Capítulo VI - A arte de comer com as mãos


Na manhã de sexta-feira., Lilly manteve os olhos baixos, temorosa de que, se os erguesse na linha do horizonte, pincelado do mais pálido amarelo, um sorriso abrir-se-ia num piscar de olhos. Seu coração palpitava sob o vestido de linho azul, com sua cintura império alcançando a base de seus seios enquanto as pequenas mangas bufantes faziam cócegas em seus braços. Com rapidez, a garota prendera suas madeixas amendoadas com uma fita azul-celeste enquanto descia as escadas.

- Já vai, minha filha? – Indagou Célia, surpreendendo a garota, que parou segundos antes de tocar a maçaneta da porta da frente.

- Assustou-me, mamãe.

A mulher estava sentada com os olhos na direção da janela da sala, a qual permitia a entrada obliqua de uma luz fraca dos primeiros raios de sol, suficientemente quentes para Lilly e o suficiente para refletir o rosto exageradamente maquiado, com lábios vermelhos cor de sangue, de sua mãe, que trajava sabe-se lá que modelo de vestimenta rendada, tão perdida em camadas que tornava-se uma poluição ao olhar. Célia tinha agulhas na mão direita, espetadas em pequenos suportes de algodão feito por ela mesma, o tecido rosado na outra mão já possuía bordados e arabescos em suas extremidades.

- O que a senhora está fazendo? – Lilly perguntou, aproximando-se com passos leves e quietos, que não abafaram os leves ruídos que vinham da cozinha, onde os novos criados ainda lutavam para se acostumar com o novo espaço de trabalho.

- Teremos um baile em apenas nove dias, minha filha. – Admitiu com certo cansaço, desejando que a filha não começasse uma discussão. Estava sem forças para ganhar qualquer protesto naquele momento. - Creio que vá querer estar vestida de forma...adequada, pelo menos. – Célia pareceu suspirar por entre o fim da frase, como se o evento fosse um fardo para ambas, os ombros abaixando com o movimento.

- Não precisa reformar este vestido...

Os olhos da mulher estavam marejados, brilhosos das lágrimas enquanto seus lábios falavam:

- Queria poder acabar com esse baile, minha cara Lily. – A filha andou até a frente da mãe, ajoelhando-se perante ela, o vestido protegendo seus joelhos do toque direto com o tapete, afagando suas mãos e entrelaçando os dedos. – Queria que...

- Não há necessidade disso, mamãe. – Lilly fechou os olhos e baixou o rosto, um pesar surgindo em suas têmporas. – Não precisa se desculpar.

- É claro que preciso. – Ela respondeu conforme engolia em seco e fungava o nariz, afastando as mãos das da filha, usando uma delas para apoiar seu queixo contra a parte superior da cadeira.

Lilly uniu os lábios e forçou um sorriso, levantando-se enquanto alisava o tecido de suas vestes.

- Estou indo para o café, mamãe. – A garota voltou para a porta. – Quer que eu traga alguma coisa?

- Não, não será necessário. – A mãe deu um sorriso amarelo, querendo que aquela conversa tivesse tomado outro rumo. Havia tanto que Célia gostaria de dizer à filha, mas o medo de ser ouvida por William, que se trancafiava naquele maldito escritório, era o bastante para conter o seu ímpeto. Constantemente algo travava em sua garganta, como se ela soubesse que aquelas eram as palavras certas a serem ditas, mas no final, a mulher não se forçava a expeli-las. Palavras que ela guardaria para mais tarde, talvez, se o momento fosse oportuno. Se não houvesse o medo do marido.

Com o coração batendo tão violentamente quantos as primeiras ondas da maré, Lilly fechou a porta atrás de si e permitiu-se que seu corpo fosse envolvido pela atmosfera quente do exterior, seus pés tentando não tropeçar um no outro durante o caminhar, enquanto animava-se com a ideia de rever aqueles olhos tão intensos, talvez tomar uma xícara de chá e mergulhar nas palavras de um livro. Mas, acima de tudo, saber que teria companhia ao fazê-lo era o que mais lhe aquecia o coração.

...

A boulangerie estava praticamente vazia naquela manhã, tendo seu espaço refrescado por uma brisa suave que entrava na porta aberta e presa por uma corda prestes a arrebentar. Lilly começou a caminhar para dentro do local no momento em que um estalo surdo ocorreu, as fibras que sustentavam a abertura da passagem se rompendo, a porta de vidro vindo em sua direção e tudo o que ela pôde fazer foi erguer seus braços sobre seu rosto, protegendo-se, as pernas paralisadas enquanto os olhos fechados tornavam-se doloridos e preparados para o choque grosseiro.

