempre assim — ele pronunciou e me guiou até o seu carro.
Enquanto estávamos a caminho da minha casa, olho para Mark que está com sua visão focada na estrada, enquanto digere calmamente.
— Sua irmã pareceu estar muito feliz hoje. — Comentei tentando puxar assunto, já que havia um tempo que tínhamos entrando no carro e ninguém falou nada.
— E estava, acho que ela ficou feliz por mim. Depois do que aconteceu em nossa família, foi difícil para mim, minha irmã e Colin.
Assenti após o seu comentário e mordi minha boca me impedindo de perguntar se éramos amigos ou algo mais, mesmo assim não pude evitar que uma pontada de dor fisgasse o meu coração.
— Como assim? — Perguntei, mesmo sabendo que ele não me daria muitos detalhes do assunto.
— O meu tio colocou minha irmã para fora de casa quando ela engravidou na adolescência e a deserdou encontrando uma brecha no testamento maluco do meu pai. Sabe, é apenas mais uma briguinha boba de família. Na época eu era apenas uma criança, e não pude fazer nada, mas me lembro como se fosse ontem. — Ele comentou como se não fosse nada, e em meio a isso seu semblante não mudou, continuou sério como estava quando entramos no carro. Porém, a raiva em suas palavras foi palpável.
Estranhei o fato dele falar tão abertamente sobre esse assunto sem reclusos ou meias palavras. Fora apenas sucinto e objetivo, assemelhando as suas ações no escritório, demonstrando que ele não está fugindo do assunto. Será que Mark já se sente seguro para compartilhar os seus sentimentos comigo? Realmente essa abertura evidencia que temos algo mais? Não quero ser apenas uma "amiga" com benefícios, isso não faz parte de quem eu sou nem do que quero para o futuro.
Mesmo o mosquitinho do bem soprando em meu ouvido: cale a boca sua abelhuda, isso não é da sua conta, não viu que ele acabou de te colocar o título de amiga mesmo após vocês dormirem juntos. Mas como sou uma tremenda otária, procurei fogo para me queimar.
— Isso não parece ser qualquer briguinha Mark.
Ele soltou um tsks, travando a boca em uma linha reta. Onde pude sentir as veias do seu pescoço soltar para fora em tensão.
— Na verdade não foi, mas agora já está tudo certo, em breve terei a minha herança definitivamente em meu nome e minha irmã estará estabilizada, mesmo tudo isso não sendo graças ao meu tio.
— Esse seu tio é o pai de Colin?
O mosquitinho que está zumbindo nos meus ouvidos, agora me deu uma mordida como se dissesse: cale a boca, você vai estragar tudo. Mesmo assim, a gênia não deu o braço a torcer. Penso que nesse momento o autocontrole das palavras fugiu de mim, e como uma fera buscando por resposta não me neguei em saber mais sobre o homem que estou apaix... tendo um lance, é isso... A palavra que não cheguei a pronunciar não faz o mínimo sentido para mim, e não tem nada a ver com sentimentos, que fique bem claro.
— Sim, por quê? — Aparentemente a tensão em seu corpo foi aliviada quando fiz essa pergunta, e ele me respondeu normalmente.
— Vocês não deveriam ter uma rixa, afinal foi o pai dele que fez tudo isso com você e sua irmã.
Afirmei o óbvio, afinal isso é o que acontece com os mocinhos dos romances, sempre existe um conflito entre o protagonista e o filho do vilão. Essa é a lei de qualquer romance, a herança genética sempre é vista como culpa. E se o pai cometeu tal ato muitas vezes os filhos são comparados aos pais como se eles fossem as mesmas pessoas, por isso as ações teriam que ser iguais.
Nesse exato momento paramos em uma sinaleira e Mark me olhou como se eu fosse um Alien de outro planeta. Estranhei, pois a sua mirada transparece o não entendimento, como se ele não estivesse me reconhecendo.
— O meu problema é com o pai de Colin, não com ele, não vejo motivo para misturar as coisas — disse e voltou a dirigir, sem perceber que as suas palavras foram como uma tapa na minha cara.
Percebi que os meus problemas com Camélia foram causados, pois transferia as minhas frustrações em relação à mãe para ela. Por isso, sempre estávamos em pé de guerra. Até mesmo em relação ao seu marido, as nossas discussões foram sempre pautadas na visão que mamãe causava afirmando que Camélia sempre foi melhor do que eu. Dessa forma ela deveria ter o homem que desejasse e lhe transmitisse benefícios, ignorando os sentimentos da sua irmã que já estava apaixonada a bastante tempo. Por influência da mãe misturamos as coisas, ao invés de enfrentarmos Fiona em decorrência das suas ações descabidas, lutamos entre nós sem identificar a verdadeira causa. Nunca pensei da forma que Mark está me mostrando. Deveria ter em mente que Camélia é outra pessoa e por isso não deveria ser alvo da minha injúria contra a mãe. E ela deveria agir da mesma forma, pois Fiona sempre cobrou de nós aquilo que não conseguimos ofertar, e posteriormente ela me culpava por ser "inútil" deixando as responsabilidades dirigidas da mãe para nós em seu ombro. Causando ainda mais intrigas, já que não deveríamos brigar como duas leoas, mas deveríamos ir à fonte de toda a contenda e cortar o mal pela raiz. Porém, se isso não fosse possível como aconteceu com Mark, independente disso eu e Camélia poderíamos ser amigas, porque os nossos pais não definem quem somos e nem como agimos. Agora consigo enxergar de outra maneira, ela nunca foi a minha inimiga. Já que nunca consegui atacar a mamãe pela dor que ela me causava, descontava na minha irmã, isso era um instinto de defesa minha, não era certo, eu sei. Isso causou um ciclo sem fim, que mesmo após a morte da minha irmã consigo lembrar de acontecimentos a detestando. Mesmo que algumas lacunas existam em minha mente, consigo ver as coisas com mais clareza agora.
