Capítulo V - A indelicadeza de um cavalheiro
O dia seguinte decorreu de forma surpreendentemente graciosa, assim como o anterior. Lilly quase não vira seu pai e isso lhe serviu como um descanso, até que, quando já havia anoitecido e seus pratos haviam sido recolhidos pelas duas novas empregadas da casa, o senhor Talbot prontificou sua gratidão pela filha ter parado de reclamar a respeito do baile na próxima semana. Mal sabia ele que esta seria a conversa que acompanharia as garotas em sua viagem até a propriedade dos Denver na manhã de sábado. Antes que ele deixasse a mesa, Lilly disse, numa espécie de soluço apressado, que gostaria de participar de um chá da tarde com Heather Fetherstone no final de semana. Ele questionou seus motivos, mas no final cedeu, convencido pela voz de sua esposa. Lilly fez uma anotação mental de agradecer sua mãe antes de repousar, dando-lhe um beijo no rosto que não mais manchava-se com os tons de roxo da bofetada que levara, mas que se desfazia em tons de amarelo.
Agora, na manhã de sexta-feira, com um vestido vermelho vinho recheado das mais diversas rosas douradas bordadas em seu tecido pesado, um pequeno bustle tornando-a mais curvilínea nos quadris, com mangas médias, lisas e que mostravam um punho cheio de rendas, Lilly caminhava na direção da boulangerie em frente ao porto, a mistura do sal na brisa que batia contra seu rosto refrescava seus sentimentos um tanto embaçados. Ela abriu a porta e foi recebida pelo toque do sino enferrujado. Jim veio atendê-la de prontidão.
- Senhorita Talbot! – O atendente sorriu, animado, ao se aproximar, a beleza estonteante da garota naquela manhã atraindo seus olhos gentis. A garota ajeitou o colo de seu vestido enquanto olhava para ele, retribuindo o sorriso. – Está tudo bem? Não esperava vê-la hoje.
- E por que não? – Respondeu, seus dentes perfeitos ainda alinhados em um sorriso.
- Não tivemos a honra de sua presença em dois dias, achei que estivesse ocupada. – Ele disse com um final vago, como se esperasse que ela lhe desse informações.
- Acabei perdendo a hora, apenas isso. – Ela respondeu enquanto analisava a janela embaçada ao seu lado, dando vista para os mastros dos navios, onde homens de aparência sofrida puxavam as cordas de suas velas principais, preparando para talvez mais um ano em alto mar, isso se tivessem sorte, é claro.
- Ah...sim, perdoe-me a indiscrição. Não queria parecer rude. – Jim ficou vermelho e Lilly sorriu novamente, mostrando que estava tudo bem.
- Me traria um chocolate quente, Jim? Estou precisando de um, esta manhã.
De fato, a brisa acordara com um aspecto um tanto mais fresco, naquela manhã, e a garota achou oportuno uma bebida mais quente.
- Já trarei. – Ele anunciou enquanto retornava para detrás do balcão velho, a pintura esverdeada descascando enquanto doces brilhantes se exibiam dessa vez. Feitos de pão, mel, açúcar importado e outros levavam pequenas frutas azuladas e redondas, que Lilly nunca comera.
O local estava tranquilo aquela manhã, e a garota correu os olhos pelo chão de madeira esburacada enquanto procurava por algum sinal do senhor Campbell. Como se atendendo aos pedidos de sua mente, mas não os de seu coração, ele não estava ali. Talvez ele tivesse sido apenas uma coincidência. Mas duas vezes? Talvez ele passasse a ser uma memória, uma peculiaridade de seu passado. Se ela não o visse mais, ao menos não haveriam problemas relacionados a seu pai. Ao menos fora o que ela pensara.
- Aqui está. – Jim entregou a bebida fumegante, que teve sua fumaça dançando em espirais até a altura do nariz da garota, sua delicadeza misturando-se em tons escuros que, em breve, lhe aqueceriam o corpo. Antes de deixá-la sozinha, o atendente retirou algo de dentro do avental branco que usava e colocou sobre a beirada da mesa. Estava embrulhado em jornal e tinha um formato comum aos olhos de Lilly.