Hesitante, ela permitiu-se ver novamente, baixando seus braços, sentindo a brisa salgada grudando sobre sua pele enquanto o rosto de Lucian tomava forma, os olhos arregalados e a boca permitindo seu respirar; seus cabelos loiros estavam bagunçados e os botões de sua camisa cinzenta estavam – como sempre - abertos, revelando pelos rasos em seu peito, que cresciam em direções opostas, deixando pequenas falhas.

- Lilly... – Ele deixou escapar por entre os lábios amanhecidos, percebendo quem havia salvo daquele vidro pesado, que agora empurrava para trás e fazia questão de amarrá-lo com um pano que encontra numa mesa próxima, atando nós fortes que só um marinheiro conhece. – Perdão...senhorita Talbot. – Zombou ele.

Lilly ainda estava paralisada enquanto fazia um gesto com a cabeça, fitando a ponta de seus pequenos saltos azulados.

- Você veio... – Ele disse por fim, quase como se assimilando as próprias palavras, um tom surpreso que fez os cílios da garota se agitarem.

- Esperava que eu não viesse?

As bochechas de Lucian esquentaram, o sangue tornando-as avermelhadas enquanto os inúmeros pedidos de desculpas de Jim pelo incidente voavam por trás do galpão e dominavam a atmosfera daquele lugar

- Não é isso... – Começou ele, incerto de onde terminaria.

- Então o que seria? – Lilly o provocou, segurando a barra de seu vestido enquanto se punha a sentar, as mãos sobre o colo e o olhar furtivo desafiando Lucian.

- Não estou acostumado a ver uma dama quebrando as regras.

A boca de Lilly ficou seca e áspera, a língua colando-se ao céu da boca enquanto o maxilar endurecia e ela se lembrava. Era inverno e ela já tinha oito anos, estavam voltando de uma festa dada pela família Porter, na qual...ela quebrou as regras que as boas meninas devem seguir. Garotas não podiam brigar. Não podiam contestar. Deveriam sorrir e concordar, preocupadas demais em agradar quem quer que fosse. Mas naquela noite, ela desobedeceu as duas primeiras, dando um tapa contra o rosto de um menino que puxara uma das tranças de seu cabelo, vendo-o atrapalhar-se no próprio pisar e caindo sobre o traseiro enfurnado em calças de linho, enquanto suas costas batiam contra o pé da mesa e um vaso tombava, estilhaçando-se, cacos de porcelana voando pelo saguão e o som tamborilando pelas paredes, os olhos dos convidados tornando-se a eles. O nome dele era Gean, e ele chorava como um mimadinho que era. E ela ainda estava de pé. Mas isso não durou muito tempo. Envergonhados pelos olhares que a filha desobediente atraíra, William e Célia decidiram retirar-se da festa às pressas. Se somente a mãe lhe tivesse reprimido, como ela de fato fizera – dizendo que não era certo revidar -, teria bastado. Mas não. O senhor Talbot já via o problema surgindo e, decidido a cortar o mal pela raiz, deu-lhe um tabefe que a arremessou contra o acolchoado e arrancou um grito da mãe, que também recebeu um tapa.

- Não queria fazer isso, minha filha. – Ele disse enquanto ela chorava, o medo e a dor da pele ardida fazendo seu corpo encolher-se entre o tecido do vestido. – Mas deve aprender a se portar como uma dama. A honrar seu sobrenome.

Os olhos assuados o fitaram pelo resto do trajeto, molhados pelas gotas de sal que escorriam rapidamente pelas bochechas vermelhas enquanto a mãe lutava para também não desabar, apenas fitando o exterior da carruagem, como se aquilo não tivesse acontecido. Como se nada nunca acontecesse.

Mas agora, uma outra voz chamava por seu olhar.

- Senhorita Talbot? – Lucian indagou. – Lilly? – Apenas quando ele a chamou pelo nome, a garota pôde despertar do transe cruel que sua mente lhe fizera mergulhar. Ela piscou rapidamente, observando-o empurrar o livro sobre a mesa de madeira, a capa azulada desejando o toque dos dedos da garota.

Com certa hesitação, a garota apanhou o livro, a mente ainda um tanto incerta. Lucian franziu o cenho. Parecia de certa forma entretido com ela, uma curiosidade peculiar brilhava em seus olhos tão escuros quanto a casca de uma árvore.

- O que está pairando, senhor Campbell?

Ele tomou-se de surpresa, o ar escapando-lhe dos pulmões enquanto dizia com a voz exacerbada de um charme que apenas ele tinha:

- É apenas difícil de acreditar que estou sentado na frente de uma ladra.

