Extra: A Dor da Despedida
Raphael recuou alguns metros, se afastando das pessoas que ocupavam a sala onde eram velados os corpos de Arthur e Cecília. Vinha tentando o dia inteiro manter os corpos nos caixões longe de sua visão, e finalmente estava pra acabar: seriam sepultados em poucos minutos. Nunca mais veria seus pais vivos outra vez, e não queria ter que olhar para seus cadáveres e ter isso em sua lembrança pra sempre.
Raphael não havia derramado uma lágrima sequer. O choque e a incredulidade ainda não haviam passado, de forma que um grande peso esmagava seu peito, uma angústia tão aterradora que quase o fazia ter falta de ar.
Na noite anterior, estava na casa de Lúcio e Mirian quando a notícia chegou. Chloé já tinha cortado o que parecia ser quase a metade de um caderno e espalhado papel picado no meio da sala, enquanto Raphael, sentado ao seu lado no chão, usava uma caneta pra escrever coisas aleatórias em uma folha. Ele ouviu quando o telefone tocou e Lúcio veio da cozinha, secando as mãos em um pano de prato antes de atendê-lo.
Raphael não sabia quem estava do outro lado da linha, mas tinha certeza de que o que quer que tivesse dito ao pai de Chloé, havia sido terrível o suficiente para que o homem ficasse completamente pálido.
— Obrigado por avisar — dissera ele, em um tom de voz estranho, e antes que colocasse de volta o telefone no gancho, fixou os olhos em Raphael por um segundo.
Uma sensação ruim atravessara seu corpo, um mal pressentimento. Lúcio se enfiou de volta na cozinha por alguns minutos, conversando com sua esposa, e quando os pais de Chloé voltaram para a sala, foi para enfim lhe contar algo que sequer passou pela sua mente:
— Aconteceu uma coisa... — Mirian havia se sentado sobre os calcanhares à sua frente, com o rosto já inchado de chorar, enquanto Lúcio apenas deixou-se cair sobre o sofá, com a face enterrada entre as mãos. — Seu pai e sua mãe foram... encontrados...
Ela não conseguiu terminar a frase, e Raphael olhava dela para Lúcio cada vez mais assustado.
— Aconteça o que acontecer, nos vamos cuidar de você — disse Lúcio, erguendo a cabeça para o garoto. Seus olhos azuis estavam inchados de chorar, e ele fungou antes de finalmente revelar a notícia: — Seus pais estão mortos. Encontraram o corpo de Arthur e Cecília agora há pouco em Barkan.
O tempo se arrastou vagarosamente após isso, e Raphael ainda não havia absorvido o real significado daquilo, ainda que tivesse passado a madrugada inteira em claro pensando a respeito. Até o momento do sepultamento, ele ainda permanecia preso a esse estranho estado de torpor.
— Venha para cá — ordenou sua avó Catarina, se aproximando para puxá-lo pelo braço. — Precisa se despedir dos seus pais.
— Eu não quero — rebateu Raphael, se desvencilhando dela.
— Deixa de ser ridículo, garoto! — Se irritou a senhora. — Eu não vou aturar suas bobeiras. Já me basta o que a droga do seu pai fez com a minha Cecília. Ah, se não fosse por ele, ela ainda estaria aqui...
Catarina era sua avó materna, e a personalidade difícil sempre fora uma característica marcante.
— Meu pai não fez nada — disse Raphael, mantendo o tom de voz controlado.
— Não fez nada? — Catarina riu com escárnio. Ainda que seus olhos transbordassem lágrimas, seu rosto era vermelho de puro ódio. — Se não fosse pelas coisas com as quais ele se envolvia, sua mãe não estaria morta agora.
— NÃO FOI CULPA DELE! — Raphael enfim se rebelou, incapaz de ver seu pai sendo acusado injustamente.
Seus punhos estavam cerrados enquanto ele encarava sua avó, que por sua vez, estava indignada com sua ousadia.
— Cala a sua boca, moleque! — respondeu Catarina. As pessoas começavam a prestar atenção na discussão. — Se seu pai não te deu educação, é comigo que você vai aprender, queira você ou não. Falta de respeito!