- Jim... – Ela o chamou depois de bebericar o chocolate quente e vê-lo se afastar com demasiada pressa, quase temeroso. – Acredito que isto lhe pertença... – Ela se levantou, segurando a barra de seu vestido enquanto apanhava o embrulho. O peso. O formato...era, sem dúvida alguma, um livro, e a frase de Jim apenas serviu para confirmar isso:
- Ah..., perdoe-me, estou um tanto avoado. Este livro foi deixado por um cavalheiro na manhã de ontem, para você.
O coração de Lilly parou em seu peito, os lábios entreabrindo-se enquanto a respiração tornava-se fraca e ela empalidecia.
- E poderia me dizer o nome do cavalheiro? – Ela indagou, as palavras travando em sua garganta, já conhecedoras da resposta.
- Lucian. Lucian Campbell, senhorita Talbot.
Agora, Lilly tocava o embrulho como se este lhe causasse queimaduras tão profundas que alcançavam sua alma. Ela já sabia que era um livro, mas não...aquele. Não o que ela encontrara nas ondas. Não o que havia feito cair embaixo do corpo dele. Não aquele maldito livro.
Entre os rasgos do papel do jornal barato, a capa azul começou a se revelar, o cheiro de sal e mar evidente, misturando-se ao do chocolate de forma sutil, que ainda fazia-se presente no paladar da garota, seco pela surpresa, as sobrancelhas erguidas em arcos alinhados enquanto ela lia um pequeno bilhete que fora grudado sobre a capa:
Senhorita Lilly Talbot,
Perdoe-me pelo inconveniente da noite passada, espero que acredite quando digo que não queria nada mais do que apanhar meu livro, isso lhe garanto. Jamais imaginei que nosso encontro ao acaso acabasse por lhe prejudicar. Sinto muitíssimo. Como prova de meu arrependimento, estou lhe dando o livro que pateticamente tentou roubar de mim.
Cordialmente,
Lucian Campbell.
O rosto de Lilly queimou em indignação, e os lábios uniram-se enquanto ela contraía o maxilar, incrédula. Ele ainda tivera coragem de chamá-la de ladra mesmo em uma carta pobremente escrita.
- Jim – ela chamou e o rapaz apareceu quase de imediato. A garota baixou o livro enquanto arrancava o bilhete exasperada, amassando-o entre os dedos. – Sabe onde posso encontrar o senhor Campbell?
...
Lucian corria de um lado para o outro, seus cabelos dourados grudados na testa com seu suor salgado, reluzente ao sol forte. Ele pulou da proa em direção ao convés, as cordas maltrapilhas balançando como serpentes no ar enquanto as botas dele batiam contra a madeira.
- Controlem as cordas, homens! Se não o fizerem, o navio sairá antes da hora! – Ele berrou como uma espécie de incentivo e aqueles ao seu arredor pareceram aumentar o esforço. As veias saltavam em seus braços, esverdeadas formando trilhas inimagináveis enquanto Lucian trincava os dentes e controlava as cordas, enroscando-as no corpo, sentindo cortando a pele.
- Lucian, apanhe esta aqui! – Berrou um homem de pele morena, lançando uma corda marrom na direção dele. O rapaz a apanhou, colocando-a sob o ombro apenas para, depois, prendê-la em sua cintura.
- Calma, homens. – Ele berrou enquanto sentia as correntes frias do mar diminuindo o movimento das velas. Seu interior era gélido, sua superfície era morna. No calor, era um atrativo a qualquer um. – Calma!
De repente, os ventos intransigentes acalmaram-se e o tumulto apaziguou-se. Lucian estava ofegante, as mãos apoiadas em suas calças esburacadas enquanto a camisa amarelada grudava em seu peito. Ele desamarrou a corda da cintura e a prendeu numa das estacas que ficavam na borda do navio, assim como os outros homens faziam, tentando controlar sua respiração. O sol bateu obliquamente sobre seus olhos, cegando-o por um momento, fazendo-o cambalear para trás antes de desembarcar, passando por uma prancha improvisada que testava o equilíbrio de todos os marinheiros.