Ela revirou os olhos displicentemente apenas para, em seguida, focar sua atenção no exterior, rápido o bastante para se certificar que ninguém os observava de fora. Mas alguém o fazia, ela só não pode vê-lo, pois sua figura escondia-se quase por completo atrás de caixas empilhadas próximas a um armazém, onde homens descarregavam sacos de cimento. Agora, Lilly já abria a capa do livro, sem perder seu contato visual com Lucian.

- Achei que já tivéssemos superado isso, senhor Campbell. O livro não possui dono algum.

Ele se levantou, arrastando sua cadeira com a perna enquanto contornava a mesa e seus lábios fizeram menção de contra argumentar, de dizer algo que seu corpo já lhe pedia há certos instantes, mas como o homem que lhe ensinaram a ser, ele resguardou aquilo que sentia. Guardou tão belas palavras, por hora. Mas engraçada é a vida, que prega peças no coração daqueles que amam.

- Creio que terei de deixá-la aqui por algumas horas, senhorita.

Ela franziu o cenho e ele respondeu sem que ela precisasse perguntar:

- Sou um marinheiro e há trabalho a ser feito. – Lucian suspirou. – Um novo navio atracou no porto e temos de descarrega-lo, mas até a hora do almoço eu retornarei. Okay?

- Okay. – Ela disse, tímida enquanto o observou saindo do estabelecimento, o sol da manhã iluminando seus ombros conforme caminhava na direção de um dos navios. Lilly não havia mais nada que a impedisse, finalmente, e, assim, ela se permitiu sorrir, sem vergonha, apenas rindo consigo mesma enquanto acariciava a primeira página do livro, amarelada e enrugada devido à água do oceano.

Com o calor afluindo por seu rosto conforme o sol incidia diretamente sobre sua cabeça, tornando sua sombra sobre as páginas, Lilly, com tranquilidade, folheou as primeiras folhas, fechando seus olhos enquanto permitia que seus dedos flutuassem pela finura e suavidade do papel, até senti-los parar. Ali. Aquela seria a primeira página que leria. Torcendo para que as palavras não tivessem sido apagadas pela água, Lilly abriu o livro sobre a mesa de madeira, surpreendendo-se com o que lera.

A beleza que encontrei pelo mundo

Seria pecaminosa

Se comparada à perfeição que encontrei em seu olhar.

Envolvi-me com sua cintura,

Ó, minha amada,

Serei seu, agora e eternamente.

Aquilo a congelou por alguns segundos conforme ela umedecia os lábios e lia as estrofes uma segunda vez. Era um livro de poemas. Belíssimos poemas que ela não podia privar-se de ler. Lilly olhou ao redor uma segunda vez, sentindo uma onda de medo percorrendo seus braços. Será que algum homem que trabalhasse para seu pai estava ali? Bom, ela não via ninguém.... não...havia apenas um velho tomando chá com a cara enfurnada num jornal e Jim, sempre limpando seu balcão com um pano velho e esburacado.

Ela voltou sua atenção para o texto. Era tão lindo. Quem quer que o tivesse escrito estava perdidamente apaixonado e talvez aquelas palavras tivessem mais a ver com ela do que a garota poderia imaginar. Ao pensar naquele amor, Lilly olhou em direção ao porto, onde gaivotas batiam suas asas tão brancas quanto as nuvens, grasnando acima das cabeças daqueles que trabalhavam, e onde o marinheiro de sobrenome Campbell não parava de pensar na garota que estava na boulangerie.

...

Sem nem ao menos perceber, a hora do almoço já se aproximava e, com isso, a volta de Lucian se tornava cada vez mais provável e iminente e, apesar de já saber que ele voltaria – ou ao menos acreditar nisso com todas as forças de seu corpo - ao invés de ser uma decepcionante obviedade, ela não conseguia conter-se de nervosismo. É algo humano, a incerteza, e com isso Lilly erguia os olhos todas as vezes que ouvia o sino da entrada tocando, mas ele nunca anunciava a chegada do único marinheiro que ela gostaria de ver naquele dia.

Enquanto fitava a capa azulada do exemplar, a garota sentiu algo crescendo dentro dela, uma fera adormecida com a leveza do bater de asas de uma borboleta despertava de um sono profundo, embrulhando seu estômago e fazendo com que ela desejasse estar perto de Lucian simplesmente para acalmar seu coração inquieto.

Com um baque surdo, Lucian jogou seu corpo na cadeira na à frente da garota num instante de devaneio, o que o fez indagar.

