Prólogo
1999
Morselk esperava ansioso sentado na cadeira do hospital de humanos. A perna tremia incontrolavelmente e o copo descartável em que tomara água estava agora rasgado em diversas tiras verticais, de forma que parecia um pequeno sol de plástico, fruto da sua constante necessidade de manter suas mãos ocupadas. Suava frio e coçava a cabeça constantemente, pra em seguida voltar novamente sua atenção para o copo.
Memórias voltavam constantemente à sua cabeça, como a noite que havia decidido abandonar Alexandria:
Morselk chegara em casa pensativo. A chuva havia encharcado suas roupas e ele tirou os sapatos logo na entrada, para evitar molhar a casa inteira. Correu para o banheiro e se lavou na água quente, saindo logo depois, enrolado em uma toalha.
Ariane já dormia no quarto, uma mão sob o travesseiro, e a outra apoiada sobre a barriga, a boca levemente aberta, respirando tranquilamente. Morselk entrou nas pontas dos pés, sabendo do sono leve da esposa, mas quando abriu a porta do guarda roupas, ela já havia acordado.
— Você demorou — ela disse, enquanto ele pegava algo para vestir.
— Acabei perdendo a hora — Morselk justificou, já vestido e se deitando na cama. — Estava observando a movimentação na Biblioteca, tentando ter conversas com as pessoas certas. Alexandria está muito calma, Ane, estou com medo que uma guerra explo...
— Eu estou grávida.
— ...de uma hor... — ele se deu conta de que ela havia o interrompido. — O que? — ele arregalou os olhos, virando-se pra ela. — Você...
— Grávida — ela repetiu.
Morselk abriu a boca para falar alguma coisa, e a fechou sem saber o que dizer, e então abriu novamente, mas a voz simplesmente não saía.
— Diz alguma coisa! — disse Ariane, com impaciência.
— Como você sabe? — ele falou a única coisa que conseguiu.
Ela revirou os olhos e emburrou a cara.
— Eu pensei que você fosse ficar feliz.
— Eu estou! — ele disse de repente, e a puxou para perto de si, a abraçando com braços e pernas, mas tendo o cuidado de não aperta-la, com medo do que isso faria com o bebê, como se isso tivesse feito com que Ariane agora fosse de vidro, e pudesse quebrar sob pressão. — É provavelmente a melhor notícia que eu poderia receber. — Ele enfiou o rosto no cabelo dela, sentindo o tradicional cheiro do seu xampu. — Eu só não sei o que dizer.
Morselk não conseguiu dormir naquela noite, e se já estava desconfiado da paz em que Alexandria se encontrava, agora havia ganhado um motivo a mais para ir embora daquele lugar.
Era um professor de matemática, e poderia encontrar um lugar para trabalhar fora de Alexandria. Também tinha algum dinheiro guardado, que não era muito, mais daria pra se virar por algum tempo.
Na manhã seguinte, Morselk conversou com Ariane, e eles concordaram que seria melhor ir embora, e arrumaram suas coisas para deixar seu país natal sem qualquer remorso.
Agora, de tão distraído com as lembranças, Morselk acabou por se assustar quando uma enfermeira corpulenta apareceu ao seu lado como um enorme fantasma.
— O senhor é Marcos Larine? — perguntou ela, consultando sua prancheta.
Ele tentou falar, mas a voz lhe faltou, então pigarreou.
— Sou — respondeu apressado, em um tom esquisito que o fez querer estapear a si mesmo. Certo que esse não era seu verdadeiro nome, mas era o que tinha apresentado ao chegar às pressas no hospital.
— Me acompanhe por favor — ela disse e deu-lhe as costas.
Ele levou um segundo para entender que devia segui-la e se levantou sobressaltado, sentindo as pernas se transformarem em gelatina.
Morselk era um guerreiro bem treinado, apesar da sua pouca idade, e extremamente corajoso, mas que naquele momento, um momento único em sua vida, pelo qual tanto vinha esperando, parecia que iria ter um ataque de nervos a qualquer segundo.
O quarto para o qual foi levado tinha uma plaquinha decorada com desenhos infantis, que informava onde estavam. “MATERNIDADE” Era o que estava escrito ali, e ele buscou com os olhos, em meio a todas aquelas mães, quem ele procurava.
Ariane estava em um dos leitos do canto, e uma coisinha mínima mamava em seu peito, tendo o corpo envolvido em lençóis.
— Amor — ela chamou —, é um menino.
Morselk se sentou na beira da cama, sem saber se podia fazer isso. As mãos estavam trêmulas quando ele afastou sutilmente o tecido que lhe cobria o rosto do bebê para conhecê-lo.
— Oi filho — ele disse, e o homem que nunca chorava o fez naquele momento.
***
— Nunca pensei que teria que escolher o nome do meu filho — disse Ariane, enquanto amamentava o bebê, recostada em alguns travesseiros na cama. — A vida inteira achei que os centauros fariam isso por mim.
— É muita responsabilidade. — Morselk riu. Estava deitado de lado próximo a ela, com uma das mãos apoiando a cabeça, e a outra brincando com o pé diminuto do bebê. — Imagina se a gente escolhe, depois ele cresce e não gosta? Vai nos culpar pra sempre.