Enfim, já em solo do porto, onde seu suor corria livremente em direção ao piso de madeira falha, e o peito dolorido conseguia finalmente perder a excitação, Lucian a avistou, passos firmes cobertos por aquele tecido tão ridiculamente pesado e quente e um livro azul entre os dedos delicados, os cabelos castanhos tom-de-amêndoa queimada voando na frente do rosto conforme os ventos a alcançavam enquanto a cintura era perfeitamente delimitada, as mangas rendadas esvoaçando sob seus braços como linhas embaraçadas. Seus olhos carregavam lágrimas de puro nervosismo e indignação.
- Senhorita Talbot... – Lucian tentou sorrir, mas antes que pudesse, Lilly atirou o livro aos seus pés, a capa abrindo-se com o impacto, deixando as folhas expostas aos respingos de água salgada, violentamente viradas pelo vento que não lhe demonstrava respeito.
- Por quê? - Ela indagou, as mãos cerradas enquanto parava a menos de um metro dele.
- Perdão, senhorita, mas não entendo o que está querendo dizer.
Lilly aproximou-se dele por fim, sentindo seu cheiro; puro suor e sal. Ela franziu o cenho enquanto mordia o lábio inferior, o maxilar escorregadio e o sol tornando os fios de seu cabelo em um bronze brilhante.
- Por que me mandou este livro?
Lucian ergueu um braço e coçou a nuca, abaixando-se conforme os joelhos dobravam e ele apanhava o exemplar azulado, os olhos um tanto envergonhados enquanto as palavras começavam a sair de seus lábios de forma acanhada e hesitante:
- Achei que o quisesse.
- Não quero nada que venha de você, senhor Campbell. – Tendo dito isso, Lilly girou nos calcanhares e começou a se distanciar antes mesmo dele se reerguer, os ombros rígidos e a postura de uma garota digna do beijo do sol, que aquecia suas feições palidamente esculpidas.
Lucian olhou na direção do navio. Alguns marinheiros riam da situação, debochando com sorrisos largos. Ele revirou os olhos, os lábios franzidos em reprovação enquanto fitava a figura vermelha da garota distanciando-se, fazendo-o correr atrás dela, a tensão da força que fizera nas cordas colocando os músculos de seu corpo à prova enquanto a alcançava. Aquele seria um longo dia. Quando finalmente se aproximou, ele desacelerou o passo o bastante para conseguir acompanha-la, mas a firmeza em seu caminhar era tanta que ambos praticamente corriam, as mãos dele dentro dos bolsos enquanto mantinha o livro preso embaixo do braço.
- Não seria mais prudente se andássemos devagar? – Ele cuspiu as palavras em meio ao exalar do ar, inspirando profundamente logo em seguida. - Ei...espere um pouco, senhorita Talbot.
- Achei que tivesse deixado claro meus interesses... – Retrucou Lilly enquanto olhava para os lados, certificando-se que nenhuma carroça vinha naquele momento.
- Achei que não houvesse interesses de sua parte. – Ele riu, os dentes, um tanto tortos, iluminados pelo sol.
- Foi o que quis dizer, senhor Campbell.
Agora, eles caminhavam pelas calçadas do lado oposto ao porto, onde o cheiro de peixe constante e mexilhão frito embrulhava os estômagos das gravidas que por ali passavam, as ostras sendo abertas no instante em que eram compradas, prontas para o consumo.
- Aceite o presente, senhorita Talbot. – Ele colocou o livro contra o corpo de Lilly, fazendo-a parar num súbito instante, os olhos arregalados.
- Agora o oferece? Achei que eu fosse uma ladra aos seus olhos. – Ela se desvencilhou dele, continuando seu caminho, passos firmes e rápidos. – Não precisava ter escrito bilhete tão odioso, senhor Campbell.
- Seria melhor se ambos aceitássemos que estivemos errados.
