Capítulo III - Proibição
- O que você estava pensando!? – William Talbot lançou sua filha para dentro de casa, vendo-a lutando para se manter em pé, tropeçando na saia de seu vestido, contraindo os músculos e apoiando na parede do corredor da entrada.
- Amor, pare! – Sua mulher pediu, mas a raiva que tornava o rosto dele vermelho puro era mais poderoso do que a voz dela.
- Onde estava com a cabeça!? – Ele esbravejou enquanto as lágrimas já rolavam pelo rosto de Lilly. – O que estava fazendo naquela praia!? – Ela não respondeu, apenas se encolheu contra o papel de parede florido. – Alga! – Ele chamou pela serviçal. – Alga! Merda, não se encontra ninguém nessa casa!?
- Eu já lhe disse tudo... – Lilly tentou arrumar forças para falar, esticando seu corpo, passando a mão sob o vestido, a voz embargada pelas lágrimas enquanto lembrava de endireitar a postura e erguer o rosto. – Papai, por favor...fique calmo. Nada aconteceu.
- Nada aconteceu!? – Ele repetiu e sua voz saiu esganiçada e perplexa. – O que aconteceria se descobrissem que minha filha está saindo com um vagabundo qualquer!? Vendo-o na calada da noite!?
- Não foi isso o que aconteceu, papai! Nos esbarramos por acaso... – Lilly suplicava, as pontas das unhas fincando entre o tecido, próximas a uma mesa de madeira envernizada que ficava na entrada da casa, quase sempre com um vaso decorado com as mais belas tulipas. Naquele dia não havia nada na entrada que não fosse as lágrimas da garota.
- É claro! Devido a essa sua estúpida mania de leitura!
- William, acalme-se, por favor. – Célia andou até a frente dele, tirando seu casaquinho medíocre, jogando-o sobre a mesa enquanto segurava o rosto do marido com as mãos, mas os olhos dele não conseguiam focar nos dela. Estavam fixos e doentios demais com sua atenção em Lilly. – Fale mais baixo, os vizinhos podem ouvir...
- Dane-se! – Ele respondeu com a raiva estalando sob a saliva que escapava por entre o trincar de seus dentes conforme William esbofeteava o rosto de Célia com as costas da mão. Lilly gritou ao ver a mãe tombando sobre o lado direito de seu corpo, os olhos brilhantes, assustados, o queixo tremia e a bochecha direita já ardia, avermelhada.
- Meu amor...vamos dormir. – Ela tentou chamá-lo novamente, as mãos na frente do corpo, protegendo-se de qualquer outro tapa que ele lhe desse enquanto ainda estava de joelhos. Ela não chorava, mas as lágrimas a corroíam por dentro enquanto Lilly tinhas as mãos contra o abdômen, tentando controlar sua respiração. – Por favor...
As sombras abafavam tudo. Lilly não viu a vermelhidão do tapa no rosto de sua mãe, mas no dia seguinte veria o arroxeado que se formou embaixo de seus olhos, como as de um cadáver. Talvez fosse verdade. Talvez sua mãe já estivesse morta por dentro. Talvez todas elas estivessem. Todas as mulheres que se dobravam pelos homens. Que se submetiam aos seus desejos irrevogáveis e temiam os tabefes violentos, como aquele que estalou e repercutiu no eco da casa.
- Não, mulher! Isso vai acabar hoje!
- Deixa-a pensar, querido. – A mãe suplicou com as mãos unidas, como se implorasse a Deus.
- Ela poderia ter arruinado tudo! – Ele olhou para a filha, os olhos castanhos embaçados pela fúria. – Acabado com uma reputação de anos e tudo por causa desses seus estúpidos livros! – William Talbot soltou-se dos braços de sua mulher, que o agarravam pelas vestes, correndo para o andar de cima.
A garota segurou a barra do vestido, passando pela mãe, que finalmente desabou a chorar, curvando-se em direção ao tapete da entrada, como um animal indefeso, mas cheio de fúria e arrependimento, gritando angustiada enquanto amaldiçoava a si mesma com xingamentos horríveis conforme Lilly os ouvia estarrecida, subindo de dois em dois degraus, passando pelas patéticas fotos de uma família feliz.