- Você é sempre tão distraída?

Lilly quis sorrir, mas o comentário tão adocicado que saiu dos lábios dele a fez apenas bufar e observá-lo friamente.

- Você é sempre tão arrogante? – Retrucou e ele, diferente dela, riu, os braços cruzados sobre o peito e um sorriso em seu rosto, contornado pelas gotículas de suor que escorriam de sua testa. Sua respiração indicava cansaço, os músculos contraídos ainda não haviam percebido que o trabalho havia tido uma pausa.

- Já o leu por completo? – Lucian indagou minutos depois de pedir que Jim encerrasse os pedidos da mesa, dizendo para colocar na conta de um capitão não-sei-qual-o-nome.

- Não. – Respondeu ela, mas manteve o queixo erguido, embora estivesse confusa com o que ele estava fazendo. – Eu não consumi nada, senhor Campbell, não precisa se preocupar em pagar.

- Não consumiu nada ainda. – Retorquiu com um sorriso travesso.

- E o que quer dizer com isso? – Mas a pergunta dela abafou-se com a dele.

- Não terminou de ler o livro, mas atrevesse a dizer que é uma leitora?

- Pelo menos não saio por aí acusando os outros de furto.

Ele riu mais uma vez.

- Está com fome, senhorita Talbot?

...

A gritaria ao redor do homem que vendia tiras de peixe frito na cozinha de sua casa era tremenda. Vozes e mais vozes farfalhando furiosamente, zangadas pela espera, insatisfeitas pela fome enquanto um homem de bigode engraçado, possivelmente o dono, junto ao seu filho mais novo, agilmente entregavam retângulos compridos, porém estreitos, dourados e fumegantes, o óleo escorrendo em direção ao papel em que vinham, organizados numa pequena cesta trançada.

- Fale para mim novamente a sua patética desculpa para não ter terminado o livro, senhorita Talbot. – Pediu enquanto enfiava as mãos nos bolsos e aguardava o pedido que fizera ser entregue.

- Eu me permito viajar por entre as palavras, senhor Campbell. – Lilly justificou-se pela segunda vez. – Creio que um homem como o senhor não entenderia.

- Um homem como eu? – Ele indagou, uma dúvida mais profunda do que gostaria de demonstrar. O que ela pensava a respeito dele?

- Se diz um leitor, mas não se permite a viagem. – Explicou ela com o virar do rosto na direção dele, o movimento de seus cabelos fazendo-os recair sobre o ombro direito. – Se ler um livro muito rapidamente, não o aprecia como deve.

Lucian riu e, logo em seguida, ouviu seu nome sendo chamado por entre a multidão. Ele abriu espaço por entre as pessoas, empurrando-as para o lado e ouvindo xingamentos em sua direção enquanto apanhava a cesta e a trazia colada ao corpo, os olhos de quem ainda aguardava na fila seguindo as fatias douradas e oleosas enquanto seu olfato fazia seus estômagos roncarem. Dentro daquele lugar que eles chamavam de cozinha, mas que antes deveria ter dado lugar a uma sala de estar, os homens suavam e empurravam as mangas de suas camisas para cima, alargando-as. Quando ele voltou para a frente dela, estava ofegante e tinha uma excitação no olhar que a fez rir. Lucian ainda sorria, fitando a primeira tira de peixe que apanhou e levando-a à sua boca voraz, os dedos lubrificando-se do mais puro óleo.

- E o que tais viagens lhe permitiram imaginar, senhorita Talbot? – Perguntou depois que acabou de mastigar enquanto lambia as pontas dos dedos com pequenos estalos dos lábios.

Ela mordiscou o interior de sua bochecha, endireitou os ombros e preparou-se para responder, mas, antes que o fizesse, a garota arregalou os olhos e assistiu à multidão se aglutinando ainda mais.

- Está apaixonado.

O marinheiro parou, uma tira de peixe ainda presa aos lábios enquanto os olhos brilhavam, hesitantes, desafiando-a a continuar, mas ao mesmo tempo receosos de ela já ter exposto seu coração.

- O que quer dizer? – Ele conseguiu perguntar por entre o mastigar, controlando a voz para evitar um gaguejo.

- Que talvez o eu lírico esteja apaixonado e que talvez não devesse falar com sua boca cheia, senhor Campbell.

Ele ergueu uma sobrancelha.

- Talvez devesse parar de ser tão educada e permitir-se se divertir.

Ela baixou o olhar e o canto de seu lábio levantou-se num sorriso acanhado.

- Diversão...não faz parte de minha rotina.

