6. Os Mortos se Levantam (p.3)
Arthur acordou sem saber onde estava. Não reconheceu a cama, apenas sabia que não era a sua. Levantou-se tontamente, a cabeça doendo — cada pulsação parecia uma martelada. Andou até a porta e encontrou Narcisa sentada de costas para ele no banco próximo à um balcão.
— Bom dia pra você — ela disse, sem se virar.
— Por que eu dormi aqui? — ele perguntou desconfiado. Torcia pra não ser o que ele estava pensando.
— Se dependesse de você ontem a noite... Bom — ela se virou para ele segurando uma xícara perto da boca —, você deve imaginar a resposta. Mas, pra sua sorte, eu te apaguei e trouxe pra cá. Chá?
— Eu preciso ir pra casa — ele disse esfregando os olhos.
— Diana e Jade sabem que você está aqui.
— Quem é Jade? — perguntou atordoado.
Narcisa ergueu as sobrancelhas e pousou a xícara no balcão.
— Sua irmã.
Arthur quase se estapeou. Estava tão acostumado eu chamar a irmã de Chloé, que esquecia que ela se chamava Jade Chloé. Mas como Narcisa sabia disso?
— Chloé veio até aqui? — ele perguntou.
— Sim, com Diana.
Ele virou as costas, balançando a cabeça.
— Eu definitivamente preciso ir pra casa — resmungou, sem condições de se fazer perguntas difíceis naquele momento.
***
Zac abriu a torneira para enxaguar a última panela. Por determinação de Chloé, era a vez dele de lavar a louça. Ele não entendeu nada, mas não reclamou.
Estava secando as mãos em um pano quando Arthur entrou pela porta. Olhou pra ele com a sobrancelha erguida. Conhecia aquela expressão, conhecia Arthur por anos.
— Andou bebendo? — indagou Zac.
— Um pouco.
— Tá acontecendo alguma coisa que gostaria de me falar?
Arthur fechou a cara.
— Não finja que os últimos dois anos não foram nada.
Ele se virou pra sair da casa outra vez, mas Zac o seguiu.
— Qual é? — ele disse, se abaixando pra passar pela passagem da porta, que era muito pequena. — Eu não quis isso!
— Tanto faz. — Arthur se virou pra ele novamente. — Pelo menos você tá melhor que todos nós. Pelo menos você é livre pra ir pra onde quiser, não tem ninguém querendo te matar. — O rosto dele deixava transparecer toda a mágoa que sentia. — Você já está morto, pra todo mundo.
— Eu acho que a gente devia conversar — Zac falou, se aproximando da parede e se encostando nela.
Chloé colocou a cabeça pra fora de casa.
— O que vocês dois tem?
Arthur balançou a cabeça negativamente, e ela voltou para dentro depois de dar de ombros.
— Vem comigo — disse Arthur, e abriu o portão para sair.
Zac o seguiu até uma casa antiga, aos pedaços, que ficava ao lado de uma grande árvore, que já quase alcançava sua altura. Arthur invadiu o lugar e começou a subir as escadas sem cerimônia. Ainda que receoso, Zac o seguiu.
Mas diferente do restante do lugar, o andar de cima por dentro era perfeitamente organizado, e bonito aliás. Tinha uma decoração de muito bom gosto, Zac precisou admitir.
— Narcisa? — Arthur chamou, e a mulher sentada no sofá com um livro levantou os olhos para eles.
— Só porque eu te trouxe pra cá ontem — ela falou irritada —, não significa que somos amigos, nem muito menos que você pode frequentar minha casa.
Ela era bonita, Zac observou, provavelmente uma das mulheres mais bonitas que veria em toda sua vida. Chegava a ser impressionante como uma pessoa poderia ser tão bonita e não ser um Anjo, pois era óbvio, a julgar pela casa, que ela era uma feiticeira.
— Essa casa nem é sua. — Arthur enfiou as mãos no bolso. — Preciso de um favor, e você está me devendo.