- Papai, onde está indo!? – Ela indagou ao vê-lo entrar em seu quarto, os passos furiosos e os braços gesticulando violentamente. Os olhos dele brilharam na escuridão, doentios.
- Sei que há livros aqui!
Ela franziu o cenho e sentiu o coração dilacerando-se em seu peito ao vê-lo apanhar um livro que ela escondia embaixo de sua cama, erguendo o acolchoado e apanhando a lomba de um volume de capa rosa, com letras pequenas e um título em prata.
- Papai, por favor... – Sua voz suplicou, agachando-se igual a mãe fizera, o vestido contornando seu formato no chão. – Não faça isso...
Ele rangeu os dentes e dilatou as narinas, fitando o formato do livro como se fosse uma cobra venenosa, perigosa demais para ser mantida viva.
- A minha palavra é a lei dentro desta casa. – A outrora violenta e elevada voz deu lugar a uma estarrecedora e calma sinfonia cruel conforme ele abria o livro. – E se eu digo que minha filha não irá ler nada, é isso o que acontecerá! – Com um puxão, William rasgou uma das páginas.
- Não! – Ela gritou do fundo de sua alma, esticando seu braço, mas sem coragem o suficiente para erguer-se e apanhar o exemplar das mãos dele. Temia uma bofetada. Um tapa como aquele que a deixara quase inconsciente quando menor. – Pare, por favor! - A dor seguiu o som afiado das folhas de papel sendo arrancadas uma por uma pelos dedos furiosos de seu pai.
- Isso é para o seu bem! – Ele disse por último, agarrando os braços dela, puxando-a para cima e descendo até o primeiro andar, onde sua mãe ainda chorava com a cabeça em direção ao chão, as mãos apertando o rosto e borrando os olhos contornados. – Por Deus, Célia, o que está fazendo aí?
A mulher ergueu as mãos em defesa e olhou para ele.
- Recomponha-se, caramba! Acenda a lareira. – Ordenou ele e a mãe, hesitante e dolorida, ergueu-se. – Ande logo!
A mulher arqueou as sobrancelhas e correu para a cozinha, encontrando a caixa de fósforos em cima da pia, apanhando-a com dedos trêmulos e acompanhando-os até a sala de estar, ateando fogo numa madeira que já repousava ali por dois dias, acumulando pó em suas farpas.
- Não, papai! – A garota implorou, mas assim que as labaredas ardentes começaram sua dança voraz, o livro de capa rosa foi arremessado em meio às chamas, sua capa sendo devorada pelo fogo, que iluminava as prateleiras e a caça empalhada que havia pendurada sobre a parede da sala, o sofá esticado forrado por couro enquanto o maior tapete da casa, recheado de desenhos abstratos, era vítima das fagulhas revoltosas que estalavam na lareira conforme a capa escurecia e as palavras eram devoradas.
- Isso é para o seu bem, minha filha. – Ele conseguia justificar as lágrimas de Lilly, que refletiam o brilho das labaredas, seu rosto sendo aquecido enquanto as mãos sustentavam o peso de seu corpo. Uma dor atingiu suas costas e perfurou seu abdômen, fazendo-a cair de joelhos, a lombar dolorida enquanto o peito parecia abrir-se em dois. A dor de ver aquilo que se ama ser perdido.
- Eu sei que você tem mais livros nessa casa. – Primeiramente ela achou que ele teria dito isso como ameaça, mas na verdade ele queria dar-lhe um aviso. – Eu vou encontrá-los, garota, e vou queimar um por um nem que isso leve uma eternidade!
A garota continuava a chorar, as lágrimas rolando por suas bochechas rosadas que outrora sorriam em frente às ondas do mar sereno que batia na costa. Ela queria ir embora dali. Queria poder mergulhar em seus livros. Nadar em suas palavras. Beber de suas histórias e, como um veneno cruel, nunca mais voltar. Com tal pensamento, ela olhou para seu pai.
