3. Apenas Uma Chance (p.2)

Mesas haviam sido dispostas ao longo do jardim de Gerald Hedwig. Aparentemente, ele estava interessado em impressionar. O cheiro de grama fresca e de uma enorme variedade de flores impregnava o lugar.

Conhecia o feiticeiro pelo ego que tinha. Não chegava a ser o mais inescrupuloso que conhecia, mas também não era famoso pela generosidade.

Diana puxou uma cadeira, feita de madeira pesada, que com certeza danificaria a grama, para sentar-se em uma mesa vazia. Em breve Narcisa chegaria, e não desejava que ninguém estivesse por ali bisbilhotando sua conversa.

Pondo sua carteira sobre a mesa, Diana retirou o celular de dentro dela. Não havia nenhuma nova chamada ou mensagem, só a data e a hora, sendo exibidas bem grandes na tela de bloqueio.

— Deu um problema do... — Narcisa arrastou a cadeira ao seu lado enquanto pronunciava um palavrão. Diana sequer havia notado sua aproximação, embora o cheiro de pimenta-rosa já pinicasse seu nariz. Ela usava perfume demais às vezes. — Você não faz ideia do que aconteceu naquela noite.

— Ah, eu estou ansiosa pra ouvir — respondeu Diana, em um tom nada amistoso. — Mas não aqui, é claro.

Narcisa assentiu, depositando o próprio celular sobre a mesa. As unhas compridas e pintadas de um azul brilhante, sempre lixadas impecavelmente, fizeram barulho ao serem tamboriladas sobre a tela do smartphone.

— E o que rolou com Airan?

— Eu ainda não sei — respondeu Diana, apoiando as costas na cadeira e cruzando as pernas. — Quem? Como? Onde? Não faço ideia.

— Ele foi assassinado na porta de casa. — A terceira cadeira daquela mesa foi ocupada por um homem de rosto jovem, pele escura e olhos negros de ônix. Sebastian Vecchi era um velho conhecido. — Esfaqueado.

— Que morte ridícula pra um feiticeiro — comentou Diana.

Narcisa pigarreou ao seu lado.

— Soube quem pretende se candidatar à vaga? — questionou ela, apoiando o cotovelo sobre a mesa e usando a mão direita para amparar o rosto. O anel de safira brilhava em seu dedo anelar, como de costume.

— Ouvi falar que Gerald está bem interessado, é o nome mais forte que temos até agora — respondeu Sebastian, não surpreendendo Diana. Já esperava a candidatura dele. — fora ele, a gente tem Stefanos Gianelli e Paul Herig

— Nenhuma mulher? — indagou Diana.

Sebastian tomou sua mão, que estava apoiada sobre a mesa, e sem sua autorização, depositou um beijo sobre ela.

— Vocês são inteligentes demais para se envolverem com política.

Diana puxou a mão de volta com uma careta. Péssimo comentário.

Narcisa e Sebastian prosseguiram com sua conversa, mas Diana agora tinha um novo foco: encontrar Gerald entre todas aquelas pessoas.

Não foi uma coisa muito difícil. Como candidato e anfitrião daquela reunião, estava cercado de outros feiticeiros, uma rodinha de bajulação e baba escorrendo.

— Eu volto já — informou aos seus companheiros de mesa, enquanto levantava-se.

Diana não desviou seus olhos de Gerald até que tivesse chegado até ele. Estava vestido formalmente, como pedia a ocasião, embora ele se negasse a seguir a forma tradicional de tais roupas. O terno cinza estava sobre uma camisa branca, mas a gravata havia sido dispensada, dando espaço para que os dois botões superiores de sua gola permanecessem abertos. O cabelo molhado e penteado para trás também não parecia contente em manter-se no lugar, então alguns fios se desprendiam com rebeldia e caíam úmidos sobre sua testa.

— Diana, bom ver você aqui — disse ele ao vê-la, dando um passo em sua direção. — Você não costuma frequentar meus eventos.

— Acho que concordamos que esse é um caso excepcional — disse ela. — Aliás, ouvi dizer que está interessado na vaga que Airan deixou pra trás.

Ele se aproximou dela, tocando seu ombro e gentilmente a direcionando para fora de seu círculo de bajuladores.

— E quem não estaria?