Lilly parou novamente, agora por vontade própria, virando-se enquanto fitava os olhos confusos do homem à sua frente. Ela deveria contar a ele? Deveria falar sobre seu pai e o fogo que devoraria todas as palavras que estivessem naquelas páginas agora secas? Ter apanhado de William Talbot não fora o bastante? E quando a última pergunta surgiu em sua mente, foi apenas aí que ela notou o arroxeado em seu queixo, perto das queimaduras de sol. O lábio estava ferido também, não só das mordiscadas constantes que ele dava quando fazia força, mas também do punho de seu pai. Por que raios ele se colocaria em risco novamente apenas para vê-la ler?
- Por mais que gostaria de aceitar o livro, senhor Campbell, não tenho a permissão para tal. – Respondeu dolorosamente enquanto eles encostavam na fachada da única loja fechada, com portas de madeira forradas de tábuas pregadas com pregos tortos e enferrujados. Algo se movia no interior, pequenas patinhas de roedores nervosos.
Lucian deixou escapar uma curta risada e coçou a nuca.
- O que é engraçado? – Ela indagou.
- Você pode ficar com o livro, senhorita Talbot. Eu estou lhe dando. – Lucian esticou o livro até ela novamente.
- Não, realmente não posso. – Como se as palavras a queimassem, ela deu dois passos para trás e ele inclinou a cabeça para o lado, curioso e confuso. - Se meu pai o encontrar...se ele ao menos descobrir que estamos tendo esta conversa...
- Ele não irá.
Lilly ergueu seus olhos, focalizando-os na perfeição da forma do rosto de Lucian, desde suas sobrancelhas grossas até a pequena abertura de seus lábios tão convidativos, o maxilar definido por um brilho salgado que insidia sobre suas cabeças. Inspirando para arranjar forças, Lilly admitiu:
- Meu pai, caso ainda não tenha assimilado o sobrenome, tem o controle sobre estes portos, senhor Campbell. Talvez haja algum espião neste exato momento nos vigiando...
- Acredita mesmo nisso? – Ele indagou abruptamente, interrompendo-a. Agora, havia algo em sua voz. Quase uma...excitação.
- Sim... – Respondeu, desconfiada.
- Então temos que ir! – Ele sorriu enquanto esticava sua mão e entrelaçava seus dedos na mão dela, algumas rugas de sol contornando seus lábios conforme ele ia puxando-a para longe, correndo por entre as calçadas abarrotadas, desviando de animais e crianças, desafiando as armadilhas que eram as saias rechonchudas das mulheres, enquanto as madeixas da garota eram jogadas para trás e ela sentia o rosto queimar, nervosa, sem ter tido tempo de assimilar o que estava acontecendo.
- Lucian, pare! – Lilly pediu em meio a uma risada. Rir foi a única coisa que conseguiu fazer enquanto sentia as pernas não mais tentando impedi-lo, mas sim correndo junto a ele, vendo os rostos das pessoas como borrões com olhos curiosos e julgadores. Mas por um momento, ela não pensou em nada. O que eles estavam fazendo!? O que ela estava fazendo!?
- Não podemos parar! – As gargalhadas dele esquentaram o peito da garota, seu rosto tão inocente, risonho e travesso. – Podem estar nos vigiando! Precisamos ir para um ponto cego!
Sem perceber, Lilly começava a subir o Beachy Head, o mais alto penhasco marítimo de giz de toda a Grã-Bretanha, suas mãos suavam e ele parecia não se importar. As pernas já doíam. O vestido grudava ao corpo. E seu coração batia como nunca antes. Era acelerado, fervoroso e a adrenalina a fazia sorrir perdidamente enquanto fitava os olhos dele. O mar arrebentava contra a costa com mais força, mas as pedras abaixo chegavam a quase convidar as ondas para tomar chá junto às algas que grudavam em sua superfície esbranquiçada; uma relação tão bela quanto odiosa, já que as respostas do mar nunca eram positivas.