- Por que o senhor é tão cruel? – Ela indagou com a voz bêbada de sofrimento, a mãe assistindo-os de canto, colada ao batente da porta.
- A realidade é fria, garota. Não há lugar no mundo para sonhadores. – Ele saiu da sala, subindo para o segundo andar. Sua mãe apareceu atrás dela, abraçando-lhe os ombros enquanto pedia-lhe desculpa pelo pai, o rosto dolorido tocando as bochechas de Lilly, umedecidas pelas lágrimas. Logo depois, Célia também subiu, deixando que a garota ficasse ali, sozinha, observando as chamas transformando as páginas finas em cinzas, a visão um tanto embaçada pelas gotas de sal.
...
Lilly só conseguiu adormecer depois que as aves que habitavam o telhado de sua casa ajeitaram-se em seus ninhos, aprumando suas penas enquanto acariciavam os filhos com seus bicos alaranjados.
As lágrimas que escorreram pelo rosto da garota só pararam de rolar quando as primeiras pinceladas de um amanhecer dourado pintaram a parede direita de seu quarto. Ela piscou seus olhos rapidamente, sentindo a secura das lágrimas ainda em suas feições, como uma espécie de cola sentimentalista.
Ela forçou-se a se levantar, a cabeça pesada conforme colocava um vestido azul, um corset um tom mais claro harmonizando com o tom esbranquiçado de sua pele. Lilly desceu as escadas hesitantemente, atenta a cada degrau, a cada som, temerosa de que pudesse ouvir os estalos da lareira que lhe atormentaram pelo resto da noite anterior, sem dirigir uma palavra sequer a seus pais, saindo pela porta da casa com passos duros, despercebida, que enfrentaram um chão de paralelepípedos prensados, próximo aos cascalhos da rua.
Caminhando pelas ruas de Eastbourne, o cheiro de peixe invadiu suas narinas, trazendo lembranças antigas, tão antigas quanto o mar. A mãe de Lilly sempre a levara para a beirada da água, observando-a cavoucando as pequenas pedras atrás de uma única concha que, quando encontrada, seria dada a ela. Célia sorria ao ver a filha correndo a seu encontro, as pequenas pernas cobertas por meias de seda que o suor do trabalho de seu marido conseguiu comprar. Ela era muito grata por tudo o que tinham, logo, optara por se submeter aos comandos de William, que em pouco tempo tornou-se o homem mais influente no mercado de pescaria inglesa. Lilly não conseguia se imaginar que nem a mãe. Se submeter aos cuidados daquele homem? Daquela fera sem um coração palpitante? Jamais.
Contendo novas lágrimas, Lilly preferiu distrair-se com o voo das aves que saíam dos telhados das casas, voltando seus peitos penosos em direção ao sol quando pousavam sobre as tendas que ofereciam pescados, aproveitando para aquecerem-se e também para apanhar os peixes de vendedores despercebidos. Se preparou para atravessar a rua, esperando pela passagem de uma carruagem escura, cavalos bem tratados e com crinas reluzentes e um cocheiro vestido com trajes novos e lustrosos. Assim que a carruagem passou, Lilly o viu.
Lucian estava do outro lado, entrando na boulangerie que ela ia todas as manhãs. Seu coração se acelerou ao lembrar-se da noite passada. Seu toque súbito, a queda, as ondas batendo suavemente na costa... a garota sentiu o peito inflar enquanto segurava a saia de seu vestido, virando-se rapidamente para ir embora às pressas, esbarrando num homem mais alto que ela, com trajes azul-marinho. Seu chapéu de três pontas tombou ao chão, suas bordas decoradas de branco sujando-se com a poeira e a imundice do chão.
- Perdoe-me, senhor. – Lilly se abaixou no mesmo instante, apanhando o chapéu e devolvendo ao homem, sem raciocinar muito, não associando tais vestimentas ao cargo que ele exercia. Apenas precisava sair dali. Não poderia permitir que Lucian a visse. Não agora. Não enquanto ela ainda permanecia tão confusa dentro de si mesma.