— Eu não estou — rebateu ela. — Não faz meu tipo.

— Suponho que, nesse caso, eu possa contar com seu voto.

Eles pararam já distantes das mesas. Gerald sacou uma carteira de cigarro do bolso, e após meter um deles entre os lábios, balançou os demais em sua direção.

— Não, obrigada, eu não fumo — respondeu ela, enquanto ele apenas usou um pouco de mágica para acender a ponta. — Parei de fumar quando percebi o quanto fumantes fedem.

Gerald riu.

— E sobre seu voto?

Diana o encarou enquanto ele tragava seu cigarro, assoprando a fumaça para o ar.

— Depende do que você tem a oferecer à comunidade de feiticeiros — respondeu ela.

— Lucro, é claro. — Gerald  tirou o cigarro da boca enquanto falava, segurando-o entre dois dedos.

— E como pretende aumentar o lucro?

Ele deu de ombros.

— Retornando ao jeito tradicional de se lucrar, já que Airan aparentemente havia se esquecido de como se faz.

Diana sabia bem a qual “jeito tradicional” Gerald se referia. Instigando guerras e disputas. Sempre tinha alguém disposto a pagar pelo máximo de feiticeiros possível ao seu lado, sem contar aqueles que conseguiam trabalhar em ambos e receber o dobro.

— E qual a proposta? — Diana cruzou os braços. — Colocar mais lenha na fogueira dos híbridos e dos Anjos?

— E por que não? — Ele apontou em sua direção. — Você sabe bem como funciona, lucrou muito desse jeito, e todo mundo sabe disso. Por que está falando comigo como se nunca tivesse participado do esquema? A minha casa, a sua casa... Elas não foram pagas vendendo poçõezinhas e fazendo feitiços por encomenda. A gente, Diana, colocou a mão em dinheiro de verdade, mas há uma nova geração de feiticeiros em Alexandria que ainda não sabe o que é isso.

Diana forçou um sorriso.

— Está certo — respondeu ela, enquanto Gerald levava o cigarro aos lábios outra vez. — Mas não conte com meu apoio. — Diana tomou-lhe o cigarro da boca e o jogou no chão. — E eu não estava brincando, você fede a fumaça.




Arthur deu um grande gole no café, que desceu queimando sua garganta. Era só a chance de ganhar tempo antes de responder. Não podia contar para um humano que tipo de criatura ele era.

— Eu não sei do que está falando.

— Sabe sim. Eu vi seus cortes se fecharem em questão de horas. Já estão quase cicatrizando.

James apontou diversos sinais visíveis em seus braços dos recentes ferimentos. De fato, já estavam próximos de cicatrizar.

— Eu não posso explicar — disse Arthur, afinal. — Sinto muito.

Arthur ergueu a caneca até sua boca, observando enquanto James o encarava, de braços cruzados. Os cabelos escuros pendiam sobre a testa.

— Eu também não sou humano. — disse ele.

Arthur engasgou e tossiu. Por essa não estava esperando.

— O que você é?

— Eu não sei. O que você é?

— Eu tô falando sério...

— Eu também! — disse James. — Eu não sei o que eu sou, só sei que não sou humano. Te trouxe aqui porque achei que você pudesse me dizer.

Arthur envolveu a caneca com as duas mãos e apenas girou o conteúdo em seu interior.

— O que te faz achar que não é humano?

— Estamos em uma troca aqui — disse James e deu um sorriso torto. — Por que não me diz de uma vez o motivo do seu corpo se curar tão rápido, daí então eu te explico mais sobre mim.

— Eu não posso te dizer!

— Por que não?

Arthur apenas fechou os olhos, não sabia como precisava agir nessa situação.

— E quem se interessaria em saber que Arthur Paeon está na minha casa? — continuou James, ao não obter uma resposta. — Divulgar no Twitter que encontrei o cara que desapareceu na estação King’s Cross parece interessante, e a julgar pela sua insistência em tentar esconder seu nome e naquelas pessoas claramente tentando te matar, acho que tem alguém atrás de você.

Arthur praguejou.

— Me prove que não é humano — disse ele. — E eu prometo que conto qualquer coisa que você quiser saber.

James balançou a cabeça e cruzou os braços, ao mesmo tempo em que dava de ombros.

