6. Os Mortos se Levantam (p.1)

Arthur virou o rosto quando a porta do quarto se abriu, e pensou estar sofrendo de uma alucinação. A pessoa que o encarava, ainda parado na entrada, não podia estar alí, não fazia sentido que estivesse.

Os mortos não se levantam.

E o morto tamborilou os dedos na porta antes de fazer uma piada.

- Esperava uma recepção mais calorosa. - Zac deu um sorriso amarelo. - Eu posso entrar?

Arthur abriu a boca, mas nenhum som saia dela, como se tivesse perdido para sempre a capacidade de falar.

- Cara - disse Zac -, se você ficar me encarando desse jeito, vou ficar cada vez mais nervoso. E meu estômago já se revirou em todos os ângulos que ele podia.

Arthur escorregou os pés para fora da cama, ainda descrente. Zac interpretou o gesto como permissão para entrar, então ele passou para dentro e fechou a porta.

Ficaram de pé, um olhando para o outro. Zac era alguns poucos centímetros menor do que Arthur, e nenhum dos dois havia crescido, apesar de Arthur, naquele momento, parecer o mais velho entre os dois.

Arthur ainda não conseguia falar, pois todas as palavras haviam fugido do seu alcance, então tudo o que pode fazer foi abraça-lo, do jeito como se abraça alguém que acabou de voltar do mundo dos mortos.

***

A reunião foi dentro daquele quarto nos fundos. Todos se acomodaram sobre a cama, e Zac desconfiou que ela poderia cair.

Foi apresentado a Marina Ignis, e durante todo o tempo, Arthur lançava-lhe olhares com o canto do olho, como se tentasse confirmar que ele estava realmente ali.

Sabia que iria passar por um interrogatório, e por mais que a ideia não agradasse, tinha consciência de que devia explicações para eles. E agora, Jack também o havia deixado responsável por convence-los a se juntarem a ele, o que Zac estava se dando conta de que talvez não fosse tão fácil assim.

- Bom, acho que a primeira coisa que a gente deveria saber é: onde esteve nesses dois anos em que acreditamos que você estava morto? - A pergunta veio de Diana, que o encarava com seriedade.

- Entrei acidentalmente no País das Fadas.

- Não brinca! - disse Chloé. - Ouvi pessoas falando isso, então elas acertaram?

Zac deu de ombros.

- Pelo visto sim.

- Por que não voltou antes? - Arthur quem perguntou, e sua voz possuía um tom de ressentimento.

- Eu quis - ele respondeu. - A Rainha me convenceu a ficar. E os dias foram passando e passando, e eu desisti de sair. - Zac olhou diretamente para Arthur. - Você não tem ideia de como é estar lá dentro.

- Mas eu tenho - disse Diana. - Eu estive no País das Fadas uma vez.

Todos a encaravam surpresos, mas foi Miguel quem falou:

- Esteve? Quando?

- Há séculos atrás - ela respondeu. - É maravilhoso e terrível ao mesmo tempo, uma mistura entre céu e inferno. Pode morrer naquele lugar, e se sentir feliz até o último segundo de vida. Elas oferecem todo o prazer que você pode desejar, em troca disso levam embora sua sanidade.

- Como você saiu? - Zac perguntou.

- Em um ímpeto de força de vontade, eu fugi - ela respondeu. - Mas o mais importante agora é: como você saiu?

- Uma fada me ajudou.

- Uma fada? - Chloé falou surpresa. - Por que faria isso?

Mas Zac apenas deu de ombros.

- Eu não sei.

- Como passou dois anos no país das fadas, e só conseguiu sair agora? - Arthur insistiu outra vez.

- Pra mim não foram dois anos - Zac falou agora com um tom ácido. - Olha pra mim, e diz, sinceramente, se eu pareço dois anos mais velho.

Arthur não respondeu, então Zac continuou:

- Todo esse tempo que passou aqui fora, foi apenas um semana lá dentro.

- Pois o tempo corre diferente no País das Fadas - Diana completou.