- Não tem problema, senhorita. – O dono sorriu para ela, os lábios finos abrindo espaço para uma fileira alinhada de dentes perfeitos e surpreendentemente claros, tão belos quanto seus olhos esverdeados, que penetraram na alma da garota. – Eu devo ter errado meu caminho. Peço desculpas. – Ele fez uma curta reverência para ela.
- Não, de maneira alguma...eu só estava... – ela olhou para trás, mirando no estabelecimento do outro lado da rua, as janelas sempre embaçadas pela maresia. – Não sei onde estava com a cabeça.
- Ficaria confortável se eu a levasse para casa?
- Oh, não será necessário. – Ela sentiu as bochechas corarem, tímida.
- Por favor, eu insisto. – Ele estendeu a mão coberta por uma luva branca, com as palmas já acinzentadas devido o constante manuseio de um timão livre de cupins. – Permita-me me apresentar – ele sorriu novamente. A respiração de Lilly se acelerou. – Sou o capitão Sebastian Pelletier, a comando da empresa Talbot's. É um prazer conhecê-la, senhorita...
Sem perceber, a boca da garota entreabriu num formato oval, surpresa, as sobrancelhas em arcos idênticos. Ele trabalhava para seu pai. Só ao pensar no rosto do velho, enfurecido e, ao mesmo tempo, tão satisfeito ao queimar aquelas páginas, seus punhos se cerraram. Seu pai parecera até mesmo feliz ao vê-la chorar pelo livro.
Houve uma época, talvez quando Lilly tinha seus oito anos, ela não sabia ao certo, mas a garota ainda se lembrava perfeitamente bem da emoção que sentira, da tamanha felicidade com que abraçara uma pequenina boneca de pano de cabelos trançados e vestido rosa. Mesmo pequena, ela pressionava a boneca com uma força surpreendente, esmagando-a contra seu peito apenas para, depois, correr aos braços dos pais, abraçando-os. Talvez, naquela época, pela sua inocência quanto ao mundo, ela tenha considerado a si mesma uma pessoa feliz. Mas agora, os sentimentos eram mistos e, ainda assim, seu corpo parecia atraído ao olhar de Lucian Campbell, embora as grandes írises esverdeadas do capitão à sua frente lhe causassem arrepios.
- Talbot. – Ela disse por entre os lábios. – Lilly Talbot.
Sebastian endireitou-se, corrigindo sua postura, os olhos tão surpresos quanto os dela. Ele tinha ombros largos, que se tornaram mais definidos com sua vestimenta tão etérea.
- Senhorita Talbot, mil perdões. Não a reconheci.
Lilly esboçou um sorriso amarelado enquanto colocava os fios de seu cabelo castanho-tom de amêndoa queimada para trás.
- Meu pai é seu chefe, mas não precisamos de tamanha formalidade. – Ela sorriu para mostrar que estava confortável com a situação, mas Sebastian permaneceu rigidamente ereto.
- Insisto que me permita acompanhá-la até sua casa. – Ele estendeu o braço para ela. – A não ser que estivesse indo a algum outro lugar. Se for o caso, ainda gostaria de acompanhá-la.
Lilly olhou de esguelha novamente para a boulangerie. Lucian estava sentado próximo a uma das janelas, um copo vazio sendo utilizado como uma espécie de entretenimento banal. Ele parecia decepcionado. Frustrado, no mínimo. Talvez tivesse esperando por ela..., mas a ideia pareceu improvável demais ao seu pensamento e ela não quis ir até ele, embora seus sentidos a dissessem para ir.
- Estava indo a algum lugar, senhorita?
Lilly virou-se, os olhos serenos ao dizer:
- Não...na verdade, estava justamente indo para casa.
...
Ela subiu os quatro degraus que separavam a construção dos Talbot's e a calçada lisa e cimentada. No mesmo instante em que alcançaram o lugar, a garota pode ver Alga saindo da casa, os olhos vermelhos, chorosos, enquanto levava uma pequena maleta nas mãos. Ela parou por um segundo, a faixa branca novamente em sua cabeça enquanto o nariz escorria e ela dizia adeus a Lilly, mas algo fez a garota pensar que, na verdade, a serviçal estava fitando Sebastian. Estranhando tudo aquilo, a garota empurrou a porta entreaberta e assistiu ao momento em que sua mãe se aproximou da porta com passos agitados.