— Eu não posso te provar isso, não agora, mas eu sei. Coisas acontecem quando eu estou nervoso, ou irritado, ou muito feliz.

— Que tipo de coisas?

— Explosões, ventos inexplicáveis, apagões na energia da casa. Se eu não tomar cuidado, acabo tendo que trocar toda a instalação elétrica da casa uma vez por mês. E eu vi isso acontecer lá na estação, com aquelas pessoas brigando. Tudo apagou, quebrou completamente. Eu trouxe meu celular para casa, mas ele não dá mais nenhum sinal de vida. Aquelas pessoas são como eu, e talvez você seja como eu também, mas eu não sei o que você é.

Arthur engoliu em seco.

— Eu sou uma criatura com poder de cura — respondeu ele, sabendo que de nada adiantaria dar termos e explicações complexas a James. — Eu posso curar os outros ou a mim mesmo.

— Quando quiser?

Arthur assentiu.

— Pode me mostrar? — James o questionou mais uma vez, parecendo cada vez mais interessado.

Arthur ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— Você está machucado? — perguntou. Será que estava tão cansado que não havia conseguido perceber que alguém, bem na sua frente, estava ferido?

Mas antes de responder, James apenas abocanhou a lateral da própria mão e mordeu com força. Arthur sentiu seu braço se arrepiar completamente.

— Por que fez isso!? — Arthur estava horrorizado.

James limpou a saliva juntamente com um pouco de sangue em sua calça, e ofereceu sua mão agora machucada a Arthur.

— Me mostra.

Ele analisou o estrago feito pelos dentes de James. Não era muito profundo, mas havia cortado um pouco a pele e já começava a sangrar. A marca dos dentes era visível e a vermelhidão já havia se espalhado ao redor.

— Você é louco — disse Arthur, e enquanto uma de suas mãos firmou o pulso de James, usou a outra para deslizar os dedos sobre o machucado. Sentiu uma leve vertigem ao fazer isso. Estava fraco demais.

A pele retornou ao normal como se nada tivesse acontecido. O que Arthur fazia não passava de acelerar um processo que o corpo dele faria naturalmente.

James disse um palavrão e riu, olhando admirado para a própria mão.

— Isso é absolutamente incrível!

Arthur buscou o café que havia pousado sobre o braço do sofá, dando um gole antes de falar:

— Como me tirou de lá?

— Foi mais difícil do que pode imaginar — disse ele, puxando uma almofada e se sentando com ela no colo. — Eu estava trabalhando naquela noite, lá na estação mesmo. Quando a confusão começou a se formar, a gente correu pra ver. Eu tive certeza de que era a minha chance.

“Foi quando você foi jogado lá de cima. A confusão com aquelas pessoas fazendo mágica parou e eles sumiram, mas começou a aparecer um monte de gente ao redor de você caído no chão.

“Eu fiz a única coisa que consegui pensar naquele momento: tentei provocar uma explosão intencionalmente. Mas era impossível, eu nunca consigo fazer as coisas quando eu quero, elas só acontecem em momentos aleatórios. Perdi alguns minutos gritando em frente do restaurante onde eu trabalhava, tentando imaginar ele explodindo, pegando fogo, qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa que assustasse as pessoas e as afastasse de você.

“Foi então que aconteceu. Eu acho que eu estava tão desesperado que deu certo. O lugar explodiu. Eu nem sei se tinha algo explosivo lá dentro, mas foi tipo BUM!

“Eu mesmo fui arremessado para longe, e eu não iria conseguir ouvir nada pelas horas seguintes, tamanho barulho que fez. Aquilo foi o suficiente pra fazer todo mundo sair correndo e te deixar lá.

“Nessa hora, eu precisei pegar você no colo e carregar. MEU DEUS, você é pesado demais. Saí o mais rápido que pude pra rua, procurando meu carro. Os estragos da magia daquelas criaturas ficou limitado só dentro da estação, então ele sobreviveu. E ainda bem. Se não fosse por isso, não sei como sairia de lá.

“Trouxe você pra cá e fiquei observando, esperando pra ver o que ia acontecer, e se você ia sobreviver. Porque o estrago tinha sido grande, mas aparentemente, você está curado.

“E eu finalmente tenho minha chance de descobrir o que eu sou.”

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