- Lucian, pare! – Ela riu uma última vez antes de vê-lo cambalear e cair sentado sobre a grama morna, as mãos se separaram e ele as colocou sobre a barriga enquanto reclinava para trás, desafiando-a com o olhar a deitar-se com ele. Inesperadamente, como tudo naquela manhã, os dedos de Lilly desejavam tocar nos dele mais uma vez. A aspereza, embora ferida, ainda assim era convidativa e enquanto sentava-se na metade do morro, ao lado dele, as pernas de Lilly vibravam conforme ela as abraçava com os braços. – Não deveríamos estar aqui.
- Não deveríamos fazer muitas coisas nessa vida, de fato, senhorita Talbot. – Lucian apoiava-se nos cotovelos, as costas jogadas para trás enquanto o sol ocupava-se da função de secar suas vestes encharcadas de suor. – Mas dane-se tudo isso.
Lilly o fitou, primeiramente, abismada com o vocabulário, deixando escapar uma risada apenas para, em seguida, manear a cabeça de um lado para o outro, a ideia do perigo afetava cada célula de seu corpo, lançando cada vez mais adrenalina em suas veias.
- Pode abrir os olhos, senhorita Talbot.
Ela disse que não, incapaz de acreditar em tudo aquilo, temerosa de que, se o fizesse, tudo seria apenas parte de um sonho e ela teria adormecido ao lado da lareira, e agora acordaria suja pela fuligem que um dia formara as páginas de seu livro.
- Por que não? – Mas a voz dele era tão real que lhe causava arrepios. No bom sentido.
- Tenho medo de que, se o fizer, irei ver meu pai em minha frente. – Ela admitiu, as lágrimas começando a surgir em seus olhos. – Ou...ver uma lareira que já se apagou.
De olhos fechados, ela sentiu a respiração dele mais perto de seu rosto ao dizer:
- Permita-se apreciar a vista, Lilly Talbot.
E aquela foi a primeira vez que ele a chamou sem cordialidade alguma, apenas para que ela pudesse abrir os olhos e ver tudo aquilo que se escondia na escuridão do medo. Com uma elevação de mais de 160 metros, a vista se tornava magnífica, com o som das batidas das ondas ao fundo enquanto a movimentação da cidade se tornava num amontoado de borrões quentes. Os telhados de ardósia marrom tornavam-se ardidos com o sol, que assistia ao dançar infinito do mar conforme a brisa atrás deles tomavam seus cabelos na direção oposta. Ela sorriu com tudo aquilo, a pele morna, as costas banhadas pela luz enquanto o azul do céu tornava-se uma grande tela intocada pelas nuvens brancas e fofas, que se viam-se tão longe, perto do contorno da costa de Sealsey Bill. O ar limpo delirava os pulmões da garota enquanto o perfume de grama fresca flutuava até ela.
- Este lugar é lindo. – Sua voz trêmula adquiriu coragem. – Lucian... quero dizer, senhor Campbell....
Então, ela virou-se na direção dele e o rosto de Lucian estava o mais perto do que nunca. Um rosto belo que beirava o inumano, os olhos tão intensos, vasculhando a garota com toda a sua peculiaridade, astúcia e indiscrição. Todos os valores que ela aprendera, desmontaram-se em seu olhar. Porque ele estava gostando dela não pelo ideário social de perfeição. Lucian Campbell estava gostando de Lilly pelo o que ela era. Pelas suas risadas curtas, seu temperamento volátil e o modo como seus olhos eram tão curiosos ao olhá-lo, mordiscando o lábio inferior, nervosa, assim como ele, incerto de como prosseguir, sentindo o leve arome perfumado do pescoço dela, naquelas vestes tão belas e com o rosto corado.
- Ainda deseja manter tal regra social entre nós? – Ele perguntou, mas em sua voz havia o medo de quebrar aquele momento tão perfeito.
- É uma questão de respeito... – Justificou ela, igualmente incerta de como continuar, perdida entre os nuances de seus olhares.
- Sei que me respeita, Lilly. Assim como lhe respeito.