- Ah, Lilly! – Célia exclamou ao ver a filha parada na sua frente. – Já está de volta...
A garota viu o quão sobrecarregado de maquiagem estava o lado direito do rosto de sua mãe, e mesmo assim não era o suficiente para cobrir o hematoma arroxeado que surgia embaixo de seu olho. Lilly forçou um sorriso.
- O que aconteceu com Alga, mamãe?
- Hmf – a mulher bufou enquanto cruzava os braços. Naquele dia, usava um vestido marrom, de gola alta, com mangas compridas o bastante para alcançarem a metade das mãos. – Eu a contratei para trabalhar e lhe fazer companhia quando não estivéssemos, não para deixá-la sozinha nas noites de teatro.
Então, Sebastian pigarreou atrás dela, tímido e desconfortável com a situação, fitando as botas lustrosas e o piso batido da entrada quando Lilly anunciou:
- Acabei cruzando com o senhor Pelletier, mamãe. – A garota virou seu corpo, dando a oportunidade de Sebastian entrar no campo visual de sua mãe por completo. – Ele me trouxe de volta para casa.
- Foi uma honra, se me permite dizer, senhorita Talbot. – Ele fez uma nova e curta reverência.
- Creio já tê-lo visto antes, meu rapaz. – A mãe saiu de dentro da casa, atravessando o batente da entrada e deixando o tecido de seu vestido exposto aos raios do sol que já se punha tão presente por entre o céu limpo. Ela tinha uma espécie de echarpe enrolada em sua cabeça, contendo seus cabelos.
- De fato é muito possível, senhora Talbot. – Ele subiu os degraus rapidamente, apanhando a mão da mãe de Lilly e beijando-a rapidamente, demonstrando respeito e sua extrema gentileza. – Sou um dos empregados de seu marido. Permita-me me apresentar devidamente – ele se endireitou e isso fez as bochechas de Lilly queimarem e erubescerem. Ele era, indubitavelmente, belo. – Sou o capitão Sebastian Pelletier, capitão do navio Sereia Escarlate.
O rosto da mãe da garota pareceu clarear.
- Ah, sim! Agora me lembro de onde já o havia visto! O senhor é o filho de Reneé Pelletier, estou correta?
Sebastian colou os lábios num sorriso e assentiu.
- Entre, meu rapaz, entre. – Convidou Célia, no intuito de guia-los para dentro.
- Acredito que ele esteja ocupado, mamãe. – Lilly se antecipou, o coração acelerado. – Não é verdade, senhor Pelletier? – Ela olhou para ele, uma mistura de desejos explicitamente visto em seus olhos amendoados.
- Na verdade, tal encontro me foi muito oportuno. – Ele olhou para Lilly, tentando decifrá-la. – Há dias precisava encontrar-me com o senhor Talbot. Cheguei de viagem há dois dias e há assuntos que precisam ser tratados em particular. Por acaso ele se encontra?
Lilly engoliu em seco e fechou os olhos. Não queria que Sebastian falasse com seu pai. Não queria que ele tivesse nenhum tipo de vínculo irremediável com aquele velho monstro barbudo. Mas ele era o capitão de um dos navios atracados no porto. Ela não podia fazer nada.
- Ah, sim! Mas é claro... – A mãe virou-se e olhou na direção da cozinha, observando o balde cheio de água e a vassoura velha, já carcomida por cupins, que Alga deixara encostada na mesa antes de ser demitida. – Ele está em seu escritório. Lilly, poderia mostrar o caminho, por favor?
- Mamãe... – Ela tentou protestar, mas Célia apenas ergueu sua mão direita, indicando que ela não deveria questionar.
- Mostre ao senhor Pelletier o escritório de seu pai, querida. – Ela não disse mais nada, apenas se virou e andou com passos rápidos até a cozinha, onde tentou esconder a vassoura atrás da porta que dividia o ambiente da sala de estar com o da cozinha.
Lilly ainda estava na rua, seu vestido começando a pesar-lhe sobre as pernas.