— E como você fez isso? — Sinceramente não estou preocupada com o que Mark irá pensar, mas esse elixir que acabei de descobrir precisa ser saboreado.
— Primeiro, antes de tudo sempre fui amigo de Colin, por isso não tive problema para separar as coisas. E como Colin tem quase a mesma idade da minha irmã e arrumou uns amigos para ajudá-la enquanto eu não poderia. Ou seja, ele demonstrou ser amigo e leal até mesmo quando o pai estava contra ele, mesmo sem ter condições de nos ajudar, precisando da bondade dos outros. Então, por esse lado é difícil você ficar com raiva de uma pessoa dessa. Ele foi e sempre será o meu melhor amigo, pois um dia ele me ajudou quando ninguém se lembrava que eu existia, independente dele ser o filho do meu maior inimigo. Mesmo que hoje a gente brigue que nem cão e gato, quando precisamos sempre estamos lá um pelo outro.
Suspiro, após esse comentário nem sei o que falar, por isso encosto minha cabeça no assento e aguardo a minha chegada em casa.
— Bem-vinda ao lar — disse quando eu estava prestes a dormir.
— Ah Mark, não quer me levar no colo? — falei fazendo beicinho.
— Então isso é um convite? — Pela fresta do olho enquanto eu fazia drama pude perceber o seu sorriso malicioso.
— Não sei, é? — Correspondi a sua ação, vendo-o estacionar em frente ao meu apartamento, me pegando no colo logo após.
Com dificuldade abro o portão do prédio, e entramos com ele quase me derrubando no nas escadas. Como o elevador está com um aviso de "em manutenção", Mark teve que me levar pela enorme quantidade de escadas até a porta da minha casa. Para ele arrancar a chave da minha mão em nervosismo, me colando pendurada em seu ombro e abrindo a porta logo em seguida.
Sou arremessada em direção ao sofá um pouco desgastado pelo tempo, mas que parece novo pela capa estampada em flores e as almofadas coloridas em cores vibrantes.
— Então, quais são os seus projetos para hoje? — A sua mirada foi letal e isso fez o meu coração disparar de forma descompensada.
— Não sei, você quer descobrir? — Sorrir, constatando que não foi uma boa ideia tomar três taça de vinho, ainda mais pelo meu fraco por álcool.
Nem me importei se tinha alguém em casa, dado ao fato de todas as moradoras desse ambiente terem testado a cama das melhores formas possíveis, por isso agora chegou a minha vez de fazer o teste drive.
Senti os seus braços me rodearem e estranhamente ele entrou no quarto certo, acertando o único cômodo da casa para descanso que agora seria o fruto do meu cansaço. Já devidamente apoiada na cama senti os seus lábios me alcançarem, subindo pelo pescoço até encontrar a minha boca. Isso me deixou terrivelmente em chamas, como se tivessem colocado fogo em algo terrivelmente inflamável. Meus sentimentos se misturaram e momentaneamente não liguei mais para os rótulos: amiga, namorada, companheira, noiva, amante, esposa, entre outras palavras que evidenciam algum tipo de relação.
Estou quase atordoada o suficiente para não o afastar, e então percebo que apesar da brusquidão do beijo, os braços de Mark ao meu redor são gentis. E em meio a isso não percebo que me perco perante o seu toque, por mais que seja uma confusão entre o delicado e selvagem. O beijo profundo e prolongado, é o suficiente para fazer o meu corpo ceder perante o seu toque. No entanto, é decepcionantemente curto. No momento em que me sinto afundando em seu toque, ele se afasta e puxa uma mecha de cabelo solta, colocando atras da minha orelha. Me olhando, enquanto estou por baixo o mirando sem entender a interrupção.
— Você é tão linda. — Sorriu.
O olhei estranhando a interrupção. Não que eu não goste de ser elogiada, pois não é sempre que sou chamada de linda, ainda mais por um homem. Mas estamos em um momento mais importante aqui, não sei se vocês me entendem.
— Não me diga que está apaixonado? — Levantei uma sobrancelha o desafiando.
— É um segredo...
Surrou roucamente em meu ouvido me causando arrepios, e desceu a sua boca distribuindo beijos delicados pela superfície da minha pele até chegar em cima dos meus seios. Para enfim parar e me encarar sorrindo, como se dissesse: vamos brincar?
ESSE CAPÍTULO FICOU ENORME, MAS ESPERO QUE TENHAM GOSTADO. ACHO QUE RESPONDI ALGUMAS DÚVIDAS. ATÉ...
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top