— O que acha de Miguel? — perguntou ela. — É um nome bonito.
— Parece muito comum — contestou ele.
— Alguma sugestão?
— Joaquim.
Ela encarou-lhe cética.
— Sério? O nome do seu pai?
Morselk deu um sorriso torto e justificou:
— Ah, mas é um bom nome.
— Ainda prefiro Miguel. Vai ter que se esforçar pra me dar uma sugestão melhor. — Seu olhar adquiriu um brilho ameaçador. — E lembre-se de que fui eu quem tive que parir essa criança. A última palavra é minha.
— E que tal Samuel?
Ariane pareceu ponderar.
— Gosto — disse ela afinal, e olhou para o bebê que ainda mamava preguiçosamente em seu peito. — Oi, Samuel, se você não gostar do próprio nome, vou contar que é culpa do seu pai.
***
2000
— Quarenta e sete e setenta e cinco — informou a moça atrás do balcão da farmácia.
Morselk tirou uma nota de sua carteira e entregou à moça, recebendo em seguida seu troco. A mulher enfiou a nota fiscal dentro de uma das sacolas plásticas e as entregou a ele.
— Obrigada e boa noite — disse ela, e dirigiu sua atenção para o próximo da fila.
Morselk andou para fora da loja, sentindo o ar frio noturno atingi-lo assim que atravessou a porta. As idas à farmácia já eram uma rotina semanal, apenas se lamentava pelo fato de que ninguém tinha lhe avisado sobre a quantidade de fraldas que uma criança usava. Isso sem contar o restante das coisas.
Caminhou em direção à sua casa sem muita pressa, apenas três quarteirões a separavam da farmácia mais próxima, e Morselk não achava que a distância valia o trabalho de tirar o carro da garagem.
A rua estava praticamente deserta naquela noite, com a única movimentação visível sendo proveniente de um bar na esquina a quinhentos metros. A música alta costumava ser motivo de irritação aos finais de semana, mas naquele dia estava tudo quieto.
Passou pelo portão e se encaminhou para a porta, tendo o cuidado de esfregar os sapatos no capacho antes de entrar.
— Ane? — ele chamou da sala. A TV estava ligada, mas não tinha ninguém no cômodo.
Deixou as sacolas sobre o sofá e espiou na cozinha, supondo que talvez Ariane estivesse dando o jantar a Samuel, mas ela também não estava lá.
Voltou pelo corredor, indo em direção ao quarto. A porta estava entreaberta e a luz acesa lá dentro, ele a empurrou devagar para espiar o cômodo, só não esperava se deparar com aquilo.
Ariane estava no chão e parecia desacordada, assim como Samuel, caído sobre ela.
— ANE!
Morselk se jogou no chão ao lado de sua esposa e seu bebê, e o que aconteceu em seguida foi rápido demais: viu uma movimentação através da visão periférica e, instintivamente, fez com que uma parede de pedra irrompesse do piso do quarto, bloqueado um feitiço lançado em sua direção. A parede explodiu, e fragmentos de rocha e terra foram lançados por todos os lados enquanto ele viu o miserável que o atacou se esgueirando para fora do quarto.
Morselk correu em seu encalço para fora da casa. Viu o homem escapar para longe, saltar a cerca de seu vizinho e desaparecer por trás da residência.
Sem perder tempo, Morselk correu atrás dele. Seus olhos vasculhavam a área ao redor minuciosamente, buscando por qualquer mínimo movimento que denunciasse a localização daquele desgraçado.
Estava espiando sobre o muro da casa seguinte quando o estalido de um tiro soou às suas costas e uma enorme pressão atingiu seu braço.
Era como se um enorme peso tivesse sido projetado contra ele, entretanto, na realidade tratava-se de uma bala que acabava de atravessar a carne da parte externa do seu braço esquerdo.
Morselk mal sentiu a dor, apenas virou-se furioso para a direção de onde viera o disparo, encontrando os olhos do rapaz que o atacava.
Não parecia ter mais do que vinte e cinco anos, e o cabelo longo e castanho encontrava-se preso em um rabo de cavalo. Ele agachava-se sobre o telhado da casa, ainda com o revólver firmemente seguro em suas mãos.
O rapaz se virou para correr, enquanto Morselk contornava a casa para pegá-lo do outro lado. Viu quando ele se jogou lá de cima e aterrissou com delicadeza sobre o chão graças a um toque de magia. Estava para se esconder outra vez quando o Anjo de Terra usou seu poder para com que seus pés afundassem no chão, numa tentativa de que ele ficasse preso, plantado ali. Entretanto, ao invés disso, ele apenas ergueu as pernas e saiu, como se não fosse nada.
O segundo de surpresa foi o suficiente para que Morselk o perdesse de vista.
Era um híbrido? Morselk se questionava. Parecia se tratar de uma criatura meio feiticeiro e meio Anjo de Terra.
Ele rodou por mais alguns minutos antes de desistir de encontra-lo, e quando enfim retornou para casa, foi para perceber algo que não se dera conta no auge de sua adrenalina: Ariane e Samuel não estavam desacordados. Estavam mortos.
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