A garota baixou a cabeça e sorriu, as bochechas rosadas e quentes enquanto ela tocava as pontas dos dedos, o vestido vermelho com suas rosas douradas balançando conforme o vento.
- Possui irmã, senhor Campbell?
Ele riu.
- Não precisa me chamar pelo sobrenome, já disse. Sinto-me até mesmo desconfortável ao ouvi-lo.
- É um belo sobrenome. – Ressaltou ela, o olhar descendo pelo pescoço dele, onde um colar de cordão frágil repousava, mas não havia pingente algum à vista.
- É um sobrenome pobre. – Disse, atraindo atenção dela novamente para seu olhar.
Lilly respirou fundo enquanto cravava as mãos na grama, revirara os olhos e os ombros relaxavam.
- Você revira seus olhos de forma eloquente, senhorita Talbot. – Retrucou, usando a formalidade com seu sarcasmo afiado. - Isto representa uma excessiva falta de educação.
Lilly arregalou os olhos, inconformada.
- Atreve-se a me julgar?
- Sim. – Ele admite como se não houvesse problema, uma exacerbada autoconfiança flutuando de seu sorriso encantador.
- A partir dos sete anos tive de aprender a como me portar em eventos da companhia de papai. Apanhe sempre os talheres de fora para dentro. Nunca coma demais. Lembre-se de sorrir. Uma boa impressão lhe garante um bom casamento. – Sua voz perdeu a animação. – Acredito que esteja bem mais preparada que o senhor no quesito educação, senhor Campbell.
Sério, com as sobrancelhas quase juntas e o olhar carregado de preocupação, Lucian respondeu:
- Acredito que esteja presa, senhorita Talbot.
A garota concordou com seus olhos e uma mordia no lábio inferior, as palmas das mãos continuavam a suar.
- Talvez eu precise te libertar. – Finalizou e ela sorriu acanhada.
- Não estou presa, senhor Campbell.
- Então aceite o livro... – Lucian insistiu, recolocando a capa azulada sobre o colo dela, mas recebendo como resposta o cerrar de punhos da garota, que socaram a grama ao lado de seu corpo.
- Eu realmente não posso.
Lucian sentou-se com a coluna reta, os olhos castanhos analisando a capa aveludada, ainda um tanto úmida pela água do mar.
- Assim como não poderia sair correndo com um estranho.
As írises castanhas queriam acreditar nele. Queriam arriscar, mas aquilo era tudo tão irreal, tudo tão...diferente.
- É por isso que não devemos ter conversas como esta.... – Ela tentou retomar o que dizia, mas ele a deteve antes que pudesse.
- O que acontecerá se você levar o livro?
Uma decepção criou um tijolo na garganta de Lilly, que desceu até seu estômago, revirando-o.
- Papai o queimará...
- E?
- Fará apenas isso. – Mentiu a garota, sabendo que ele poderia fazer muito pior, lembrando do modo como ele esbofeteou a mãe, o corpo voando ao chão enquanto ela começava a chorar e gritava do fundo de sua alma.
- Senhorita Talbot... – ele a chamou, observando os olhos marejados de Lilly, brilhantes pelas lágrimas que tentavam saltar por entre seus cílios. – Gostaria de lhe propor algo.
Ela fungou, uma lágrima escorrendo por sua bochecha. Lucian, com a maior calma que ela já o vira ter, levou seu polegar até o rosto dela, enxugando aquela pequena gota de sal, admirando o rosto dela, tão belo e tão triste, um espírito audacioso que parecia ter desacreditado em tudo aquilo que já lhe disseram uma vez.
- Vejo que ama ler e... – Ele riu, nervoso, lambendo os lábios e franzindo a testa, como se não entendesse o que estava preste a dizer. – E eu tenho mais livros...
Ela franziu o cenho, o que o levou a continuar:
- Você deveria parar com isso de julgar as pessoas, senhorita Talbot.
- Não estou te julgando.
- Então porque o seu olhar parece perguntar "como um marinheiro pode gostar de ler"?