— Eu não vou ficar quieto enquanto você põe a culpa no meu pai. — Seu corpo tremia violentamente, sem que ele sequer soubesse se era em decorrência da raiva ou do desespero. — Você não tem esse direito, ele também está morto.
— Acontece que é comigo que você vai morar agora — alegou Catarina. — E não é um pirralho que vai me dizer o que eu tenho direito ou não. E seu pai foi sim o culpado, você quem não sabe da missa a metade.
— ISSO NÃO É VERDADE!
— A senhora poderia ao menos respeitar os finados? — disse Lúcio, chegando perto para se intrometer na conversa. — Arthur era como um irmão pra mim, e Cecília foi uma grande amiga. Além disso, eles eram sua filha e seu genro.
— Você sabe o que aconteceu — disse Catarina a ele. — Diga ao garoto, conte para o Raphael de quem é a culpa.
— Não! — Raphael protestou mais uma vez.
— Por favor — disse Lúcio —, está sendo difícil para todos. Não torne ainda pior.
— Tudo bem — disse a senhora com ironia —, mas eu não vou passar a mão na cabeça de um moleque desses. Pra ele ficar igual ao pai dele? Na minha casa, não.
— Isso não é um problema — disse Lúcio. — Se despreza tanto Raphael só porque ele é filho do Arthur, por mim tudo bem. Seu neto é bem vindo na minha casa, e eu o receberia como se fosse meu próprio filho.
— Como quiser — respondeu a senhora. — Não quero me responsabilizar por ele ficar igualzinho ao Arthur daqui a alguns anos.
— Você aceita morar conosco? — perguntou Lúcio, e dessa vez a pergunta era direcionada a Raphael.
Ele o encarou por um momento. Os olhos azuis vítreos transmitiam-lhe segurança, e a certeza de que não seria tratado com a mesma rudeza que os avós maternos lhe direcionavam. Seu olhar buscou entre as pessoas até encontrar Mirian e Chloé, que os observava de longe.
Raphael baixou a cabeça e assentiu. Lúcio deslizou os braços ao seu redor e o abraçou, apoiando o queixo sobre sua cabeça.
— Eu nunca vou ser como Arthur, mas prometo tentar o melhor que puder.
— Obrigado — respondeu Raphael, e também o abraçou.
— Já vão sepultar os corpos — disse ele. — Não quer ir até lá?
— Não. — Raphael negou com a cabeça, enquanto se afastava um pouco de Lúcio. — Mas pode ir até lá ver.
O homem afagou seus cabelos e voltou para próximo de sua esposa e Chloé.
Raphael observou a movimentação, e teve certeza de que aquele era aquele era o momento...
Viu seus avós maternos juntos: Catarina se apoiava nos braços do marido enquanto ele a segurava com firmeza. A alguns metros de distância, seu avô paterno se forçava a permanecer de pé, apoiando o peso sobre uma bengala, e usando a mão livre para secar as lágrimas com um lenço de tecido. Haviam ali amigos de seus pais e pessoas que Raphael nunca tinha visto antes também, todos vindo se despedir de Arthur e Cecília.
A tristeza permeava o local com tanta intensidade que quase se tornava um ser de carne e osso, passeando por entre as pessoas e distribuindo dor e sofrimento.
Raphael ousou se aproximar alguns passos e congelou ao ver quando o primeiro dos caixões era abaixado em direção ao fundo do sepulcro.
Foi nesse momento que ele percebeu o que a morte realmente significava: não ouvir mais as palavras de amor ou de bronca; Não encontrá-los mais ao chegar em casa; não poder mais abraça-los e tê-los presentes em sua vida.
A cratera em seu peito, o enorme vazio que vinha sentindo desde que recebera a notícia não iria embora, por que nada no mundo poderia substitui-los em sua vida.
Raphael arfou e precisou se apoiar no mármore frio de um túmulo próximo quando a dor finalmente o atingiu. Mal conseguia respirar, e o choro ainda parecia preso em sua garganta.
Ele cambaleou para longe, andando quase que cegamente entre os túmulos até ter saído do cemitério, onde correu o máximo que conseguiu, sem sequer prestar atenção para onde estava indo.
Tudo o que queria era distância da dor, ainda que ela estivesse dentro dele.