- Acho que invertemos os papeis. – Brincou com um sorriso galanteador e os olhos verdes brilhando com a claridade, como esmeraldas líquidas.
- Siga-me, senhor Pelletier. – Ela manteve a formalidade, não ousando chamá-lo de Sebastian, mas não conseguiu conter um sorriso com o canto dos lábios.
- Achei que não haveria formalidades entre nós, até pouco. – Ele sussurrou para a garota enquanto subiam as escadas forradas por um carpete amarronzado.
- Isso foi antes de entrar em minha casa. – Ela segurava a barra de seu vestido azulado com os dedos trêmulos e hesitantes, o coração ainda saltando em seu peito como espirros de água fervente.
Com três batidas na porta envernizada, Lilly abriu-a, girando a maçaneta, permitindo que Sebastian entrasse, segurando seu chapéu com a mão direita enquanto dizia:
- Senhor Talbot, é um prazer revê-lo.
O homem olhou para ele sob seu par de óculos bifocais um tanto embaçados, surpreso. A barba, já beirando o grisalho, estava começando a alcançar a altura de seu pescoço. As cortinas esverdeadas estavam abertas, permitindo que a luz entrasse obliquamente pelas janelas retangulares que ficavam atrás da mesa em que William Talbot se sentava.
- Capitão Pelletier! – O homem gordo exaltou, ajeitando seus trajes formais que lhe eram justos na barriga. Um terno preto e uma camisa social branca, o que destacava sua gravata azul-marinho. – É uma surpresa vê-lo aqui tão cedo. – Ele tinha uma pena na mão direita, que molhava num tinteiro quadrangular. William parou de escrever, batendo a ponta da pena contra a superfície da mesa, evitando borrar o papel. – Creio que, em meus registros, seu retorno só ocorreria daqui uma semana. – O velho colocou a pena ao lado da folha em que escrevia, juntando suas mãos, entrelaçando os dedos sobre a forma oval de sua barriga e fitando-o de forma a convidá-lo a se sentar. – Não esperava vê-lo esta manhã.
Sebastian relaxou os ombros.
- De fato, foi apenas o acaso que me trouxe aqui, senhor.
William franziu o cenho. Ele desaprovava veemente acasos.
- Encontrei-me com sua filha ainda mais cedo, senhor. – Explicou Sebastian e, apenas neste instante, o velho Talbot enxergou sua filha na passagem da porta. O encarava com desgosto e uma dor que vinha da alma.
- Ah... – William estalou a saliva em sua boca. – Pode fazer o favor de fechar a porta, minha querida? – Ele pediu, e Lilly engoliu em seco enquanto sentia a maçaneta fria contra os dedos, até o click sonoro da porta ecoar em seus ouvidos. - Sente-se, meu rapaz, sente-se.
Sebastian agradeceu, puxou uma das cadeiras e sentou-se sobre ela.
- Gostaria de tomar alguma coisa?
- Não, obrigado.
- Um marinheiro em retorno nunca deveria negar uma dose de bebida, senhor Pelletier.
- Creio que sou mais produtivo quando sóbrio. – Justificou. – Há algum tempo que gostaria de discutir com o senhor a situação do Sereia Escarlate.
William ergueu uma sobrancelha.
- De fato espero uma excelente justificativa para o seu retorno prematuro, senhor Pelletier.
Os olhos de Sebastian demoraram-se mais entre o piscar, tensos, hesitantes de se dirigir ao seu superior com notícias desagradáveis.
- Há duas semanas, ainda estávamos no Oceano Atlântico, tentando alcançar o mar do Norte para seguir em direção à Dinamarca, senhor. – Sebastian começou, apreensivo, as palmas das mãos suando. – Quando nos abordaram...
- O que quer dizer com abordaram, senhor Pelletier?
- Piratas, senhor. – Sebastian engoliu em seco, sentindo o suor escorrendo pela nuca. – Piratas nos atacaram. Creio que tenham vindo pelo English Channel e quando os percebemos já era tarde. Ordenei que os marujos fizessem o contorno a oeste, mas havia rochas demais que poderiam ameaçar a estrutura do Sereia Escarlate. Eles nos interceptaram, ameaçando disparar os canhões, e subiram a bordo.
