Epílogo

Airan Dufenald apoiou suas mãos nas costas do sofá, sentindo-se enfraquecido pela falta de energia em seu corpo. Por dentro, fervilhava de ódio daquele verme que pensava que ele era seu empregado.

Não havia se tornado líder dos feiticeiros para ser cachorrinho de Morselk.

— O bom filho à casa torna — disse o líder dos Anjos de Terra, enquanto acomodava Miguel em seus braços, embora o garoto ainda permanecesse com um olhar vazio.

Haviam precisado correr pelas ruas de Londres até encontrar o garoto, que aparentemente era muito bom em se esconder, entretanto, acabaram por conseguir levá-lo para casa.

Airan encarou Miguel com atenção, era claro que o moleque havia bebido alguma poção. E após um rápido exame, assim que Morselk enfim desgrudou do garoto, ele já tinha um veredito:

— Poção do Oblívio — disse ele, ainda ajoelhado em frente ao garoto no sofá —, e Poção da Obediência.

— Você tem certeza? — perguntou Morselk sério, de pé ao lado dele, com os braços cruzados.

— Absoluta. — Airan apoiou as mãos no joelho ao levantar-se. — É possível que ele tenha alguma confusão mental por um ou dois dias, já que não sabemos o quanto da Poção do Oblívio ele bebeu, mas vai ficar bem. Só não vai se lembrar de nada.

Morselk praguejou.

— Não há nenhuma forma de recuperar suas lembranças?

— Nunca ouvi falar de algo que pudesse desfazer os efeitos dessa poção.

— Então, pode ir embora — disse Morselk com uma expressão carrancuda.

Airan não perdeu um segundo sequer antes de dar-lhe as costas. Já estava quase na porta quando foi chamado novamente.

— Espere — disse Morselk, e Airan se virou para ele. — Aquela feiticeira precisa ser eliminada.

— Eu não me preocuparia tanto com Narcisa — disse ele, já colocando sua mão na maçaneta. — Pelo que eu conheço, é apenas uma mercenária. Só se envolve se estiver ganhando algo de valor em troca.

— Igual a você.

— Exatamente — disse Airan irritado, saindo para o lado de fora e batendo a porta. Então murmurou para si mesmo: — Exceto quando estou trabalhando pra você, babaca, que acha que sou seu criado.

Ele atravessou o jardim, onde um bando de duendes ridículos montavam guarda, andando de um lado para o outro com lanças nas mãos. Seguiu até o estábulo onde sabia que Morselk tinha dois cavalos. Não iria a pé pra casa por causa dele, e era o justo, considerando que havia gastado toda sua energia ajudando a resgatar o pirralho.

No céu, a fina linha curva e brilhante indicava as últimas noites da fase minguante da lua antes que o céu fosse dominado pelo negror da lua nova. Estrelas apareciam e sumiam por detrás de algumas poucas nuvens que se moviam preguiçosamente.

O cavalo seguia a galope pela estrada, na rota que levava até a rio, onde poderia usar um canal de água para se deslocar até o outro lado de Alexandria, onde residia o feiticeiro.

Airan desmontou do cavalo e o puxou pelo cabresto assim que chegaram às margens do rio. Andou até entrar na água, e seguiu em direção a parte mais funda, arrastando ainda o animal de Morselk consigo. Seus passos ondulavam a água e levantavam a areia antes assentada no fundo. Quase não havia correnteza ali.

Usando as palavras necessárias, Airan se afundou na água, e quando saiu dela, sabia que já estava perto de casa.

Montou outra vez no cavalo e apressou-se pela estrada. As luzes dos postes iluminavam bem o caminho e Airan já sonhava com um banho quente e sua cama.

O feiticeiro não tardou a ver sua casa à distância, e ao se aproximar, descobriu que havia alguém em frente ao seu portão.

O homem usava jeans e uma jaqueta marrom sobre uma camiseta cinza. Seus cabelos eram escuros e ondulados, penteados para trás, e seu rosto era marcado por um nariz aquilino e uma boca grande. Fumava um cigarro, cuja ponta se iluminava em brasa a cada tragada, e então soltava uma baforada de fumaça no ar.

— Boa noite — cumprimentou Airan, descendo do cavalo e se aproximando. Não conhecia o homem, mas tinha a impressão de já tê-lo visto antes.

— Boa noite, Airan Dufenald — disse ele. Tinha uma voz firme e grave.

— Estava esperando por mim? — O feiticeiro franziu o cenho.

— Com certeza estava — ele respondeu.

Após uma última tragada em seu cigarro, jogou a bituca no chão. Seus dedos exploraram por debaixo da jaqueta até tirar de dentro um trio de facas de arremesso prateadas.

Arregalando os olhos em surpresa, Airan moveu rapidamente as mãos no ar, usando a pouca energia que lhe restava para atacar o homem com um feitiço, entretanto, foi facilmente bloqueado por ele.

Também era um feiticeiro.

— Vai precisar de mais do que isso se quiser permanecer vivo — disse o homem, e gargalhou.

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