Arthur olhou dela para Zac várias vezes, com uma expressão desarmada. Então se levantou e pulou a janela para sair do quarto, sem falar mais nada.

Zac fez a menção de sair atrás dele, mas Diana agarrou seu braço.

- Deixa ele pensar por alguns minutos, temos muito pra contar a respeito do tempo que você passou fora.

***

Arthur subiu as escadas da casa abandonada em que estivera em seu pesadelo. Era surpreendente que fosse exatamente igual ao sonho, sem que ele estivesse ali antes. Emergiu no andar de cima, e encarou a cama de cimento ali. Tinha ganhado um colchão, e estava limpa. Tinha as paredes pintadas de vermelho, e um grande espelho na parede esquerda. As janelas, que vistas de foram eram apenas buracos, ali eram de vidro, cobertas até a metade por uma cortina marfim.

Arthur deu um passo pra trás, pra sair daquele lugar. Não sabia o que tinha acontecido ali, mas reconhecia magia quando via. Antes de dar o primeiro passo para o degrau da escada, viu um vulto pela porta, vindo de outro cômodo.

- Chegou tão cedo hoje... - ele ouviu a voz, e a reconheceu.

Arthur estatelou, e ela também, ao entrar no quarto e vê-lo. A luz abundante do ambiente evidenciou a aparência bonita dela. Os cabelos loiros, em ondulações prefeitas, que iam até os ombros, os olhos azuis brilhantes, tão vividos quanto o anel de safira que trazia na mão direita.

Era a mesma mulher que o havia sequestrado e prendido dentro de um espelho, a mesma que armou um plano maluco só pra ele saber que Diana havia sido amante de seu pai. A mesma que depois, contrariando todas as expectativas, os ajudou a sair de Alexandria e fugir de Morselk.

- Narcisa? O que está fazendo aqui?

- Resolvi morar por aqui - ela respondeu, como se fosse totalmente lógico.

- Claro - Arthur disse irônico -, a gente sempre espera que as pessoas deixem seus apartamentos luxuosos em Manhattan pra morar em casas abandonadas.

- Meus motivos não são da sua conta.

- Diana sabe que você está aqui?

- Sabe.

A raiva ferveu nele. Pelo visto, Diana ainda escondia muitas coisas que ele acreditava que devolveria saber.

- Ótimo. - Ele se dirigiu novamente às escadas.

- Onde você vai? - Ela se apressou em segui-lo.

- Não é da sua conta. Eu quero ficar sozinho.

Ele apertou o passo ao chegar ao andar de baixo, e saiu para a rua. Olhou para trás, pra dar uma olhada na casa. Visto dali, ainda parecia que a construção inteira estava prestes a desabar.

Virou-se novamente para a frente, caminhando pela rua de paralelepípedos sem saber para onde estava indo. Não haviam estrelas que iluminassem o céu, nem a lua era visível, escondida pelas nuvens. Ao oeste, podia ver os flashes dos relâmpagos. Uma tempestade estava por vir.

***

Zac apoiou os braços no muro.

- Onde acha que ele está?

- Nós procuramos, Zac - Chloé disse, apoiando as costas no muro e cruzando os braços. - Ele vai voltar.

- Acha que ele está irritado comigo? - Zac apoiou o queixo sobre as costas da mão direita, que segurava com firmeza o pulso esquerdo.

- Acho que ele está magoado - ela respondeu e encolheu os ombros. - Não acha que seja difícil aceitar que alguém sumiu e só conseguiu voltar depois de dois anos?

- Eu tenho certeza que sou o lado menos prejudicado nessa história - Zac respondeu. - Eu queria vir embora, mas o Pais das Fadas não foi um purgatório. E uma semana não deveria mudar tanto minha vida.

Ela estreitou os olhos para ele.

- Alguma coisa aconteceu e você não está contando.

- Nada que seja importante - Zac respondeu e olhou para o céu vazio como o do País das Fadas. - Hoje o céu não tem lua nem estrelas.

- Tem sim. Estão atrás das nuvens. - Ela apontou para a direção oeste. - Tem uma tempestade vindo aí.

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