- Você permitiu que subissem? – A desaprovação da voz de Talbot era notável.
- Não poderia colocar a vida dos meus companheiros, senhor.
- Há canhões em seus navios justamente para isso, senhor Pelletier. Para afundarem esses malditos piratas antes que eles o façam primeiro! – William socou a mesa com punhos cerrados e os olhos fuzilando o capitão à sua frente. – A vontade que tenho é de que Eastbourne tivesse punições tão severas para os que praticam pirataria quanto Londres.
- Recebeu cartas da capital, senhor?
- Piratas são mortos e suas cabeças são expostas em estacas em meio à cidade. – William sorriu com os lábios colados enquanto ele se reclinava em sua cadeira, jogando seu peso para trás, a cadeira rangendo como se reclamasse de sua banha, comprimida pela camisa de botão feita da mais alta seda. Ele colocou a mão sobre sua barriga e o sorriso se desfez. – O que eles levaram?
- Nada.
O velho Talbot franziu o cenho, confuso.
- Então não houve perdas?
- Não materiais. Nos interceptaram cedo demais, senhor, e ainda estávamos com os peixes na embarcação. Se estivéssemos voltando da Dinamarca, teriam levado o pagamento, mas...
- Diga de uma vez, capitão.
- Três marujos foram mortos, como um aviso.
- Aviso?
- De que se ameaçássemos continuar, eles afundariam cada barco.
Talbot inflou o peito e as narinas dilataram conforme ele levantava, sua altura jogando sombras sobre Sebastian, que permanecia duro em sua cadeira.
- Disse que desconfia que eles vieram pelo English Channel, não é?
- Sim, senhor.
- Acha que eram franceses? – O homem se virou e cruzou as mãos atrás das costas, permitindo que a luz do exterior banhasse seu rosto enquanto as cortinas levemente esvoaçavam com o vento que entrava pela janela.
- O sotaque era perceptível, senhor.
- Isso é uma declaração de guerra, só pode. – Concluiu o velho, os ombros tensionados enquanto Sebastian o observava por trás, atento. – Sinto que sua tática não tenha funcionado. É realmente uma pena, senhor Pelletier. – Ele disse com a voz seca e sem emoção, observando os olhos cabisbaixos de Sebastian ao se virar. – Mas não irei interromper as minhas negociações por causa de piratas. Se eles o abordarem novamente, exijo que os ataque. Temos frotas o bastante para derrotá-los pelo cansaço.
Sebastian endireitou-se.
- Senhor?
- Veio até aqui e espero que não seja apenas para me dar a notícia de que falhou como capitão, senhor Pelletier. – Os olhos severos brilharam conforme ele se inclinou sobre a mesa, uma mão apoiada em cada lado.
- Eu...gostaria de pedir novos marinheiros, senhor.
William tossiu.
- Não posso fazer isso.
- Meu senhor, preciso de mais homens para suportar uma viagem tão longa quanto a que fizemos. Ainda mais pelo risco de perdê-los pelo caminho, seja por piratas, seja por doenças...
- Você precisa que sua tripulação confie no senhor novamente e não de novos marinheiros. Estamos no que dizem ser a Era de Ouro dos piratas, capitão Pelletier. Eles têm números impressionantes, devo admitir. Não posso arriscar colocar mais homens de confiança em risco, meu caro. Seria simplesmente ilógico.
- Ao menos permita que Lucian volte, senhor.
William semicerrou os olhos, as faíscas voando de suas pupilas em direção a Sebastian.
- É engraçado o senhor dizer que encontrou com minha filha, senhor Pelletier. – William se levantou, ficando de costas para ele enquanto fitava uma Eastbourne em desenvolvimento, as chaminés das casas acesas e uma névoa dissipada pelos raios fracos do sol tapando miseravelmente uma parte do horizonte. – O senhor Campbell também teve seu caminho cruzado com o de Lilly.
Sebastian enrijeceu-se.
- Senhor?
