9. Anjo da Guarda (p.1)
Arthur tentou erguer a cabeça para olhar melhor em volta, mas seu peito doeu, e ele gemeu, voltando para a posição anterior em seguida.
— Não se mexa muito — ordenou uma voz feminina que ele não reconheceu imediatamente. — Pra quem praticamente visitou o Valhala e voltou, você tá muito bem. O que não significa que você esteja totalmente recuperado.
Um rosto surgiu sobre o dele, com os cabelos loiros e curtos pendurados, e os olhos azuis brilhantes como duas pedras de safira.
O que Narcisa estava fazendo ali?
— Só diz pra mim que eu não bebi demais ontem a noite e vim parar na sua cama — ele implorou, considerando que os sintomas pareciam de uma ressaca terrível, e possivelmente de uma queda do terceiro andar. — Eu preciso de água.
— Não, você não bebeu demais. Pelo menos, não dessa vez. — Ela o ajudou a se sentar, ajeitando o travesseiro em suas costas. Arthur fazia caretas de dor a cada movimento. — Você não se lembra de nada?
— Não, mas tenho alguns palpites — disse ele, enquanto ela se afastava e voltava com um copo de água. — Eu levei uma tijolada? Ou uma dezena? Caí de uma escada?
— Pior — ela respondeu, enquanto Arthur aliviava sua sede. — Você não desperdiça nenhuma oportunidade de se ferrar. Pelo que soube, um feiticeiro apareceu e tentou matar Marina Ignis com um feitiço, mas o grande herói resolveu entrar na frente.
Arthur pôs a mão no peito, onde a dor era mais forte. Provavelmente onde fora atingido.
— Como eu não morri?
— Você tem um anjo da guarda muito bom.
— Anjo da guarda?
— Tem alguém cuidando de você Arthur, e ela usou magia muito antiga pra isso.
— Ela?
— Não consegue adivinhar quem seja?
Arthur pretendia falar, mas fechou a boca, e a abriu em seguida.
— Ela também protege Marina do mesmo jeito?
Narcisa balançou a cabeça.
— Eu diria, nesse caso, que ela precisou escolher apenas um. É claro que ela sabe que você protegeria a garota, e que te protegendo, estaria cuidando dos dois, mas, ainda assim, o escolhido foi você, não ela.
— Eu preciso ver Diana, onde ela está? — perguntou ele.
— Ela gastou muito de sua magia quando trouxe vocês pra cá. Ainda está desacordada, se recuperando.
— Quando nos trouxe pra cá? Onde exatamente estamos?
— Na casa de Jack White. Se lembra de quem é ele?
— Um ex-namorado de Diana? — sugeriu Arthur. — Eu tô com a sensação de que estou me esquecendo algo muito importante.
Narcisa deu de ombros sentando-se na beira da cama, próximo a ele.
— Se quiser, posso te contar o que sua irmã disse que aconteceu.
Arthur assentiu, e enquanto ela falava, ele apenas tinha flashes do que havia acontecido nos últimos dias. Definitivamente, não se lembrava de ter fugido da casinha em que estavam anteriormente, ou da proposta de Jack para morarem com ele em troca de apoio político, mas se lembrava da chegada de Zac, e de ter ficado com Diana na praia — ainda que Narcisa não tenha mencionado essa parte, ele se lembrava mesmo assim.
— Então, agora, eu e os outros também estamos todos morando aqui, certo?
— Sim — confirmou Narcisa. — E eu deveria chamar sua irmã, ela me fez jurar que eu avisaria assim que você acordasse.
Arthur assentiu, e ela se levantou para sair do quarto.
***
Zac entrou pela porta dos fundos da casa de Jack, a mesma pela qual saíra no dia anterior. A porta levava diretamente para a cozinha, onde acabou dando de cara com duas pessoas que já tomavam café da manhã por alí.
— Dando um passeio, Zac? — perguntou Bárbara, sem nem mesmo se dar ao trabalho de desviar a atenção de sua xícara. — Aliás, não me lembro de ter te visto em casa ontem a noite.
Zac abriu a boca para inventar uma desculpa, porem Chloé, que até então estava de pé em frente ao fogão mexendo em algo no fogo, respondeu primeiro:
— Vai dizer que você nunca deu suas escapadas?
— Eu não disse isso — respondeu Bárbara rindo, e assoprou a xícara antes de beber. — Vai ficar parado aí na porta? Por que não entra e toma café?
— Ou chá — sugeriu Chloé, voltando-se para eles e trazendo consigo um bule. — Acabei de fazer.
— O universo amanheceu de cabeça pra baixo? — perguntou Zac, puxando uma cadeira para si entre elas — Vocês duas sendo simpáticas comigo é definitivamente estranho.
— Se eu fosse você, não me acostumaria — alertou Bárbara.
Zac estava no ato de se servir do chá quando Narcisa, a feiticeira que estava cuidando de Arthur entrou pela porta da cozinha e falou diretamente com Chloé.
— Seu irmão acordou.
Chloé se levantou e saiu como um furacão. Zac não perdeu tempo e a seguiu também, deixando Bárbara sozinha em seu café da manhã.
Encontraram Arthur no quarto, sentado na cama esperando. Era um alívio saber que ele estava bem, mesmo que ainda aparentasse estar doente, a julgar pelas olheiras debaixo dos olhos e a boca ressecada.
Chloé se jogou em cima dele, e quando Arthur gemeu de dor, ela se afastou rapidamente pedindo desculpas.
Zac chegou para perto também, e Arthur notou sua presença.
— Como está se sentindo? — perguntou Zac, enfiando as mãos nos bolsos.
— Lembra daquela vez que a gente bebeu um pouco demais, que eu acordei no dia seguinte deitado chão ao lado da cama e você no sofá da sala? — perguntou Arthur. — Tá umas dez vezes pior.
Zac riu com a lembrança.
— Vai melhorar logo.
— A gente não pode fazer nada pra curar ele? — perguntou Chloé à Narcisa, que estava de pé com o quadril apoiado na cômoda de madeira, observando com os braços cruzados.
Ela deu de ombros.
— Não é um ferimento físico. É como se o feitiço tivesse tentado forçar a alma dele pra fora do corpo e agora sobraram os hematomas. Seus poderes não vão alcançar isso.
— E não tem nada que você possa fazer? — Chloé insistiu.
— Tem — respondeu Narcisa. — Estou cozinhando uma poção no banheiro.
Chloé olhou interrogativa para a porta do banheiro do quarto, que era uma suíte, e de volta pra Narcisa.
— Por que no banheiro?
— E o mais importante — intrometeu-se Arthur, erguendo o dedo em riste no ar —, não parece meio anti-higiênico?
— Primeiro, eu preciso de um lugar silencioso e de iluminação controlada, então interditei o banheiro para isso — ela respondeu. — Segundo, não sou eu que vou beber.
— Muito gentil da sua parte — ironizou Arthur.
— Alguém avisou Marina? — perguntou Chloé.
— Eu vou — prontificou-se Zac, e deu passos para trás e saiu pela porta do quarto, com a intenção de encontrar a garota.
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