- Bom, deveria.... – Ele olhou para baixo, olhando as últimas tiras de peixe. – Vejo que não tocou ainda em nossa refeição puramente saudável. – Zombou e ela sorriu, nem imaginando o que ele faria a seguir. - Te desafio a comer esta tira de peixe. – Lucian apanhou um dos empanados alaranjados e o direcionou a ela.

- O quê? – Ela hesitou, perdendo seu sorriso e dando um passo para trás.

- Está fugindo? – Brincou ele, as sobrancelhas quase unindo-se enquanto seus olhos tentavam entendê-la. - Permita-me dizer que não está envenenada. – Caçoou ele. – Vamos, não seja uma garotinha mimada.

Lilly estreitou os olhos.

- Quebre seu código social e coma esta tira de peixe com suas próprias mãos, senhorita Talbot. – Disse Lucian com pausas pontuais em suas duas últimas palavras, o que fez com que o coração da garota se acelerara-se.

Rindo, Lilly apanhou o peixe, a gordura escorrendo por seus dedos conforme ela o levava até os lábios delicados, mordendo-o com certo receio de como seu corpo reagiria a aquilo, mas o sabor da fritura saciou a fome discreta da garota. No final, quando a tira dourada ficara apenas em sua memória, ela olhou para seus dedos. Brilhosos. Escorregadios. Os lábios tinham o óleo da fritura enquanto a garota os mordiscava por entre a risada longa e pura.

- O senhor só pode ser louco.

Lucian deu de ombros, como se estivesse acostumado a ouvir tal elogio.

- Se acha que comer com as mãos é loucura, aguarde para o que preparei para hoje à noite.

- Hoje à noite? – Ela semicerrou os olhos e uma fagulha saltou na direção dos dele enquanto seus dedos inclinavam-se para apanhar um novo pedaço de peixe.

- Gostaria de convidar-lhe a... uma noite no convés, senhorita Talbot.

- Isso parece deveras inapropriado, senhor Campbell.

Ele riu depois de pensar no que disse.

- Todas as sextas-feiras, depois do cair da noite, os marujos e os homens do porto confraternizam juntos no convés. Bebemos, jogamos e dançamos.

- Lucian, eu não sei...

- Vamos, por favor. – Ele tocou o seu pulso direito enquanto os lábios abriam-se num sorriso, recuando logo em seguida, pensando ter cruzado a linha limite que havia entre eles. Mal ele sabia que, com aquele toque, liberara uma corrente de uma loucura apaixonante inesperada em Lilly. Já havia quebrado suas regras de etiqueta, já havia desobedecido seu pai, então por que não iria com aquele rapaz numa festa no convés?

- Mas...é que eu não sei se vou conseguir não rir ao te ver dançar.

E a boca de Lucian escancarou-se em um arco surpreso, uma mistura de provocação e indignação que fez seu corpo responder:

- Como ousa, senhorita Talbot?

E então, em meio a uma risada, ela apanhou a cesta com a última fatia frita de peixe.

- Lilly...

- Perdeu a formalidade? – Zombou enquanto escondia a cesta atrás do corpo.

- Não se deve brincar com a fome de um cavalheiro.

Mas ele via nos olhos ardilosos dela o quanto ela queria um desafio. Meu Deus, Lilly Talbot era, de fato, irrevogavelmente apaixonante. E, agora, com uma investida patética, ela rodopiou, distanciando-se dele, olhando por sobre o ombro para ver se Lucian a seguia enquanto acelerava os passos, a última fatia dourada daquele peixe frito repousando na cesta entre seus dedos. E ele a seguiu, divertindo-se ao vê-la correndo à sua frente enquanto suas mãos tentavam apanhá-la e puxá-la para perto. A cada vez que a garota olhava para trás, com os fios de seus cabelos contornando seu rosto e o seu sorriso mais puro, ele tinha certeza. Caramba, ele seguiria Lilly onde quer que ela fosse.


*AAAAAAA EU AMO TANTO CAPÍTULOS COM O LUCIAN KKKKKK. Há algo nesse personagem,  acho que a naturalidade dele em fazer as coisas e o modo como age que me fazem me apaixonar por ele, e o modo como a Lilly se sente tão bem em sua companhia e está tendo coragem de fazer novas escolhas, isso me faz me apaixonar por ela também. Mas sou suspeito em dizer isso né kkkk então me falem vocêeeeees!!!!

*Quais suas expectativas com a história até agora hein? Se preparem que tem muuuito por vir.

*Se gostaram, não esqueçam de deixar um voto, um comentário e quems abe até recomendar para algum amigoooo!!!!

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