- Lucian não voltará para um navio desta companhia, senhor Pelletier. Quero que isso fique bem claro entre nós dois. Caso contrário, nossos interesses serão conflituosos e não poderemos mais trabalhar juntos. Entende isto?
Sebastian não respondeu.
- Está claro, senhor Pelletier!? – William engrossou sua voz.
- Sim, senhor.
- Ótimo. – O velho Talbot caminhou até sua cadeira, puxando-a para se sentar novamente. – Agora, vamos a um assunto que me preocupa ainda mais.
- E que assunto seria, senhor? – Sebastian soltou o ar que, sem perceber, prendera, a tensão começando a deixar seu corpo através de gotículas de suor que escorriam pelas suas costas.
- O que achou de minha filha, senhor Pelletier?
- Perdão? – Sebastian fechou as mãos em seus joelhos, hesitante de ter entendido errado.
- Por favor, senhor Pelletier. Pode ser sincero comigo. Sei que minha filha é de encher os olhos, todos dizem isso.
Sebastian baixou o olhar por alguns segundos, analisando o carpete vinho-tinto, os pés cobertos por sapatos sociais lustrosos, quase como piche, de bico quadrangular.
- Ela tem uma beleza...inquietante, senhor.
Lilly mordiscou o lábio inferior. Mantinha o ouvido colado à porta já havia algum tempo, os seios comprimidos pelo corset azul-claro, as mãos espalmadas na passagem com tamanha delicadeza que pareciam ter sido moldadas junto à madeira, alguns fios de seus cabelos caíam-lhe ao lado de seu rosto, a respiração calma e os olhos arregalados, ouvidos atentos a cada som.
- Inquietante? – William jogou-se para trás e, mais uma vez, colocou a mão sob sua barriga. Olhos analíticos. – O que lhe faz pensar isso?
Sebastian tentou esconder um sorriso, falhando miseravelmente, fazendo o pai perguntar:
- O que há de engraçado, meu caro?
- Não é nada, senhor.
- Então apenas responda à minha pergunta, senhor Pelletier.
- Sua filha tem algo...diferente. Não poderia dizer muito, já que os poucos instantes que passei com ela foram breves, porém admito que foram agradáveis.
William ajeitou-se na cadeira, abaixando-se com um grunhido na direção de uma gaveta próxima a seus pés, a qual abriu e apanhou um convite cor de pergaminho apático. Ele o escorregou pela mesa. Sebastian se levantou e o apanhou.
- Já que achou a companhia de minha filha agradável, não há porque não a ver novamente.
- Senhor? – Sebastian mantinha o chapéu contra o corpo e o convite em sua mão esquerda.
- Estou convidando-o para um baile que darei daqui duas semanas. Uma mera cordialidade para que minha filha possa ter a chance de ser escolhida por um cavalheiro à altura de sua honra.
Sebastian agradeceu pelo convite e acrescentou, um tom suave em suas palavras:
- Será um prazer revê-la.
William não disse mais nada, apenas voltou sua atenção aos papeis e ao tinteiro, a pena encaixando novamente em sua mão enquanto ele escrevia, com movimentos rápidos, cartas que deveriam ser entregues para Raymond, um de seus fornecedores de redes.
Quando a porta do escritório se abriu, Lilly fingiu estar vindo de seu quarto, cabeça baixa, os cabelos ajeitados sobre os ombros.
- Senhorita Talbot. – Ele chamou sua atenção, vendo-a ali, como se estivesse, de fato, prestes a sair de seus aposentos.
Lilly ergueu a cabeça, os lábios colados num sorriso.
- Senhor Pelletier.
- Obrigado pela companhia. – Agradeceu o capitão de olhos verdes com uma última e breve reverência, girando nos calcanhares logo em seguida e descendo as escadas.
*AAAAAAAA FORAM MAIS DE CINCO MIL PALAVRAS NO CAPÍTULO DE HOJE!!!!
*Como sempre, espero que tenham gostado e, caso tenham, não se esqueçam de votar e deixar um comentário, até mesmo indicar para um amigo!!!! Vamos tornar Antes que a Maré Baixe mais um sucessooooooo
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