Deixou-se cair no chão sem saber onde exatamente estava. Apoiou ambas as mãos na terra e mantinha a cabeça baixa, com seu corpo ainda tremendo. Mais cedo havia chovido, a areia ainda molhada grudava em seus dedos, o frio da umidade atravessava sua calça e gelava sua perna.
Raphael cerrou os punhos e socou o chão. Por que eles? O que seus pais fizeram? Tudo mundo sabia que eram boas pessoas, eles não mereciam morrer.
— Isso. Não. É. Justo! — disse ele entredentes, golpeando a terra com os punhos a cada palavra.
Foi quando o choro finalmente veio, e ele desabou. As lágrimas o cegavam, escorriam e pingavam sobre o seu colo. Rafael era uma represa de sentimentos que acabava de se romper.
Ele sequer percebeu a aproximação de alguém: uma mulher que parou à sua frente e abaixou-se para ficar ao seu nível no chão. Raphael não a encarou, ele não conseguia erguer a cabeça para saber de quem se tratava. Ela também não se manifestou, apenas permaneceu ali, próxima a ele, sem dizer uma palavra sequer enquanto Raphael chorava.
Uma coisa interessante sobre o choro é o fato de que ele acalma. E depois de alguns minutos, Raphael já começava a se sentir aliviado. Secou os olhos e o nariz na manga da camisa e finalmente olhou a mulher à sua frente.
Seus olhos escuros o examinavam com atenção. Tinha cabelos castanhos ondulados, cortados na altura dos ombros e a boca colorida por um batom vermelho intenso. A saia do vestido preto que ela usava se espalhava pelo chão onde ela já havia se sentado.
Raphael a conhecia: se chamava Diana Branwen, e era amiga de seu pai.
— Se sente melhor? — perguntou ela.
— Um pouco — respondeu Raphael, com a voz rouca. Ele soluçou involuntariamente antes de continuar a falar: — Mas não acho que o alívio vai durar muito tempo.
— Não vai — disse ela. — O luto não vai passar tão rápido, e você provavelmente vai continuar chorando por um tempo, mas um dia vai passar, e a vida vai continuar.
— Eu não sei se vou conseguir...
— Ouça o que uma pessoa que já perdeu muita gente que amava tem a dizer: a dor uma hora vai embora, sempre. — Ela tocou seu rosto gentilmente. — Não significa que vai esquecer, mas apenas que vai lembrar deles com saudades, não com sofrimento.
— E se a dor não passar?
— Você não consegue entender isso agora, mas não há com o que se preocupar — disse ela, e sorriu fraco. — Seu pai foi muito importante pra mim, e você é muito parecido com ele.
— Você não parece abalada com a morte dele.
— Ainda não. — Diana suspirou. — Mas não vou conseguir me manter forte por muito tempo.
— Eu sinto muito...
— Eu também — respondeu ela. — Acho que você deveria voltar para sua família e seus amigos. É o momento de vocês se apoiarem. Além disso, eu vou para minha casa, e não queria te deixar aqui sozinho desse jeito.
Raphael assentiu e eles se levantaram. Estavam prontos para sair, tomando direções opostas, quando Diana voltou a chamar sua atenção:
— Espere — disse ela, e Raphael aguardou para saber o que a feiticeira tinha a dizer. — Queria que soubesse que eu tenho uma dívida com Arthur, por isso estou disposta a te ajudar em qualquer coisa que precisar. Você sabe onde eu moro, é só me procurar.
— Obrigado — respondeu ele.
— Eu posso te abraçar? — perguntou Diana, e ele assentiu.
A feiticeira o envolveu com os braços, e ele retribui o aperto. Seu perfume tinha um cheiro adocicado de flor de macieira e o momento de afeto o fez se sentir vulnerável outra vez, de modo que precisou se segurar para não voltar a chorar.
— Fique bem — disse ela, antes de solta-lo.
— Você também — Raphael respondeu, então assistiu quando ela se afastou alguns metros e desapareceu no ar.
Caminhou de volta ao cemitério sem pressa. Como Diana havia lhe dito, ainda havia muita dor para ser sentida, mas era melhor fazer isso com a família e os amigos por perto.
E um dia tudo ficaria bem outra vez.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top