- Na verdade, só gostaria de entender onde está tentando chegar, senhor Campbell. – Lilly inclinou o rosto assim como ele fizera instantes atrás, apoiando a bochecha esquerda sobre os joelhos, analisando-o curiosamente.
- Nas viagens que já fiz, os livros eram minha melhor companhia. Poderia estar com fome, há três semanas no mar e com queimaduras muito piores dos que as que você está olhando.
Ela sentiu-se repreendida, pega num ato que não deveria ser feito. Mas não se preocupou, apenas devolveu um sorriso com os lábios colados como resposta, e aquilo pareceu suficiente para ele.
- Não se acanhe agora, senhor Campbell. – Ela insistiu, a fim de que ele continuasse.
- Os livros fazem com que viajemos a outros lugares. Que conheçamos coisas novas e que possamos sentir coisas novas sem nem sairmos de onde estamos.
Ela permaneceu quieta, encantada com a forma como ele declarava tudo aquilo sem um mínimo de sarcasmo e com toda a franqueza de seu coração.
- Só porque está presa aqui, Lilly, não significa que não possa conhecer coisas novas. É tudo uma questão de perspectiva. – Lucian se ajeitou, penteando os cabelos inutilmente, já que aquele amontoado embaraçado jamais se ajeitaria com um simples passar dos dedos. – Façamos o seguinte, eu lhe trarei os livros e você poderá lê-los. Leve o tempo que precisar...
- Não posso ficar com eles, Lucian.
- Eu sei disso, por isso os levarei até aquele café que nos encontramos pela primeira vez.
- Boulangerie. – Ela o corrigiu e ele ergueu uma sobrancelha.
- Está mesmo me corrigindo, senhorita Talbot?
E ela esboçou um sorriso tímido, querendo cobrir o rosto com os braços, envergonhada, mas então ela reergueu os olhos e seus olhares se cruzaram novamente. Ele se lembrava de como se conheceram por mais breve que tenha sido aquele encontro. Lucian realmente lembrava.
- E ficará apenas assistindo-me ler? – Lilly indagou, uma risada doce acompanhando uma brisa que descia o morro, acariciando a grama sem pressa.
- Considero olhar para a senhorita como uma forma de passatempo. – Ele sorriu, os olhos brilhando intensamente, curiosos por si só. – Acho que há muito que ainda não conhece, e não é certo uma pessoa se privar de tais coisas.
- E por que não?
- Porque só temos essa vida, senhorita Talbot, então precisamos criar memórias boas o bastante para que, no dia de nossa morte, possamos vê-las e ter orgulho disso, até mesmo das escolhas mais banais que fizemos.
Ela sentiu os cabelos caindo sobre os ombros quando olhou para ele.
- Para um marinheiro, tem uma lábia muito boa, senhor Campbell. – Ela o provocou, assim como ele fizera dias atrás, e Lucian lembrou disso, porque um sorriso estampou-se no mesmo instante em seu rosto.
- Já imaginou o quão patético seria se víssemos apenas bailes da elite e chás da tarde? – Zombou ele enquanto negava veemente com sua cabeça. – A vida é muito mais do que isso, Lilly. Temos de saber viver.
E então, ela permitiu-se dar uma última olhada na vista aquele dia, desde a espuma das ondas até os telhados pontudos e o calor que subia em espirais nos cascalhos estaladores.
- Nós temos que saber viver. – Ela repetiu, virando-se para ele com um brilho no olhar que o fez sorrir ao dizer:
– Então aceita minha proposta, senhorita Talbot?
*Aaaaaa espero que tenham gostado desse capítulo, ele tem mais de 4.200 palavras e é um dos meus favoritooooos, até eu me apaixonei pelo Lucian depois dele kkkkkk se gostaram, não esqueçam de votar!!!
*Ah, e a foto lá do início do capítulo fui eu mesmo que tirei, quando estive em Eastbourne, lá no Beachy Head!!!! Por sinal, foi lá que toda a ideia deste livro surgiu ❤️
*Tenham uma boa semanaaaa
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