— Não sabia que eu te devia alguma coisa.
— Depois do que você fez comigo, no espelho?
— Acho que seria melhor você me dever um favor, sabe? Por te impedir de fazer besteira ontem a noite.
— Nesse caso, eu te devo um, e você me deve outro.
— O que você quer? — ela olhou de um para o outro rapidamente.
— Algum lugar onde eu possa ficar sozinho com Zac por algum tempo.
Ela fechou os olhos e respirou fundo.
— Tudo bem. Podem ficar aqui. — Ela se levantou, deixando o livro sobre o sofá e passando por eles em direção à escada, parando no primeiro degrau pra olhar de lado pra Arthur. — Eu vou cobrar o favor. Estarei de volta em uma hora.
***
Diana terminou de trançar o cabelo de Marina, como ela gostava de fazer.
— O que vai fazer a respeito da proposta de Jack? — ela perguntou.
Diana se sentou sobre a cama.
— Eu não sei. É tentadora, você pode ter certeza, mas ele está fazendo isso por uma questão de política. Os híbridos têm um líder em cada continente do mundo, e ele vai ganhar a simpatia dos outros se te conseguir ao lado dele. Ele vai conseguir o respeito dos outros, que vão fornecer qualquer coisa que ele precisar. Jack vai ameaçar os Anjos.
— Por que você diz só os Anjos? — Marina perguntou.
— Porque os outros não ligam se houverem híbridos em Alexandria. A não ser os Duendes, Ondinas, Salamandras e Silfos. Os cachorrinhos dos Anjos. São eles que mantém Alexandria como é, ninguém se arrisca a enfrenta-los. Mas se Jack se mover contra eles, vai ter apoio, desde que tenha grande poder em mãos. Você pode se perguntar por que eles nunca se uniram até hoje, mas é porque os híbridos se sentem pequenos. Historicamente, foram diminuídos, fizeram-nos se sentirem inferiores.
— Mas com Marina Ignis ao lado — disse Chloé, se encostando na porta —, a criança da profecia, a destinada... Eles vão se sentir fortes, e vão querer fazer alguma coisa.
— E por que não os ajudamos? — Marina perguntou.
— Porque os Anjos não vão ceder às exigências dos híbridos — respondeu Diana. — Nos juntar a eles é começar uma guerra, e guerras são devastadoras. Não existe lado vencedor, os dois lados perdem. Só que um deles paga somente o preço da batalha, enquanto o outro, além da batalha, também paga o preço da derrota. E não há como saber qual dos lados vai ter poder para derrubar o outro.
Marina pensou naquilo, e entendia agora a dúvida entre se juntar ou não a Jack.
— Er... — disse Chloé a Marina. — Não querendo interromper, mas eu poderia conversar com você por um minuto?
— Tudo bem — Diana respondeu antes de Marina, se levantando da cama. — Podem ficar no meu quarto, preciso saber o que aconteceu com Arthur, e por que motivo ainda não chegou.
— Ele chegou — informou Chloé. — E saiu de novo com Zac.
— Saiu de novo? — Diana admirou-se. — Vou atrás deles... — Ela passou pela porta do quarto apressada, emanando irritação. — Eu não sei o que Arthur está pensando...
— Bom — disse Chloé, e se jogou no lado de Marina na cama. — Ignorando os problemas de Diana e Arthur, que são complexos demais, eu queria falar algo com você.
— Pode dizer — Marina disse, apertando as próprias pernas nervosamente.
— Miguel me contou o que aconteceu.
Marina olhou-a espantada.
— Eu...
— Tudo bem. — Chloé cutucou seu ombro e sorriu. — Nós terminamos, pode ficar com ele.
Marina franziu o cenho.
— O que disse?
Chloé revirou os olhos.
— Achei que tinha deixado de ser tão lerdinha — reclamou ela. — Eu disse que não me importo se você ficar com ele. — Chloé abanou a mão. — Vá em frente, ele gosta de você.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top